O sonho de trabalhar na Casa Grande

16 de março de 2012 § 3 Comentários

Hoje estou curado.

Engrossei o couro. Aprendi que para amar o Brasil é preciso ter alma de mulher de malandro e gostar de apanhar; e que só as lutas que não se pode vencer é que valem a pena ser lutadas.

Mas nem sempre foi assim.

Seguindo a temporada de concursos públicos que estão acontecendo em todo o país neste momento, as TVs aberta e fechadas da Globo andaram iluminando aspectos desse outro Brasil, nas últimas duas semanas, que fazem a gente pensar.

Outro dia, já não me lembro em qual, assisti a uma longa especial sobe os “concurseiros“.

Trata-se de uma legião de pessoas sem nenhum tipo de qualificação ou vocação especial que, não interessa muito aonde nem para que função, prestam concursos públicos como quem joga na loteria, onde quer que eles sejam oferecidos pelo país afora.

Um dia eu acabo passando. E aí – tabajara! – meus problemas acabaram. Fico estável e…“.

As entrevistas corriam invariavelmente nessa linha, o que me remetia a um pensamento que, sempre que me assaltava nesses anos todos, jogava-me, entre deprimido e humilhado, para as vizinhanças de uma crise vocacional.

Não sei como anda isso hoje mas, até uns poucos anos atrás, tornar-se funcionário público aparecia no primeiro lugar da lista dos “sonhos de consumo” da juventude brasileira.

Mesmo reconhecendo a possibilidade de haver também aí as famosas exceções que costumam confirmar as regras, não consigo convencer-me de que essa multidão é movida pelo impulso irresistível de servir o povo, especialmente quando olho o vasto retrospecto acumulado nestes quase 40 anos de observação do país da “mamabilidade” institucionalizada.

Vá lá que fosse este o quarto ou o quinto entre os projetos de vida mais sonhados pela juventude brasileira.

Mas o primeiro! É acachapante…

Nascemos para a República e para a Abolição. Vimos lutando ha 137 anos para libertar os brasileiros da escravidão, e não foram poucos os micos que pagamos nem os sapos que engolimos, do primeiro dia até hoje, para levar isso adiante.

E no entanto o que me dizem essas estatísticas? O que me sinalizam os “concurseiros” profissionais, olhados sobre o pano de fundo da eterna coalisão governista que congraça, a esta altura do campeonato, mais de 80% dos nossos representantes em cada Casa do Congresso Nacional?

Que não; que a liberdade não faz parte do sonho do escravo brasileiro. O que ele pede aos santos, disposto a todos os sacrifícios que isso possa custar, é que eles lhe concedam a graça de tornar-se feitor. Ou, quando menos, a de ser aceito para trabalhar na Casa Grande.

Pois é…

Não importa. Vamos em frente. Nós somos poucos mas somos muito e a única coisa decente a fazer é insistir.

Um dia ainda chegaremos lá!

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§ 3 Respostas para O sonho de trabalhar na Casa Grande

  • Varlice disse:

    Tinha eu uns 18 anos e uma amiga querida da minha mãe perguntou se não gostaria de ser funcionária pública – emprego estável, blá blá blá. Um concurso se avizinhava e ela poderia me ajudar…
    A figura que me veio à mente foi a da tal cadeira sempre vazia, com um paletó abandonado no seu espaldar e cujo dono nunca ninguém vê, talvez sequer conheça. Gelei.
    Para mim, antes e ainda hoje, ser funcionário público era e é sinônimo de encostado, incompetente e esperto, de quem quer se ‘dar bem’.
    Esta imagem cristalizada na minha memória pode até ter mudado nestes nossos dias, mas dada a afluência do número de concursantes, em verdade vos digo que uma coisa não mudou: a tal estabilidade e a certeza de que uma vez dentro, ninguém tira o seu lugar.
    Eles não estão pleiteando uma vaga para servir ao povo, por certo.

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  • Ronaldo Pereira Barreto Sheldon disse:

    Sempre tive a mesma impressão da Varlice, acima. Esta impressão foi corroborada por um estágio que fiz na Secretaria da Fazenda de São Paulo, isto por volta de 1980. Prestava serviços à uma empresa contratada para fazer um livro através do levantamento da evolução de São Paulo e da Secretaria em função da arrecadação de impostos. Manuseava livros antigos, escritos com caligrafia impecável, da República em diante. Era muito interessante, verificava-se pelos números o impressionante impacto da produção do café na evolução da nossa cidade. Observava, entretanto, no imenso salão em que me encontrava, que havia poucos funcionários que frequentavam o departamento. Havia muitas mesas vazias, com paletós nas cadeiras. Na minha frente sentava uma senhora, de uns ciquenta e poucos anos que não fazia absolutamente nada e, sempre, às cinco da tarde, estendia uma toalha em sua mesa, colocava xícara, garrafa térmica, biscoitos, torradas, etc. e preparava para sí um lauto chá. Este chá era acompanhado de notícias em seu rádio de pllhas que estava sempre ligado. Só eu e o meu chefe, terceirizados, trabalhávamos no salão. Os demais só conversavam e passeavam entre os andares do prédio. Um dia, alguém apareceu com uma bola de basquete e, não demorou, afastaram umas mesas, colocaram duas latas de lixo sobre duas mesas que foram postas no fim dos supostos campos e começõu um tremendo jogo de basquete que durou uma meia hora e foi interrompido pela reclamação dos colegas do andar de baixo que queixavam-se do barulho da bola quicando no chão durante o jogo e da gritaria da torcida. Para quem não quer nada com nada, que só quer se dar bem, que tem preguiça para tudo, o típico Jéca Tatu, isto é que é vida. E o exemplo vem de cima, do Congresso, do Executivo, do Judiciário, triste a sina deste nosso País.

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    • fernaslm disse:

      É um depoimento eloquente, Ronaldo.
      E se já era assim nessa época, imagine agora, depois de mais 35 anos de impunidade reconfirmada e dois mandatos de “liberou geral” depois…

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