O roto, o rasgado e nós, pobres de nós

8 de agosto de 2011 § 1 comentário

Não é que Obama e o Congresso americano estejam com essa bola toda mas na disputa de credibilidade que abriu com eles a Standard & Poor’s perde longe.

Em artigo para o NY Times de hoje o prêmio Nobel, Paul Krugman, que nessa crise toda também não tem primado por não fazer concessões aos argumentos passionais, lembra as razões pelas quais não se deve levar a sério nem a S& P nem suas congêneres Moody’s e Fitch:

  • elas têm enorme responsabilidade pela crise de 2007/8, mãe desta crise da dívida americana, porque mantiveram a classificação “AAA, que agora negam ao Tesouro dos EUA, para os derivativos lastreados em hipotecas que detonaram com a economia do mundo e, quando a coisa estourou, continuaram dando desculpas esfarrapadas para não admitir o erro que cometeram;
  • na imediata sequência, também mantiveram a avaliação “A” para o Lehman Brothers, o banco que, quando foi à bancarrota (carregando aquele “A” para o fundo), precipitou a débacle financeira mundial e, depois desse vexame, continuaram mantendo o “A” e dando desculpas esfarrapadas para se explicar;
  • antes de anunciar a desclassificação dos Estados Unidos a S&P mandou o texto em que justificava o que ia fazer para o Tesouro conferir e este lhes apontou um erro banal de cálculo que fazia uma diferença de US$ 2 trilhões; embora a atual crise gire em torno de cortar (ou arrecadar) US$ 2 trilhões a mais do que o Congresso já concordou em fazer, a S&P reagiu como sempre: deu desculpas esfarrapadas para o seu erro e manteve a conclusão que inclui esse erro;
  • ainda que tivesse acertado nas contas, o fato dos Estados Unidos serem o único país do mundo que podem emitir a moeda em que sua divida está denominada implica que nunca se chegará ao ponto de ser obrigado a um calote, que é o que as agências de risco consideram quando fazem suas análises técnicas;
  • desta vez a própria S&P afirma que não estava fazendo uma análise técnica mas sim expressando “a sua duvida de que os dois partidos políticos em choque no Congresso possam chegar a uma decisão técnica que garanta a sustentabilidade das finanças dos EUA”.

É o roto falando do rasgado.

É claro que a desclassificação, mesmo vindo da S&P, não ajuda a melhorar a credibilidade da economia americana ou dos políticos que andam instrumentalizando a crise para ganhar votos mais do que para tentar, sinceramente, ajudar a resolvê-la. Talvez a reação dos investidores que essa desclassificação ajudou a exacerbar contribua para que os políticos façam o trabalho que falta com um pouco mais de juízo.

Mas o fato da S&P ter deixado de lado o seu terreiro técnico para aderir à balburdia política justamente na hora em que tudo que mais faz falta ao mundo, como ela própria chega a mencionar antes de abrir mão dessas três coisas é calma, responsabilidade e bom senso é a pá de cal que faltava para enterrar essas agências de classificação de risco que não têm feito outra coisa senão agrava-lo.

Tanto melhor.

Já passou da hora de se pensar em reformular o precaríssimo sistema de alarme da economia mundial.

No mais, se o mundo chegar a recuperar a calma antes que morra de seu próprio nervosismo, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes:

  • as contas dos Estados Unidos vão ter de passar por um ajuste que virá, ou na forma de inflação (para o mundo todo, que aliás, já corre bem solta), se tudo que eles fizerem for emitir mais e mais dólares para pagar as contas; ou na forma de juros mais altos para financiar o endividamento; ou na forma de aumentos de impostos para pagar parte dos gastos;
  • na verdade deverá acontecer uma mistura dessas três coisas e a dose é o que os políticos estão discutindo sem chegar a um acordo porque estão mais interessados em marcar posição junto aos mais prejudicados por cada uma dessas opções do que em resolver o problema;
  • seja qual for a decisão, não haverá calote em momento algum; no máximo cada vez mais inflação;
  • o dólar também não deixara de ser a moeda de referência do mundo porque isso é uma escolha de um mundo sem escolha e não uma imposição dos Estados Unidos;
  • apesar da torcida de uns tantos e dá má fé de muitos outros, os Estados Unidos continuam sendo o único país do mundo onde, para mexer com o dinheiro do povo o presidente da republica tem de passar pelo suadouro que o Obama está passando, enquanto todos os demais fazem gato e sapato do povo e do dinheiro dele sem dar satisfação a ninguém;
  • por mais que a economia americana encolha e a da China cresça, ninguém depositará os seus ovos de ouro na cesta da moeda que representa um sistema em que 100 ou 200 velhotes sentados num falso congresso que obedece cegamente a outra meia dúzia de velhotes que são os que realmente mandam, fazem o que bem entendem em seu país, distribuem lucros e prejuízos segundo critérios que não é possível definir ou prever e, quando a coisa não dá certo, mandam o exército massacrar o seu próprio povo.

A questão real, como já se disse muitas vezes aqui no Vespeiro, é saber até quando a democracia resistirá em seu próprio berço se a irresponsabilidade dos políticos que fazem qualquer papel por um voto a mais for tão longe que acabe por torna-la sinônimo de empobrecimento.

E se alguém pensa que isso só vai acontecer no dia de São Nunca é melhor olhar para as imagens de Londres em chamas ha três dias e pensar mais uma vez.

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