Que Alá tenha piedade de nós

3 de março de 2011 § 3 Comentários

Algumas verdades ditas em árabe (obrigado ChaChá)

Eu também, como todo mundo, estou torcendo para que dê em casamento o namoro com a democracia que parece estar sendo ensaiado no Oriente Médio.

Mas quanto mais eu leio sobre o que acontece por lá, menos claro fica para mim de onde é que ela poderá brotar.

Posta de lado a Líbia que é uma exceção que pouco tem a ver com o padrão que marca as rebeliões dos outros países, reafirmam-se, os sinais que marcam a diferença entre estes movimentos e os de ocasiões anteriores. Quem puxa as manifestações, desta vez, não é o lumpen manipulado pelos radicais religiosos de sempre mas sim a classe média com acesso à internet para a qual a distância do mundo árabe para o resto do planeta, não tanto em matéria de conforto material mas, principalmente, em matéria de direitos individuais e segurança institucional se tornou por demais evidente.

Isso explica o que há de semelhante nas cenas a que temos assistido em países tão diferentes do ponto de vista das condições materiais quanto o Bahrein e a Arábia Saudita, de um lado, e o Iêmen, do outro, para mencionarmos os extremos.

O guru de bin Laden no Iêmen

O outro ponto comum a todos os países conflagrados, entretanto, é terem vivido os últimos 30 anos ou mais sob um único ditador. Uma lista de homens que compartilha em seus currículos, como fator decisivo dessa longevidade, a eficiência com que eliminaram toda forma de oposição organizada nos seus feudos. Antes desse ultimo autocrata, é outro ponto comum a todos, esses países nunca tiveram a experiência de qualquer convivência tolerada com a diferença, fosse ela política, fosse ela religiosa. A alternativa desses povos, em matéria de brutalidade política sofrida, tem sido sempre entre o ruim e o pior.

Não se trata, portanto, de “preconceito”. A democracia será uma conquista tão dura para os árabes quanto foi para todos quantos a tentaram antes. Ela é um privilégio de pouquíssimos no mundo e fruto de um longo aprendizado. Se aqui neste Brasil onde não se apedreja, decapita, enforca ou mutila quem quer que seja, pelo menos oficialmente, nem nos “fechamentos” nem nas “aberturas”, nós ainda pagamos, a 26 anos de distância da ultima, o mico que pagamos para entender o que vêm a ser democracia e estado de direito e continuamos longe de desfrutá-los, imagine-se o que se poderá esperar no mundo árabe, ainda inteiramente virgem dessas experiências.

Ali Abdula Salé

Olhando a situação objetivamente o que parece é que os únicos dois países afetados pela Primavera Árabe onde o futuro é mais ou menos previsível são aqueles em que os ditadores menos resistiram: Tunísia e Egito, onde reina uma calma relativa em função do fato de não ter havido uma “revolução” de fato do poder político mas, por enquanto, apenas o prenuncio de uma substituição da figura que virá a comandar o aparato que continua com ele nas mãos (no caso, as forças armadas desses dois países).

Em todo o resto, seja para onde for que olhe, vem-me imediatamente à cabeça a mesma alternativa: se virar para a direita, os Estados Unidos e Israel se ferram; se virar para a esquerda, os Estados Unidos e Israel se ferram . E com eles as perspectivas para a paz mundial.

No Iêmen, anteontem, o ditador Ali Abdula Salé, ha 32 anos no poder, abriu o verbo contra os americanos por quem se sente traído, atiçando a multidão contra eles (e Israel). Sintomaticamente, no dia anterior, o líder islâmico local, sheik Abdul-Majid Al Zidani, tido como um dos mentores espirituais de ninguém menos que Osama bin Laden em pessoa, que não punha a cabeça à vista ha dois anos, desde que os Estados Unidos apresentaram provas de que ele é um importante elo no sistema de financiamento da Al Qaeda, ressurgiu na praça dos insurretos fazendo discursos irados sem que fosse reprimido pelo ditador.

Líbia: o diabo na rua…

Segundo todos os especialistas, depois que o Afeganistão foi espremido pela guerra, o Iêmen, que no passado foi palco de alguns dos atentados mais violentos sofridos pelos americanos, se tornou o principal reduto da Al Qaeda, a partir de onde a rede terrorista poderá se rearticular em toda a região.

Daí a importância estratégica da colaboração e da aliança tácita entre os Estados Unidos e o ditador agora sob ameaça, que se declara traído por eles.

A Líbia está como está: ou cai nas mãos dos inimigos declarados dos Estados Unidos que Kadafi vinha mantendo sob férreo controle ou, se este sobreviver, permanece nas mãos desse senhor tão judicioso e equilibrado que, enquanto viver daqui por diante, babará de ódio contra quem não só o abandonou à beira do abismo mas empurrou-o em direção a ele.

O Bahrein, antiga colônia do Irã, o único país da região de maioria xiita, está nas mãos de um rei que é primo do da vizinha Arábia Saudita, Ele tem andado pisando em ovos. Mas é muito improvável que atravesse essa tempestade sem quebra-los, espremido que está pelo dilema: se aumentar a dose de democracia terá de submeter-se à lei da maioria (xiita); se reduzi-la ainda mais, coloca-se numa posição moralmente insustentável.

O rei Abdul Aziz

Toda a pressão internacional que tem sido feita em torno da Primavera Árabe, aliás, só produz efeito sobre as ditaduras aliadas dos Estados Unidos. Essa pressão, para ser mais exato, dirige-se contra os Estados Unidos e não diretamente sobre os governantes locais para os quais a opinião publica nunca pesou um grama. É a retirada do apoio americano que ajuda a desestabilizá-los.

E no meio desse intrincado jogo de xadrez onde cada passo errado torna o xeque mate mais inevitável, Barak Obama está como sempre: mais perdido que cego em tiroteio, reagindo às flutuações da opinião publica e não procurando definir e perseguir objetivos geoestratégicos.

O destino da Arábia Saudita está, de cetra forma, amarrado ao do Bahrein, onde impera um primo do rei Abdul Aziz. Mas mesmo que se consiga conter a contaminação de uma situação pela outra, é preciso lembrar que o rei árabe, que se sente inseguro a ponto de anunciar um pacote de bondades de 37 bilhões de dólares para manter seu povo longe das praças publicas, está com 86 anos, tendo abaixo de si inúmeros príncipes que não se notabilizam pela lisura com que tratam o dinheiro publico nem pela falta de ambições políticas.

O velho Abdul Aziz, aliás, também já se sente traído pelos Estados Unidos que abandonaram seus aliados no Oriente Médio alegando motivos de que a monarquia árabe também não pode se eximir.

Bahrein: pisando em ovos

Dêm no que derem as manifestações que estão sendo articuladas na Arábia Saudita (e o momento decisivo está marcado para dia 11 próximo), suas relações com os Estados Unidos não voltarão, portanto, a ser como antes.

Olhando-se um pouco mais adiante, o que se vê também não é tranquilizador. O Líbano está outra vez fervendo, nas mãos de um primeiro ministro sunita mas que subiu ao poder graças a um golpe branco arquitetado pelo Hezbolá (xiita, ligado ao terrorismo) e apoiado pelo Irã.

O próprio Irã, enquanto reprime com a violência e a eficácia de sempre as manifestações internas sem se preocupar como se preocupa alhures com as reações internacionais, segue a passo acelerado fabricando a bomba atômica com a qual, declaradamente, pretende “varrer Israel do mapa”.

Mais além, no Paquistão, segundo os últimos relatórios da inteligência americana, já ha 110 artefatos atômicos prontos para uso. O Paquistão não consegue alimentar seu povo, educar suas crianças ou derrotar insurgentes do Taleban dominantes em diferentes pontos do país, mas gasta bilhões de dólares todo ano numa insana corrida nuclear. Foi, em dois anos, de 70 artefatos para os atuais 110, e seus reatores de enriquecimento de urânio já fabricaram material para algo entre 40 e 100 novos artefatos. Já é o quinto maior arsenal nuclear do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Rússia, França e China mas à frente de Inglaterra e Índia.

Taliban: eles podem vir a ficar donos de 110 bombas atômicas

Para que quer tudo isso?

Não se sabe. Ontem, entretanto, o único ministro cristão do governo paquistanês, Shabaz Bhatti, o Ministro das Minorias, foi trucidado numa emboscada por assassinos que se identificaram como ligados ao Taliban e à Al Qaeda. Ele liderava a campanha pela reforma da draconiana “Lei contra a Blasfêmia”, em vigor desde 1970, que impõe “pena de morte a todo acusado de falar contra o Profeta Maomé”.

Falar, vejam bem. Não é preciso agir.

O presidente Asif Ali Zardari e seu primeiro ministro “condenaram veementemente” o assassinato mas, assim como todo o Estado Maior das Forças Armadas, não foram ao enterro do ex-colega…

O Taliban é o candidato permanente a empalmar o poder tanto no Paquistão quanto no vizinho Afeganistão. Imagine essa gente com o arsenal nuclear do Paquistão nas mãos. E, se quiser piorar o pesadelo, imagine isso num mundo em que o Irã de Ahmadinejad e seus aiatolás também já tenha as suas bombas.

Numero 2 da Al Qaeda, by Irmandade Muçulmana

Depois volte seus olhos novamente para os “conservadores” Egito, Tunísia e outros. Além das forças armadas, a única força organizada entre eles é a Irmandade Muçulmana. Do ponto de vista ideológico, ela se parece com a Igreja Católica da América Latina. Ha lá dentro desde o equivalente aos carismáticos até os adeptos da Teologia da Libertação e os ramos que não só apoiam como insuflam o terrorismo. Foi da Irmandade Muçulmana que saiu, por exemplo, o
“Numero 2” da Al Qaeda, o egípcio Ayman Al-Zawahiri, aquele que mandava chacinar a faca turistas em visita às pirâmides, velhinhas e crianças inclusive.

Enfim, torço furiosamente para que desta vez seja diferente. Mas caso isso aconteça, estará sendo revogado um padrão histórico do qual não escapou nenhuma das revoluções de que se tem memória, da Americana para a frente: nenhuma permaneceu sob o controle daqueles que as iniciaram; ao contrário, na maioria das vezes eles foram os primeiros a serem devorados por elas.

Resta esperar, neste dia em que a imprensa registra um recorde de todos os tempos do preço dos alimentos, que Alá seja piedoso e escolha com o maior cuidado os herdeiros da Primavera Árabe.


§ 3 Respostas para Que Alá tenha piedade de nós

  • Tony disse:

    Eu não conheço história, mas tenho o sentimento de que foi um acidente que tirou esse povo da insignificância a que estavam destinados. Não fosse o petróleo, seriam como África famélica definhando até o fim?

  • flm disse:

    nao acredito que existam povos (nem raças) destinados a insignificancia, tony.
    o que, eventualmente, os reduz à miséria são os desvios da politica.
    e, nós basileiros sabemos bem, uma vez que voce entra num desvio importante, é muito dificil sair.
    na alta idade média os arabes estavam muito à frente dos europeus em todos os sentidos porque quem vinha de muitos seculos enfiados no desvio da sempre desastrosa mistura de politica com religiao era a Europa catolica, que queimava “infieis” em praca publica com o beneplacito do papa, e andava pelo mundo a cata de “hereges” para catequizar ou trucidar, como faz uma parcela dos arabes hoje com o beneplacito dos aiatolas.
    mas não foi sempre assim.
    aprendemos com eles, naquela altura, tudo que ajudou a nos levar para frente e superar a submissao à igreja: matematica, astronomia, tecnologia de navegacao, etc.
    foi graças a isso que “nuestra america” entrou para a historia da Europa.
    a revolução que isso produziu na arena do conhecimento é que levou à derrota da relação perniciosa entre politica e religião de que nós saimos e na qual os arabes entraram, no início para se defenderem das nossas agressōes.
    se fizerem o que diz aquela mulher do filme de tv que pus na materia, acabam saindo dessa eles tambem.
    educação e informação são o unico caminho. e a internet pode ser um forte aliado delas.
    entao olharão para o atual momento da sua propria historia com a mesma incredulidade com que nós olhamos hoje o que faziam os nossos antepassados com os “infieis” deles.

    • Tony disse:

      Me expressei mal. Havia uma figura de linguagem lá, por povo, tome aquela religião, e dirigida por aquele tipo de líderes. Veja só, tão velha já, e tão antiga sempre.

      Não conheço história e nem conheço o islamismo, a não ser pelo que dele nos noticia nosso mundo ocidental – e as idéias e os valores parecem tão sombrios e desesperadores…

      Pois é, depois da reconquista, desde de lá, o que se fez daquele mundo islâmico? – Lembram-se da álgebra, astronomia, navegação, e de que eram iluminados quando éramos escuridão – lugares comum talvez… Se fossem tanto, continuariam seu curso. Mas, onde chegaram?

      Daí me vem o sentimento: será que não ficariam por aquilo mesmo, retirados e recolhidos à miséria do deserto?

      Salvo engano, só se ouviu deles de novo depois do ouro negro, ou estou errado? – e sem o quê, talvez, nunca mais se ouvisse, a não ser para angariar ajuda humanitária. Sem o petróleo haveria a conversão de Cassius Cley?

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