Lula na Telefônica, negando a “conspiração”

23 de setembro de 2010 § 2 Comentários

Não da pra não ver a “entrevista” de Lula à Telefônica de Espanha no portal Terra.

Ele está brilhante, como sempre.

Pus a palavra “entrevista” entre aspas porque, na verdade, a coisa é mais um solilóquio que um diálogo tão poucas foram as perguntas que lhe foram dirigidas.

Lula, entretanto, é sempre um personagem muito rico, eloquente tanto no que diz quanto no que deixa de dizer na fina maestria com que se comunica com as pessoas.

Às vezes, aliás, me pergunto se essas entrelinhas são tão visíveis para os outros quanto são para mim que, tendo aprendido em 30 anos de redação que frequentemente o que há de mais importante em matéria de comunicação é o que se deixa de dizer ou de publicar, sou treinado em lê-las.

Confira você mesmo. Assista a entrevista inteira aqui:

Integra da entrevista

e coteje-a com essas anotações que fiz enquanto ouvia o presidente.

Sobre o tema das relações com a imprensa Lula insiste em não diferenciar denuncia, que é coisa que se refere a fato, de critica, que é a expressão de uma opinião. Seria uma ofensa à inteligência que ele tem de sobra pensar que faz essa confusão inocentemente. Seja como for nunca é demais frisar que o que a imprensa inteira fez nas ultimas semanas que o incomodou tanto não foi expressar opiniões sobre o governo Lula mas sim contar ao pais o que a família Guerra estava aprontando na Casa Civil.

***

Sobre uma nova regulamentação da liberdade de imprensa ele também não foi propriamente honesto: disse que “se existir uma idéia sobre isso”, que existe, está no programa do PT, no Plano Nacional de Direitos Humanos e em todos os documentos e pronunciamentos dos mais altos representantes do seu partido, “ela vai ser decidida no Congresso Nacional”.

O sorrisinho velado no fim desta frase remete ao fato de que a coalizão governista vai ter maioria absoluta na Câmara e, possivelmente, também de mais de 3/5 no Senado, o que lhe permitirá aprovar todas elas e mais quantas alterações na Constituição quiser fazer sem ter de perguntar a ninguém.

Insiste que “a sociedade” deve discutir essa questão. Seus cordatos entrevistadores falharam em esmiuçar esse ponto lembrando, primeiro, que a sociedade sem aspas já discutiu isso e as conclusões a que chegou estão expressas na Constituição e, segundo, que o que o governo Lula esta tentando fazer agora é rediscutir só com os amigos do PT o que a sociedade inteira já definiu pelos canais da democracia representativa vigente abertos a todos.

Caberia interrogá-lo sobre porque ele acha que esse tipo de mecanismo de decisão é menos democrático do que as “conferencias” convocadas pelo PT (você já participou ou foi convocado para alguma?) para reformular políticas desse grau de importância, ainda que participem delas todas as 300 mil pessoas que ele mencionou. Afinal nós, brasileiros, somos mais de 180 milhões

Lula repisa a tecla do “monopólio das comunicações” que pertenceriam, no pais inteiro, a “10 famílias” que, em cada lugar, possuem os jornais, as rádios e as televisões.

Esse modelo, de propriedade cruzada de todas as mídias em regime de monopólio é o que existe exclusivamente no Norte e Nordeste do pais onde todas as famílias donas desses monopólios, como os Sarney, os Collor, os Barbalho e etc. são aliados de Lula e não da oposição.

Cá para baixo o jogo é diferente com todas as praças divididas entre competidores ferozes e poderosos, os mais poderosos dos quais foram, aliás, cooptados pelo governo Lula como, por exemplo, o portal da telefônica espanhola ao qual ele falava que, pela Constituição, não poderia ter uma operação jornalística no Brasil não fosse a proteção que recebe, certamente não de graça, do governo Lula.

Mais adiante na entrevista, alias, ao falar da revolução da internet, ele vai admitir que não ha nenhuma verdade no que diz neste trecho.

Cabe lembrar, a propósito, que o maior dono de mídia do Brasil, seja no que diz respeito a veículos eletrônicos ou não, da old e da new mídia, é o governo, que é também o maior empregador de jornalistas do pais, longe do segundo lugar. Mostrar os números dessa realidade, aliás, é uma pauta que deixo sugerida para onde ainda houver jornalismo livre por aí.

Caíram então no caso Erenice. Novamente Sua Excelência insiste em confundir crime tipificado em lei com “erro” ao tratar das falcatruas dentro do seu governo, que têm ocorrido preferencialmente no gabinete ao lado do seu no Palácio do Planalto, onde habita a Casa Civil. E repete que “não tem pais no mundo com mais liberdade de imprensa que o Brasil”. Essa afirmação sugere que talvez esteja na hora do presidente parar de frequentar lugares como Cuba e Irã para ir visitar algumas democracias, para variar…

Mas o mais importante é a gente lembrar sempre o seguinte: ninguém no Brasil está falando em falta de liberdade de imprensa no presente. As manifestações que têm ocorrido, na mídia e em praça publica, reagem à ameaça recorrente do PT e do presidente da Republica em pessoa de cercear essa liberdade no futuro próximo.

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Pela primeira vez na historia deste governo o presidente passa do “pela primeira vez na história deste pais” para o “pela primeira vez na historia deste planeta” ao se referir ao orgulho que sente pelo tamanho da capitalização que vai promover na Petrobras.

O presidente acha que “essa gente que não gosta de mim confunde popular com populista”. Mas, na entrevista toda, descreveu exclusivamente os expedientes populistas que usou para se tornar popular…

Daí por diante, passou a enumerar partidos que teriam alcançado “o mesmo nível de popularidade do PT” pelo mundo afora. Abriu a lista com um lapso freudiano, nomeando o PRI, da “ditadura perfeita” que dominou o México por 70 anos. Mas logo se emendou. Da lista que desfiou em seguida constavam exclusivamente partidos do campo da esquerda tais como o PC mexicano, o PC italiano, o PC francês, o PS francês e por aí afora que, segundo ele, foram muito populares.

Poderia ter mencionado o partido nazista alemão, que teve a adesão de muito mais que os 30% de eleitores que preferem o PT, assim como o partido fascista italiano, que também mobilizou a Itália inteira a se aliar com Hitler, para voltar às acusações de FHC com que um dos repórteres o provocou momentos antes.

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Outro lapsus linguae foi quando disse que não é um líder de movimento social, é o líder de um partido político.

É interessante como Lula se divide nessa questão, dependendo de qual seja a referencia – oposição ou situação. Ainda que “líder partidário”, ele trata o PT como se ele fosse de oposição, o que realmente acontece e ele admite quando a questão o confronta só com ele, PT. Registra que o partido “tem pouca ingerência no governo” o que é verdade. O que se teme é que venha a ter mais na Era Dilma, como quer José Dirceu. Diz que não pode governar para o PT, o que também é sugestivo porque isto não lhe tinha sido perguntado. A menção apenas sugere que tem sido cobrado e pressionado nesse sentido.

Ao agradecer o PT por “tê-lo ajudado aceitando a candidatura Dilma” parece confirmar a avaliação do editorial do Estadão comentado aqui esta semana que avaliou as declarações de Dirceu em sentido contrario. E quando diz que “o presidente tem de ser um magistrado” para responder às cobranças do PT, repete o que o país inteiro cobra dele e ele não entrega quando se trata de sua participação na campanha eleitoral. Ou seja, Lula admite se comportar civilizadamente com a oposição dentro da sua casa. Estes são os adversários. A oposição mesmo é o inimigo, que tem de ser “extirpado”.

Voltando a Erenice, admitiu afinal: “Erenice não foi expulsa por eles (“os que me odeiam”) . Saiu porque cometeu ‘um erro’”. E foi mais fundo: “Erenice jogou fora a oportunidade de ser uma grande funcionaria publica deste pais”.

Pergunta-se, portanto, onde é que está a tal “conspiração” da imprensa?

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Como já se demonstrou aqui no Vespeiro, o presidente conta muito com a crise da old mídia em função do surgimento da internet para “se vingar” da imprensa que o atacou no passado. Conta, alias, com a máxima “simpatia” dos grandes portais bancados pelas telefônicas estrangeiras que dependem da sua boa vontade para continuar mantendo, no pais, operações jornalísticas constitucionalmente proibidas. Proibição esta que as teles estrangeiras, em troca, esperam ver revogada na nova regulamentação prometida para o setor.

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“Eu acho que o Twitter é uma escravização. Tem gente que acorda duas horas da manhã para ficar tuitando. Tem gente que levanta para falar: Ai, acordei, perdi o sono. O que eu tenho a ver com isso? Vai dormir, pô!”

Matou a pau!

Desse ponto em diante o lado bom de Lula dominou a entrevista. O seu conhecimento “das entranhas” do Brasil é indiscutível e é dele que decorre o inegável sucesso de suas políticas sociais e o seu modo de definir as prioridades do ponto mais baixo para cima, “começando pelas palafitas e continuando pela urbanização das favelas”.

“Governar nos gabinetes, assim como fazer jornalismo de gabinete leva ao mesmo tipo de distorção que viveram os exilados que voltaram e não perceberam que o pais tinha mudado”.

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“A oposição de hoje não está habituada a fazer oposição. Seus quadros formaram-se na situação. Nunca viveram a oposição”.

É indiscutível.

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“O PT errou muito como oposição. Foi contra a Constituição; foi contra o Plano Real. Não admitimos que o país tinha mudado. Erramos”.

Ôps! Olha o Lula aí, conspirado contra o Lula! Essa é a linha mestra da critica que a imprensa lhe faz…

***

“Serra esta para mim como eu estava para FHC no Plano Real. Aquilo não foi uma disputa entre dois homens. Era um homem contra uma moeda. Nos falávamos em mudança quando o que o povo queria era continuidade. Não tinha jeito”.

Indiscutível, de novo.

“Agradeço a Deus por só ter chegado quando cheguei ao poder. Mais maduro”.

É outro momento em que Lula redime a imprensa. Admite que o medo que ela (e o resto do Brasil) manifestava em relação a Lula no poder não era fruto exclusivo de “conspiração” e “preconceito”. Tinha sobrados fundamentos.

Se tivesse chegado ao poder imaturo e cheio de voluntarismo como era teria produzido um desastre.

É ele quem o diz.

***

Com todo o direito desse mundo, Lula deliciou-se lambendo longamente suas crias.

“Levei o credito de um total de R$ 380 bi quando cheguei para R$ 1,6 trilhão … o povo esta entrando nas lojas, esta comprando!”

É fato. Esta ninguém lhe tira. É isto que lhe dará a sucessão. Como já disse aqui no Vespeiro, Lula fez a revolução “fordista” no Brasil. Espalhou dinheiro pelas raízes para que ele acabasse irrigando “sistemicamente” a arvore inteira.

E, indiscutivelmente, produziu “o seu” milagre.

Conseguiu fazê-lo pela combinação de suas melhores qualidades: o conhecimento das entranhas do Brasil, a lealdade às suas origens, a persistência na perseguição do seu sonho.

Outro ponto alto foi a descrição minuciosa de como, apos a derrota para Collor, ele se dedicou a reunir os cacos da esquerda latino americana pós Queda do Muro, no Foro de São Paulo, reorganiza-la e relançá-la na perseguição do poder pela via eleitoral, abandonando a idéia de tomá-lo pelas armas.

Do Foro de São Paulo, como se sabe e Lula admitiu, participaram todos os movimentos armados da esquerda continental, inclusive as Farc, que seguem participando das reuniões do Foro até hoje. Graças a isso, diz Lula, a esquerda voltou ao poder em quase toda a America Latina.

Cabe lembrar que até Fidel Castro, sob a batuta de Lula, aderiu ao discurso da via eleitoral e está agindo, sabe-se lá com a ajuda de quem mais, para desmantelar a linha dura das Farc, cujas lideranças têm morrido como moscas (veja matéria aqui no Vespeiro). (Isto foi escrito um dia antes da morte de Mono Jojoy, anunciada em 23/9)

Cai, portanto, pela palavra do próprio Lula, mais uma das falsas acusações sobre o espírito conspiratório da imprensa que, apoiada em documentos das próprias Farc, lembrou o publico das relações que ela tem com o PT.

***

Sem que fosse interrompido por uma única pergunta sobre a verdade ou não dos fatos conhecidos como “o caso Mensalão”, voltou, depois do capitulo Foro de São Paulo, à tese da conspiração para dizer que a tentativa, em 2005, foi de derrubá-lo do poder, o que só não aconteceu porque “eles não sabiam a força que eu tinha na rua”.

***

Para encerrar, Lula disse que “defende a rotação no poder, mesmo que seja de dois em dois, três em três, quatro em quatro ou cinco em cinco anos…”

(Pois é…)

“No ano que vem, volto pra São Bernardo”.

Meno male…


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