“Passou o tempo das revoluções armadas”
22 de julho de 2010 § 1 comentário
O guia do nosso guia faz uma excelente ideia de si mesmo…
Que o PT sempre manteve relações libidinosas com as Farc e que essas relações tinham o sentido que a ela atribuem os seus críticos e adversários políticos é coisa tão indiscutivelmente certa e sabida que tudo que restou ao partido, posto diante da afirmação do fato em véspera de eleição, foi dar a ele o mesmo tratamento que o seu mais recente aliado, Paulo Salim Maluf, invariavelmente dá a todos quantos o põem diante dos fatos que fizeram dele um dos homens mais procurados pela Interpol: confiar na celeridade e na imparcialidade da justiça brasileira e abrir um processo por calunia e difamação daqueles que, um dia, pode ser que acabe.
Para que você tire suas duvidas, estou publicando, na postagem que se segue a esta, a integra (traduzida) da matéria da revista colombiana Cambio que, na sua edição da ultima semana de julho de 2008, fez uma seleção dos 85 e-mails a que teve acesso da longa série dos que foram trocados entre o líder das Farc, Raul Reyes, morto em um bombardeio da força aérea colombiana em território equatoriano poucas semanas antes, e o “padre Camilo”, representante das Farc no Brasil, e outros membros de destaque da organização narcoterrorista, dando conta das suas intimas relações com altos representantes do PT, inclusive e principalmente depois que eles se tornaram ministros do governo Lula ou figuras de destaque nos setores mais “aparelhados” do Judiciário brasileiro.
É coisa que vale a pena ser lida para que se possa avaliar o grau do cinismo que se tornou marca registrada de quem hoje manda no Brasil e o nível de profundidade a que chegou a instrumentalização do Estado brasileiro a serviço do projeto de poder do lulismo que, por sua vez, é parte de uma ação internacional ampla e meticulosamente coordenada.
Muito desse saboroso caldo se perdeu nos resumos que a imprensa brasileira publicou na época…
“Tirofijo”
A pesquisa do tema, a que me entreguei nos últimos dias, sugeriu-me, aliás, uma possível explicação para o fato do sacrossanto Fidel, chefe de todos os lulas do Cone Sul, que ate então só tinha escrito sobre si mesmo, ter se dado o trabalho de escrever um livro inteiro em defesa da paz na Colômbia, fato ao qual imediatamente se seguiu a disciplinada mudança da atitude publica até então mantida com relação às Farc por parte de todos os seus chefiados. E o primeiro a entrar em ordem unida foi o coronel Chávez, da Venezuela, este que, ontem de novo, voltou a negar sua cumplicidade com as Farc mostrando ainda mais “indignação” que o PT.
Enquanto Fidel pensava e escrevia “La Paz en Colômbia” (que o guia do nosso guia terminou precisamente “às 3:15 da tarde de 16 de setembro de 2008”, segundo curioso registro em que insistiu um de seus propagandistas internacionais), foram mortos, um depois do outro, todos os representantes da “linha dura” das Farc e aceleraram-se as deserções de guerrilheiros, que passaram a incluir até alguns dos ícones da organização. Mas, curiosamente, essa sucessão de vitórias do exército colombiano não impediu que se abrisse o coração dos remanescentes da antes duríssima organização para a série de “libertações humanitárias” de prisioneiro seqüestrados que viviam ha décadas acorrentados a troncos de árvores em volta dos acampamentos do grupo. Ao contrário, foram essas mortes que, indiretamente, precipitaram esse processo.
Ao fim de 44 anos de assassinatos, seqüestros e operações de trafico de cocaína em grande escala entusiasticamente apoiados por ele, Fidel, tido pelos narcoguerrilheiros como seu grande inspirador, revela ao mundo que “sempre esteve em desacordo com as Farc”, especialmente em dois aspectos, digamos assim, técnicos: “o seqüestro e humilhação de combatentes” (que ele e seu grupo também praticaram antes de tomar o poder em Cuba) e a insistência em levar adiante uma estratégia de “guerra prolongada” excessivamente desgastante (a cocaína não foi mencionada). E disse mais o homem que dedicou a vida a fomentar guerrilhas pelo mundo afora: “Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.
O acampamento de “Negro Acácio”
Só esta frase provocou indignação e escândalo maiores nos meios da nunca suficientemente desiludida esquerda honesta do que os termos duríssimos empregados na principal “revelação”, feita na pagina 105 do livro onde são reproduzidos diálogos de Fidel com Manuel Marulanda, dito “Tirofijo”, o líder histórico das Farc que acabara de morrer na selva aos 78 anos de idade. Ali Fidel afirmava que o dono daquele corpo, ainda morno quando o livro foi publicado, não passava de “um homem ignorante e pouco estudado” que nunca tinha conhecido nada maior que as pequenas aldeias do interior da Colômbia e que, por isso, tinha uma visão delirante do mundo inteiramente alheia à realidade. As ações de seu grupo, enfim, só serviam (nas palavras do prestimoso coronel Chavez) “para dar argumentos aos nosso inimigos e aos aliados do Império”.
Para as Farc, que já vinham cambaleando diante da morte (natural, supostamente) de “Tirofijo”, o veredicto de Fidel soou como um tiro de misericórdia.
Os revezes tinham começado em setembro de 2007 quando “Negro Acácio”, o primeiro dos membros do “Secretariado” das Farc a cair, foi morto num bombardeio. Depois dele morreram “Martim Caballero” e “Martin Sombra”, este muito próximo a “Tirofijo”. Em seguida foi a vez dele próprio, em maio de 2008. Meses depois, cai Raul Reyes, que substituiu “Tirofijo” no comando das Farc, também bombardeado em seu esconderijo no Equador. Foi nos computadores em poder de seu grupo que foram encontrados os e-mails envolvendo Lula e sua entourage. Seis dias depois, Ivan Rios, o ultimo dos “linha dura” é morto por seu próprio guarda-costas na selva. Ele arranca-lhe a mão direita e entrega-a aos militares colombianos como prova de seu feito. Ainda em 2008, entrega-se, com seu amante, Nelly Ávila Moreno, a “Karina”, até então conhecida pelos seus pendores sanguinários, que confessa que temia ter o mesmo fim de Rios. Havia 24 anos que ela combatia na selva…
Iván Rios
Essa sucessão de derrotas das Farc, com a virtual eliminação de toda a linha de sucessão de “Tirofijo”, se dá, segundo o governo colombiano, graças ao amadurecimento de diversas ações de inteligência e infiltração do grupo por agentes do inimigo ou em função da decisão espontânea de guerrilheiros próximos das vitimas que tomam a iniciativa de se oferecer ao exercito colombiano para vender a localização de seus chefes. Mas o fato é que, de “Negro Acácio” em diante, todas as mortes, com exceção, ate segunda ordem, da de “Tirofijo”, começam por um ato de traição. E, no final, a eliminação da “linha dura” da organização desagua na ascensão de Alfonso Cano, o “moderado” que inicia as negociações para a libertação de reféns.
Coincidência ou não, tudo isso se passa enquanto o bom Fidel se preparava para anunciar ao mundo, ao fim de 44 anos de irrestrito apoio às Farc, que mudara de ideia.
Em janeiro de 2008, a Fundación Pais Libre, da Colômbia, contava 3.254 vitimas de seqüestro pelas Farc. Perdeu-se a conta do numero de assassinados e mortos em combate nestas mais de quatro décadas. Quanto mais dispersas as “frentes” ocupadas pelas Farc, quanto mais interrompidas as comunicações entre elas pela ação do exército colombiano, mais subia o numero de deserções e mais a organização se misturava aos cartéis do tráfico da Colômbia e da Bolívia.
E maior se tornava o horror da opinião publica em relação a ela e aos seus crimes.
Nada elege mais na Colômbia que declarar guerra sem trégua às Farc
Ha muitos anos, já, que nada elege mais na Colômbia que declarar a disposição de combater as Farc sem tréguas. E, de Chávez para cá, o pais desponta como a mais sólida exceção à onda esquerdizante que varre o Cone Sul. De prova de independência em relação ao “Império” e insubordinação à “mentira da Justiça burguesa”, declarar amor às Farc, justificar seus assassinatos e seqüestros e exibir relações libidinosas com esse híbrido de grupo terrorista e quadrilha de traficantes, dentro ou fora da Colômbia, passa a “sujar a barra”; a afastar eleitores. Transforma-se na bandeira de tudo o que não se quer num continente onde boa parte da população civil vive no meio do fogo cruzado de uma guerra crônica contra o narcotráfico.
E então, Fidel abraça “a paz”. E então, Hugo Chávez passa a clamar pela libertação dos seqüestrados. E então, lá vai o nosso Lula, que chama “bandidos” aos prisioneiros de Fidel, intermediar libertações na selva colombiana…
O que foi que mudou realmente? O que foi que fez com que o maior ícone de “la revolución“, que ha 50 anos “prende e arrebenta” quem ousar falar contra ela (não é preciso agir), o campeão do pragmatismo e da razão de Estado, avesso ao “sentimentalismo burguês”; o que fez que tal homem amolecesse o coração, de repente, diante da tragédia pessoal dos “agentes do Império” (os verdadeiros, da CIA, libertados com Ingrid Betancourt inclusive) seqüestrados na selva colombiana?
O “Foro de São Paulo” em ação
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O que mudou foi a conjuntura internacional.
A crise financeira do Ocidente tornou claras as ilimitadas possibilidades do novo paradigma chinês. Entrou em cena a tirania próspera, capaz de derrotar o capitalismo em seu próprio terreno com a infalível ferramenta dos ganhos de produtividade “at gun point”.
E é em torno disso que se articula hoje a esquerda latino-americana, com todos os recursos das “melhores práticas de governança corporativa”, no Foro de São Paulo, esse templo de reverência a Gramsci onde brilha o “case” brasileiro, “benchmark” da nova revolução que deve começar pelas urnas e prosseguir pelos plebiscitos bolivarianos, empurrada por um irresistível tsunami de dinheiro fácil.
Esqueçam o que eu escrevi! Calem-se os argumentos em contrário! Reescreva-se a História!
“Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”.

[…] “Passou o tempo das revoluções armadas. Hoje a solução é política”. (Veja matéria completa sobre isto aqui) […]