O fim do livre mercado

21 de julho de 2010 § 3 Comentários

A partir do e-mail enviado pelo robot da Amazon.com para me provocar com base nas encomendas anteriores e pesquisas que tenho feito no site, fiquei sabendo do lançamento nos EUA do livro “O Fim do Livre Mercado – Quem Ganha a Guerra entre os Estados e as Grandes Corporações?, de Ian Bremmer.

Abrindo a série de resenhas comentadas enviadas pelos leitores, padrão da loja, a Amazon desta vez foi mais longe. Chamou Nouriel Roubini, que ficou conhecido como “o profeta do caos” por ter sido dos poucos economistas a prever a chegada da ultima crise financeira e o mais pessimista entre os que antecipam as próximas, para entrevistar Bremmer a respeito do seu livro.  A Amazon teve a boa idéia de inverter os papeis na página em que vende o livro de Roubini. Lá é Bremmer quem o entrevista. Mas as idéias de Roubini são deja vu.

Bremmer parece mais interessante.

Não li o livro dele, que acabo de encomendar (http://www.amazon.com/dp/1591843014/ref=pe_5050_16321390_snp_explore).  Mas, pela entrevista, já da pra ver que sua análise vai na mesma linha que tenho usado aqui no Vespeiro para interpretar o que está acontecendo no mundo desde a entrada em cena do capitalismo de Estado chinês, especialmente nos artigos O fim da revolução americana?, de setembro de 2009, (http://vespeiro.com/2009/09/14/o-fim-da-revolucao-americana-2/)  e Condenados ao Supercapitalismo, publicado ha 10 dias (http://vespeiro.com/2010/07/08/no-mundo-do-supercapitalismo/). É o primeiro autor americano que encontro, olhando para as coisas com a necessária coragem.

E ele também não parece otimista com o que vem por aí.

Veja a tradução da entrevista:

Roubini: Seu livro sugere que uma velha tendência, que você chama de capitalismo de Estado, se tornou muito mais importante ultimamente. O que aconteceu para as coisas mudarem desse jeito?

Bremmer: Nos últimos 18 meses a crise financeira ocidental e a recessão global aceleraram a inevitável transição do mundo do G-7 para o mundo do G-20. Isso não implica apenas um numero maior de negociadores em torno da mesa. Não é só uma questão de fazer um rebanho maior de gatos andar numa mesma direção para fazer as coisas acontecerem no cenário internacional.  Trata-se de tocar gatos junto com outros animais que, definitivamente, não gostam dos gatos. Na verdade não se trata mais de um rebanho.

No tempo do G-7 todo mundo que interessava para o crescimento da economia global aceitava o pressuposto de que a prosperidade depende do império da lei, da existência de tribunais independentes, de transparência e de uma imprensa livre. Todos acreditavam no valor do capitalismo de livre mercado, enfim. Naquele mundo, as multinacionais eram os principais peso pesados da economia. Esse consenso norteou o processo de globalização nos últimos 40 anos.

Pois o sol acaba de se por nesse mundo. O país que emergiu mais depressa e mais forte da desaceleração global é um país que não aceita a idéia de que uma economia regulamentada de livre mercado é imprescindível para o crescimento. O sucesso da China convenceu os autoritários do mundo inteiro de que eles podem ter um crescimento explosivo sem ter de abrir mão do monopólio do poder político que detêm em seus países. A China conseguiu um crescimento de dois dígitos durante 30 anos sem liberdade de expressão, sem regras econômicas estabelecidas, sem juízes em condições de ignorar as pressões políticas, sem nenhum direito de propriedade confiável – sem democracia, para resumir. E os acontecimentos dos últimos 18 meses tornaram a China mais importante que nunca para a continuação do crescimento global. Essa é uma enorme mudança que tem implicações tremendas nas quais seria melhor que nós começássemos a pensar.

Roubini: O termo capitalismo de Estado significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Como você o define hoje?

Bremmer: Eu escrevi sobre um sistema em que o Estado usa as forças do mercado, antes de mais nada, para conquistar objetivos políticos. Os líderes desses países sabem que, mais cedo ou mais tarde, as economias dirigidas virão a falhar, mas têm medo de perder o controle sobre o modo como a riqueza passará a ser criada se derem espaço para que o mercado seja realmente livre. Isso poderia gerar forças econômicas capazes de desafiar a autoridade do governo de manter sob controle a vida política da Nação. Assim eles usam a estatal do petróleo, outras estatais estratégicas, super empresas leais aos donos da política e os maiores fundos de investimentos do país, antes de mais nada, para reforçar o controle que exercem sobre o processo de criação de riqueza dentro das fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, mandam essas super empresas e fundos de investimento para fora para fazer negócios que reforcem o poder político e geopolítico de seus governos.

E esse sistema é fundamentalmente incompatível com a liberdade de mercado.

Roubini: Criando atrito entre os capitalistas de Estado e outros governos. Isso para não falarmos das companhias privadas.

Bremmer: Exatamente. No sistema de livre mercado as grandes empresas multinacionais estão focadas em maximizar o lucro. Quando os mercados não são regulados de uma forma inteligente – e nós acabamos de ver isso nos Estados Unidos – elas acabam se concentrando em aumentar os ganhos de curto prazo em detrimento da sustentação do crescimento de longo prazo que interessa aos seus acionistas. Os últimos dois anos nos serviram de lição para o perigo dos excessos do capitalismo de mercado.

Mas no capitalismo de Estado os principais atores econômicos estão olhando principalmente para alvos políticos. Os lucros ficam subordinados a esses objetivos. Em outras palavras, se o lucro serve para os interesses do Estado, eles vão perseguir o lucro. Mas se interessar ao Estado que a estatal de petróleo perca dinheiro para acumular os estoques de longo prazo de óleo, gás, metais e minerais que os políticos entenderem necessários para garantir seu crescimento futuro a perder de vista e manter uma massa de trabalhadores empregados independentemente dos custos, o lucro e a eficiência passarão a ser encarados como um passivo político e essas companhias vão pagar o preço que for necessário para que o objetivo político seja satisfeito.

Só que essas estatais estão competindo com multinacionais que não podem pagar mais do que as coisas valem. E assim, a interferência política no mercado vai distorcer todo o jogo – no caso, forçando uma alta no preço que o mundo inteiro paga pela energia e pelas outras commodities.

Roubini: Quando você menciona os capitalistas de Estado a que países especificamente você esta se referindo?

Bremmer: Você encontra capitalismo de Estado nas monarquias árabes do Golfo Pérsico – Arábia Saudita e Emirados Árabes são os mais importantes. Essa tendência também esta presente na Rússia de Putin. Existem outros exemplos de países que misturam livre mercado com políticas de capitalismo de Estado. Mas nós não estaríamos falando do capitalismo de Estado como detonador de uma mudança total das regras da economia global e da política internacional se não fosse pela China, hoje a segunda maior economia do mundo e o mercado que mais cresce no planeta.

Roubini: O fim do livre mercado é um titulo provocativo. Você esta tentando ser mais catastrófico do que eu?

Bremmer: Eu não faria isso. Mas você tem de admitir que não é um exagero. Não é que eu acredite que os Estados Unidos estejam jogando fora os princípios do livre mercado. Nem que Obama seja algum tipo de socialista. Washington vai endurecer os regulamentos do mercado financeiro nos próximos meses e muita gente não vai gostar disso. Os americanos não vão abrir mãos de sua fé no capitalismo de livre mercado só para conseguir um pouco mais de prosperidade. Mas a mesma coisa não pode ser dita sobre o resto do mundo.

O sistema econômico global não é mais regido por um consenso em torno desses valores. Agora existem formas diferente de capitalismo competindo entre si. Você usou a palavra atrito. É exatamente disso que se trata. Atrito, competição e ate conflito. Haverá ganhadores e perdedores, e está na hora das lideranças políticas e econômicas começarem a pensar em quem estará em cada uma dessas listas.

Roubini: Você chegou a sentir a tentação de chamar seu livro de “O fim da globalização”?

Bremmer: Não, isto não é o fim da globalização. É o fim do poder exclusivo e irresistível da globalização de modelar nossas vidas e o futuro da economia global. A globalização depende do acesso aos mercados globais de consumidores, de capitais e de trabalho. O capitalismo de Estado compromete as três coisas. A globalização ainda importa e vai continuar importando no futuro previsível. Mas não é mais a força diretora fundamental do crescimento numa economia global que tem de se voltar cada vez mais para a China para a  próxima etapa de expansão.

***

Nouriel Roubini é professor de economia na Stern School of Business da New York University. Tem uma longa experiência no governo. Assessorou a Casa Branca e o Tesouro entre 1998 e 2000. É autor de A Economia da Crise e de Bail-outs and Bail-ins.

Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group, a maior empresa de consultoria de risco político do mundo, e presença assídua nas páginas de analise dos principais jornais e revistas americanos. É autor de The J Curve: A New Way to Understand Why Nations Rise and Fall e de The Fat Tail: The Power of Political Knowledge for Strategic Investing.


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