Finalmente, uma vítima das “vítimas da ditadura”

10 de dezembro de 2009 § 6 Comentários

“Reparação” é o título do documentário de longa-metragem que conta a história de Orlando Lovecchio, pouco mais que um garoto na época em que foi vítima, em plena Avenida Paulista, de um atentado a bomba praticado pela guerrilha que atuava contra o regime militar no Brasil, em 1968.

Orlando perdeu a perna no célebre atentado ao Consulado dos EUA em São Paulo e, ainda hoje, em 2009, luta por justiça: como não é considerado uma vítima da ditadura militar, a aposentadoria que recebe é menor que a do autor do atentado que o vitimou e enterrou para sempre seu sonho de ser piloto de avião.

Que eu conheça, esse é o unico filme já produzido sobre as vítimas das “vítimas da ditadura”, cuja principal característica era não fazer questão de ter pontaria. A pretexto de atacar os militares, que andavam armados, atacavam com suas armas preferencialmente gente desarmada como Orlando Lovecchio.

O atentado foi conduzido por Diógenes de Carvalho Oliveira (foto abaixo, 40 anos depois dos crimes) e pelos arquitetos Sergio Ferro e Rodrigo Lefevre, alem de Dulce Maia e outra pessoa não identificada. Conforme lembrou Elio Gaspari em artigo recente, “a bomba do consulado americano explodiu oito dias antes do assassinato de Edson Lima Souto no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, e nove meses antes da imposição do AI – 5 ao país. Essas referências cronológicas desamparam a teoria segundo a qual o AI – 5 provocou o surgimento da esquerda armada … em 1968, antes do AI – 5, morreram sete pessoas pela mão do terrorismo de esquerda …”

Diógenes participou de vários desses assassinatos.

Em 1964 ele era militante do Partido Comunista Brasileiro. Em 1966, fugiu para o Uruguai onde ingressou no recém fundado Movimento Nacionalista Revolucionário, de Leonel Brizola. No mesmo ano, Brizola conseguiu enviá-lo para Cuba para fazer um curso de guerrilha. Ele se especializou em explosivos.

Em março de 68, insatisfeito com a falta de ação do grupo de Brizola, ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). E aí começa a sua trilha de sangue:

  • 20 de março de 1968, explode uma bomba relógio na bilbioteca da USIS, no Conjunto nacional, av. Paulista. Três estudantes que caminhavam pela rua foram atingidos. Orlando Lovecchio perdeu a perna esquerda;
  • 20 de abril de 1968, atentado a bomba contra o jornal O Estado de S. Paulo em que o porteiro e mais duas pessoas são feridas;
  • 22 de junho de 1968, assalto ao Hospital do Exército, no Cambuci;
  • 26 de junho de 1968, com mais 10 companheiros, lança um carro bomba contra o QG do II Exército, no Ibirapuera e mata o sentinela Mario Kosel Filho, um menino de 18 anos que servia o Exército. Outros seis militares ficam feridos;
  • 1 de agostos de 1968, assalta agencia do Banco Mercantil na Joaquim Floriano, Itaim;
  • 20 de setembro de 1968, assalto ao quartel da Força Publica no Barro Branco em que o sentinela, soldado Antonio Carlos Jeffery, foi morto a tiros;
  • 12 de outubro de 1968, executa a tiros (6, de revolver, à queima roupa) o capitão Charles Rodney Chandler (fotos acima), adido militar dos EUA, na frente de sua mulher e de seu filho de 4 anos quando tirava o carro da garagem de sua casa no Sumaré. Se você tiver estômago, veja a impressionante descrição do crime feita pelo comparsa de Diógenes neste link: http://www.ternuma.com.br/chandler.htm
  • 27 de outubro de 1968, atentado a bomba contra a loja Sears, na Água Branca;
  • 6 de dezembro de 1969, assalta o Banespa na rua Iguatemi e fere a coronhadas Jose Bonifácio Guercio, que se encontrava no local;
  • 11 de dezembro de 1968, participa do assalto a Casa de Armas Diana, na rua Seminário onde rouba cerca de 50 armas e fere a tiros o civil Bonifácio Signori;
  • 24 de janeiro de 1969, coordena o assalto ao 4º Regimento de Infantaria em Quintauna onde rouba grande quantidade de armas e munições. Esse assalto marca o ingresso de Carlos Lamarca na VPR;
  • 2 de março de 1969, é preso na Praça da Árvore, na Vila Mariana;
  • 14 de março de 1970, é trocado pelo cônsul do Japão, seqüestrado, e segue para o México, de onde logo segue de volta para Cuba;
  • dessa data até a anistia, em 1983, mora no Cile de Allende, em vários países da Europa e, finalmente, na Guiné Bissau, África, de cujo governo ditatorial se torna um servidor por alguns anos;
  • em 1986 aparece como assessor do veredaor do PDT Valneri Neves Antunes, também um ex-VPR, e faz parte do grupo Tortura Nunca Mais;
  • nos anos 90, ingressa no PT do Rio Grande do Sul.

Passados 40 anos, Lovecchio recebe uma pensão de R$ 571,00 por mês. Diógenes recebeu do Bolsa Ditadura R$ 400 mil, para começar, e mais uma pensão mensal de R$ 1.627,00.

Este, caro leitor, é o país em que você vive. E esta é a gente que vos governa.

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§ 6 Respostas para Finalmente, uma vítima das “vítimas da ditadura”

  • Ben disse:

    Que justiça é essa que favorece quem nunca acatou a lei? Pessoas com transtornos psicológicos usam a ideologia para justificar a prática de crimes hediondos. A questão é: O crime é um meio ou é um fim para essas pessoas?

    • fernaslm disse:

      é isso aí, ben,
      a descrição do assassinato do capitão Chandler por um dos assassinos, no link indicado no artigo deixa poucas duvidas de que o caso, aqui, é de falsa invocação da política por gente com vontade de matar.
      dificilmente, aliás, alguem, em sã consciência, poderia chamar aquilo que aparece nas duas fotos aí em cima de obra política…
      aceita-se a ideia de luta armada como recurso extremo da política quando o desafiante se enfrenta diretamente com o tirano ou com agentes armados da tirania, correndo o risco do revide. mas não quando assassina covardemente gente desarmada pelas costas ou quando assassina inocentes a esmo, com bombas.
      é digno de nota, aliás, que esse tipo de covarde é o que mais põe a boca no mundo, exigindo para si a chance que não deu às suas vitimas, quando chega a hora de pagar pelo que fez.
      existem, sim, vitimas da ditadura no Brasil. mas é preciso separar o joio do trigo.

  • Maria Cecilia disse:

    Não concordo com o que houve no tempo da ditadura nem com as torturas impostas pelo então governo militar, mas também não sou a favor de lutas armada e nem de terrorismo, houveram erros de ambos os lados e acho que o governo deve ser imparcial e indenizar esses que foram vitimas inocentes de uma guerra da qual não estavam envolvidos

  • ana disse:

    Essa ditadura de que tanto falam, só foi atingido quem estava militando pela esquerda. Não conheço uma pessoa ligada aos meus círculos de amizade que tenha sofrido algum tipo de perseguição. A esquerda é escandalosa, mentirosa e adora se fazer de vítima. Ainda tem idiotas que defendem a esquerda, em todos os países que tentaram implantar este sistema nunca foram pra frente economicamente e nem o povo conseguiu ser livre. O mundo já está velho para acreditar nessa historinha.

  • Ana Lúcia disse:

    O assassino de meu pai (Newton de Oliveira Nascimento) pretendia realizar um sequestro. A ação foi coibida pela PM e meu pai foi executado com um tiro à queima-roupa na cabeça. A família do assassino (Sr. Mário de Sousa Prata) foi gratificada com uma bela indenização. Minha mãe teve que ir trabalhar para sustentar a mim e minha irmã, na época, com 4 e 2 anos, respectivamente. Meu pai foi e eu e minha irmã somos vítimas de uma das “vítimas” da ditadura militar.

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