“Eu sou. Mas quem não é?”

22 de novembro de 2011 § 1 comentário

Deu no Globo de hoje: “Camponeses do Araguaia terão pensão mensal“.

Para quem tem menos de 22 anos (tomo o ano da Queda do Muro como marco) e não é aluno da USP ou dos outros centros de culto ao atraso aparelhados pelo PT na rede dita de “educação pública” nacional, informo que “camponês” é o velho peão ou, simplesmente, o caipira, o sertanejo, o matungo, conhecido desde sempre em todo  interior do Brasil, que se declara “de esquerda”.

No caso em questão, aliás, cabe uma dúvida. Porque seriam esses novos felizardos das indenizações por perseguições sofridas na ditadura militar “camponeses” e não “povos da floresta” como costumam ser classificadas as populações afundadas no sertão que vivem de extrativismo e coleta que se declaram ou são declaradas “de esquerda”? Afinal, naqueles idos de 1972 a 1975, quando rolou a tal “guerrilha”, o Araguaia era mesmo um sertão e era isso que eles eram e não representantes do proletariado rural empregados de algum capitalista (o que, na Europa e cercanias, já se chamou “camponês” no passado), de resto completamente ausentes daqueles matos ainda virgens.

É que sendo a “guerrilha” do Araguaia “de inspiração maoísta” e Mao Tsetung o grande artífice da “Revolução Camponesa” fica explicada a nuance para os que se satisfizerem em deixar de lado a pergunta sobre o que, diabos, tinha a ver a situação dos sertões do Brasil Central dos idos dos anos 70 do último século do milênio passado com a dos camponeses da China multimilenar e seus mandarins.

Não interessa. Aquele rincão do Brasil Central se tornou para sempre um pedaço da China nos trópicos, como prova a terminologia eruditamente resgatada pelo Globo, porque assim sonharam os “guerrilheiros” da alta burguesia de Ipanema e do Jardim América que, com a Paris de 1968 na cabeça, para lá se bateram de Livrinho Vermelho em punho (viram que essa relíquia reapareceu na ultima invasão da USP?). E ponto final.

Enfim, são detalhes só para os profundos conhecedores do assunto.

Felizmente no Brasil tudo é mais fácil. Se esse negócio de “ser de esquerda”, entre nós, não requer um comportamento, uma biografia e nem, muito menos, uma relação com o dinheiro coerentes com a ideologia professada nem para quem está no poder e sob os holofotes da mídia, que dirá para o resto.

É como a coisa da raça. Para fins comerciais, é “de esquerda” quem se declara “de esquerda”, não sendo necessário nada mais. Basta isso para se candidatar a uma indenização, se você for um “camponês” das proximidades da região do Araguaia, ou a um lote de terra alheia se você for um candidato a “camponês” de qualquer outra região do Brasil, inclusive das cidades.

Pode-se requerer essa “condição” sem jamais ter pisado no barro e, certo como o dia nascerá amanhã, ganhar um sitiozinho do governo, isento inclusive das leis de preservação ambiental, e mais anos a fio de subsídios e cestas básicas só por pronunciar essas palavras…

Se a preferência do candidato a esse tipo de transação “esquerdista” for de raça, basta se declarar negro, ainda que, como a de Branca, a sua pele seja “alva como a neve”, e você fará jus a entrar nos centros de culto ao atraso petistas sem prestar o exame vestibular que se exige dos brancos, pardos ou mesmo negros, ainda que de pele “negra como a asa da graúna”,  que hesitam em se declarar negros.

Entende?

Nossas instituições são tão precisas quanto a essas questões de “correção política”, aliás, que a mera inserção numa classe social já determina privilégios e ônus certos, como prova a nossa legislação trabalhista. Sendo o queixoso “empregado” e o demandado “patrão”, é certo que aquele espoliará este, qualquer que tenha sido a qualidade da relação entre ambos e o grau de respeito a cada minúcia da legislação trabalhista durante o tempo em que fizeram negócios um com o outro, sempre que ele entrar com uma “queixa” na “Justiça do Trabalho”.

Não são necessárias provas. É que havendo sempre mais empregados que patrões e sendo a “Justiça do Trabalho” um excelente trampolim para voos mais altos na política, onde jogam-se as paradas que realmente valem a pena serem jogadas, a “justiça” que ela expede penderá invariavelmente para o lado que rende mais votos.

É a esse tipo de sedução que os patronos da corrupção grossa que aparece nos jornais submetem, a cada passo, a consciência de cada brasileirinho e brasileirinha desde que nascem: “Mentir e trair é dinheiro no bolso!”

Fica, assim, explicado de uma vez por todas. O país não reage à grande roubalheira do varejo governamental e da administração pública, fenômeno que tanto impressiona  os estrangeiros que tentam entender o Brasil, porque vem sendo, desde sempre, corrompido no atacado.

Do que resulta, ao fim e ao cabo, que quase ninguém escapa do hoje praticamente oficial “Eu sou. Mas quem não é?

§ Uma Resposta para “Eu sou. Mas quem não é?”

Deixe uma resposta

O que é isso?

Você está lendo no momento “Eu sou. Mas quem não é?” no VESPEIRO.

Meta

Descubra mais sobre VESPEIRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading