Austeridade

5 de maio de 2010 § Deixe um comentário


Artigo de Tony Judt para The New York Review of Books

Contribuição de Katia Zero (tradução FLM)

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Minha mulher, muito conscienciosamente, pede ao restaurante chinês que entregue o pedido em caixas de papelão. Meus filhos, é deprimente reconhecê-lo, sabem tudo sobre mudanças climáticas. Nossa família é ecologicamente responsável: para os padrões deles, eu sou uma espécie de relíquia dos tempos da inocência ecológica. Mas quem é que anda pelo apartamento apagando luzes e concertando torneiras que pingam? Quem é que prefere o “conserte você mesmo” nesta era das substituições? Quem recicla o que os outros jogam fora e vive guardando cuidadosamente os papeis de embrulho? Meus filhos cochicham para os amigos: papai cresceu na pobreza. De jeito nenhum, eu os corrijo: eu fui criado num tempo de austeridade.

Depois da guerra, faltava de tudo. Churchill hipotecou a Inglaterra e quebrou o Tesouro para derrotar Hitler. As roupas foram racionadas até 1949, as mobílias, baratas e estritamente utilitárias, até 1952, comida ate 1954. As regras foram amenizadas por um breve período para a coração de Elizabeth, em 1953: todo mundo pode pegar meio quilo a mais de açúcar e 100 gramas de margarina. Mas esse rápido exercício de generosidade só serviu para destacar ainda mais a rotina do regime racionado do dia a dia.

Para uma criança daquele tempo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas. Tanto que muito depois dele ter sido suspenso, minha mãe me convenceu de que os doces ainda estavam sob restrição. Quando eu disse que meus colegas de escola tinham livre acesso a eles, ela me explicou, com ar de reprovação, que provavelmente os pais delas estavam recorrendo ao mercado negro. E  a historia dela me pareceu tão convincente porque a herança da guerra ainda estava por toda a parte. Londres estava cheia dos restos dos bombardeios: onde antes houvera casas, ruas, lojas e armazéns, agora havia apenas barreiras de cordas cercando áreas cobertas de detritos, normalmente com uma grande depressão no meio, no ponto onde a bomba tinha caído. La pelo começo dos 50, a maior parte das bombas que não tinham explodido já tinham sido encontradas e desarmadas e as áreas bombardeadas, ainda que mantida a proibição de acesso, não eram mais perigosas. Viraram lugares irresistíveis para moleques loucos para brincar.

O racionamento e os subsídios faziam com que todos tivessem acesso às necessidades básicas. O governo trabalhista do pós-guerra garantia às crianças uma bem sortida cesta de produtos básicos; leite, suco de laranja concentrado e até óleo de fígado de bacalhau – que a pessoa tinha de buscar na farmácia depois de se identificar. O suco de laranja concentrado vinha em vidros quadrados, com cara de vidro de remédio. Eu nunca mais deixei de associar essas duas coisas. Ate hoje tomar um copo grande demais me faz sentir um pouco de culpa: “melhor não tomar ele inteiro de uma só vez”. E sobre o óleo de fígado de bacalhau, que autoridades benevolentes empurravam para as mães, é melhor nem falar.

Nos tivemos a sorte de alugar um apartamento por cima de um cabeleireiro onde meus pais trabalhavam, mas muitos dos meus amigos viviam em precárias habitações temporárias. Todos os governos britânicos de 1945 até meados dos 60 se comprometeram com grandes programas de construção de habitações; mas nunca se conseguia vencer a carência. No começo dos anos 50 milhares de londrinos ainda viviam em casas pré-fabricadas que não eram mais que dezenas de traillers estacionados em terrenos vazios. “Habitações provisórias” que permaneciam lá por anos.

A receita para uma casa do pós-guerra era minimalista: residências de três quartos deviam ter pelo menos 250 metros quadrados – mais ou menos o que tem hoje um apartamento de um quarto em Manhattan. Elas eram espartanas, friorentas e mal mobiliadas. Mas  havia longas listas de espera, que o governo tinha de manejar com todo o cuidado, para se conseguir uma.

O ar que se respirava na capital lembraria um dia ruim em Pequim: o carvão era o combustível da época, barato e com produção domestica. O smog era um problema permanente: eu me lembro de ter, muitas vezes, de me pendurar para fora da janela do carro para ir dizendo ao meu pai a que distancia ele estava da próxima curva porque, literalmente, não se enxergava um palmo adiante do nariz. E o cheiro era horrível. Mas todo mundo ia tateando o caminho sem se queixar: Dunquerque e as bombardeios eram invocados o tempo todo, sem nenhuma intenção de ironia, para ilustrar a fibra da Nação e a capacidade dos londrinos de agüentar tudo – primeiro Hitler, agora isto.

A Primeira guerra era tão familiar para mim quanto a que tinha acabado de terminar. Veteranos, memoriais e cerimônias relembrando os seus marcos estavam por toda a parte; mas não existia nada de parecido com esse tipo de patriotismo ostentatório dos americanos de hoje. Ate a guerra era austera: eu tinha dois tios que tinham lutado no Oitavo Exército de Montgomery da África até `a Itália e não havia nada de nostálgico ou de triunfalista nos relatos que eles faziam. Os arrogantes musicais evocativos do império tinham sido substituídos pelas canções de Vera Lynn no radio. E via-se, já desde o crepúsculo da vitoria, que as coisas nunca mais seriam as mesmas.

As repetidas referencias ao passado recente estabeleceram uma ponte entre a geração de meus pais e a minha. O mundo dos anos 30 ainda estava conosco. Por onde se olhava ainda se via alusões aos tempos gloriosos do império – a Índia tinha sido “perdida” poucos meses antes de eu nascer. As louças comemorativas, os estojos do colégio, as capas dos livros escolares e os noticiários dos cinemas nos lembravam a toda hora de quem éramos e do que tínhamos conquistado. “Nós” não era apenas uma convenção gramatical: quando Humphrey Jennings produziu um documentário para o Festival Inglês de 1951, ele o chamou de “Retrato de Família”. A família podia estar atravessando tempos difíceis, mas ninguém tinha duvidas de que nós estávamos todos juntos naquilo.

E era essa união que tornava suportável as carências e dificuldades do pós-guerra na Inglaterra. É claro que não éramos realmente “uma família” de iguais. Mas, de qualquer maneira, desde a guerra, os ricos passaram a manter um prudente low profile.  Havia muito poucos sinais de consumo ostensivo naquela época. Todo mundo se vestia mais ou menos igual. Usava cores discretas – marrom, bege, cinza – e vivia vidas semelhantes. Nós, crianças de escola, aceitamos os uniformes de cara porque também nossos pais andavam meio uniformizados.

A Grã Bretanha iria, eventualmente, emergir das penúrias do pós-guerra – ainda que com menos “panache” e auto-confiança que seus vizinhos da Europa. Para qualquer um cujas memórias não passem muito para trás do final dos anos 50, “austeridade” é uma palavra abstrata. Os racionamentos e restrições já tinham acabado, havia casas para quem quisesse: a típica desolação da Inglaterra do pós-guerra estava desaparecendo. Até o “smog” estava diminuindo, agora que o carvão tinha sido substituído pela eletricidade e pelos combustíveis líquidos.

Curiosamente, o cinema escapista do imediato pós-guerra tinha sido substituído por dramas sobre as penúrias da classe trabalhadora estrelados por atores como Albert Finney e Alan Bates. Mas esses filmes foram feitos no Norte, onde a austeridade durou mais, assisti-los em Londres era como voltar no tempo: no Sul, lá por 1957, o primeiro-ministro conservador Harold Macmillan podia assegurar aos seus ouvintes que a maioria deles nunca tinha vivido tempos melhores. E ele estava certo.

Eu só comecei a entender bem o impacto desses anos de juventude recentemente. Olhando de onde estamos hoje é que se vê melhor as virtudes daqueles anos duros. Ninguém poderia, em sã consciência,  desejar a volta deles. Mas austeridade não era apenas uma condição  econômica: era uma ética publica. Clement Attlee, o primeiro-ministro trabalhista de 1945 a 1951, emergiu – como Harry Truman – da sombra de um líder carismático dos tempos de guerra para personificar as baixas expectativas daquela época.

Churchill, maldosamente, dizia que ele era “um homem modesto que tinha sobradas razoes para ser modesto”. Mas foi Attlee quem liderou o maior período de reformas da historia da Inglaterra moderna – conseguindo avanços comparáveis aos conseguidos por Lindon Johnson duas décadas mais tarde, só que sob circunstancias muito menos favoráveis. Como Truman, ele viveu e morreu modestamente, tirando muito poucas vantagens materiais de uma vida inteira dedicada ao serviço publico. Attlee foi um protótipo perfeito da grande era dos reformadores da classe media edwardiana: moralmente sério e rigorosamente austero. Quem, entre os lideres de hoje, pode reivindicar galardão parecido, ou mesmo entender isso como um galardão?

A seriedade na vida publica é como a pornografia: é difícil defini-la mas você sabe o que é quando se depara com ela. É uma expressão que descreve a coerência entre a intenção e o ato, uma ética da responsabilidade política. Toda política é a arte do possível. Mas também a arte tem uma ética. Se os políticos fossem pintores, com Franklin Delano Roosevelt como Ticiano e Churchill como Rubens, então Attlee seria o Vermeer do grupo: preciso, contido – e subavaliado por tempo demais. Bill Clinton podia aspirar às alturas de Salvador Dali  (e ele pode se considerar elogiado pela comparação), e Tony Blair à pose – e à cupidez – de Damien Hirst.

Nas artes a seriedade moral remete a uma economia na forma e a um recato estético: ao mundo de Ladrões  de Bicicletas, por exemplo. Recentemente apresentei Os Incompreendidos, de François Truffaut, ao meu filho de 12 anos. Vindo de uma geração acostumada à dieta atual de “cinema de mensagem” do tipo O dia depois de Amanhã ou Avatar, ele ficou de queixo caído: “Ele consegue fazer tanto com tão pouco!”. É por aí mesmo. A riqueza de recursos que se aplica ao entretenimento hoje só serve para esconder a pobreza dos produtos; igual ao que acontece na política onde o blá-blá-blá sem fim e a grandiloqüência retórica mascaram um vazio de dar sono.

O antônimo de austeridade não é prosperidade, mas sim luxo e voluptuosidade. Nós substituímos a idéia de sentido publico pela noção de comercio sem fim; não esperamos nenhum tipo de aspiração mais alta de nossos lideres. Sessenta anos depois que Churchill se declarou em condições de oferecer apenas “sangue, suor e lágrimas”, o nosso próximo presidente guerreiro, apesar do hiper alardeado “moralismo” de sua retórica, não conseguiu pensar em nada melhor para nos pedir,  diante do trágico impacto do 11 de setembro, do que “que continuássemos comprando”. Essa visão empobrecida de comunidade – reduzida à idéia de comunhão no consumo – é tudo que merecemos dos que nos governam. Se quisermos lideres melhores, teremos de aprender a exigir mais deles e menos para nos mesmos. Um pouquinho de austeridade viria a calhar.

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