Porque não dá pra comemorar a paz no Rio

1 de maio de 2010 § Deixe um comentário

Quarta-feira passada, 28 de abril, vai entrar para a história do Brasil como o dia da queda de uma das mais trágicas fabricações do banditismo político de que este pais tem sido vitima.

Sem que um único tiro fosse disparado, o famigerado Morro do Borel, centro de distribuição de armas e de drogas para toda a rede do crime organizado fluminense, e outras seis favelas dominadas pelo tráfico na região da Tijuca, Rio de Janeiro, foram finalmente re-anexadas ao território nacional depois de uma tranqüila operação da policia carioca.

O momento foi carregado de simbologia, a começar pelo nome do comandante da operação, o coronel Príncipe (Fernando Príncipe),  que, para suprema irritação do governador Sergio Cabral, resumiu com precisão nunca antes alcançada a tragédia da segurança publica do Rio de Janeiro e do Brasil: “Se tivesse posto um escoteiro seria mais que suficiente para tomar a favela”.

De fato, uma decisão política – a de Leonel Brizola de compor-se com o crime organizado – fez dos morros cariocas o inferno em que eles se transformaram durante as décadas em que ficaram entregues à bandidagem; outra decisão política, para a implementação da qual a força física foi o requisito menos importante como destacou o coronel, bastou para voltar  a submetê-los ao império da lei. Se foi assim com a cidadela central do crime organizado no Brasil, pode-se imaginar o que se poderia obter se, no país inteiro, houvesse uma firme decisão política de lidar com a questão da segurança publica com a seriedade e a decisão que o assunto pede.

O que ha de lastimável nesse episódio é que não se pode, a bem da verdade, comemorá-lo como uma conquista brasileira. Como a libertação dos escravos, também a libertação dos morros cariocas nos foi imposta de fora.

Foi preciso que dois grandes eventos internacionais – uma Olimpíada e uma Copa do Mundo – entrassem na agenda da cidade para que os políticos cariocas se dignassem encarar a sua porca obrigação em relação à segurança publica.

O Rio está sendo pacificado “para inglês ver” e não porque os parasitas que nos sugam tenham se cansado de ver sangue inocente jorrar.

É prova disso a irada reação do governador Cabral, ao mandar transferir o Príncipe, herói do Borel, depois que o seu comentário, inadvertidamente, chamou a atenção da opinião publica para o quanto havia de criminosa omissão na tolerância para com o domínio dos morros pelo crime até à véspera das inspeções do Comitê Olímpico Internacional e da FIFA na cidade.

É prova disso a renitência das nossas “autoridades” em “resolver”  o crônico descalabro do sistema prisional soltando presos perigosos.

É prova disso a persistência granítica nas esquerdas de todos os tons que monopolizam a política nacional – à prova de todo fato; à prova de toda tragédia – do dogma de que todo e qualquer criminoso é uma vitima da sociedade; que é ela, antes dele, que deve ser punida quando o crime se manifesta; que a única função da prisão é reeducar esses pobres “infratores” e não preservar a sociedade da sua sanha assassina, ainda que se trate de psicopatas irremediáveis como são os estupradores de crianças.

O povo dos morros cariocas; o povo brasileiro merece um pouco de paz e toda a segurança que o Estado lhe nega. E é certamente uma benção a inédita dose dela que o Rio começou a receber, seja por que motivo for.

Mas, no intimo, no íntimo, a gente sabe: isto não foi feito por nós nem para nós…

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