1889, Getulio e a razão do meu otimismo
10 de janeiro de 2014 § 6 Comments
Chego das férias digerindo o mergulho em dois momentos da História do Brasil – o segundo volume do Getúlio, de Lira Neto, e o 1889 de Laurentino Gomes que me fizeram companhia nestes dez dias – com a convicção reforçada de que este país ainda não fez a sua revolução fundadora.
É uma ideia sempre reconfortante esta de colocar-me na perspectiva da pré-história da Nação brasileira, porque deixa abertos todos os horizontes possíveis para o futuro, dependendo apenas de quanto tempo queira-se contemplar para adiante.
Um ajuntamento humano só se torna uma sociedade de fato – uma sociedade “de contrato” – quando o povo impõe aos governantes as condições em que aceita algum grau de redução da liberdade de que cada um, até então limitado apenas pelos seus dotes físicos e pelos ditames da sua consciência, desfrutava no “estado de natureza”, para obter os benefícios de uma ordem política.
A brasileira nunca chegou a isso.
O que tem havido aqui nesse campo, desde o Descobrimento, é uma relação dominante/dominado imposta sob variados disfarces mas sempre imposta.
Nossas 8 Constituições, que começaram a pipocar a partir do momento em que o mundo tornou impossível não dispor de uma, têm sido decretadas ou outorgadas de cima para baixo por príncipes, por ditaduras proto-totalitárias ou por ditaduras mitigadas mais ou menos assumidas como tal, sempre tangidos pelas marés políticas planetárias.
Os fugazes interlúdios de concessões à civilização em nossa normalidade institucional sempre bárbara, ou foram acidentes presos à figura de déspotas benevolentes, ou foram hiatos decorrentes do esgotamento dos seus regimes determinados, ou por grandes viradas na conjuntura internacional, ou pela exacerbação até o paroxismo da desordem decorrente da mistura de incompetência com voracidade desses predadores e a consequente auto-falência das ditaduras por eles encarnadas.

Ao povo, suposta fonte exclusiva de toda legitimidade política, tem cabido assistir a tudo isso de longe e tratar, depois de estabelecidas as novas regras do jogo sempre viciadas na mesma direção, de engendrar os “jeitinhos” para deixar de cumprí-las sem pagar as consequências formalmente estipuladas para isso.
Houve as duas semi-portuguêsas – 1822 e 1824 – feitas por e para portuguêses, mas também “pra inglês ver”.
A Abolição foi, igualmente, “pra ingles ver”. Fomos constrangidos pelos canhões apontados pelos navios britânicos que fecharam nossos portos ao tráfico negreiro, a “escolher” o fim da escravidão.
Com ela, de troco, veio a Republica e a Constituição de 1891. Pura ficção. O país continuou no “cabresto” dos “coronéis”, na fraude eleitoral e no uso e abuso dos muitos pelos poucos até reassumir o namoro com a ditadura a partir de 1930 e casar-se definitivamente com ela em 1937, ano da edição da “Polaca“, que institui a ditadura do “Estado Novo” fascista, documento comparado com o qual o AI-5 parece um manifesto libertário.
A única exceção – pela natureza autenticamente autóctone do movimento que acabou por impô-la, caso único na História do Brasil – foi a Constituição de 1934, a mais democrática que já tivemos e que vigorou por menos de três anos, enfiada goela abaixo de Getúlio Vargas por São Paulo e o Movimento Constitucionalista de 1932.
Mas isto será tema de outro artigo logo adiante.
A “democratização”, em 1946, foi outra farsa imposta de fora: a ditadura de Getulio só caiu formalmente porque o cavalo em que ele apostou perdeu. Chamava-se Adolf Hitler e foi derrotado pelos “ingleses“, pelo que fomos constrangidos a “escolher a democracia” depois de sermos obrigados a morrer por ela antes de conhece-la na guerra da Europa.

No Brasil mesmo, nada se opunha ao ditador senão a meia dúzia de gatos pingados de sempre. E eu sei bem quais e quantos eram eles, e com quanta disposição de sustentar suas atitudes sob a ameaça de sacrifícios físicos e econômicos se apresentavam, porque boa parte deles era gente da minha própria família que sentiu literalmente na pele essa desértica escassez.
A verdade dolorida e sintética é que o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.
Quem quer que alimente ilusões sobre o que veio depois – e de lá até hoje – deveria ler o penúltimo capítulo do segundo livro de Lira Neto, onde ele transcreve a receita de “constituição democrática” encomendada pelo ditador a Marcondes Filho, seu ministro da Justiça e do Trabalho, cargos que não por acaso eram cumulativos no “Estado Novo” fascista, para que, seguindo os cânones estabelecidos pelo Secretário da Presidência, Luis Vergara, que faria jus ao título de Machiavel brasileiro, a ditadura “ganhasse o tirão”, expressão gaucha que significa antecipar-se ao inimigo numa peleja, para que tudo continuasse igual embora passando uma impressão de mudança diante do incontornável tsunami democrático que atingia nossas praias a partir da Europa.
“O povo se cansa dos mesmos figurantes da encenação governamental, como se cansa e se desinteressa dos comediantes que no palco se apresentam todos os dias, vestindo do mesmo modo, entrando e saindo pelas mesmas portas, usando dos mesmos truques e fazendo as mesmas momices”, dizia o secretário ao grande comediante da pantomima nacional de então. E aconselhava o ditador: “É preciso oferecer coisas novas, prender a atenção do público e evitar-lhe o cansaço…”.

Como excluir candidaturas adversárias jogando com os prazos; como manipular os sindicatos e outras formas de “representação da sociedade civil” e fazer delas o filtro prévio das eleições legislativas; como “aparelhar” os cargos responsáveis pela fiscalização das eleições; como manter esses “representantes do povo” e as “bancadas” por eles formadas no Congresso Nacional sob a firme tutela do governante de plantão; como comprar os grandes empresários e, através deles, manter sob controle todos os demais que deles dependem, seja como consumidores dos insumos básicos cuja produção o ditador lhes outorgara, seja como únicos compradores de sua produção; como cooptar artistas e intelectuais e torná-los mansos e servis; como estruturar “uma campanha nacional de filmes subordinada ao titulo ‘O que o presidente realiza’ e inundar com ela o país”; a criação da Hora do Brasil, no ar até hoje, precursora do Horário Eleitoral Gratuito; como “preparar um folheto de divulgação da Constituição escrito em linguagem simples, de emoção patriótica, de sensibilidade e até mesmo de certa poesia, de acordo com a índole brasileira”…
Não iventou rigorosamente nada que já não estivesse nesse documento o famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT já tentou nos fazer tragar uma vez e vem nos impondo aos pedacinhos desde então.
“Instalado um filtro de seleção negativa no sistema político“, ensinava meu avô, “só o pior aflora“. E isso, graças aos expedientes acima descritos, na sociedade inteira e não apenas na política. A cada nova “bombada” no caldo ele se torna mais toxicamente homogêneo e mais difícil fica reverter o processo. O perigo, portanto, é cair no “vórtice argentino” do qual parece não haver retorno.
Getúlio se inspirou em Domingo Perón. Getúlio caiu, Getúlio voltou, Getúlio morreu mas a vida institucional do país permaneceu torta como ele a fez. O hiato da ditadura militar é um ponto fora da curva, resquício ainda da herança da Força Expedicionária do Exército Brasileiro que foi lutar pela democracia na Itália. Jango, o exumado “El Cid” pelas avessas posto para cavalgar pelos incansáveis “revisores da história oficial” petistas era mole demais; Brizola era irresponsável demais; os agentes da luta armada eram sanguinários demais…
Lula é o herdeiro perfeito que segue o mestre ao pé da letra, especialmente no ultra pragmático cinismo e na arte da manipulação das ambições e das vaidades dos áulicos que Lira Neto descreve tão bem em Getulio e na qual o ex-metalúrgico de São Bernardo também é doutor suma cum lauda.
A transição da “faccetta nera” para o que viria a ser a “estrela vermelha” a que o “Sistema ” chegaria por inércia ainda foi obra de Getulio e o seu clássico bordão “Boa noite, trabalhadores do Brasilll…”.

A Constituição de 1988 com seus 250 artigos, milhares de parágrafos e 72 emendas (por enquanto) é apenas a “Arca de Noé” na qual tentaram salvar-se do dilúvio que acabou não vindo todos os privilégios e “direitos adquiridos” cavados ao longo de quase seis décadas de corporativismo explícito e mais os 25 anos de desembesto legislativo que se seguiram.
A grande contribuição dos “companheiros de estrada” da Academia ao lulismo é a vitória avassaladora de Gramsci nestes trópicos com que muito provavelmente o grande teórico da conspiração italiano nunca sonhou: a substituição dos banhos de sangue e das armas barulhentas de conquista do poder da “esquerda século 20” por um programa maciço de lavagem cerebral ministrado nas escolas, através da mídia e com o concurso de artistas e celebridades de que até Fidel Castro, industriado por Lula, se tornou um arauto depois do Foro de São Paulo, com o qual a “esquerda século 21”, sem utopia mas armada de dinheiro até os dentes, pretende partir do Brasil para a conquista do mundo.
O próprio Lira Neto é uma vítima desse processo como se verá num próximo artigo.
Essa nova ditadura que se fantasia de democracia apoia-se numa “história do Brasil” cotidianamente reescrita segundo as conveniências do partido e no assassinato ritual da verdade, das novelas da Globo para cima terminando nos palanques e tribunas oficiais, até que não sobre valor algum em pé. Uma vez conquistado o aparelho de Estado ela passa a se impor mediante a operação de um implacável aparato de opressão econômica que, nos bastidores, executa dissidentes, ou pelo “garrote vil” da concorrência com o “campeão nacional” ungido pelo BNDES para controlar quem passa e quem não passa pelas grandes encruzilhadas do jogo econômico, ou pela “guilhotina” de uma Receita Federal que exige, seletivamente, o cumprimento de uma “ordem tributária” especialmente desenhada para ser letal quando cumprida.
O esforço e o merecimento não garantem nada a ninguém, muito pelo contrário. Ameaça ao “Sistema” que é, a meritocracia é mais temida por essa “nova esquerda” que a cruz pelos vampiros. É o grande inimigo a ser combatido pois é imprescindível que não exista um direito à sobrevivência economica institucionalmente balizado e que só Sua Majestade possa concedê-la, caso a caso.
O que antes se fazia com a espada, primeiro, e com o fuzil Kalashnikov, depois, hoje faz-se, portanto, a golpe de bilhões ou brandindo as leis onde, desde sempre, segue havendo mais de uma para cada caso, aplicavel conforme a cara do freguês.
É sobre esse monopólio da concessão de “segurança (econômica)” (a admissão dentro das muralhas do castelo em troca de servidão), a ancestral arma de submissão do homem que, em tais ambientes, não pode ser conquistada de outra forma, que repousa toda força do “Sistema“.

Para os amigos do rei, dinheiro fácil (pouco ou muito, não importa), mesuras e, quando inevitavel, prisões especiais. Para o povão – que “a tudo isso assiste bestificado” como registra Laurentino Gomes citando uma testemunha do golpe republicano – pouco mudou. A tortura faz parte do cotidiano de todo “zé” que cruza com a polícia ou cai doente num hospital público. No mais, é a esmola, o “cabresto” do trabalho hiper-regulamentado, o poder de vida e morte do governo sobre os empregadores, a realimentação permanente dos dependentes químicos com as drogas corrosivas da distribuição de pequenos privilégios e da corrupção socializada e, no extremo, as prisões que o próprio Ministro da Justiça teme mais que a morte.
Da senzala para as favelas; dos grotões para as cinzentas periferias “de bloco”, o “País Oficial” só lhes dirige o olhar se e quando tangido pelo mundo exterior.
A rapina do dinheiro público só arrefece quando a corrosão da moeda nacional face à baliza do dinheiro estrangeiro toma o aspecto doméstico de inflação galopante; a segurança pública só é ensaiada onde os “ingleses” da Copa vão passar; os trogloditas das torcidas e das prisões dantescas só são reprimidos se a ONU se coçar; o saneamento básico só chega à antiga capital da República, em pleno Terceiro Milênio, como exigência do Comitê Olímpico Internacional pra “inglês” poder se banhar…
Brasileiro foda-se.
Nesse eterno mar revolto da selvageria institucional onde as “excelências” nadam de braçada vêm naufragando seguidamente as classes médias, sempre eleitoralmente insignificantes mas que, apesar de tudo, conseguem erigir-se pelo merecimento (a outra, do funcionalismo público, não sabe o que é crise), e os democratas autênticos, frequentemente acompanhados pela esquerda honesta que incomoda a outra mais que os primeiros pelas mesmas razões que Abel incomodava Caim.
Mas mesmo assim eu sou otimista!
Laurentino Gomes, no seu 1889, apresenta os números que justificam essa insistência. Descontados os primeiros séculos do Brasil Colônia o dado que menos se alterou é a proporção de analfabetos e ilustrados deste nosso gigante adormecido. Descontado o leve verniz acrescentado desde então às duas pontas dessa equação, seguimos nos mesmos 85% contra 15% dos albores da República. A comparação do nível dos “alfabetizados” daqui com os alfabetizados dos países institucionalmente desenvolvidos completa os dados da charada brasileira.
Da Abertura dos Portos para o Império; do Império para a Primeira República; do fim da “Era Vargas”, ainda nos estertores, até os nossos dias, o país tem vivido ciclos sucessivos de apuração da ordem institucional e econômica instalada pela fatia sempre exígua dos “incluídos” de cada momento seguida da diluição resultante da inclusão de uma nova “tranche” de “excluídos” que, até então, limitavam-se “a tudo assistir bestificados”.

Só que as retomadas, a cada volta nesse círculo, se dão a partir de um patamar mais baixo que o anterior em função do progressivo enfraquecimento de um Estado cada vez mais esvaziado da sua função de agente equlizador das oportunidades e mais pervertido em vetor de disseminação de privilégios a que só os piores fazem jus.
Ainda assim o Brasil segue inserido no mundo, razão pela qual o esforço nunca é de todo inútil e o contingente dos “incluídos” consegue crescer pouco a pouco, o que prova conclusivamente a superioridade do brasileiro como agente produtivo. Nenhum dos seus concorrentes “civilizados” permaneceria vivo meia hora na arena global com 10% das adversidades que enfrentamos na nossa cotidiana guerrilha econômica. Livres de metade do peso que carregamos, “malhados” como temos de estar os que sobrevivemos, daríamos “um passeio” na disputa mano-a-mano em qualquer um deles.
Como sociedade, entretanto, só a partir do momento em que uma maioria estiver “incluída” no universo dos com alguma educação, memória, poder de consumo e preparo para enfrentar as responsabilidades da democracia haverá condições objetivas de chegarmos à nossa “revolução fundadora” que constrangerá o Estado, provavelmente mediante o uso das mesmas armas que redimiram outros povos oprimidos como a do voto distrital com recall entre outras, a reassumir a condição de agente positivo do processo, focado na busca da igualdade de oportunidades pelo único caminho efetivo para isto que é a educação.
No preâmbulo do seu 1889, Laurentino Gomes dá a sua versão do mantra que venho repetindo aqui sobre o papel do estudo da História como a “psicanálise das sociedades” ao saudar a safra crescente de produção historiográfica de qualidade e a enorme curiosidade do público pelos seus frutos que se tem constatado nos últimos anos no Brasil.
Tomar consciência da ancestralidade dos engodos que continuamos a tragar de geração em geração graças ao meticuloso trabalho de lavagem da memória nacional que os inimigos da democracia empreendem por aqui, tem um efeito fulminante.
Concordo que este renovado interesse pela História do Brasil são as primeiras luzes do alvorecer de uma nova etapa no nosso processo de amadurecimento político que tem o potencial de agir tão rápida e irresistivelmente sobre o mar de mentiras que hoje prevalece quanto o sol sobre os cogumelos que vivem da sombra.
Os que hoje nos parecem invencíveis são a versão tropical dos “tigres de papel” do hemisfério Norte do milênio passado, prestes a ser amarfanhados e atirados à lata de lixo da História com atraso mas com a mesma surpreendente e inesperada presteza e ausência de resistência com que seguiram esse mesmo destino os totalitarismos que os inspiraram e que até hoje eles insistem em mimetizar, agora proverbialmente como farsa.
MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O VOTO DISTRITAL COM RECALL NESTE LINK
Lula, a Líbia e o lado errado da História
22 de agosto de 2011 § 1 Comment
E já que estamos em histórias da família, aqui vai outra que vem a calhar para este momento.
Sempre que ouço falar em “novas auroras para a humanidade” (ou até em versões mais prosaicas do mesmo conceito como o nosso “nunca antes na história deste país”) sinto um calafrio.
Meu pai sempre conta que quando a ditadura Vargas nos tomou O Estado (em março de 1940) e a família estava na maior draga, qualquer esperança no futuro dependia de que alguém conseguisse arrancar o Hitler da jugular da Europa. Então veio a queda da França (em junho de 1940) e foi o maior desespero.
A parada parecia definitivamente resolvida. O nazismo ia dominar o mundo…
E enquanto as esperanças iam pelo ralo, com o pai dele exilado já havia mais de dois anos, a mãe chorando potes debruçada sobre o rádio ouvindo as notícias da Europa nas ondas curtas da BBC e os alemães marchando por baixo do Arco do Triunfo, o Getulio saudava a tomada de Paris com um discurso que começava assim:
“Uma nova aurora desponta para a humanidade…”
Eu quase posso ouvi-lo em minha imaginação, cheio dos “eles” e “erres” típicos dos gauchos, naquele som meio longinquo e chiado do radio de antigamente.
Me lembrei disso esta manhã quando li o artigo de Clovis Rossi, na Folha, dizendo que a queda de Trípoli deixa o Brasil do lado errado da História. E eu mesmo escrevi, semana passada, que é a primeira vez que isso acontece.
É verdade. Mas foi por pouco.
O Getulio Vargas hoje é tido como o grande herói da esquerda brasileira e esse discurso sumiu dos anais. Mas eu sei por fonte direta que ele esteve lá. A verdade histórica é que, até o momento em que não deu mais para continuar nessa, Getulio foi um fervoroso admirador do Hitler que, se fosse para nos enfiar na guerra, teria sido como o quarto elemento do “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão).
Tinha razão.
Ele caiu depois que os soldados brasileiros voltaram da Itália se perguntando porque, diabos, deveriam continuar tolerando uma ditadura em casa depois de terem ido morrer pela democracia na Europa.
Uma boa quantidade dos que, logo adiante, vieram a se tornar os próceres da nossa esquerda, aliás, eram, naquela mesma época, “integralistas”, uma gente que gostava de vestir uniformes que lembravam os dos nazistas, fazer um tipo de “saudação” com o braço quase igual à deles e pensar as mesmas barbaridades que eles pensavam.
Nada a estranhar.
Afinal, a própria União Soviética, pátria do socialismo real que naquela época todos veneravam (e depois os mais desonestos entre eles continuaram venerando até que caísse de podre contaminada pelos seus próprios crimes) também tinha se aliado ao Hitler num acordo que só não permaneceu em pé porque o alemão era um louco furioso que atacava até os amigos.
Mas a verdade que remanesce é que antes que as doenças de cada um se exacerbassem a ponto de tornar as coisas mais claras, o socialismo bolchevista russo encontrava mais afinidades com o nacional socialismo alemão que com as democracias ocidentais.
O resto do mundo já sarou dessa doença. Mas aqui nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados, esses “pormenores” incomodos continuam expurgados da história que se aprende nas escolas e que, segundo esse pessoal, foi feita mesmo para ser reescrita segundo as conveniências dos donos do poder.
Essa “circularidade” do espectro político, em que os extremos se tocam, sempre foi uma descrição bem mais fiel da realidade que a “polarização” com que os habitantes dessas pontas preferem se fazer representar. E Lula não inova nada também nesse campo.
A sua diplomacia alinhada aos apedrejadores de mulheres do Irã, aos decanos das ditaduras do mundo que, ha 52 anos, queimam livros, prendem e arrebentam em Cuba, aos genocidas do Oriente Médio e da África faz parte de uma sólida tradição das esquerdas de todos os lugares e todos os tempos de se aliarem frequentemente e de se comportarem quase sempre como aqueles que dizem execrar. E se não quisermos sair daqui para ficarmos só com as referências mais próximas dele, está aí para não nos deixar mentir a sua declarada admiração pelo general Geisel, com seu pendor estatizante, o dirigismo megalômano na economia e o estilo “ouça e obedeça” de tratar com a sua “tropa”.
Autoritário com autoritário; ditador com ditador. Nada de novo debaixo do sol.
Austeridade
5 de maio de 2010 § Leave a comment

Artigo de Tony Judt para The New York Review of Books
Contribuição de Katia Zero (tradução FLM)
a
Minha mulher, muito conscienciosamente, pede ao restaurante chinês que entregue o pedido em caixas de papelão. Meus filhos, é deprimente reconhecê-lo, sabem tudo sobre mudanças climáticas. Nossa família é ecologicamente responsável: para os padrões deles, eu sou uma espécie de relíquia dos tempos da inocência ecológica. Mas quem é que anda pelo apartamento apagando luzes e concertando torneiras que pingam? Quem é que prefere o “conserte você mesmo” nesta era das substituições? Quem recicla o que os outros jogam fora e vive guardando cuidadosamente os papeis de embrulho? Meus filhos cochicham para os amigos: papai cresceu na pobreza. De jeito nenhum, eu os corrijo: eu fui criado num tempo de austeridade.
Depois da guerra, faltava de tudo. Churchill hipotecou a Inglaterra e quebrou o Tesouro para derrotar Hitler. As roupas foram racionadas até 1949, as mobílias, baratas e estritamente utilitárias, até 1952, comida ate 1954. As regras foram amenizadas por um breve período para a coração de Elizabeth, em 1953: todo mundo pode pegar meio quilo a mais de açúcar e 100 gramas de margarina. Mas esse rápido exercício de generosidade só serviu para destacar ainda mais a rotina do regime racionado do dia a dia.
Para uma criança daquele tempo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas. Tanto que muito depois dele ter sido suspenso, minha mãe me convenceu de que os doces ainda estavam sob restrição. Quando eu disse que meus colegas de escola tinham livre acesso a eles, ela me explicou, com ar de reprovação, que provavelmente os pais delas estavam recorrendo ao mercado negro. E a historia dela me pareceu tão convincente porque a herança da guerra ainda estava por toda a parte. Londres estava cheia dos restos dos bombardeios: onde antes houvera casas, ruas, lojas e armazéns, agora havia apenas barreiras de cordas cercando áreas cobertas de detritos, normalmente com uma grande depressão no meio, no ponto onde a bomba tinha caído. La pelo começo dos 50, a maior parte das bombas que não tinham explodido já tinham sido encontradas e desarmadas e as áreas bombardeadas, ainda que mantida a proibição de acesso, não eram mais perigosas. Viraram lugares irresistíveis para moleques loucos para brincar.
O racionamento e os subsídios faziam com que todos tivessem acesso às necessidades básicas. O governo trabalhista do pós-guerra garantia às crianças uma bem sortida cesta de produtos básicos; leite, suco de laranja concentrado e até óleo de fígado de bacalhau – que a pessoa tinha de buscar na farmácia depois de se identificar. O suco de laranja concentrado vinha em vidros quadrados, com cara de vidro de remédio. Eu nunca mais deixei de associar essas duas coisas. Ate hoje tomar um copo grande demais me faz sentir um pouco de culpa: “melhor não tomar ele inteiro de uma só vez”. E sobre o óleo de fígado de bacalhau, que autoridades benevolentes empurravam para as mães, é melhor nem falar.

Nos tivemos a sorte de alugar um apartamento por cima de um cabeleireiro onde meus pais trabalhavam, mas muitos dos meus amigos viviam em precárias habitações temporárias. Todos os governos britânicos de 1945 até meados dos 60 se comprometeram com grandes programas de construção de habitações; mas nunca se conseguia vencer a carência. No começo dos anos 50 milhares de londrinos ainda viviam em casas pré-fabricadas que não eram mais que dezenas de traillers estacionados em terrenos vazios. “Habitações provisórias” que permaneciam lá por anos.
A receita para uma casa do pós-guerra era minimalista: residências de três quartos deviam ter pelo menos 250 metros quadrados – mais ou menos o que tem hoje um apartamento de um quarto em Manhattan. Elas eram espartanas, friorentas e mal mobiliadas. Mas havia longas listas de espera, que o governo tinha de manejar com todo o cuidado, para se conseguir uma.
O ar que se respirava na capital lembraria um dia ruim em Pequim: o carvão era o combustível da época, barato e com produção domestica. O smog era um problema permanente: eu me lembro de ter, muitas vezes, de me pendurar para fora da janela do carro para ir dizendo ao meu pai a que distancia ele estava da próxima curva porque, literalmente, não se enxergava um palmo adiante do nariz. E o cheiro era horrível. Mas todo mundo ia tateando o caminho sem se queixar: Dunquerque e as bombardeios eram invocados o tempo todo, sem nenhuma intenção de ironia, para ilustrar a fibra da Nação e a capacidade dos londrinos de agüentar tudo – primeiro Hitler, agora isto.
A Primeira guerra era tão familiar para mim quanto a que tinha acabado de terminar. Veteranos, memoriais e cerimônias relembrando os seus marcos estavam por toda a parte; mas não existia nada de parecido com esse tipo de patriotismo ostentatório dos americanos de hoje. Ate a guerra era austera: eu tinha dois tios que tinham lutado no Oitavo Exército de Montgomery da África até `a Itália e não havia nada de nostálgico ou de triunfalista nos relatos que eles faziam. Os arrogantes musicais evocativos do império tinham sido substituídos pelas canções de Vera Lynn no radio. E via-se, já desde o crepúsculo da vitoria, que as coisas nunca mais seriam as mesmas.
As repetidas referencias ao passado recente estabeleceram uma ponte entre a geração de meus pais e a minha. O mundo dos anos 30 ainda estava conosco. Por onde se olhava ainda se via alusões aos tempos gloriosos do império – a Índia tinha sido “perdida” poucos meses antes de eu nascer. As louças comemorativas, os estojos do colégio, as capas dos livros escolares e os noticiários dos cinemas nos lembravam a toda hora de quem éramos e do que tínhamos conquistado. “Nós” não era apenas uma convenção gramatical: quando Humphrey Jennings produziu um documentário para o Festival Inglês de 1951, ele o chamou de “Retrato de Família”. A família podia estar atravessando tempos difíceis, mas ninguém tinha duvidas de que nós estávamos todos juntos naquilo.

E era essa união que tornava suportável as carências e dificuldades do pós-guerra na Inglaterra. É claro que não éramos realmente “uma família” de iguais. Mas, de qualquer maneira, desde a guerra, os ricos passaram a manter um prudente low profile. Havia muito poucos sinais de consumo ostensivo naquela época. Todo mundo se vestia mais ou menos igual. Usava cores discretas – marrom, bege, cinza – e vivia vidas semelhantes. Nós, crianças de escola, aceitamos os uniformes de cara porque também nossos pais andavam meio uniformizados.
A Grã Bretanha iria, eventualmente, emergir das penúrias do pós-guerra – ainda que com menos “panache” e auto-confiança que seus vizinhos da Europa. Para qualquer um cujas memórias não passem muito para trás do final dos anos 50, “austeridade” é uma palavra abstrata. Os racionamentos e restrições já tinham acabado, havia casas para quem quisesse: a típica desolação da Inglaterra do pós-guerra estava desaparecendo. Até o “smog” estava diminuindo, agora que o carvão tinha sido substituído pela eletricidade e pelos combustíveis líquidos.
Curiosamente, o cinema escapista do imediato pós-guerra tinha sido substituído por dramas sobre as penúrias da classe trabalhadora estrelados por atores como Albert Finney e Alan Bates. Mas esses filmes foram feitos no Norte, onde a austeridade durou mais, assisti-los em Londres era como voltar no tempo: no Sul, lá por 1957, o primeiro-ministro conservador Harold Macmillan podia assegurar aos seus ouvintes que a maioria deles nunca tinha vivido tempos melhores. E ele estava certo.
Eu só comecei a entender bem o impacto desses anos de juventude recentemente. Olhando de onde estamos hoje é que se vê melhor as virtudes daqueles anos duros. Ninguém poderia, em sã consciência, desejar a volta deles. Mas austeridade não era apenas uma condição econômica: era uma ética publica. Clement Attlee, o primeiro-ministro trabalhista de 1945 a 1951, emergiu – como Harry Truman – da sombra de um líder carismático dos tempos de guerra para personificar as baixas expectativas daquela época.

Churchill, maldosamente, dizia que ele era “um homem modesto que tinha sobradas razoes para ser modesto”. Mas foi Attlee quem liderou o maior período de reformas da historia da Inglaterra moderna – conseguindo avanços comparáveis aos conseguidos por Lindon Johnson duas décadas mais tarde, só que sob circunstancias muito menos favoráveis. Como Truman, ele viveu e morreu modestamente, tirando muito poucas vantagens materiais de uma vida inteira dedicada ao serviço publico. Attlee foi um protótipo perfeito da grande era dos reformadores da classe media edwardiana: moralmente sério e rigorosamente austero. Quem, entre os lideres de hoje, pode reivindicar galardão parecido, ou mesmo entender isso como um galardão?
A seriedade na vida publica é como a pornografia: é difícil defini-la mas você sabe o que é quando se depara com ela. É uma expressão que descreve a coerência entre a intenção e o ato, uma ética da responsabilidade política. Toda política é a arte do possível. Mas também a arte tem uma ética. Se os políticos fossem pintores, com Franklin Delano Roosevelt como Ticiano e Churchill como Rubens, então Attlee seria o Vermeer do grupo: preciso, contido – e subavaliado por tempo demais. Bill Clinton podia aspirar às alturas de Salvador Dali (e ele pode se considerar elogiado pela comparação), e Tony Blair à pose – e à cupidez – de Damien Hirst.
Nas artes a seriedade moral remete a uma economia na forma e a um recato estético: ao mundo de Ladrões de Bicicletas, por exemplo. Recentemente apresentei Os Incompreendidos, de François Truffaut, ao meu filho de 12 anos. Vindo de uma geração acostumada à dieta atual de “cinema de mensagem” do tipo O dia depois de Amanhã ou Avatar, ele ficou de queixo caído: “Ele consegue fazer tanto com tão pouco!”. É por aí mesmo. A riqueza de recursos que se aplica ao entretenimento hoje só serve para esconder a pobreza dos produtos; igual ao que acontece na política onde o blá-blá-blá sem fim e a grandiloqüência retórica mascaram um vazio de dar sono.
O antônimo de austeridade não é prosperidade, mas sim luxo e voluptuosidade. Nós substituímos a idéia de sentido publico pela noção de comercio sem fim; não esperamos nenhum tipo de aspiração mais alta de nossos lideres. Sessenta anos depois que Churchill se declarou em condições de oferecer apenas “sangue, suor e lágrimas”, o nosso próximo presidente guerreiro, apesar do hiper alardeado “moralismo” de sua retórica, não conseguiu pensar em nada melhor para nos pedir, diante do trágico impacto do 11 de setembro, do que “que continuássemos comprando”. Essa visão empobrecida de comunidade – reduzida à idéia de comunhão no consumo – é tudo que merecemos dos que nos governam. Se quisermos lideres melhores, teremos de aprender a exigir mais deles e menos para nos mesmos. Um pouquinho de austeridade viria a calhar.








Você precisa fazer login para comentar.