Putin “é louco” mas não rasga dinheiro*

22 de fevereiro de 2022 § 2 Comentários

A reunião de Munique para avaliar Putin x Ucrânia no fim-de-semana mostrou uma Europa mais unida do que nunca, desde que me lembro lá dos tempos da Guerra Fria até hoje, na promessa de sanções pesadas contra uma invasão.

Tão unida que Putin entendeu e já descarta liminarmente uma invasão maciça. Fala agora apenas em reforçar a posse do que já tomou da Ucrânia na invasão de 2014. 

Não é mais só o firme apoio da Alemanha que entrou no radar mas até uma inédita posição não mais automaticamente anti-americana, como sempre, da França (nunca de jure mas sempre de facto, como é da finesse da diplomacia gaulêsa)! Nem mesmo o pacto Molotov-Ribentrop recém reeditado pela China amarrando-se à Russia para o caso de agressões da Nato (aquelas que nunca, jamais, aconteceram) estende-se para esse caso da Ucrânia, conforme deixou claro o chanceler chinês em Munique. Não interessa a ninguém, especialmente ao maior vendedor de bugigangas do mundo, reeditar uma Guerra Fria que venha a abalar o fluxo do comércio mundial que sustenta uma China cheia de bolhas espoucando na economia interna.

Com tudo isso até o sonho de derrubar o governo Zelensky, que Putin acalentava (uma “invasão” sem invasão) parece já ter caído por terra.

A Europa claramente entende que deixar Putin invadir impunemente a Ucrânia num mundo em que os americanos não se dispõem mais a deixarem-se matar tão facilmente para consertar os erros dos outros é contratar de volta aquela Rússia que, na última vez, só foi detida na Porta de Brandemburgo em Berlim.

Nem o racionamento de gás, que Biden tirou do horizonte conseguindo um compromisso com os árabes antes de peitar definitivamente Putin, fez a Europa tremer. Na visão hiper-realista do velhinho a Alemanha “fechando” com ele, o resto era lucro. E Munique parece ter confirmado isso.

Tudo indica, portanto, que Biden, que certamente aprendeu a lição recebida no Afeganistão, é quem desponta surpreendentemente como “o grande enxadrista” do jogo geopolítico mundial, o que criou um problema para a torcida anti-americana século 20 que ainda bate bumbo firme e forte na periferia do mundo para não perder mais uma oportunidade de jogar pedra nos ianques, mesmo sob o risco de “solidarizar-se” com a valentia daquele nobre envenenador de opositores com plutônio tanto quanto ninguém menos que Jair Bolsonaro (nada, é claro, que não esteja destinado a se tornar fake news punível pelo STF ao ser lembrado, dentro de mais algumas semanas, mas que por enquanto é fato, daqueles que confirmam o quanto velhos hábitos demoram para morrer)…

De Putin tudo se pode esperar, é claro, mas os sinais crescentes são de que ele é mais um daqueles “loucos” que não rasgam dinheiro.

* Artigo escrito e programado para publicação antes do anúncio da entrada das tropas de Putin na Ucrânia

Ucrânia, Brasil e pressentimentos

28 de janeiro de 2022 § 20 Comentários

Acabei de assistir na Netflix o documentário dos acontecimentos na Ucrânia na virada de 2014 para 2015. Um filme terrivelmente lindo e emocionante que nos permite confirmar vivamente que as populações fugidas do totalitarismo, com memórias vivas ou quase do que foi aquilo, estão mesmo duas ou três gerações para traz da decadência moral do Ocidente.

Mas esse foi só o ”subtexto”.

Nós, felizmente, estamos bem mais longe de Putin do que eles, mas o tempo todo tive a perturbadora sensação, vendo o choque mortal que houve lá entre o pais oficial e o pais real totalmente divorciados um do outro, de estar vendo o Brasil de amanhã.

Este nosso pais esta brincando com fogo…

De Olavo de Carvalho a Vladimir Putin

27 de janeiro de 2022 § 25 Comentários

O artigo de João Pereira Coutinho para a Folha de 4a feira sobre a morte de Olavo de Carvalho, para além de, lá de Portugal, iluminar a escuridão da doença brasileira cuja principal manifestação é a expulsão de qualquer vestígio de inteligência dos estouros das manadas que mugem para a esquerda ou mugem para a direita da casta que mama no Brasil, foi ao essencial como sói acontecer quando quem escreve leu mais linhas de história que as que garatuja por aí.

Ele falava sobre as divisões da direita a mesma velha verdade essencial que vale para as divisões da esquerda: a discussão central da história moderna é a que nasce das duas revoluções contra o absolutismo monárquico – a inglesa e a francesa – e não tem nada a ver com esquerda x direita ou conservadores x progressistas. É, na verdade, única a exclusivamente, “a divisão entre aqueles que aceitam o desafio da individualidade e aqueles que o recusam, procurando abrigo nas ‘tribos’ da nação, da raça, do gênero ou de qualquer outra identidade coletiva”. Com a particularidade de que, no Brasil, essa divisão só começa, da classe governante para fora, no teatro que ela encena para a imprensa, que se deixa docemente constranger a assimilar a farsa, pois por cima da nação, da raça do gênero e do mais, está o férreo “fechado” na intocabilidade do “direito adquirido” de mamar no favelão nacional que a todos eles irmana.

Ler a imprensa brasileira – ou mesmo as redes sociais – com os óculos mágicos do “full disclosure” teria o efeito de um cataclisma. Se ao lado de todos quantos se manifestam nesses palcos viesse a nota explicativa de quais são assalariados do Estado (contando-se o que diz o holerite fake e o que de fato chupa em espécie e privilégios), ou têm “cônjuge, companheiro ou parente em linha reta ou colateral, por consanguinidade ou afinidade, até o terceiro grau” que o seja, como reza a lei antinepotismo, pouco ou nada se precisaria ler para saber como se posicionam em seus artigos e manifestações. 

E sobre o radicalismo com que cada um o faz, vai na proporção direta do tamanho do privilégio auferido que, como demonstrava a matéria da manchete do mesmo jornal (“Desigualdade no setor público cresce e já supera a do privado”) vai na razão inversa da exposição de cada casta dos donos do Estado ao eleitorado. Ganha muito, muito mais supersalários auto-atribuídos quem nunca precisará de um voto, no Judiciário, ganha só um tanto mais quem é eleito indiretamente, no Legislativo, e ganha um pouco menos que estes quem é eleito diretamente, no Executivo. Mas todos ganham muito mais que o resto do Brasil. Daí ser a primeira missão de cada um deles não dar poder ao indivíduo, vulgo eleitor, o que no campo da arquitetura institucional faz-se com o voto distrital puro e os direitos de recall, referendo e iniciativa que resultam na democracia que nenhum deles quer, o único antídoto conhecido contra a corrupção institucionalizada, que é esta que nos rouba à mão armada de lei.

Mas descontadas as particularidades que nos mantêm ainda no feudalismo que aquelas duas revoluções desafiaram, Pereira Coutinho foi ao fulcro. É da vertente inglesa, que desde a “Gloriosa” de 1688 deu ao Parlamento eleito pelo povo o lugar que fora do rei, a “ênfase na autonomia dos indivíduos e na limitação do poder”. É da vertente francesa, pela esquerda, a revolução que decapitou o rei para desaguar num imperador e, pela direita, os intelectuais que exortavam o povo à contra-revolução para restabelecer o absolutismo monárquico, tudo sempre em nome da ”liberté, egalité, fraternité”. 

É esse o “conservadorismo baseado na razão” com que acena o ladino Vladimir Putin aos encurralados pela fúria reacionária dos “anti-indivíduo” às rebeliões das classes médias meritocráticas embaladas pelas “primaveras” da infância da internet. Quanto a Bolsonaro, que Pereira Coutinho deixou prudentemente de lado, não tem a capacidade de estabelecer nuances, como tantos pelo mundo afora que mostraram ao novo czar da Russia o tamanho do espaço que, com a mesma lábia desse vídeo com o qual tenta provar que o ameaçado de invasão na Ucrânia é ele, agora ambiciona preencher.

Tirou a polícia? Olha aí…

21 de agosto de 2014 § 8 Comentários

a10

O “disengagement” é um sonho impossível.

Olha só o que o Obama envelheceu depois que tentou sair fora e deixar rolar. Olha só no que deu: de volta pro século 7!

A internet garante a metástese das piores doenças do mundo. E à jato.

Amoleceu, nesses tempos de black blocs, criou o Putin “novo”, o Hamas renascido e esse Isil que, do jeito que vai, ainda consegue a proeza de unificar o mundo árabe…

Vem mais por aí, ao vivo e em cores como é hoje em dia. Tacam a sangüeira na sua cara; no quarto do seu bebê.

a4

Antes da globalização tudo que restava às bestas feras nascidas em meio ambientes desfavoráveis à expansão da selvageria risonha e franca era comprar uma metranca e fazer um strike até onde as balas alcançassem no espacinho de tempo que levava antes que tomassem aquilo que merecem pelo meio da cara.

Agora podem se congraçar virtualmente, todas as do mundo, e combinar banhos de sangue coletivos e festas de horror “multiculturais” contra gente pobre e sem defesa nos grotões do planeta, inextinguíveis com um único tiro da swat.

Pois nós mesmos não temos o nosso uspiano entediado com bombas de arrancar cabeça de cinegrafista anunciando que agora vai se juntar aos black blocs do Putin, na Ucrânia, que têm bombas mais divertidas, de derrubar Boeing cheio de gente? São esses caras que estão dando aulas pros nossos filhos.

a9

Isso sem contar os 57 mil mortos por ano da nossa guerrinha “maquiada” que não entra em trégua porque não deixam.

Não ha como escapar. A civilização não dura 10 minutos sem a presença da polícia e a ONU e o seu Conselho de Segurança são só mais uma instituição com regras democráticas nas mãos de uma maioria que não é democrática. Nós estamos carecas de saber como é isso.

Não funciona! E custa genocídio atrás de genocídio. A vista ou a prazo não faz grande diferença.

Quando o que vem do outro lado é tiro, é degola, é bomba, com risco de ser atômica, não tem outro jeito: os únicos que podem e têm recursos e tecnologia para isso estão condenados a ser a policia do mundo. É insuportável pro raciocínio mas é assim porque raciocionalidade é uma rara exceção na alcatéia humana. Cada vez que esquecerem disso e fugirem desse dever a História se repetirá. E se demorar o Hitler da vez acabará dentro da casa deles.

a8

O Brasil em excelente companhia

22 de julho de 2014 § 13 Comentários

a21

Os 298 homens, mulheres e crianças mortos por um míssil russo disparado contra o Boeing 777-200 de passageiros da Malaysian Airlines na Ucrânia estavam arrumando as malas para embarcar no fatídico vôo MH17 quando a presidente Dilma Rousseff assinou, ao lado de Vladimir Putin, a declaração conjunta da 16a Reunião de Cupula dos BRICS, em Brasilia, afirmando que “Somos reconhecidos por nossa atuação autônoma no plano internacional em favor de um mundo mais justo, mais próspero e pacífico”.

Menos de quatro meses antes desta honesta declaração Vladimir Putin, sem mais aquela, tinha mandado os seus “black blocs” – tropas do exército nacional russo devidamente mascaradas e sem identificação mas conduzindo tanques e portando armamento pesado – invadir e tomar a Criméia, parte do território da Ucrânia, outro dos ex-anexados à “Cortina de Ferro” soviética que, para prevenir recidivas do vizinho “entrão“, preparava-se para aderir à União Européia.

a8

Desde então, nas palavras do secretário de Estado norte-americano John Kerry, ele “vem apoiando, abastecendo, encorajando, armando e treinando” os supostos “guerrilheiros separatistas” ucranianos que querem tomar mais um pedaço daquele país para anexá-lo à Russia que, 24 horas após a saída de Putin de Brasilia, derrubaram o avião malaio e seus 298 passageiros com um ou mais disparos de mísseis Buk fornecidos por Moscou.

Enquanto os corpos despedaçados das vítimas dos aliados de Putin despencavam dos céus da Ucrânia, dona Dilma recebia, como hóspede especial da Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência da República, ninguém menos que Raul Castro, da dinastia dos proprietários daquela ilha cheia dos “prisioneiros comuns” a quem Lula nega uma palavra de apoio humanitário que seja mesmo quando, minados pela tuberculose, estão morrendo em greves de fome.

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Castro chegou um dia depois da partida de Putin para participar da Reunião de Cupula Brasil-China e Líderes Latino-americanos e do Caribe do Itamaraty que pretende articular as relações econômicas dos próceres do “excesso de democracia” bolivarianos do continente com outro campeão mundial dos direitos humanos, o chinês Xi Jimping, interessado em “ampliar a presença comercial e política da China nas Américas Central e do Sul e no Caribe” que, no jargão desse pessoal, resume-se a Cuba.

Não cobro de Dilma que anteponha ideologia a interesses comerciais nem que confunda governantes com os povos que eles supostamente representam. Como representante de um país ela tem de se relacionar com todos, ou ao menos com todos os que estiverem dentro dos limites da decência humanitária.

Mas é precisamente isso que ela não faz. São estes que ela exclui por razões alheias, tanto às de Estado, quanto às de pragmatismo comercial.

a5

Não é por acaso que estiveram representados em Brasilia e privando da intimidade e das homenagens especiais da presidente do Brasil apenas e tão somente representantes das diversas etapas de desenvolvimento da “hiperdemocracia” que o PT declara todos os dias que pretende impor ao país.

O ex-chefe da polícia política soviética que, desde 1999 quando se tornou primeio-ministro pela primeira vez, vem governando a Russia diretamente ou por interpostos “postes” escalados para substituí-lo entre mandatos com métodos semelhantes aos da máfia, como de resto eram os adotados pela KGB, ostenta em seu currículo, multiplicado por milhões, todos os feitos de um delegado Fleury, o antigo chefe do Doi-Codi onde Dilma passou dias memoráveis.

Devidamente repaginado para os tempos do capitalismo de Estado selvagem e sem fronteiras, ele já se tem servido de diversos dos ingredientes que o PT inclui em seu programa oficial.

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Na sua Russia não existe imprensa nem muito menos televisão sem “controle”; blogueiros são obrigados a se registrar no Ministério das Comunicações com quer o tio Franklin; sites são fechados por publicar comentários como este que você está lendo; pessoas são presas por protestar contra o regime; as antigas ONGs estão restritas aos atuais “Gongos”, da sigla em inglês para “Government Organized Non Governmental Organization”, exatamente equivalentes aos “movimentos sociais” com os quais o PT quer dividir, com exclusividade, o governo do Brasil segundo reza o Decreto 8.243, ainda vigente; os “campeões nacionais” dos setores básicos e/ou estratégicos da economia são criados pelo governo e dependem dele para sobreviver, monopólios estes de cuja boa vontade, por sua vez, dependem todos os outros empreendedores e trabalhadores do país, seja para vender-lhes sua produção, seja para comprar-lhes insumos para os seus produtos, seja para dar-lhes o emprego sem os quais todos eles podem acabar condenados à morte econômica.

China's President Xi Jinping and Brazil's President Dilma Rousseff attend the official photo session for the meeting of China and CELAC at Itamaraty Palace in Brasilia

Quanto aos genocidas e psicopatas do mundo sentados em tronos, fardados ou não, de Bashar Al Assad, o envenenador, aos mais pitorescos trogloditas da África e da Ásia, ele, com as prerrogativas de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, dá o mesmo tratamento que o PT reserva a essa mesma grei: tapinhas nas costas e posição fechada contra qualquer boicote, represália ou ação militar que lhes tolha a sede de sangue de modo a que matem até o último dos seus “oposicionistas” ou anexem o último dos seus cobiçados “satélites”, tudo sempre em nome da democracia e da paz.

Para os demais reservam as leis que não acatam…

O Brasil poderá alegar tudo menos que não sabia com quem estava lidando, portanto, se voltar a eleger o PT em outubro, fato que certamente resultaria em que ninguém mais pudesse ser eleito por muitos e muitos anos nestas terras, exatamente como acontece nas de todos os convidados preferenciais da Granja do Torto e cercanias nestas ultimas trágicas semanas.

a10

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