Jobs e Google: duas visões antagônicas da web

27 de agosto de 2010 § Deixe um comentário

Steve Jobs deve anunciar na quarta-feira, 1 de setembro, o seu esquema de web-TV, na sequência do lançamento da Google TV na semana passada (dia 19).

Bem ao estilo de cada um, o esquema da Apple TV é uma parceria com produtores de conteúdo para vender seus produtos muito barato na rede – o já mítico US$ 0,99 por unidade de Jobs que deu certo na musica e acabou com as grandes gravadoras – enquanto o da Google TV é uma parceria com gigantes do hardware e do software para permitir o funcionamento de mecanismos de busca nos conteúdos alheios e variadas operações interativas pela TV afora.

O CEO da Google, Eric Smith, acompanhado de representantes da Intel, da Adobe, da Sony, da Logitech, da Dish Network e da Best Buy, seus sócios no empreendimento, apresentou a novidade na semana passada em São Francisco dizendo que seu projeto “requer todo um ecossistema de sócios” e “só se tornou tecnicamente viável com o advento da computação na nuvem” (isto é, com o internauta recorrendo a vários softwares e bancos de dados diferentes que não precisam ser instalados diretamente em seu computador; podem ser acessados remotamente).

Com a Google TV o usuário poderá, em resumo, alternar entre a televisão e a internet, ter acesso aos seus sites preferidos por meio do televisor e neles fazer todas as operações que está acostumado a fazer no computador. “Com toda a internet na sua sala, a TV torna-se mais do que uma TV – pode ser um visualizador de fotos, um console de games, um leitor de músicas e muito mais”, diz o site da Google.

A Sony vai fabricar uma linha de televisores e Blu-ray players com o sistema operacional Android e o navegador de internet Chrome, da Google, animados pelo chip Atom, da Intel. A Logitech vai lançar um decodificador com teclado integrado e um controle remoto. A Dish Network vai integrar o sistema ao satélite permitindo buscas extensivas em toda a programação das TVs. E a Best Buy terá prioridade na venda dos novos equipamentos.

A expectativa é que a novidade chegue ao mercado em 2011. E a Intel afirma que, desde já, as vendas do seu chip para fabricantes de TV dispararam e que “a TV Inteligente é a maior revolução no setor desde o advento da TV a cores”.

O esquema da Google aparentemente baseia-se na sua tradicional linha de ação de re-empacotar os conteúdos alheios sem pedir licença, aproveitando-se do vazio regulatório de um ambiente em constante mudança para criar fatos consumados. Com suas ferramentas invasivas apropria-se de virtualmente todos os conteúdos em circulação na rede e os redistribui “de graça”, o que lhe rende um volume de trafego insuperável. E este tráfego, sim, a Google, “proprietariamente”, monetiza.

Ela própria, entretanto, dá sinais de estar consciente de que não poderá continuar trabalhando assim para sempre. Com o que está amealhando com essas ações de caráter predatório trata, um tanto erraticamente mas sempre em escala mégalo, de fincar os pés em todo tipo de negócio que se mostra promissor na web, ultimamente usando mais o talão de cheques que capacidade própria de inovação. No momento prepara uma guerra contra o Facebook, que disputa com ela a hegemonia da veiculação de publicidade na rede, e outra contra o Skipe, que explora telefonia IP. Por via das duvidas, vai comprando o que pode de conteúdo não perecível como direitos autorais (o que é uma confissão de dolo), bibliotecas, coleções de filmes e imagens e bancos de dados em geral pelo mundo afora. Investe pesado, também, naquele que vai se definindo como um de seus nichos de especialização, os mapas interativos que, quando estiverem acoplados à reprodução fotográfica de todas as ruas e lojas do mundo – operação ora em curso apesar dos inúmeros problemas jurídicos que tem provocado – pode lhe proporcionar uma vantagem praticamente irreplicável no comércio virtual. (Veja no filme publicado aqui como isso vai funcionar).

Já a estratégia de Steve Jobs é se aliar aos produtores de conteúdo oferecendo-lhes plataformas globais de venda dos seus produtos relativamente protegidas contra a pirataria, cobrando um fee por cada venda feita. Engenheiro e designer de indiscutível capacidade de sedução, Jobs desenvolve sozinho seu hardware e seu software, no mais absoluto segredo. Seu objetivo, ao “fechar” seus sistemas, é dar a quem usa suas plataformas de vendas o máximo de proteção contra a pirataria e, assim, tornar sustentável a produção de conteúdos de qualidade em esquemas profissionais “high-end”.

Seja quanto for que possa durar a proteção que ele oferece, o fato é que foi essa característica que fez dele o primeiro grande operador a conseguir montar, ao lado do seu negócio de desenho e fabricação de hardware e sistemas de operação, uma plataforma de negócios altamente rentavel sustentada pela venda de conteúdos online, seja na música, onde tudo começou, seja na venda de aplicativos, no iPhone, seja na de produtos editoriais, no iPad.

No que diz respeito ao modo de abordar a rede, portanto, Steve Jobs apresenta-se cada vez mais explicitamente como um antípoda da Google, que vive basicamente de dar a seus clientes ferramentas para “pular a roleta” e consumir sem pagar o que terceiros colocam na web.

Sua nova operação de TV parece ser um passo decisivo nessa direção.

Embora nada ainda esteja confirmado oficialmente, o que seria anunciado na próxima quarta-feira, 1 de setembro, é uma associação formal da Apple TV com a Disney e a sua rede ABC de televisão e com a Fox/News Corporation, de Rupert Murdoch, para vender seus conteúdos “on demand” a US$ 0,99 o programa, sejam eles filmes ou produções especiais para TV. A Apple tentou incluir também a CBS e a Time-Warner/Turner no acordo mas elas ainda estão resistindo porque têm investimentos pesados na TV a cabo que deverá ser a principal vitima da novidade se os novos sistemas de web-TV vingarem.

Jobs usará o mesmo sistema operacional que anima o iPhone e o iPad e, alem dos conteúdos de TV de terceiros que ele faz questão de remunerar, oferecerá ao publico games para a “telona” e aplicativos para customizar sua programação escritos por quem quiser usar sua plataforma para vende-los, como já faz com esses dois equipamentos.

Parece claro que o anuncio um tanto apressado de Jobs “corre atras do prejuízo” que lhe possa advir da iniciativa da Google com os pesos pesadíssimos aos quais se uniu. Ha cerca de três anos Jobs lançou uma “caixa” complementar aos seus computadores que interliga todos os computadores e aparelhos de TV em uso numa residência, dando-lhes alguma condição de interatividade. Mas não é um sistema tão integrado e acabado como promete ser o da Google e seus novos sócios. Ele nunca chegou a funcionar de modo totalmente satisfatório.

Ferramentas capazes de “catar” programas nas TVs a cabo ou abertas e baixá-los pela internet para que o consumidor possa assisti-los quando quiser já existem ha alguns anos. Os dois mais conhecidos e difundidos são o Netflix e o Hulu, este ultimo pertencente à uma sociedade da rede NBC, da Universal, com a Fox/News Corporation e a Disney. Ele surgiu como uma manobra de defesa dessas empresas que acharam melhor entrar elas próprias no novo sistema (comprando uma ferramenta que já estava operando no mercado) mesmo sem terem antes um modelo de negócio bem definido do que deixar o caminho livre para terceiros piratearem seus conteúdos.

Já o modelo de negócios do Netflix, que só opera nos Estados Unidos, inclui uma assinatura de US$ 9 por mês (contra US$ 100 a 150 dos provedores de TV a cabo), para dar ao consumidor a opção de escolher cada programa e baixa-lo para assistir quando quiser em lugar de ter de comprar o pacote inteiro oferecido pelos provedores de cabo e ser obrigado a se submeter aos seus horários de exibição. A Netflix também vende DVDs por e-mail, o que foi suficiente para por a Blockbuster de joelhos. Mas é só.

Os novos sistemas que agora se anuncia prometem entregar, alem dessa capacidade de escolha e compra seletiva de programação, interatividade completa com os sistemas de TV existentes.

Com a entrada da Google e da Apple na disputa pela TV online os analistas acreditam que os provedores de TV a cabo como conhecemos hoje tendem a desaparecer. Hollywood, que vinha sendo fortemente sangrada pela pirataria, saudou como positivas as notícias vindas da Apple que acenam com uma nova e promissora plataforma de venda dos seus produtos. Também devem ser menos atingidos os produtos em que o ineditismo e/ou a instantaneidade – como nos shows, nos eventos esportivos e no jornalismo – integram a cadeia de valor.

Seja qual for o vencedor, está cada vez mais claro que Steve Jobs e a dupla de criadores do Google representam duas filosofias antagônicas de modelos de negócio na internet e que o resultado do duelo entre eles vai ajudar a definir o futuro da rede como ambiente de negócios.

Ambições cortesãs e ambições republicanas

6 de junho de 2010 § 2 Comentários

Ambições

.

cortesãs e ambições

.

republicanas

.


Ambição é o que move o bicho homem.  Foi ela que nos empurrou para fora do mundo animal.  E, hoje mais do que nunca, no limite do “apertamento”, sabemos que essa é a nossa benção e a nossa tragédia.

Entre o céu e o inferno; da negação à obsessão; da criminalização ao endeusamento, já se tentou de tudo para lidar com ela.

A esta altura, sabemos que é uma força da natureza tão irremovivel quanto o sexo e a fome e que tudo que é possível fazer é restringir as maneiras admitidas de servi-la.

Parece pouco, mas faz uma grande diferença. É o que foi possível conseguir nos 2500 anos de luta de Atenas até aqui.

Tomemos o caso extremo. As maiores ambições à solta no mundo. Volto ao Grande Jogo do Poder do qual descrevi um lance em detalhe na ultima série de artigos publicados aqui. Existe diferença, ao redor do globo, entre os que disputam o “Velocino de Ouro” do momento, que é o sonhado controle dos grandes vetores das “mídias convergidas”?

Não exatamente. Nem entre eles, nem na natureza da força que os move.

Mas não ha duvida: dos incentivos e constrangimentos de que se cerca essa volúpia nos distintos ambientes políticos e institucionais resultam benefícios significativos ou prejuízos devastadores para a massa dos que assistem de fora a luta dos que só entendem a vida correndo atras de se tornarem gigantes.

Reza o ditado que pau que nasce torto não tem jeito, morre torto.

E, de fato, nesta boca de Terceiro Milênio, assim como para tudo o mais, ha ambições cortesãs e ha ambições republicanas.

Na velha Europa e em seus rebentos latino americanos , a democracia é epidérmica. Não “entrou”. Joga-se, como sempre, o jogo da corte. Seja nas ricas, seja nas pobres, nada se faz sem a anuência do rei. Disso resulta, para as presas e para os predadores desse eco-sistema econômico, uma determinada lista de fatores críticos de sucesso e, como conseqüência, a seleção de um determinado tipo de “animal” como espécie dominante.

No sistema de cortes, ela não será nem a dos inovadores, nem a dos empreendedores, nem a dos mais dispostos ao trabalho. Será a dos que cultivaram com menos escrúpulo as melhores relações políticas.

Na série que precede este artigo examinei de perto o quadro da disputa pelas telecomunicações em Portugal e ex-colônias. Nenhum dos personagens envolvidos foge a esse figurino.

Não é só lá. Os oligarcas russos; Silvio Berlusconi, na Itália; Carlos Slim, no México; ou os nossos Sérgio Andrade e Carlos Jereissati, para ficarmos apenas nas criaturas deste governo, fizeram suas fortunas em negócios que são fruto de concessões do governo, nos quais as conexões políticas  são o fator decisivo de sucesso.

Em tudo se assemelham os lances que determinam a criação e o controle do gigante das telecomunicações brasileiro e do gigante das telecomunicações português. Em tudo se parecem os artífices dessa obra de cada lado do Atlântico e de cada lado do balcão governamental. Não houve criação, não houve inovação, não houve qualquer dose de risco envolvida no processo. No que foi necessário ousar foi na disposição de violar ou de manipular a lei. No que foi necessário superar a concorrência, foi na falta de escrúpulo. Aqui como lá, tendo os respectivos governos como sócios, “capitalistas de relacionamentos” notórios apenas se apropriaram de licenças para a facilitação, em regime de monopólio, do uso de  tecnologias desenvolvidas nos Estados Unidos no século passado em vastas extensões dos seus respectivos territórios nacionais. Aqui como lá, eles não disputam clientes; zelam por territórios exclusivos de caça e por sua possível ampliação. Aqui como lá, alimenta-se a expectativa de estender esse poder alem das fronteiras nacionais, aplicando a governos estrangeiros o único expediente “negocial” que funciona para satisfazer as ambições cortesãs.

No universo cortesão, ha um monopólio em cada setor da infra estrutura. E cada monopólio, se não é do governo, é cria de um governo. Com poucas exceções, é fácil traçar a linha direta de filiação entre cada nome da lista dos nossos bilionários e quase bilionários e os ditadores e presidentes que os “fizeram”.

Já no universo republicano, a linha “genealógica” dos bilionários leva diretamente às universidades. É de Stanford? É de Harvard? Sem nenhuma exceção, todos os bilionários da industria de tecnologia da informação, a arena onde se digladiam os maiores egos dos Estados Unidos, podem ser descritos como protótipos dos self made men: Bill Gates (Microsoft), Steve Jobs (Apple), Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark Zukerberg (Facebook) têm em comum destacados currículos universitários e horas sem fim de esforço criativo, muitas vezes iniciado em precárias bancadas de obscuras garagens do subúrbio.

Não é só nessa industria. Uma pesquisa recente mostra que um em cada quatro bilionários do pais que se divorciou da Europa feudal sob a máxima “nenhum poder e nenhum dinheiro que não tenha sido fruto do mérito”, partiu do zero, seja qual for o campo de atividade envolvido. Na Alemanha, que tem a melhor marca entre os europeus, um em cada 10 bilionários cabem nessa descrição. No resto do mundo eles são exceções raríssimas…

Se ha algo de fascinante que “a rede do tamanho do mundo” (www), a mais revolucionária das resultantes da meritocracia americana, nos permite acompanhar, é o modo pelo qual os seus candidatos a gigante, tangidos por suas instituições, tratam de alimentar a mesma ganância que os europeus perseguem com a sua mumunha ancestral.

Ha quem pense hoje, depois do iPad na sequência do iPhone, que o jogo de Steve Jobs, longe de ser apenas o de se tornar um dos maiores desenhistas e fabricantes mundiais de gadgets eletrônicos altamente sofisticados e inovadores (coisa que ele também é), é se transformar numa rede de comunicações e de distribuição e venda de notícias, entretenimento e bens culturais de proporções no mínimo googlelianas.

A maior parte do que ele ganha hoje ainda vem das vendas de computadores, iPods, iPhones e iPads. Mas ha sinais claros de que o novo duto de faturamento logo superará o antigo. A ficha caiu com a fulminante caracterização do iPhone como a mais fantástica plataforma de vendas de aplicativos (software) que jamais existiu. Quatro bilhões de downloads já foram feitos e a caixa registradora continua girando em ritmo alucinante. Depois da musica, com o iTunes e o iPod, seria coincidência demais para não ser deliberado. O iPad chegou para confirmar tudo, cobrando uma taxazinha por cada livro, por cada revista, por cada jornal…

O iPad, dizem alguns críticos especializados, é a primeira máquina desenhada com a convergência de mídias em mente. Os computadores, feitos para a gente se debruçar em direção a eles, são muito pouco cômodos como plataformas de entretenimento. E a televisão é péssima para se surfar na web e para se passar e-mails. O iPad, com sua genial e simplérrima capa/bancada, serve para tudo isso e ainda é perfeito para você se afundar numa poltrona ou deitar na cama e ver um filme. E tudo sem que a Apple tenha gasto um tostão enterrando cabos  ou esticando fios. Ela conseguiu, enfim, o que os grandes portais tentaram e não conseguiram e o que as “teles” cortesãs ainda sonham obter.

.

Qual foi o erro deles? Eles não fabricavam iPhones e iPads. A Apple produz combinações matadoras de hardware e software. E o resto vem por conseqüência. De qualquer maneira ela é, desde já, a única plataforma online que se provou capaz de cobrar com sucesso por conteúdos digitalizados.

Mas ha quem discorde. E as discussões são apaixonadas.

O Google trabalha focado no princípio das plataformas abertas e dos “conteúdos contribuídos” (feitos por contribuições espontâneas dos próprios usuários, cedidas ou roubadas) . Ao contrario de Jobs, que produz softs apenas para as suas máquinas, o Google aposta em programas abertos que podem ser usados em qualquer máquina. O seu sistema para telefones inteligentes, o Android (28% do mercado nos EUA), por exemplo, já ultrapassou as vendas do sistema OS do iPhone ( com 21% de share contra 36% do sistema usado no BlackBerry, ainda o campeão).Mas a Google vende apenas um soft que “motoriza” qualquer aparelho de qualquer fabricante enquanto o iPhone, com seu programa fechado é, por enquanto, uma plataforma imbatível de venda de aplicativos.

Sim, mas o soft do Google é aberto e vai ter desenvolvimentos num ritmo e numa extensão que só os mutirões são capazes de produzir enquanto as máquinas, como o iPhone ou o iPad, vão virar commodities reproduzidas ao redor do mundo, como aconteceu com os PCs no passado.

Mas, que ninguém se engane, o olho grande do Google foca o mesmo objetivo de controle monopolísticos de mercados atribuído a Jobs, mas pelo caminho da reprodução virtual das cidades, das ruas e das lojas que vai sendo acoplado ao seu sistema de mapas interativos, dando a cada comerciante e a cada consumidor ao redor do mundo a condição da ubiqüidade.

E o Windows? O Windows, ainda o rei dos escritórios, parece ter perdido definitivamente  a corrida dos telefones inteligentes. Mas esse jogo ainda não acabou…

Por aí vai a discussão.

.

Se e quando resultar dessa disputa prejuízo alto demais para a platéia, pode-se sempre recorrer à força de um Estado que não participa diretamente do jogo, no qual a dependência do representante em relação ao representado é real, para aplainar as arestas. O fenômeno de concentração excessiva de um insumo de uso obrigatório como as telecomunicações numa economia moderna, como este que estamos assistindo hoje por aqui, aconteceu nos Estados Unidos ha perto de 40 anos atras. Em 1974 o Departamento de Justiça abriu um processo contra a AT&T por “práticas anti concorrenciais”. Julgada em 1982, a empresa foi forçada a abdicar de seus 22 monopólios regionais, finalmente consolidados em 7 Baby Bells regionais independentes, concorrendo entre si.

A diferença mais notável entre esses dois mundos é que o Estado fica fora da disputa das ambições republicanas – idênticas às cortesãs na sua natureza e, provavelmente, também nas suas inconfessáveis intenções ultimas – e intervém para moderá-las quando isso se faz necessário. Até esse momento, porém, o jogo é jogado dentro de regras claras e estáveis o bastante para o publico admiti-las como tal. E é isso que explica porque, lá, o jogo é acompanhado com um nível de vibração da platéia que aqui só se vê nos estádios. Há torcidas para PC e para Mac como aqui há torcidas para Corinthians e para São Paulo.

Já no mundo das ambições cortesãs, quando os contendores mostram a cara, sempre suja, é nas páginas policiais dos jornais. E é isso que alimenta o descrédito e o nojo da opinião publica contra uma disputa que, entre nós, é invariavelmente viciada.

.

Fecha-se assim o círculo vicioso. O tanto que, lá, a vitória consagra, aqui a vitória compromete. É, quase sempre, um atestado de desonestidade. E é isso que arma a mão do Estado para “melar” a partida sempre que lhe convier. O publico, que é sempre o grande lesado no jogo das ambições cortesãs, estará sempre pronto a aplaudir quem se apresentar como  “xerife da ética” e vier “para acabar com a bandalheira” …  por excelência o discurso dos que vêm lá de baixo loucos para entrar nela.

Para as torcidas de lá, sempre sobram os iPhones, os iPads e as redes do tamanho do mundo com tudo que elas puxam a reboque como subproduto da perseguição de ambições individuais pelo caminho do mérito. É preciso inovar e inventar para ganhar esse jogo.

Entre nós, a inovação atrapalha. Ameaça as fronteiras de territórios privativos de caça ha muito estabelecidas. Os tempos mudaram e já não estamos mais queimando os inovadores em fogueiras monumentais em praças publicas. Hoje as cortes se contentam com o linchamento moral e a sabotagem  econômica dos críticos e dos inovadores.

E disso tudo resulta que enquanto “eles”, cheios de duvidas, perscrutam os confins do universo, recriam a vida com o DNA artificial e padecem as dores de serem humanos pairando acima da miséria material, nós perambulamos por este vale de lágrimas cheios de certezas, mergulhados na pobreza e  tomando “broncas” de chefes de quadrilhas que se aprazem em cagar regras para o mundo, a quem pagamos as tarifas e os impostos mais altos do planeta.

.

(Depois desta, saio para uma semana de Amazônia, que ninguém é de ferro. Até…)

A guerra por controle remoto

1 de março de 2010 § 4 Comentários

O filme que você pode ver aí em cima está circulando pela internet como coisa real. Alguns especialistas que o avaliaram afirmam que não; que a explosão no final e outros detalhes indicam que se trata de uma versão “demo”. Mas isso é o de menos. O importante é que é exatamente assim que a coisa real acontece. A guerra por controle remoto – e eventualmente o terrorismo por controle remoto – estão aí para ficar.

O filme mostra a operação de um MQ-9 Reaper (foto) em ação no Afeganistão mas controlado remotamente a partir da base Creech, da Força Aérea americana, no deserto de Nevada, pertinho dos cassinos de Las Vegas, a quase 13 mil kilometros de distância. Esses aviões sem piloto, que carregam 4 mísseis teleguiados Hellfire e duas bombas de 250 quilos podem permanecer voando por 22 horas a 21 mil pés de altura (uns 7 mil metros), o que os torna invisíveis e absolutamente silenciosos para quem está em terra.

Lá de cima, suas câmeras enxergam o que está lá embaixo com um nível de detalhe que permite que se veja uma galinha andando pelo chão, a maçaneta de uma porta ou se um homem enquadrado está ou não portando uma arma.

Para operações no Afeganistão, eles são lançados de Kandahar. Minutos após a decolagem os controles passam a ser operados, via satélite, de Nevada. Cerca de 5 mil aviões controlados remotamente estão em operação no Iraque e no Afeganistão. E o numero tende a crescer porque eles têm sido saudados como o equipamento que mais tem salvo vidas (de americanos) nessas duas guerras.

São mais usados para reconhecimento, mas também têm sido empregados em missões de ataque. Em Nevada, um piloto e um navegador controlam o avião, conforme se vê no filme, e mais dois militares veteranos, com experiência anterior sobre as áreas sobrevoadas, sentados atrás deles, ajudam a interpretar as imagens. A 13 mil quilômetros de distância, o comandante dos batalhões nos campos de operação enxerga as mesmas cenas que estão sendo vistas em Nevada num “Rover”, um lap-top especial. Cinco canais de chat, alguns via internet outros via rádio, permitem contato permanente entre os operadores em Nevada e os soldados no front, cujos movimentos são guiados pelo que os aviões-robô estão vendo. Eventualmente, o comandante no teatro de operações pode pedir um “bombardeio de saturação” para limpar o terreno que os soldados vão ocupar. O gatilho será apertado em Nevada por pilotos que, todas as manhãs, acordam ao lado de suas esposas em casa em Las Vegas, pegam os seus carros e guiam uns 50 minutos pela auto-estrada para chegar ao trabalho. Depois de cumprido o seu turno, voltam para casa para brincar com os filhos ou ir ao cinema…

Ataques de precisão contra alvos especiais, como figuras importantes da Al Qaeda, principalmente, têm sido feitos por esses aviões com enorme grau de sucesso. A CIA os considera “a arma mais efetiva jamais utilizada” contra esse tipo de alvo.

O problema é que, como toda arma, ela não tem preconceitos a respeito de quem aciona o gatilho. Guerrilheiros do Hezbollah, no Líbano, por exemplo, conseguiram roubar alguns planos e construir versões, ainda que mais rudimentares, dos aviões-robô, que foram usados para reconhecimento do território israelense na guerra de 2006…

O livro “Wired for War: The Robotics Revolution and Conflict in the 21st Century“, de Peter W. Singer (http://www.amazon.com/Wired-War-Robotics-Revolution-Conflict/dp/0143116843/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1267473948&sr=8-1 ) é um best-seller nos Estados Unidos e o que se descreve lá, segundo uma resenha, é de arrepiar. Dezenas de novas armas-robotizadas estão em desenvolvimento. Vão de novos aviões sem piloto com as características dos Stealth, que os radares não conseguem captar, até objetos voadores do tamanho de uma mosca, capazes tanto de missões de espionagem quanto de destruição.

Arnold de Borchgrave, um experiente analista militar, considera que a robótica é a mudança mais fundamental na condução das guerras desde a invenção da pólvora.

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, havia um punhado de aviões não pilotados no ar e nenhum equipamento robotizado no chão. Hoje perto de 12 mil equipamentos carregando mísseis, bombas e granadas, no ar e no chão, estão em operação”.

Isso vai reduzir o custo das guerras, derrubar as barreiras psicológicas para o ato de matar e erodir os códigos de conduta dos soldados, alem de tornar as guerras muito mais fáceis de começar”…

Começam os vôos turísticos ao espaço

10 de dezembro de 2009 § Deixe um comentário

Sim, a nave já está pronta e os vôos turísticos ao espaço começam em 2011.

Enquanto nós nos preparamos para 50 anos de PT, o mundo em crise segue em frente.

Cada um com seus problemas.

O de Lula é como seguir financiando com dinheiro publico, num país em crise, um programa para por mais um presidente do PT em Brasília. O da NASA é como seguir financiando com dinheiro publico, num país em crise, um programa para por um homem em Marte. E, ao mesmo tempo, desenvolver um novo ônibus espacial para manter a ponte aérea entre a Terra e as estações orbitais onde equipes de cientistas-astronautas têm de ser rotineiramente substituídas para manter experiências que poderão abrir, logo, logo, novas fronteiras para o homem no espaço.

O programa do atual onibus espacial (Space Shutle) termina no ano que vem e a próxima geração de foguetes Ares e de cápsulas de transporte Orion está atrasado. Se nada mudar, a previsão é que entre 2010 e 2017 a NASA tenha de recorrer a equipamentos russos para seguir mandando seus astronautas e cientistas à estação orbital.

Matéria de John Gapper para o Financial Times de ontem apontava a solução: está na hora de entregar, de uma vez, os vôos sub-orbitais para a iniciativa privada. Afinal, ela já está firmemente plantada no setor e entregar esse segmento a pioneiros da iniciativa privada não é uma temeridade maior do que a decisão dos Correios dos Estados Unidos de, em 1920, no alvorecer da aviação, entregar a companhias aéreas privadas o transporte de correspondência e cargas por todo o território nacional.

Quem está mais adiantado nessa empreitada é o visionário bilionário inglês, sir Richard Branson, que fez fortuna gravando e distribuindo musica pela Virgin Records no século passado. A sua nova empresa, Virgin Space Ship Enterprise apresentou ontem aos seus 50 primeiros fregueses, em cocktail patrocinado pela vodka Absolut no deserto de Mojave, Califórnia, a espaçonave com que vai levar, a partir de 2011, turistas para ver a Terra do espaço por US$ 200 mil dólares a cabeça.

O próprio Branson e seus dois filhos estarão nessa primeira viagem histórica. Eles e seus passageiros farão um vôo de pouco mais de duas horas que subirá a 110 km de altitude, de onde se pode ver a curvatura da Terra e experimentar a gravidade zero, experiência que, por enquanto, só cerca de 500 astronautas tiveram.

A espaçonave que os filmes mostram está sendo desenvolvida pelo engenheiro Burt Rutan cuja empresa, Scaled Composites, ganhou o premio Ansari X por conseguir fazer um vôo sub-orbital e voltar em segurança.

O espaçoporto de onde partirá a nave de Branson está sendo construído no Novo México e, recentemente, um fundo de investimentos do Abu Dhabi comprou por US$ 280 milhões 32% dos direitos de exploração dessas instalações.

Outros dois empresários estão investindo nesse setor. Um é Jeff Besos, dono da Amazon.com, que está desenvolvendo um negócio de transporte em rotas sub-orbitais. O outro é Elon Musk, dono do grupo SpaceX, que já tem um contrato de transporte de cargas para o espaço com a NASA.

Outra tentativa de resolver o problema recorrendo à iniciativa privada é o concurso promovido pelo programa NASA Centennial Challenges que está mobilizando dezenas de universidades de todo o mundo, para desenvolver um elevador espacial (http://www.spaceward.org/elevator2010). O programa oferece US$ 4 milhões em prêmios por soluções para diferentes etapas do projeto. Até agora, só a primeira parcela, de US$ 900 mil, foi paga ao vencedor do desafio de criar uma máquina usando energia própria capaz de levar carga para cima, por um cabo suspenso.

Veja os filmes e esqueça, por alguns minutos, o “nunca antes na história deste país”…

Vem vindo aí…

6 de novembro de 2009 § 1 comentário

A máquina ainda não mas o conceito já está aí, baseado na tecnologia OLED (já existente) de telas flexíveis, sensíveis ao toque.

A proposta do Rolltop é da empresa alemã Orkin Design (http://www.orkin-design.de/).

A tela desenrolada tem 17 polegadas. Enrolada, vira um cilindro de 13 polegadas.

A tecnologia OLED, ainda por cima, consome muito menos energia, o que significa duração de bateria totalmente fora dos padrões atuais.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com Tecnologia em VESPEIRO.