Maravilhas da tecnologia

3 de novembro de 2009 § 1 comentário

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Por enquanto já está decidido para os carros.

Em menos de cinco anos, começando pelos de SP, todos vão ter um chip que transmitirá diretamente para Brasília e em tempo real, por onde você anda, se você pagou seus impostos, se está transitando na velocidade permitida, se está ou não no seu rodízio, se passou num pedágio, etc.

O tal chip, dizem, vai custar uns R$ 50. Mas podemos ficar sossegados porque tudo vai ser pago pelo Fundo Municipal de Trânsito (que reúne o dinheiro arrecadado com multas). Trata-se, portanto, de um investimento nos negócios futuros, do qual as autoridades e seus parceiros privados esperam ter rapidíssimo retorno. Agora ninguém escapa, com ou sem polícia, de noite ou de dia, faça chuva ou faça sol. Vinte e quatro horas por dia!

Deu uma paradinha em local proibido só pra pegar aquela encomenda? A multa já caiu no seu cartão de crédito. Estacionou com o carro virado para o lado errado? Plin – $ – plin – $.

São Paulo vai começar com umas duas mil antenas pra que não existam “pontos cegos” onde o cidadão possa se lembrar do que era a liberdade. E todo município do país vai ser obrigado a ter as suas. As estradas idem.

Obaaaa! Quanta licitação!

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Mas, péra aí! Porque só dos carros pra fora? Afinal um monte de infrações gravíssimas são cometidas do carro pra dentro e não poderão ser captadas por chips e antenas externos. Não faz nenhum sentido. O certo é colocar, também, câmeras dentro dos automóveis. E se o motorista resolve fumar no carro? Afinal carro tem teto e não pode fumar debaixo de teto. E se não usar o cinto de segurança? E se falar no celular? Puser criança no banco da frente?

Tudo isso sem o governo saber? De jeito nenhum! A sociedade não pode correr esse risco…

Agora, já que não existe mesmo lugar onde se possa acelerar, pra que seguir fazendo carros com esses motorzões? Boa pergunta! Vamos discutir criteriosamente se é melhor fazer só carroças, logo de uma vez, ou cobrar um imposto por cada cavalo de força, para desincentivar a condição para a contravenção…

E, pensando bem, porque cuidar de vigiar só os carros se dentro dos carros é o lugar onde menos se cometem crimes hediondos?

Não! Mais importante que tudo é fazer isso dentro das casas. Vejam só o que as câmeras nas ruas têm feito para coibir o crime e ajudar o trabalho da polícia! Porque dar ao cidadão a chance de se esconder dentro de casa para cometer suas infrações? De que adianta todo esse zelo pela saúde publica se ele chega em casa e acende um charutão ou, pior ainda, um cigarro de maconha?

E os crimes hediondos, então?

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Alô, alô, Viva Rio! Que bobagem é essa de ficar proibindo arma de fogo? Vamos acabar com a impunidade dentro de casa que, ela sim, é que faz subir as estatísticas “da violência”. E não me venham com essa balela de presunção de inocência até prova em contrário. Se nós já tínhamos concluído que a posse de uma arma é indicio seguro da intenção do cara de assassinar alguém, porque vamos aceitar agora essa história que o cara foi pra dentro de casa porque quer paz? É nada! Se ele entrou em casa, foi para se esconder das câmeras. E se foi se esconder das câmeras é porque está mal intencionado. Assim como todo mundo que tem uma arma é um assassino enrustido, todo mundo que vai se esconder entre quatro paredes ta mesmo é querendo praticar uma monstruosidade.

Não vamos dar mole não! Olho nele!

E mais: vejam só o efeito que a instalação dos chips nos automóveis provocou na arrecadação. Agora sim, nós pegamos aqueles contraventores, aqueles sonegadores filhos da puta! Olha quanta gente praticava atos anti-sociais e saía impune. Porque só os automobilistas? Isso é uma discriminação odiosa baseada na condição social do indivíduo. No que ele tem e não no que ele é. Nada disso, vamos instalar chips subcutâneos em cada cidadão na maternidade.

Totalitarismo?! Invasão de privacidade?

Quem não deve não teme! Esse pessoal que fica vendo fantasma debaixo da cama quer mesmo é acumular só para si e não dividir nada com os pobres. Há 500 anos que essas zelites são isso aí! Mas a gente ensina eles!

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Nesse momento, acordei, suando, do pesadelo.

Naquela confusão estremunhada, pensei: Que nada! Quiéisso, cara! Nós vivemos numa democracia, num Estado de Direito. Taí o Congresso Nacional, taí o Judiciário pra defender os nossos direitos…

Um pigarro dos grandes subiu e quase me afogou…

Então tateei o criado mudo atrás da caixinha dos remédios, peguei o maior sonífero que eu tinha e me apaguei.

Desta vez de propósito…

Onde estou?

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