Uma doença antiga e 4 notas maldosas
26 de novembro de 2011 § Deixe um comentário
O Brasil vive ha 500 anos atolado nesse mesmo brejo: o descalabro anterior é sempre o que se alega para justificar o descalabro seguinte. Em vez de providenciar o conserto do membro danificado, deixemos que ele caia de podre e que o corpo todo se entorte para se adaptar a essa irremovível “realidade”.
Um exemplo?
Deu nos jornais da semana que passou que o Ministério da Justiça destacou um grupo que vai se empenhar sistematicamente em reduzir a “inflação penal”, que é como eles chamam as “dezenas de projetos em tramitação no Congresso” que, respondendo a eleitores em pânico com a falência da segurança pública, aumentam as penas para inúmeros crimes.
O argumento é na linha de sempre: nossas prisões são tão indecentes que se transformaram em fábricas de feras. Logo a solução é deixar os criminosos soltos nas ruas e os cidadãos presos nos seus casebres, onde as “celas” são melhorzinhas…
Se, seguindo a moda em voga no mundo, o governo instituísse um único “Dia Nacional sem Roubo” por ano, dava pra arrumar todas as prisões existentes e ainda construir as que estão nos fazendo falta.
Visto que, também nesta mesma semana, noticiou-se que o Brasil gasta em proporção ao PIB e à população o mesmo que os países mais seguros do mundo gastam com polícia, confirma-se que só ficaria faltando acabar com a galopante inflação de recursos e firulas formais que valem mais que os fatos nas discussões e decisões dos nossos advogados, promotores e juízes – inclusive e principalmente nos julgamentos a respeito da corrupção dos seus pares – pra resolver o problema da segurança pública no Brasil.
Mas aí como é que esse povo trabalhador do sistema judiciário ia sustentar os seus pequenos luxos?
Nem pensar!
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Jorge Gerdau Johanpeter, que foi imperialmente remunerado, via BNDES, para não ter mais que pensar em suas empresas e poder se dedicar “ao Brasil”, concluiu, após 8 ou 9 meses sentado no gabinete dentro do Palácio do Planalto de onde coordena a Câmara de Gestão e Planejamento do governo Dilma Roussef, que “é impossível governar com 40 ministérios e 25.500 cargos de confiança“.
Obrigado, dr. Jorge…
Mas o problema da administração pública brasileira nunca foi de falta de diagnóstico. É de recusa sistemática dos governos de tomar o remédio que todo mundo conhece contra o seu velho vício de subornar partidos políticos, fabricar e distribuir cargos públicos e cooptar empresários para lhes comprar eleições e perenizar no poder.
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E de repente, não mais que de repente, toda a legião dos banqueiros públicos e dos temidos fiscais do PT que têm acesso a cada movimentação nas contas de cada empresa do Brasil online e em tempo real no famoso computador da Receita Federal que deixa o da Nasa no chinelo, grita em uníssono sobre a compra pela Caixa Econômica Federal daquele banco do Sílvio Santos que eu e a torcida do Corinthinas sabíamos que estava arrombado: “Fomos traídos!“
Coitados…
O Silvio Santos é o dono daquela rede de TV da bolinha de papel na careca do Serra que selou a sorte da última eleição.
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Kassab, acusado de ladrão, é cria de Maluf, condenado como ladrão, que é padrinho de Negromonte, flagrado como ladrão.
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A USP se transformou na nossa madrassa. É lá que são fabricados os nossos aiatolás.
Como funciona o regime que o PT mais admira
13 de dezembro de 2009 § Deixe um comentário

“DIETA BRANDA”
“No meio de historias como esta vive Adolfo Fernandez Saínz que ontem fez 61 anos, seis dos quais passou trancado na prisão de Canaleta onde está desde a primavera de 2003”.
“Naquela tarde iria extrair o ultimo canino que lhe restava. Ha dias vinha nessa empreitada, ajudado por outro preso que era prático em arrancar dentes. A coleção dos dentes já arrancados estava guardada debaixo do travesseiro e ficaria ali ate que lhe desse vontade de atirá-los – com seu esmalte amarelado – pela pequena janela que havia na cela.
Se tudo saísse conforme o esperado, na semana seguinte estaria mostrando sua boca com as gengivas nuas para o médico. Diria que tinham caído sozinhos como fez o protagonista do filme Papillon, que assistiu quando era criança. Naquela história o prisioneiro tinha sido vítima do escorbuto. Mas ele não. Tinha renunciado à sua dentadura para ter acesso à dieta especial que era servida aos prisioneiros que não podiam mastigar. A papinha de banana com batata era muito superior, em sabor, à rançosa comida que serviam aos prisioneiros com dentes, de maneira que era uma questão de sobrevivência prescindir dessas coisas inuteis que vinha carregando ao redor da língua.
Antes de passar para o catre de Cojo, que já tinha preparado os “instrumentos” como se ostentasse um diploma de protético, olhou o canino pela ultima vez na lata polida que lhe servia de espelho. Não havia nada a lamentar, estava roído pelas cáries, torcido para a direita e manchado de nicotina. Esse pequeno obstáculo que emergia de sua boca não iria mais se interpor entre as carnes e as necessidades do seu corpo. Feita a consideração, começou a bater no dente para afrouxá-lo um pouco e seguiu para o lugar onde vários presos aguardavam uma extração. Por cima do colchão, o cabo partido de uma colher e uma pequena barra de metal faziam as vezes do martelo e do cinzel que seriam usados para abalar o dente, e uma pinça improvisada, feita com dois pedaços de arame, que seria usada para extrair a raiz. O pagamento pela cirurgia improvisada seria feito em cigarros, uns 20 que ele tinha conseguido poupar durante vários dias sem fumar.
Depois iria dormir com o buraco do dente latejando mas alegre por poder entrar na confraria dos desdentados, o seleto clube dos privilegiados que comiam um pouco melhor. Outros prisioneiros, em seus catres, tambem estariam controlando a dor e sonhando, durante toda a noite, com uma quentinha de alumínio transbordante de uma suave papinha”.
O que você acabou de ler é a tradução do post de 1º de dezembro passado do site Generacion Y, de Yoani Sanchez, que descreve, de Havana, como é a vida em Cuba, ha 53 anos sob o mesmo regime que nas décadas de 60 e 70 treinou os agentes da luta armada que tentaram derrubar o governo militar instalado no Brasil.
Adolfo Fernandez Saínz é tio dela.

O Human Rights Watch, ONG insuspeita de antipatias especiais para com regimes de esquerda, publicou em novembro passado o seu ultimo relatório sobre Cuba, sob o título “Novo Castro; a Cuba de sempre” (http://www.hrw.org/en/news/2009/11/18/cuba-ra-l-castro-imprisons-critics-crushes-dissent). Afirma-se ali que ha 53 prisioneiros politicos cumprindo penas em Cuba que variam de 13 a 28 anos. Mas a lista publicada não inclui o nome do tio de Yoani, de onde se conclui que a lista se refere apenas aos formalmente condenados, que são uma minoria.
Espancamentos sucessivos, meses em celas solitárias, ameaças de estupro, comida insuficiente e de péssima qualidade são alguns dos castigos corriqueiros que esses prisoneiros sofrem. Mas o pior deles talvez seja o da “condenação” à tuberculose. Com celas superlotadas, sem nenhuma higiene, a tuberculose é endêmica nas prisões cubanas. O Human Rights Watch registra pelo menos tres casos recentes de prisioneiros sadios arrancados de surpresa de suas celas e atirados em celas de quarentena, com até 70 prisioneiros doentes, para serem contaminados pela tuberculose.
O relatorio é muito longo e detalhado. Baseia-se em entrevistas contrabandeadas, feitas por telefone ou em testemunhos diretos coletados em delicadas operações de voluntários da ONG que visitam a ilha e fazem contato com familiares de presos e outras testemunhas tomando cuidados redobrados para que isso não lhes renda novas brutalidades por parte do regime.
Desde que Raul Castro substituiu seu irmão Fidel, em 2006, o numero de prisões arbitrarias aumentou muito. Organizações de direitos humanos que atuam em Cuba documentaram, para Human Rights Watch, 325 prisões arbitrárias em 2007. Só nos primeiros seis meses de 2009, o numero subiu para 532.
As leis cubanas não apenas incentivam como, em alguns casos, obrigam os agentes do governo a fazerem prisões arbitrárias não apenas de quem infringiu alguma das drásticas leis de proteção do regime. O artigo 243 da Lei de Procedimentos Criminais ordena a prisão – por “periculosidade” – tambem de quem as autoridades suspeitem que possa vir a faze-lo no futuro. As definições são suficientemente vagas para permitir que qualquer um seja preso sob qualquer pretexto.
O Poder Judiciário praticamente não existe. É inteiramente subordinado ao Conselho de Estado, orgão máximo do regime com 31 membros presididos por Raul Castro, que nomeia e demite todos os juizes e manda e desmanda nos membros da Assembleia Nacional que se finge de Poder Legislativo. As “eleições” para essa assembleia só admitem um candidato por vaga e o “eleitor” pode votar nele ou votar em branco…
As penas, nos primeiros estágios da perseguição, são indefinidas. A autoridade policial pode prender sem julgamento ou pode haver um julgamento sumário com sentença passada em menos de 24 horas após a prisão. Tambem pode não haver julgamento nunca e a pessoa ficará presa “para reeducação política” até que a autoridade ache que a reeducação foi completada.
O relatório do Human Rights Watch registra, para cada fórmula mencionada neste artigo, inumeros casos reais como ilustração.

A ação policial que se apresenta como tal, entretanto, só virá depois de uma sucessão de atos de terrorismo contra o alvo e seus familiares e amigos que poderão ser perpetrados por policiais ou por civis dos “Comites para a Defesa da Revolução” instalados em cada bairro de cada cidade ou, ainda, pelas “Brigadas de Resposta Rápida” tambem constituídas por “voluntários civis”.
O uso generalizado de espionagem por agentes infiltrados e de vigilância eltrônica (grampos telefônicos, vigilância das mensagens por computador, filmagens, etc.) faz com que todo cubano se sinta devassado. O governo pressiona diretamente a família e os amigos dos suspeitos de dissidência a se afastarem dele sob pena de também sofrerem sansões (perda do emprego, etc.). O isolamento é uma arma poderosa…
O medo leva muita gente a se aproximar dos agentes do aparelho repressor para melhorar sua pontuação junto ao partido. Pertencer ao “Comite de Defesa da Revolução” local ou a algum dos sindicatos ligados ao governo são formas de ganhar simpatias dos poderosos. A simples participação nos eventos comemorativos do partido já conta uns pontinhos (positivos para quem vai e “se entusiasma”, negativos para quem não vai ou para quem não mostra entusiasmo com os “discursos revolucionários” dos que estão ha 53 anos no poder). Mas as maiores recompensas vão mesmo para quem delatar seus vizinhos e parentes.
Todo mundo suspeita de todo mundo.
Quando parte para a ação direta o governo recorre a prisões que mais se assemelham a sequestros, espancamentos (Yoani foi sequestrada e espancada por quatro ou cinco brutamontes ha cerca de duas semanas) e intimidações verbais feitas por gente fardada, às vezes, ou a paisana e sem identificação, quando convem. Tambem são muito usados os “atos de repudio” em frente à casa dos famíliares do dissidente em que “manifestações” de grupos ligados ao governo os fazem passar por seções de humilhação e achincalhamento que, frequentemente, chegam até às vizinhanças do linchamento. As famílias dos dissidentes presos também são multadas em valores suficientes para deixa-las passando necessidades (os salários, em media, são de US$ 15 dolares por mes) e o acesso aos serviços sociais básicos como medicina, por exemplo, pode ser fechado.
O relatório segue por 120 páginas de variações sobre o tema que incluem todo tipo imaginável de covardia, de ignomínia e de sordidez. Só no final desse tunel é que estão as prisões e a tuberculose…
É este o regime que a maior parte dos petistas que não aceitam fazer concessões ao “governo ilegítimo” eleito em Honduras tem como modelo.

Confusões filosóficas do doutor Ciro
21 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
Ontem, no Canal Livre da Band, o deputado-candidato Ciro Gomes defendeu o tratamento que se dá hoje aos menores infratores “enquanto este país não puder dar pra todo mundo educação e perspectiva de vida decente”. Não sei se foram estas exatamente as palavras, mas era algo por aí. “Infração”, referida a menores de idade é, como se sabe, uma expressão que pode significar qualquer coisa, de roubo de galinha a chacina de gente, neste Brasil do tudo menos responsabilização…
Na mesma entrevista, denunciou o preconceito que é se considerar as favelas e morros cariocas como antros de crime. Disse que 90% de quem mora nelas é trabalhador e 10% é gente que explora essa maioria usando uma mistura de assitencialismo e terror.
Eu, no artigo aí embaixo, fui menos preconceituoso que ele. Pus 99,9% do lado do bem. Mas o que importa é que esta segunda afirmação é, na prática, a denuncia da falácia da primeira. Porque se 90% dos miseráveis não usam sua miséria como desculpa para cair no crime, é mentira que os que caem, caem involuntariamente, empurrados pela miséria (que, por sua vez, segundo sua excelência, é uma espécie de construção deliberada das “elites golpistas” e não da politicalha bandalha).
Outra estatística eloquente foi deixada de lado pelo candidato a presidente. Ela mostra que mais de 90% dos assassinatos praticados no Estado do Rio de Janeiro ficam impunes. Nunca se descobre o culpado. No resto do Brasil é daí para pior.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto suspeitaria, a partir desse dado, sobretudo se cruzado com o outro, que existem muito mais razões na nossa realidade concreta para se acreditar que os 10% que matam, arrebentam e barbarizam os outros 90% honestos nas favelas (que são suas vitimas preferenciais e não a “zelites”), fazem isso porque são covardes e filhos da puta e, sobretudo, porque sabem que vão ficar impunes. Mas apesar da sugestão dos jornalistas que o entrevistavam de que talvez a coisa fosse assim, ele insistia em ver uma relação de causalidade onde as estatísticas a negam, e em não ver relação de causalidade onde as estatísticas a afirmam…
Mais pra frente, Ciro Gomes fez mais um relato que apoia a conclusão acima. Falou do programa Ronda do Quarteirão que seu irmão está aplicando em Fortaleza e que está dando os resultados que se espera do aumento do policiamento e, consequentemente, da redução da impunidade, qual seja, a queda dos indices de criminalidade sem que a pobreza cearense tenha se movido um milímetro para baixo ou para cima. Reclamou, até, de que a “imprensa golpista” (porque noticia mensalões, farra das passagens e outras coisas do genero) não tenha registrado esse sucesso. Usou isso como uma espécie de prova adicional da má fé que imputa a essa imprensa.
Coincidentemente O Globo de hoje, que estava nas rotativas quando ele fazia essas declarações, traz matéria bastante bem feita sobre o sucesso do modelo adotado em Fortaleza e mostra um lado dele que o deputado-candidato não chegou a mencionar ontem.
A grande novidade do sistema em funcionamento em Fortaleza não é, exatamente, o policiamento comunitário, que já foi experimentado em vários lugares Brasil afora. É o cerco eletrônico que os Gomes fizeram aos policiais lá no feudo deles, para torná-los responsabilizaveis pelos seus atos (“accountable“, para usarmos a expressão-chave da democracia americana que nem tradução exata em português tem): os moradores recebem o numero do celular de cada policial e, nas emergências, chamam diretamente o do seu quarteirão, em vez de chamar a central; os chamados, gravados, têm de ser atendidos em no máximo cinco minutos; os veiculos em que os policiais fazem a ronda são rastreados por satélite e só podem andar dentro do perimetro que lhes foi atribuído; têm compurtador e rádio a bordo mas, mais importante de tudo, carregam duas cameras permanentemente ligadas mostrando tudo que acontece à frente e na traseira do veículo; mais duas cameras serão colocadas olhando pra dentro do veículo, pra ver o que os policiais estão fazendo…
O resultado, como não poderia deixar de ser, é uma beleza.
Sabendo que acabou a impunidade pra violência policial, o relaxo, o desleixo o suborno e a corrupção; sabendo que agora a luz está acesa os policiais foram obrigados a abandonar as práticas que usavam no escuro e estão trabalhando como o contribuinte gostaria que todo funcionario publico e todo político trabalhasse, o que vem reforçar a relação de causa e efeito acima sugerida: basta suspender a impunidade para as coisas passarem a funcionar.
Enfim, todos os fatos que o sr. Gomes relatou desmentiam as premissas de que partia e, mais especialmente, as conclusões a que chegava. Se com “imprensa golpista” o esculacho em Brasilia é o que é, imagine sem. Se tivessemos uma imprensa mais eficiente do que ela é hoje na fiscalização dos nossos representantes e servidores e fizessemos com todos eles o que os Gomes estão fazendo com os policiais do Ceará, esse país decolava reto pro Primeiro Mundo.
Mas como a impunidade é que é a regra, defendida de viva voz até pelos cadidatos a presidente que lá, na seara deles, acabaram com ela pelo menos pros policiais, ficamos onde estamos.
O Brasil de mãos ao alto
20 de setembro de 2009 § 4 Comentários
O Globo de sabado informa que quatro dos mais perigosos facínoras do Rio de Janeiro – chefes de quadrilhas organizadas de assassinos e traficantes – estão prestes a ser soltos por força desse monumento à hipocrisia institucionalizada; desta ode ao absurdo que é o nosso regime de “Progressão de Penas”.
O de hoje, segunda-feira, acrescenta que o traficante Elias Maluco, que retalhou a espada o jornalista Tim Lopes em 2002, tambem está prestes a voltar para as ruas. Quando ele trucidou o jornalista, aliás, já estava solto em função de “progressão da pena” recebida por crimes anteriores.
Em qualquer país civilizado um bandido condenado e que estivesse sob a guarda do Estado perpetrar uma barbaridade como esta derrubava o governo. Neste país que se acostumou a apanhar, é um fato que se repete tanto que nem os jornalistas cuidam mais de destacá-lo, embora em quase todo crime bárbaro que se pratica por aqui esteja envolvido alguem que a polícia prendeu e a Justiça soltou.
Ha décadas que eu repito a frase de um ex-comandante da PM de São Paulo que me dizia – e provava – que o Brasil era mantido em estado de sítio por não mais de algumas centenas de bandidos realmente perigosos, a maioria dos quais a polícia já tinha prendido mais de uma vez, mas que a Justiça devolvia às ruas.
Taí…
Os termos da notícia de sabado denunciam o grau do descalabro de que somos vítimas.
Sabem quem são os caras?
Ninguém menos que aqueles três que, de tão perigosos, não podiam ficar no Rio nem presos. Quando o governo do Paraná os tirou da Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Catanduvas, os meteu num avião e despachou de volta para o Rio, foi aquele perereco. Um empurra-empurra entre os dois governadores que envolveu dois aviões, três operações de pouso e decolagem, sete horas de voos e 20 horas de discussões sob o olhar incrédulo de uma Nação acuada pelo crime organizado.
O Estado carioca não só confessava a sua impotência para manter três bandidos fora das ruas como expressava francamente o pânico que lhe causava a perspectiva de que eles ficassem em um presídio a menos de um mínimo de dois Estados de distância das suas “bases”.
Já naquela altura, como sói acontecer em tudo que faz o Poder Publico no Brasil, entraram nas considerações das autoridades que decidiram manda-los de volta ao Rio tudo menos o interesse dos habitantes do Brasil real. O governo do Paraná alegou que os bandidos não tinham cometido “infrações disciplinares” em Catanduvas, o que “justificaria a permanência deles naquele presídio”, nem o governo do Rio “forneceu informações adicionais que justificassem a necessidade de mantê-los lá por mais tempo”…
O fato de “My Thor” (Marco Antonio Firmino Pereira da Silva, à direita) ser conhecido como “O Bandido da Machadinha” por ser esta a sua arma preferida para decapitar suas vítimas nas guerras do tráfico, é mero detalhe. Não entrou nas considerações então, nem entra nas considerações agora, das autoridades que prometem devolvê-lo às ruas.
Sabem o que é que conta?
Essa fera “comprovar que tem um emprego em vista quando sair da prisão”!! Basta isso para que o bom sr. Pereira da Silva reivindique o seu “direito cidadão” de cumprir apenas um sexto da pena e voltar em paz para a rua e para as machadinhas.
As contas sobre essas penas divisíveis por seis , então, são o samba do crioulo doido. Junto com “My Thor” nossa Justiça pretende soltar Isaias do Borel (à esquerda), chefe de toda uma facção criminosa, Ricardo Chaves Castro de Lima, o “Fu da Mineira” (centro), tambem chefe de quadrilha do tráfico, e Marcio Candido da Silva, o “Porca Russa”, um dos maiores sequestradores já registrados pela crônica policial carioca.
Os três primeiros, em dezembro de 2006, comandaram de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1 uma onda de terror na cidade do Rio de Janeiro que resultou em 11 mortos, mais de 30 feridos e 11 ônibus incendiados. Foi para evitar que continuassem comandando “bondes” de dentro da prisão na nossa colômbia particular que o governador do Rio, rendido, os despachou para o Paraná.
Nada de novo.
Exportar seus criminosos por falta de condições de controlar seus próprio presídios é uma regra em quase todos os Estados brasileiros. Até Alkmin, São Paulo era das unicas exceções. Hoje não sei. É o que acontece nos países onde os funcionários publicos são indemissíveis: corrupção fora de controle.
Enfim…
“Fu da Mineira”, com 22 crimes na ficha, foi condenado a 89 anos e já cumpriu 16. Ainda consta no Ministério Publico um mandado de prisão contra ele em aberto, mas isso não tem importância. Isaias do Borel foi condenado a 36 e cumpriu 18. “My Thor” pegou 27. Mas a legislação brasileira tem duas particularidades que tornam sem sentido as sentenças que ela própria emite. Uma diz que não será cumprida nenhuma pena maior que 30 anos. A outra, que é a que realmente vigora, diz que todo mundo pode se ver livre, mesmo das culpas mais hediondas, depois de cumprido um sexto dessa pena, ou seja, 5 anos, desde que alguém lá fora diga que lhe dá um emprego.
Não é fantástico!
Em relação ao que costuma acontecer com presos menos notórios mas não menos facinorosos, portanto, estamos no lucro somente no que diz respeito a Isaias que cumpriu metade da sua pena, coitado!
Na semana passada soltaram “Polegar”, o chefe do tráfico da Mangueira, sob a alegação de que teve “um comportamento excepcional” enquanto esteve preso. O juiz encarregado do seu caso, entretanto, disse ao Globo, com todas as letras, que ele já tinha direito à progressão desde agosto de 2007, mas que ele “conseguira mantê-lo sem desfrutar do benefício em função de processos referentes a quatro assassinatos de que ele participou na cadeia durante a chacina que culminou com a morte do rival Uê, em Bangu 1, ha sete anos”. “Polegar” de fato se comportou “excepcionalmente” na cadeia. Para quem tiver estomago para tanto, as fotos sobre esse massacre estão na internet: corpos queimados, retalhados e decapitados…
Não é um show?!
O Brasil vive de mãos ao alto graças ao velho vício instilado pelo modelo jesuíta de educação, aquele em que não se interroga a realidade em busca de provas das nossas hipóteses mas, ao contrário, trata-se de enquadrar a realidade às “verdades” que elegemos previamente, por mero exercício dialético e dedutivo.
É em função disso que se nega a realidade de que 99,9% dos miseráveis do Brasil são pessoas honestas e trabalhadoras para se afirmar a “verdade” previamente formulada de que o crime é consequência da pobreza. É em função disso que se nega a realidade de que algumas pessoas são diabólicas e seguirão sendo assim, para se afirmar a verdade idealmente estabelecida de que todos são igualmente remissíveis (se tiverem um emprego, bem entendido…) não importa a monstruosidade que tenham cometido. É em função disso que se privilegia o criminoso, “vítima da desigualdade”, coitado, e se esquece a vítima que, afinal de contas, possuia o que se quisesse roubar.
Afeito aos conceitos absolutos, às generalizações e à adjetivação moral das questões práticas, o esquema jesuíta de pensar não perde tempo com nuances; aponta as prisões cheias de ladrões de galinha pagando penas só merecidas por monstros para justificar que os monstros paguem penas de ladrões de galinha.
E fiá’da puta de quem disser o contrário!
Raízes da impunidade – 2
11 de agosto de 2009 § Deixe um comentário
Levando adiante o tema da nota aí embaixo, cabe lembrar que, com raríssimas exceções, o homem rouba … sempre que pode.
Esqueça a filosofia de botequim e a conversa mole dos padrecos de presídio. Apague a luz por tempo suficiente e vera a humanidade voltar ao estado selvagem. Foi o que aconteceu naquele histórico black-out de Nova York, lá atras, nos anos 70. Dêm uma googada no tema, se duvidam do que estou dizendo. A cidade foi saqueada como num daqueles filmes de invasões dos vickings; o numero de estupros foi às alturas, as pessoas fornicavam na rua a ponto de, nove meses depois, registrar-se um pico nos nascimentos. Tudo porque, de repente, todos tinham certeza de que ninguem estava vendo, e não haveria castigo.
Nem é preciso ir tão longe. Basta ver as ruas sem iluminação. Uma fileira de postes sustentando lâmpadas, todo mundo sabe, faz mais efeito que um batalhão da PM.
Antigamente, quando não havia luz, os viajantes estranhavam a figura dos “embuçados”, naquele calorão do Rio de Janeiro. É que como a impunidade sempre foi lei por aqui, as pessoas andavam cobertas com um enorme capotão, dos pés à cabeça, para o assaltante não saber se ela estava ou não caregando um bacamarte debaixo do ponche, e pensar duas vezes antes de atacá-la.
Hoje não têm mais essa chance. Poibiram as armas pras pessoas honestas e os bandidos podem vir ao seu pescoço com toda a tranquilidade!
Mas a receita é tão velha quanto a humanidade: contra o crime, castigo.
Sem castigo; mais crime. A relação de causa e efeito idem…
O fato é que o brasileiro vive em permanente estado de sítio por causa de alguns milhares de bandidos realmente perigosos, a maioria dos quais a polícia já prendeu mais de uma vez, mas a “justiça” devolveu às ruas.
Não ha mistério nenhum: assassina-se como se assassina no Brasil porque aqui assassinato é só “infração” e gente que planeja e executa o massacre dos pais a pauladas durante o sono pode ser solta “por bom comportamento”.
Aqui perdoa-se o que nem Jesus Cristo perdoava!
Mas não é de graça. Você sabia que em mais de 80% dos processos, o tarado, o troglodita, o assassino profissional, o grande traficante não chega a ter o mérito do seu caso julgado? A causa se extingue por “vício processual”? Quer dizer, pela má colocação de uma vírgula num auto, ou pela “perda de prazo” para a coleta de um depoimento, num dos 50 e tantos recursos previstos?
E sabe por que isso é possível?
Porque interessa a juizes e advogados ter o poder quase divino de prender ou libertar quem eles quiserem (ou melhor, quem puder lhes pagar quanto isso custa). E o jeito de conseguirem isso é manter o Código Processual explícita e desavergonhadamente maluco que vigora aqui, tão cheio de brechas e recursos, que nenhum caso, se eles não quiserem, chega ao fim.
Em cima desse Código Processual viceja uma industria criminosa, que tem o requinte de usar como fachada a repressão ao crime. E a prova disso está nos numeros e nos casos horripilantes relatados na sequencia dos “mutirões carcerários” promovidos pelo Conselho Nacional de Justiça, que no período de um ano libertou 4.781 pessoas indevidamente presas. Para quem não pode pagar os serviços de advogados e juízes onipotentes, qualquer barbaridade vale. Milhares de pessoas continuam presas por anos a fio, depois de terem suas penas cumpridas; houve casos de pessoas presas por 11 anos antes que seu caso tivesse ido a julgamento; ha estados em que a polícia prende suspeitos mas não comunica essas prisões nem ao Ministério Publico, nem à Defensoria Publica, nem à Justiça. A lista de barbaridades e ignomínias sofridas pelo preso “pé de chinelo” não tem fim…
E tudo isso se apoia no poder dsicricionário do juiz e nas infinitas mumunhas permitidas aos advogados.
Nos países anglo-saxões, onde vigora a Common law, a lei baseada na tradição e o sistema de precedentes jurídicos, a função do juiz não é julgar. O juiz lá, alias, não precisa sequer ter curso de Direito. Basta ser um homem de bom senso e ilibada reputação. A função dele é aferir, com a ajuda de testemunhas e de um juri, se o caso que está sendo avaliado se parece ou não, em todos o detalhes, com o caso precedente sob cujo modelo ele entrou no tribunal. Se todos avaliarem que sim, o caso é igual, então a sentença, automaticamente, será a mesma que foi dada ao caso anterior.
Não é preciso muita imaginação para entender quanto esse sistema evita de corrupção. O tipo de corrupção que grassa em tribunais como os nossos onde ha espaço para o arbítrio de tal forma que um caso idêntico a outro pode ter julgamentos diferentes, com sentenças diferentes e até, desfechos opostos, com prisão num caso e absolvição no outro.
O exame detalhado desses dois sistemas jurídicos será objeto de artigos recorrentes neste Vespeiro…


















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