A “zelite” da imprensa e o nosso Iraque tropical
16 de dezembro de 2011 § 2 Comentários
Ainda na semana passada eu fiz aqui um exercício público de ressuscitação da minha fé no poder da razão.
Mas o Brasil é jogo duro…
Anteontem os três jornalões traziam matérias sobre os números da criminalidade no país de Lula. Estavam qualhados de “nunca antes na história deste país”…
Um milhão e cem mil pessoas trucidadas nas ruas em 30 anos. 50 mil só no ano passado. 137 por dia. Mais que um Carandirú, com seus tímidos 111 mortos, a cada 24 horas.
O conflito entre israelenses e palestinos, com seus 125 mil civis mortos em 53 anos, não nos chega aos pés. Ha 67 cidades brasileiras mais perigosas de se viver hoje do que no Iraque quando a guerra rolava quente.
Mas por mais que a realidade nos esbofeteie não tiramos conclusão nenhuma que altere o rumo das coisas.
Dos três jornalões que destacaram a carnificina brasileira em suas primeiras páginas, o único que lhe dedicou a manchete do dia – O Globo – é aquele que lidera a campanha para afirmar que tudo isso é culpa das vítimas e a solução é fazer passeatas “pela paz” e obrigar os cidadãos respeitadores das leis a desistirem de se defender e entregar as velhas armas enferrujadas esquecidas no alto de armários por seus pais e avós à honesta polícia do Rio de Janeiro para que isto aqui vire um céu.
A consideração elementar de que “as pessoas que, de boa fé, entregam as armas que têm ao Estado certamente não estavam pensando em usá-las para impor a sua vontade aos outros” e de que, inversamente, “os que têm esse objetivo não cedem ao apelo do Ministério da Justiça” segue sendo olimpicamente ignorada pela maior rede de televisão brasileira.
Deixem os criminosos em paz. Vamos é perseguir esportistas, colecionadores e outros degenerados notórios dessa laia.
Não ha como interpretar isso como fruto de boa fé.
E, no entanto, o grosso da jornalistada saliva pavlovianamente quando ouve o plim-plim, e repete o que seu mestre mandou indiferente aos trompaços da realidade.
A Rede Globo é especialmente fascinante no que diz respeito às questões de segurança pública, aliás. Ela e os jornais do grupo, com a maior tranquilidade e para o supremo escândalo deste escrevinhador que já o registrou tantas vezes aqui, tecem, volta e meia, considerações judiciosas sobre o interesse ou não de se levar as ocupações de territórios em poder do crime organizado além do “cinturão de segurança” em torno do estádio do Maracanã e dos caminhos entre o aeroporto internacional do Galeão e ele, e dele para a Zona Sul, por onde estará transitando em breve, aquele tipo de “inglês” que “vê” e para quem é preciso mostrar que nós não somos um Afeganistão qualquer.
A plebe ignara que vive foram desse circuito que se arda entre traficantes e milicianos…
Outro mito que foi por água abaixo com os números divulgados anteontem, conforme lembra o comentarista Reinaldo Azevedo, “é aquele que procura relacionar violência com pobreza ou estagnação da economia: o índice de homicídios explodiu foi no Nordeste, a região que mais cresceu nos últimos anos“.
Mas que poder têm os fatos em Pindorama?
Aí juntam-se ao Globo também os dois jornalões paulistanos que têm feito um trabalho exemplarmente distorsivo e pusilânime para esconder com uma peneira o sol ofuscante do resultado do trabalho feito em São Paulo contra a impunidade dos policiais corruptos e para retirar de fato os bandidos das ruas.
O fim da impunidade garantida nas delegacias e a aplicação de regras comezinhas de corregedoria com um dedinho de coragem fizeram as mortes de morte matada caírem a 1/3 do que já foram ou 300% ao longo de dois períodos de governo neste Estado.
Mas ainda que esta seja uma daquelas rodrigueanas “verdades cristalinas que clamam aos céus”, na dita “imprensa séria” é proibido admiti-lo por escrito.
Depois não sabem porque vivem uma crise de credibilidade…
É fácil entender a ação dos falsificadores profissionais de fatos ideologicamente enviesados que, no século passado, se infiltravam nas redações e nas universidades para, organizada e meticulosamente, abafar e distorcer as verdades que pudessem contrariar os seus dogmas e perturbar os seus planos de poder.
Com a ascensão do PT, porém, os chefes dessas células saíram de livre e espontânea vontade dos cargos que tinham nas maiores redações do país para constituir o Ministério das Comunicações e os Comitês da Verdade lulistas, ou para se integrar nos partidos políticos onde se homiziam ostensivamente, hoje, os chefes das milícias e do crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro.
O núcleo “profissional” do chamado “Trio da Mordaça” que, desde o primeiro governo Lula, prega abertamente a instituição da censura à imprensa, por exemplo – constituído por Franklin Martins e Ruy Falcão sob a batuta de Jose Dirceu – saiu diretamente da direção de jornalismo da maior rede de TV brasileira quando sentiu que passou a haver “condições objetivas” para impor afirmativamente, de cima, o que antes nos intrujavam solapando a verdade por baixo.
Não foram “azelites”, donas desses órgãos de comunicação, que os tiraram de onde elas os tinham deixado permanecer por décadas para mentir, manipular, perseguir e aparelhar os centros de onde emanava a versão da história do Brasil que se tornaria oficial. Nunca perderam tempo em enfrenta-los porque estavam, como continuam até hoje, ocupadas com coisas mais importantes e “adultas” como contar dinheiro.
E isso certamente contribuiu muito mais do que poderiam ter feito esses disciplinados soldadinhos para transformar o Brasil neste Iraque tropical onde, ainda que os pobres vivam sob permanente fogo cruzado, as câmeras das TVs só apontam para os dedos que realmente apertam os gatilhos quando alguma bala perdida colhe um repórter da Globo.
Rio Babilônia
30 de agosto de 2011 § 4 Comentários
Eu sinceramente tenho feito força para me animar com o progresso material evidente do Brasil. Empurro o pessimismo pra lá, reduzo a marcha e acelero. Mas mesmo esquecendo Brasília, está difícil. O noticiário do Rio de Janeiro é de arrasar.
Primeiro foi aquela fantástica “libertação do Maracanã”, que serviu de marco para o fim do programa de implantação das UPPs. O Estado acha suficiente retomar as favelas em torno do ou no caminho entre o Maracanã e a Zona Sul, por onde deverão passar “os ingleses” que virão ver a Copa. E basta. O resto fica pra depois. Brasileiro pode esperar pra sempre. E a imprensa do Rio achou normal!!!!
Ai foi aquele quase enfrentamento entre o delegado Alan Turnowski, até o pescoço no crime organizado, e o secretário de segurança, e quem teve de “encolher” foi o ultimo.
Você levanta, meio tonto, tenta recomeçar a andar e aí vem os flagelados re-flagelados da Serra Carioca. Primeiro a enxurrada, depois a horda de ladrões. Ja não há sinal do tsunami que arrasou o Japão mas a Serra Carioca continua como na manhã seguinte ao desastre. Os pesadelos aqui começam e não acabam mais.
Então vem a libertação do capitão Bizarro. Sim, aquele mesmo que passou indiferente a dois metros do coordenador do Afroreggae, Evandro João da Silva, baleado, estrebuchando no chão, e em vez de socorre-lo correu atras dos seus assaltantes para … assaltá-los. Voltou com um tênis e uma camisa na mão, quase pulou por cima da vítima, ainda viva, e foi-se embora. Dois ou três anos “afastado” (como o Palocci) a espera de julgamento, e saiu livre, com dois meses de “prisão administrativa” que é outro dos nomes que eles dão à impunidade por aí.
Depois, a juiza que ousa prender os criminosos da polícia. Uma do nosso lado afinal!
Massacrada na rua: 21 tiros no rosto do Brasil.
Os motoristas de ambulância que vendem seus doentes a quem pagar mais; o bondinho de Sta. Tereza amarrado com arame; o sistema de saúde sem informática, o Judiciário sem informática, o sistema de educação publica semeando analfabetos para colher clientes do suborno eleitoral.
Que sete pragas do Egito, que nada! E um pouco mais longe das lentes da Globo, o que é que vem acontecendo?
Não vamos ver o fim disso nunca?
A libertação (só) do Maracanã
20 de junho de 2011 § Deixe um comentário
Anotações do fim-de-semana – 7
Sem dar nem um tiro, 750 policiais e soldados reincorporaram o morro da Mangueira ao territorio nacional depois de 26 anos de “independência”.
Com isso fecha-se o “Cinturão da Grande Tijuca” que cria uma zona desmilitarizada em torno do Maracanã.
Agora falta só o Complexo da Maré, ao longo da Linha Vermelha, que liga o Galeão ao Rio de Janeiro para que os estrangeiros que vierem ver a Copa possam ir e vir sem passar no meio do fogo cruzado.
A Rocinha, o Vidigal e outros morros ainda ocupados pelo tráfico podem ficar para depois porque só com a Olimpíada é que eles ficarão no caminho entre os turistas hospedados na Zona Sul e as competições que se darão principalmente na Barra.

Acredite quem quiser, foi mais ou menos nesses termos que O Globo comemorou a ocupação da Mangueira hoje, sob a manchete de página “Segurança no palco da Copa”.
O Globo, é obrigatório lembrar, pertence à mesma empresa da Rede Globo, que é quem mais fatura com uma Copa do Mundo no Brasil depois da Fifa e da CBF…
Não duvido que esta seja uma angulação realista. Venho denunciando essas UPPs desde o primeiro dia como uma operação “pra inglês ver”.
Mas o tom do Globo não era de denuncia. Era de comemoração! Ele se dá por satisfeito com o “Cinturão da Grande Tijuca”!!!
Pra mim isso é um escândalo muito maior que a atitude dos políticos que determinaram que seja assim.

Como sempre, a ocupação foi uma moleza. Os traficantes são business men que sabem que não podem enfrentar o Estado se este estiver disposto a coloca-los no devido lugar. Eles não precisam ocupar territórios próprios e armar os exércitos necessários para garanti-los para seguir com o seu comércio.
Faziam isso porque o histórico descaso do Estado para com a desgraça dos favelados do Rio dava-lhes de barato essa oportunidade.
A guerra pelos morros traduz apenas os delírios de vaidade dos chefões que, livres para agir, se deixam inebriar pela sensação de onipotência de ver seus súditos implorando pela vida; de ter uma corte ao redor de si onde todos lhes dizem amém e puxam-lhes o saco para ganhar privilégios; de ter o poder de distribuir pedaços desse poder.
Eles são uma versão mais primitiva dos profissionais de Brasilia, que também cairão sem disparar um tiro no dia em que a imprensa e o povo brasileiro resolverem que já tivemos o suficiente disso que eles são.

“Corre que não tem governo, seu trouxa!”
28 de abril de 2011 § 3 Comentários

Das notícias que mais me fascinaram ultimamente foi essa do governo do Rio de Janeiro mandando instalar sirenes nas áreas de risco habitadas por famílias de miseráveis à espera da próxima catástrofe.
Nem fazer cumprir a lei e tirar essas famílias de lá, nem fazer obras para tornar seguras essas encostas inseguras, veja bem. Mas colocar sirenes a serem acionadas “quando ameaçar temporal”, como se seguir vivendo em áreas desde sempre proibidas para construçōes humanas fosse um risco tão inevitavel e irremovível quanto as falhas geológicas sobre as quais se equilibra o Japão.
Para as autoridades do Rio, entretanto, pareceu uma solução boa e barata…
“CORRE QUE NÃO TEM GOVERNO, SEU TROUXA!”. É isso que gritam essas sirenes!
O Rio de Janeiro sempre consegue fazer com que o mais ácido dos brasileiros se descubra um doce. A descarga de bílis da mais recente indignidade sofrida nunca será a ultima. O próximo acinte poderá sempre ser ainda mais amargo.

O primeiro temporal depois da instalação das sirenes chegou e não deu outra. Não é que o governo do Rio de Janeiro é incapaz de prever o que virá pela frente, depois de confessar que é incapaz de mudar o que ficou para traz. Ele erra até na mera constatação daquilo que de fato acontece.
O Globo de anteontem era de morrer de rir se não fosse de morrer de chorar. Se fosse um filme, como disse alguém outro dia, não passava. Porque a ficção precisa fazer sentido.
Mas a realidade não.
A tempestade desabou, os morros quase vieram abaixo e as sirenes, nada. As que não entraram em curto em função da enchente, quando tocaram o pessoal já estava com água pela cintura.
Também teve fracasso 2.0. O “toque de modernidade” que o prefeito fez questão de dar à sua providência genial, acrescentando às sirenes a distribuição de celulares com um sistema de alerta para “chuvas de risco” via Twitter, a mesma ferramenta que resistiu à polícia do Ahmadinejad, passou por cima da muralha da internet da China e derrubou um par de ditaduras árabes sucumbiu nas mãos do funcionalismo tupiniquim.

Na Tijuca as mensagens de alerta de temporal só começaram a chegar depois que as ruas já estavam alagadas. E enquanto o pessoal bracejava na água, de lá pra cá, no salve-se quem puder, o sistema de monitoramento de tráfego do CET-Rio ainda dava as ruas mais alagadas como “boas para o trânsito”.
O Rio é um dos extratos concentrados de Brasil que existem por aí. Foi moral e fisicamente devastado por se ter tornado a opção preferencial da nata dos brasileiros que venceram na vida pela capacidade de se “bem relacionar” com “autoridades competentes” e donas das mais rentáveis porteiras da economia nacional.
Ladrão de sucesso mesmo acaba lá, na beira da praia. E faz tempo!
Convivem ali, lado a lado, com os pobres dos trabalhadores cariocas se esgueirando pelo meio, a riqueza mais culpada e a miséria mais vilipendiada do país.
Esse negócio de sirenes que urram aos céus o desprezo das autoridades brasileiras pelos brasileiros toda vez que eles mais precisam delas é pra lá de emblemático. Tem tudo a ver com o fato da cidade ter sido a capital do ultimo país do Ocidente a libertar os escravos e, mais adiante, ter permanecido por décadas a fio pontilhada de áreas onde a polícia não entrava desde que Leonel Brizola, lá nos anos 80, se compôs formalmente com o crime organizado.

Na cidade onde sobrevivem até hoje os palácios dos traficantes de escravos que, mancomunados com sua majestade, enriqueceram segurando a escravidão até a aurora do século 20, a polícia só se decidiu, finalmente, a ocupar os morros e libertar os miseráveis do jugo do crime organizado pela mesma razão que, cem anos atrás, o imperador finalmente se decidiu a libertar os escravos: para inglês ver; porque inglês mandou.
Brasileiro dane-se! Pode arder no mármore do inferno por milênios que ninguém se lixa!
O governo do Rio tomou os morros do crime organizado – fácil, como desde sempre era previsível – como libertou os escravos: porque não havia outro jeito. Porque os portos estavam cercados e seriamos expulsos do comércio internacional se não o fizéssemos, ha cem anos. Porque não haveria Copa nem Olimpíada se o tiroteio continuasse rolando solto uns poucos metros acima da linha da maré, ha cem dias.
Este é o retrato sem retoques do país que resulta desse modo brasileiro de estabelecer relações entre representados assim mesmo, amassadinhos, quietinhos, submissozinhos, e REPRESENTANTES todo poderosos, excelsas intocáveis excelências.
Infraestrutura? Aeroportos? Estradas? Segurança publica? Transportes coletivos modernos?

Estádios de futebol, que seja, para dar ao povo ao menos um bom circo?
Nada!
O governo que cobra os impostos mais altos do mundo não faz nada disso, a não ser que seja “para inglês ver”. E mesmo assim, olhe lá! Devagar! Com calma! Mordendo forte pelas beiradas! Dando a cada um “dos nossos” o seu justo quinhão.
“Ou as obras começam já (com dois anos de atraso) ou não tem copa?”
Ok. Vamos lá. Chamem os lobos; entreguem pra “iniciativa privada”. Mas veja bem: para “a nossa” iniciativa privada. E sem TCU! Porque aquele terço do PIB que embolsamos a cada ano é só pra sustentar o funcionalismo que trabalha demais, ganha pouco e é sempre insuficiente, coitado.
E, ademais, a especialidade cá em cima é estatizar infraestrutura para distribuir permissões especiais para o seu uso em troca de poder e não construí-la.

É nessa batida que vamos dilapidando a herança bendita, sonho de uma noite de verão, com a energia mais cara do mundo, ainda que hidrelétrica, expulsando fábricas daqui; sem portos, sem estradas, sem aeroportos; atravancados em cidades sem metrô; enlatados nos carros mais caros do mundo que bebem a gasolina mais cara e poluente do mundo, embora o petróleo e o álcool sejam “nossos”; toureando chineses e coreanos com a internet mais lenta e custosa e os salários mais taxados do planeta.
Mas, olhe lá! Tudo isso com um “Estado forte” de que “só temos de nos orgulhar”, e que pode sempre dar assistência à miséria que semeia. Tudo isso com 37 ministérios, cada um com a sua dezena de milhares de “autoridades” invulneráveis, e mais o Renan Calheiros assegurando o padrão ético da política e um Judiciário puxador de cordão em greve por um “reajuste” de 14,79%, nem uma casa centesimal a menos, enquanto a senhora presidenta, muito séria, muito bem posta, trata de “exorcizar a inflação” que bate à porta “diuturna e até noturnamente”.
É como eu digo sempre: ou tornamos esses caras instáveis, demissíveis pela menor falha em entregar tudo que são pagos para fazer, como qualquer um de nós e o resto do mundo já é, ou continuaremos sendo só as bundas que eles tão desaforadamente se comprazem em chutar.











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