Um livro fascinante

5 de abril de 2013 § 6 Comentários

trato

Não é novo nem nada, mas já que falei dele…

Deixei pendurada no final da última postagem a indicação do livro de Luis Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes, sobre “a lógica triangular do sistema de colonização português” falando em aventuras e personagens fascinantes, mas sem dar nenhuma pista a mais sobre esse lado saborosíssimo dessa obra tão original da excepcional produção historiográfica brasileira dos últimos anos.

Pois lá vai.

trat015

Quando os holandeses tomaram Pernambuco, conhecedores da dependência da economia canavieira do Brasil dos escravos africanos, eles tomaram também Angola, de modo a estrangular pelas duas pontas o esquema colonial português.

Portugal montou três expedições para tentar recuperar Angola e fracassou sempre.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Salvador de Sá, uma figura impressionante para seu tempo que tinha ambições sobre o continente inteiro, tendo casado suas filhas com poderosos de Buenos Aires e das minas do Potosi, no Peru, via seus canaviais minguarem em função da interrupção do fluxo de escravos.

trato11

Decidiu, então, não esperar mais pelas ações da coroa portuguesa já muito enfraquecida. Ele que, alguns anos antes, tinha construído o maior navio de seu tempo que desfilou com grande alvoroço pelos principais portos europeus para os quais mais de um rei e até o papa se deslocaram para ver com os próprios olhos aquela “maravilha tecnológica”, entendeu que era tempo de por mãos a obra.

Ali mesmo, na Baia de Botafogo, construiu uma grande esquadra, e enquanto a armava, enviou seus emissários para arregimentar os mais temíveis e experimentados guerreiros da colônia.

Seus navios partiram para a costa de Angola levando índios, capoeiras e bandeirantes de São Paulo calejados no uso da espada e do arco.

Para não caracterizar um ato de rebeldia, uma única nau tomou o rumo Nordeste e seguiu para Lisboa levando uma carta em que Salvador “pedia ordem ao rei” para atacar Angola.

trato18

Mas os dados já tinham sido lançados.

O desembarque em Angola é qualquer coisa de memorável. As tribos locais, que tinham escorraçado os portugueses três vezes, usavam uma espécie de machadinha que conseguia romper as armaduras europeias, o que tinha determinado sua vitória. Mas antes de precisarem usá-las, recebiam os invasores soltando na praia dezenas de leões famintos o que, em geral, provocava pânico e desorganização entre os inimigos.

Só então atacavam.

Os feras de Salvador de Sá, entretanto, levaram a melhor sobre as feras dos africanos com as quais muitos se atracaram em lutas corpo-a-corpo e, na sequência, caíram em cima dos seus donos e retomaram Angola.

trato10

Nesse meio tempo um navio vindo de Lisboa aportava no Rio com uma carta indignada do rei proibindo seu vassalo de meter-se com as suas conquistas e ir a Angola. É claro que, meses depois, ao saber do resultado da desobediência, sua majestade não só perdoou o súdito voluntarioso como premiou-o com a prerrogativa de escolher o novo governador de Angola (não me lembro se não foi ele próprio, aliás, que ocupou esse cargo).

O fato é que desde então Angola foi sempre governada por portugueses do Brasil…

Está aí, portanto, uma janelazinha para vislumbrar a ancestralidade das relações especiais entre Brasil e  Angola, que vão além da dívida moral e da contribuição cultural dos “emigrados” forçados de lá para cá, teve mão dupla, e para ter-se um gostinho do sabor deste livro que proporciona a quem o lê uma outra visão do que comumente se aprende por aqui sobre a História do Brasil.

Vale a pena lê-lo.

trato16

Cai na real, Brasil!

8 de janeiro de 2013 § 4 Comentários

brt

Presidente da República inaugurar linha de ônibus em véspera de eleição e ser ovacionado pela graça concedida é coisa que se você contar por aí afora ninguém acredita.

E, no entanto, é assim que é neste país de cachorros chutados que abanam o rabo, coitados, pra qualquer osso que se lhes atire.

Aos seis dias do mês de junho do ano da graça de 2012, nas vésperas da reeleição do prefeito que o presidente mais popular da história deste país foi apontar para “o povo pobre do Rio de Janeiro” como a melhor garantia de que “o bife que hoje você pode comer todo dia não venha a lhe ser arrancado do prato”, uniram-se em triunfo para dar lições aos grandes do mundo e apresentar à patuléia agradecida a resposta “histórica” da parceria entre o governo do Estado patrocinador de Fernando Cavendish, o ininvestigável proprietário da “inidônea” Delta Construções que segue sendo a campeã do PAC filho da Dilma, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e o governo federal da “sexta economia do mundo” às exigências de um mínimo de “mobilidade urbana” feitas pelo COI à cidade que vai receber a próxima Olimpíada.

brt00

A saber, 56 kms de blocos de cimento enfileirados – da Barra até à base aérea de Santa Cruz – constituindo uma “guia” ou “meifii” com preferem dizer os cariocas, a separar da própria o acostamento de uma estrada velha, por onde passaria a trafegar o “Ligeirão”, um reles ônibus articulado de nariz rebaixado, gambiarra com que se quer fazer lembrar os trens de alta velocidade ou os metros que já nos cobraram cem mil vezes mas nunca entregaram, e mais um túnel (fechado também, ameaçando desabar, quatro dias depois da 1a publicação deste artigo).

Passados seis meses, mesmo esse tanto pouco está nas condições registradas na foto aí em cima…

Agora dispare este vídeo. Vale a pena ver de novo!

E olhe outra vez para estas fotos quando Lula disser que, até que ele viesse nos salvar, “político só lembrava de pobre em época de eleição”; que “a gente não gosta de comprar coisa de segunda”; que ele está aí “para resgatar a dignidade de um povo” e, principalmente, que “cuidar dos pobres é a coisa mais barata do mundo”.

Vimos emburrecendo…

26 de novembro de 2012 § 2 Comentários

O Globo deste sabado trazia uma história interessantíssima colhida do livro O Rio de Janeiro Setecentista, de Nireu Cavalcanti (aqui).

Era o começo do verão de 1660 e Salvador Correia de Sá era o governador nomeado pelo rei. Não dava ponto sem nó. Distribuiu cargos e terras públicas para todos os membros de sua família, arranjou casamentos de parentes com os espanhóis que controlovam Buenos Aires e também as minas do Potosi, no Peru, baixou decretos ordenando que a Câmara Municipal pagasse seus gastos pessoais e com suas residencias, e por aí afora…

Isso não fez dele exatamente um homem popular. Por via das dúvidas ele resolveu, então, aumentar o contingente de soldados que o protegiam (e ao cargo) de 350 para 500 homens. Para financiar esse “melhoramento”, criou o primeiro imposto predial, tipo IPTU, da história do Brasil e mandou o projeto para a Câmara dos Veredaores.

Acontece que, se o governador era nomeado pelo rei, os vereadores eram eleitos (ainda que só pelos “homens bons” que constituiam a elite da cidade) e o imposto incidia sobre todas as moradias do Rio.

O povo estava com eles.

Aproveitando uma vigem de Salvador a São Paulo, a Câmara se reuniu, a 8 de novembro de 1660, e o destituiu do cargo, nomeando em seu lugar Agostinho Barbalho Bezerra, figura muito popular na cidade, irmão de Jerônimo Barbalho Bezerra que era o líder dos revoltosos.

Faltava, para completer o golpe, tirar Tomé Correia de Alvarenga, governador interino e primo de Salvador, do cargo no qual ele resistia. Tomé tinha sentido que a barra ia pesar e fugiu, dias antes, para o Mosteiro de São Bento, onde se asilou.

Acontece que Agostinho não tinha o mesmo espírito guerreiro do irmão Jerônimo. Quando soube que tinha sido nomeado governador correu para outro convento, o de Santo Antônio, onde tentou se refugiar, mas foi arrancado de lá a força para “tomar posse”.

Os rebeldes continuavam fiéis ao rei de Portugal, insistiam em esclarecer, e ficariam no governo do Rio apenas até Lisboa mandar um substituto para Salvador, tido como inimigo do povo.

Em São Paulo, Salvador preparava a resistência. Começou por enviar armas aos beneditinos que defendiam o primo Tomé. A Câmara do Rio tentou aliciar a de São Paulo, mas foi em vão.

Em janeiro de 1661, Salvador começou a reverter a maré. Mandou à Câmara do Rio um documento perdoando todos os revoltosos menos os sete líderes principais e suspendendo a cobrança do imposto malfadado, o que foi suficiente para desarticular a rebelião.

Na madrugada de 5 de abril, com uma tropa de mercenarios paulistas e mais pelo menos 700 índios postos sob seu comando pelos jesuítas, retomou o Rio sem enfrentar reações. Os líderes rebeldes foram presos e Jerônimo decapitado em praça pública, tendo a cabeça espetada numa estaca ficado exposta como exemplo num pelourinho onde hoje está a Praça XV.

Já seu irmão Agostinho, que desde o primeiro minuto traira a revolução, foi reconduzido ao governo tendo Salvador de Sá como seu “braço direito” (para evitar novas revoltas). Ficou no cargo por dois anos. Em agradecimento, ganhou do rei a capitania de Santa Catarina e direitos especiais de lavra de ouro nas Minas Gerais.

Morreu milionário.

Por via das dúvidas, o rei chamou Salvador de volta a Portugal onde deu-lhe polpudas sinecuras no Conselho Ultramarino. E a paz voltou ao Rio. (Só haveria outro imposto predial na cidade depois da chegada da família real em 1808).

Até que Nireu Cavalcanti publicasse suas pesquisas diretamente nos anais da Câmara e durante os 350 anos que nos separam dessa história, a versão da historiografia oficial tratava de confundir esse episódio com a “Revolta da Cachaça” ocorrida 13 anos antes quando Portugal instituiu um imposto sobre a fabricação de aguardente valendo para toda a colônia. Os anais portugueses descreviam o levante contra o imposto de Salvador de Sá como “uma rebelião de 131 chefes de famílias de grandes proprietarios”, a “zelite” de então, interessados em preserver seus privilégios. Nireu demonstrou que a rebelião contra o IPTU de Salvador de Sá envolveu, somente entre personagens citados nos anais da Câmara, 580 membros da elite e mais de dois mil revoltosos.

Moral da história: muito pouca coisa mudou no Brasil nesses 350 anos.

Os governantes seguem sendo o mesmo tipo de filho da puta de sempre, donos da coisa pública da qual dispõem como bem entendem; os que traem para aderir a eles são contemplados com pedaços do Estado e os que lhes resistem para realmente defender o que é de todos de sua sanha exploratória têm a cabeça cortada.

No fim toda essa lambança sanguinolenta vira, oficialmente, obras de benemerência às quais só “a zelite golpista”, em seu egoismo sórdido, ousa resistir.

A única coisa que mudou – para pior – é a atitude do povo e dos seus representantes diante da sanha exploratória dos donos do poder. Os legislativos, hoje, estão do lado de “lá” e os contribuintes já não reagem a quem lhes mete a mão nos bolsos.

Vimos emburrecendo…

Fantástico, o show da corrupção

27 de março de 2012 § 3 Comentários

…..

É uma verdadeira aula de Brasil a trajetória dessa “reportagem” do Fantástico que colocou o país frente a frente com o cotidiano da corrupção que irradia de Brasília para cada hospital, cada escola, cada guichê de cada repartição pública de cada município e cada estado brasileiro disputados pelas 27 máfias com representação no Congresso Nacional que mantêm os dentes cravados nas veias deste país.

Não tanto pelo que a Globo nos tem mostrado à exaustão. As cenas de deboche filmadas apenas põem carne e osso reais nos arquétipos que todos os chico anísios deste e dos séculos passados já montaram tantas vezes com a precisão do absolutamente dejà vu.

O que ensina mais sobre o ponto a que chegamos é justamente o que ela tem mostrado de menos.

Pense, por exemplo, sobre tudo que nos sussurra o fato de uma rede de televisão poder negociar com um hospital público o estratagema que resultou no registro daquelas imagens. Quem quiser ser otimista pode ver aí até uma luzinha de esperança. Ainda existe quem tenha medo do inferno no serviço público brasileiro? Haveria por trás de tudo um diretor indignado, cansado de ver a roubalheira tantas vezes denunciada a seus superiores repetindo-se impunemente, com consciência e coragem suficientes para fazer justiça com as próprias mãos?

É um pensamento auspicioso…

Mas porque, então, não foi essa a matéria da Globo?

E que dizer do fato que aflorou na sequência – óbvio também – de cada um dos ladrões filmados roubar em dezenas de outras portas do mesmo “estabelecimento” ao qual pertence esse hospital. Como é possível que o flagrante da indecente promiscuidade entre a prefeitura e o governo do Estado do Rio de Janeiro e ratazanas tão inconfundivelmente ratazanas quanto as que o país inteiro viu em ação no Fantástico continue sendo tratado como um “side” de menor importância, dando-se a reportagem da Globo candidamente por satisfeita com a “surpresa” demonstrada pelo prefeito e pelo governador e a promessa vaga de “suspender para investigação” aquela montanha de contratos daquela corja com empresas e autarquias sob sua guarda?

Já sei o que você pensou…

Mas a Globo, é preciso lembrar, não está sozinha nesse desvio. Mais rica que seus concorrentes, ela consegue a colaboração do governo para exibir o produto da sua própria arapongagem. Mas todos os outros grandes grupos da imprensa brasileira têm apresentado como resultado de investigações próprias aquilo que a polícia dos próprios implicados – quando não agentes menos qualificados – escolhe em seus arquivos para “dar acesso” a quem os faça chegar ao distinto público quando as lutas entre as quadrilhas que disputam os pedaços do Estado brasileiro demandam “fuzilamentos”.

E, como a Globo agora, todos quantos “têm acesso” a tais provas retribuem com um silêncio cúmplice a quem os elege como a arma da vez para disparar o petardo contra o inimigo visado. Essa expressão – “tivemos acesso a…” – que se transformou num padrão de todas as “denuncias” da imprensa da Era Lula é, aliás, o único sinal cifrado que fica dessa cumplicidade espúria. Nenhum fez, até hoje, a “matéria da matéria”, mostrando como e porque aquelas provas lhes foram jogadas no colo, que é a que realmente mostraria a quantas anda o estado moral da Nação. Uma nuvem espessa de obtusidade desce invariavelmente dos céus nesses momentos e todos, entre um auto-elogio e outro pela “exclusividade” do “feito jornalístico”, mostram-se tão satisfeitos com a “surpresa” do acusado da hora diante dos “malfeitos” expostos quanto a Globo parece estar agora com a do governador e a do prefeito do Rio.

Tá tudo dominado!“, dirão os mais ligeiros. “Trata-se de uma gigantesca conspiração da qual a imprensa faz parte“.

Não atribuo aos protagonistas da nossa crônica político-policial esse grau de competência. O ambiente em que atuam não exige deles, nem essa sutileza, nem essa capacidade de articulação com o mundo aqui de fora. A impunidade garantida empurra-os na direção contrária. Tudo o que fazem é cada vez mais explícito e descuidado.

A questão é mais complexa do que isso.

Ainda que existam em torno dos nossos maiores grupos jornalísticos os interesses e as pressões que todos conhecemos, elas são tão diferentes de grupo para grupo que seria impossível tanta coordenação. E, além disso, há uma dimensão do equipamento institucional “imprensa” que nem os proprietários dessas empresas têm o poder de controlar.

Conclusão: são os próprios jornalistas que estão desafinando. E o que é pior: é indispensável a anuência do publico para que tanta desafinação possa continuar sendo saudada como música.

Ninguém é treinado como o brasileiro para aceitar o surreal como real. Dormimos pacificamente com o inimigo desde que nascemos. De tal modo que a nossa versão de “democracia” é definida pela forma institucionalizada dessa distorção que é o modo absolutamente lhano com que, dia após dia, escândalo após escândalo, recebemos na sala de nossas casas, graças ao “horário eleitoral gratuito”, o criminoso apresentado como santo nos intervalos do mesmo programa jornalístico em que seus crimes acabaram de ser expostos.

Se você ainda tem dúvidas sobre o poder distorsivo dessa arma, o fato da disputa pela sua posse ser o fulcro da gigantesca corrupção que marca a luta pelo poder no Brasil indica claramente que nossos políticos não têm nenhuma.

A verdade é que, dos profissionais aos amadores da informação – postos de lado os que de fato “estão dominados” – vamos todos perdendo a capacidade de ligar lé com cré. A política brasileira só pode continuar sendo o que é porque nós somos isto em que ela nos transformou. O país inteiro está doente. E reconhece-lo é a primeira condição para sonhar com a cura.

Paulo Barros é gênio da raça

23 de fevereiro de 2012 § 1 comentário

Se arte é capacidade de síntese com emoção e grandiosidade, Paulo Barros, o carnavalesco da Unidos da Tijuca com suas alegorias vivas, é um gênio da raça.

Se o contratarem para encenar a abertura e o encerramento da Copa do Mundo é possível que ele nos salve do vexame anunciado.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com Rio de Janeiro em VESPEIRO.