O xerife chegou! Quem não é bandido?
16 de fevereiro de 2011 § 3 Comentários
José Mariano Beltrame
Dá quase pra pegar com as mãos a tensão que ronda a polícia carioca. E a adrenalina corre solta não só entre seus funcionários como também entre seus patrões.
Alguém decidiu – até que enfim – começar a limpeza sem a qual os avanços na segurança publica de que o povo do Rio de Janeiro já sinalizou que de jeito nenhum abrirá mão começaria a descer pelo ralo desde já, como provam as filmagens e gravações que mostram policiais que participaram de operações para a implantação de UPPs saqueando não só as propriedades dos traficantes em fuga mas também as quinquilharias dos barracos de cidadãos comuns que estavam no caminho das tropas.
Esse grau de desfaçatez, diga-se de passagem, mostra o ponto a que chegou a septicemia que contamina as polícias cariocas que não se pejam de exibir a sua rapacidade mesmo em operações praticamente transmitidas ao vivo para todo o país, das quais participavam outros agentes civis e militares estranhos àquele ambiente podre.
Enfim, não é de hoje que se sabe que, se o crime organizado, em qualquer lugar do mundo, só pode ser explicado pela corrupção das forças de segurança do Estado que SEMPRE têm condições materiais e força de sobra para eliminá-lo completamente se houver vontade politica para tanto, o do Rio de Janeiro só pôde ocupar fisicamente pedaços inteiros da cidade porque contava não só com a corrupção mas também com a aliança explícita das forças de segurança.
Agora, com décadas de atraso, ensaia-se uma limpeza.
Carlos Antônio de Oliveira
Bravo! É assim que se faz! Nenhum avanço na segurança publica do Rio se sustentará sem ela. Alkmin baixou os índices de criminalidade de São Paulo à metade dos do resto do Brasil instituindo o rito sumário para o julgamento de policiais corruptos e limpando o grosso da sujeira da sua polícia. A imprensa inteira e mais os “especialistas” das universidades que gostam de condicionar a criminalidade a “causações” de ordem econômica e social o negam, mas esta é que é a verdade histórica.
Esperemos que o Rio lhe siga o caminho e o resto do Brasil venha atrás.
Mas desde o primeiro momento o problema com que se deparam as autoridades cariocas é como limitar as “quedas” num sistema que está podre de alto a baixo antes que elas incendeiem toda a hierarquia dos três poderes estaduais, contaminados de alto a baixo pela rede de cumplicidades e omissões que explicam a tragédia carioca.
Se tivesse se detido diante de Allan Turnowski a “Operação Guilhotina” teria se revelado menos que uma velha gilete enferrujada já que é impossível supor que um velho profissional da desconfiança, como deve ser um Chefe da Policia Civil de um Estado como o Rio de Janeiro, não tivesse notado qualquer sinal do envolvimento de seu “braço direito” – o delegado Carlos Antônio de Oliveira preso sexta-feira junto com mais 37 policiais corruptos – com o crime organizado e as milícias que disputam com os traficantes pedaços do território do Rio de Janeiro.
Ainda assim, demorou quatro dias para que o chefe do policial criminoso fosse arrastado para fora da posição a partir da qual dava cobertura ao seu subordinado, além de entregar, ele próprio, as operações em preparo pela polícia à bandidagem, conforme gravações de que a Policia Federal e o governador do Rio têm conhecimento há vários meses.
Allan Turnowski
Por que?
Porque sua imediata reação à prisão de seu protegido foi determinar, em represália, a invasão e a devassa da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas – Draco – chefiada pelo delegado Claudio Ferraz, promovido dias antes pelo secretario Jose Mariano Beltrame que é quem comanda a operação de limpeza da policia carioca. E como dificilmente alguém na polícia do Rio deixa de ter ao menos a sua meia dúzia de telhas de vidro, teve de haver uma negociação para esta rendição sem maiores tiroteios.
O próprio governador Sérgio Cabral, chefe de todos esses policiais – os presos e os ainda soltos – teve o cuidado de se ausentar do Rio de Janeiro enquanto a Policia Federal agia no seu terreiro. Emudeceu pelos mesmos quatro dias em que Turnowski ficou esperneando e, depois de sua queda, falou afinal. Primeiro pondo todas as responsabilidades passadas, presentes e futuras sobre os ombros largos do secretario Beltrame e, depois, dando o recado de que, de agora em diante, polícia será só caso de polícia no Rio de Janeiro, sem o envolvimento de mais ninguém.
Por que teve de dizer isso? Porque até hoje não foi assim. A cadeia de cumplicidade subia pela Câmara de Vereadores e pela Assembleia Legislativa, onde se homiziam notórios representantes do crime organizado com nomes e endereços devidamente identificados e extensos dossies de provas de suas atividades como donos de milícias ou como agentes do tráfico de drogas.
E não parava aí: a rede subia até o palácio do governo, nos tempos do casal Garotinho, e estendia seus tentáculos até o Congresso Nacional. Até que ponto isso mudou é algo ainda por ser conferido. Mas desde sempre está claro que para as coisas terem chegado a esse ponto muito pouca gente – se é que alguém está imaculado nesse esquema – escapa de algum grau de culpa no cartório, seja nas policias, seja no Legislativo, seja no Judiciário, seja no Executivo cariocas.
O Rio de Janeiro vive, aos quase 500 anos de idade e na condição de grande metrópole, aquele momento clássico dos filmes de caubói em que um xerife finalmente chega ao vilarejozinho da fronteira dominado pelos bandidos. E, como naqueles filmes, a população, cansada de apanhar, já mostrou que está disposta até a pegar em armas para lutar ao lado do xerife.
Difícil vai ser conte-los antes que cheguem tão alto quanto foi a cadeia de cumplicidade e omissão que jogou a cidade no fundo do buraco do qual está começando a sair.

Receita para criar a máfia
14 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
A coisa, aqui, começou torta desde o início.
Quando, na virada de 1807 para 1808, com Napoleão entrando pela periferia de Lisboa, dom João VI fugiu de Portugal levando entre 12 mil e 15 mil pessoas de sua Corte, o Rio de Janeiro era uma quase aldeia “de 60 mil habitantes e com não mais que 46 ruas”. O problema passou a ser, então, montar a estrutura que fosse necessária para abrigar todos esses amigos do rei.
Começaram autorizando os que chegavam a tomar para si as casas dos que já moravam aqui. E seguiram ajustando o tamanho do imposto ao tamanho da conta que a festa gerava.
Desde então as coisas pioraram bastante.
Sobrevivendo ao Império, às revoluções contra os impostos, à República e às ditaduras, os privilégios dos nossos “servidores” foram se consolidando numa coleção cada vez mais minuciosa de “direitos” e num rol cada vez mais rarefeito de deveres, até o estado de “perfeição” a que chegamos hoje, quando, ao conseguir pôr um pé dentro do “Sistema”, o funcionário sabe que acabou de “adquirir” um “direito” irrevogável para sempre. Se chegar disposto ao trabalho, logo sentirá a pressão de seus colegas contra demonstrações de ânimo excessivo que possam criar parâmetros incômodos.
Aprenderá, na seqüência, que o desenvolvimento de sua carreira nada tem que ver com a eficiência ou com a probidade. Dependerá, exclusivamente, do bom estado das relações – do grau de cumplicidade é a palavra adequada para se usar em boa parte dos casos – que conseguir estabelecer com os chefes, que serão ou figuras instaladas há décadas dentro do “Sistema”, que se destacaram no passado por sua capacidade de “operá-lo” segundo essa regra, ou tipos recém-nomeados por políticos que costumam colocar gente “de sua confiança pessoal” nos “postos estratégicos”, quais sejam, aqueles onde se tem acesso a verbas ou poder de nomeação.
Em outras palavras, trata-se de um sistema de seleção negativa, pelo qual só o pior tende a passar.
Se alguém for pego em flagrante delito de corrupção, será, no máximo, “afastado”. Esse afastamento, é claro, é uma condição “de jure”, mas não “de fato”. O direito administrativo é ainda muito mais zeloso que o direito comum brasileiro nos infindáveis recursos que oferece a um pobre acusado.
Até a instituição da “via rápida” pelo governador Geraldo Alckmin, que é a única exceção (no resto do País e para o resto do funcionalismo, mesmo em São Paulo, continua sendo assim), um funcionário, digamos, um soldado da PM que fosse flagrado recebendo dinheiro de um traficante não poderia ser expulso da corporação pelo seu superior imediato. O próprio comandante da PM não poderia fazê-lo. Nem mesmo o secretário de Segurança Pública. Só o governador em pessoa pode assinar o ato de exoneração do criminoso, mesmo flagrado no crime. Mas isso só depois que corresse o processo administrativo nas quatro instâncias anteriores, naquela velocidade que a gente conhece e tocado por gente consciente de que a “jurisprudência” que vier a se estabelecer nesse tipo de processo poderá, um dia, se voltar contra ela própria. Até lá, o acusado permanece fazendo jus à sua posição e a salários, ainda que “afastado”, o que não implica que deixe de conviver com os demais funcionários honestos e até com os recém-chegados ao “Sistema”. Só se conseguir ser condenado nessa instância “dos amigos” é que o funcionário corrupto pode ser entregue à Justiça comum, para que todo esse ramerrame recomece, de instância em instância…
O sistema de privilégios se consolida pela ação da nata dos “servidores públicos” que são os legisladores e os membros do Judiciário, que cuidam de estabelecê-los em lei e de criar mecanismos que impeçam recuos em suas “conquistas”, mesmo quando, por qualquer movimento de pressão da opinião publica, os legisladores forem obrigados a mudar a lei. O instituto dos “direitos adquiridos” basta, sozinho, para garantir isso, sendo suficiente para anular qualquer reforma, mesmo se aprovada por unanimidade no Congresso.
Tocqueville, no seu livro célebre sobre a democracia na América, lembrava que “a sociedade só tem à sua disposição dois meios para obrigar os servidores públicos a obedecer às leis: ela pode deixar a nomeação dos funcionários aos políticos e confiar a um deles o poder discricionário de dirigir todos os demais e destituí-los em caso de desobediência; ou pode eleger os funcionários encarregados das principais áreas da administração publica (educação, segurança, saúde), definir na lei, de forma minuciosa, as suas atribuições de modo a que tenham o máximo de autonomia e sofram o mínimo de interferência política dentro da sua área de atuação, encarregar os tribunais de infligir penas a quem abusar de sua posição e os eleitores de cassar aqueles que, mesmo dentro da lei, cumprirem suas tarefas sem o necessário empenho”.
Essa providência, ao mesmo tempo, consolida a estabilidade do bom funcionário e acaba com a estabilidade do relapso e do corrupto. É isso que explica aonde os Estados Unidos chegaram e onde nós permanecemos desde que entramos por veredas diferentes nessa encruzilhada. Nós – juntamente com a Europa – criamos o sistema baseado na estabilidade automática e vitalícia no cargo público uma vez conquistado, induzindo a cumplicidade de todos com o chefe e, assim, amarrando todas as lealdades a uma só figura – a do primeiro na cadeia das nomeações. Funcionários fortes, funções fracas. Eles elegem diretamente os funcionários responsáveis pelos serviços mais importantes e lhes dão independência em relação aos políticos e plenos poderes para o exercício dessas funções. Mas nenhuma garantia de estabilidade. Seu mandato pode ser cassado a qualquer momento pelos eleitores, a quem permanecem subordinados. Funções fortes, funcionários fracos.
Nós criamos essa “administração pública” que se desligou do País e passou a viver do País e para si mesma. Eles criaram a mais sólida democracia e a mais forte economia do mundo.



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