E o pulso ainda pulsa…

11 de dezembro de 2015 § 15 Comentários

d6Em 1906, graças aos investimentos feitos em saneamento básico e saúde pública pelo governador Jorge Tibiriçá que poderia dar aulas de modernidade a 9,9 entre 10 dos políticos brasileiros de hoje, São Paulo comemorou a extinção da febre amarela e da varíola na capital.

Agora, com apenas 13 anos de PT, aí estão São Paulo e o Brasil afundados na dengue, na chikungunia, na zika e na microcefalia galopantes…

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Ontem à noite voltei ao 2º volume de “Julio Mesquita e Seu Tempo“, de Jorge Caldeira, que é, na verdade, uma fascinante história dos primeiros passos do capitalismo brasileiro que nasceu com a Republica. Em outro livro imprescindível à compreensão do Brasil de hoje, “História do Brasil com Empreendedores“, Caldeira já tinha demonstrado com farta documentação como Caio Prado Junior, com seu marxismo de orelhada (ele nunca leu Marx), animou duas ou tres gerações de patrulheiros ideológicos a manter o Brasil intoxicado e moralmente deprimido pela quimioterapia que lhe foi imposta para o tratamento de uma doença que ele nunca teve, e consagra-se cada vez mais como o grande historiador do Brasil Real, este da gente que trabalha e vem construindo a nação na semi-clandestinidade, desviando-se como pode do cêrco da vanguarda do atraso que, dominando quase sempre a política nacional, nunca se conformou em perder os privilégios que o absolutismo monárquico lhe garantia. (Leia mais sobre a obra de Caldeira aqui e aqui).

O lulopetismo, que se afirma “progressista“, é o herdeiro direto, em versão mais tosca, dos reacionários “positivistas” que desde o primeiro dia da República vêm lutando para banir a liberdade de trabalhar e empreender que ela tentou instituir para voltar a centralizar absolutamente o processo econômico e subordinar tudo às autorizações (comercializáveis) do Estado. Vende a idéia de que trabalha pelos mais pobres mas repete, apenas, os expedientes, ou dos ditadores militares, ou dos ditadores da “zelite” para conquistar para si os privilégios que foram deles.

É impressionante, no livro, a minúcia com que as ações do petismo de hoje se configuram como a exata reprodução dos expedientes das duas ditaduras que inauguraram nossa história republicana e dos presidentes “imperiais” que vieram depois de Prudente de Morais. Até a relação invertida entre o Rio de Janeiro e o Brasil moderno, que não se reformou até hoje, é milimétrica. Vítima da corrupção pela corte pela qual foi invadido em 1808, o Rio nunca mais se adaptou completamente à modernidade; sempre foi bem quando o Brasil foi mal e mal quando o Brasil foi bem, exatamente como agora, com seus políticos, sempre na vanguarda da ala mais podre do Brasil Oficial, se esforçando por nos empurrar de volta para trás. Aí está o melífluo Pezão e seu fantoche Leonardo Picciani, trabalhando ferozmente para abortar o impeachment que pode salvar o Brasil do retorno à idade média para não nos deixar mentir.

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É notável, ainda, a exata semelhança do episódio do resgate da Argentina das mãos dos “petistas” de lá e da recusa de Cristina Kirshner, a Dilma deles, de comparecer à posse de Maurício Macri, e a da transmissão da presidência de Floriano Peixoto, o segundo ditador da Republica, para Prudente de Morais, o primeiro  democrata (e um dos únicos verdadeiros) a ocupar a Presidência. Floriano não só não foi à posse do sucessor como mandou destruir a golpes de baioneta todos os móveis do palácio. E o establishment político do Rio de Janeiro, então capital da Republica, tinha tanto horror ao que Prudente representava que quando ele desembarcou na estação, vindo de São Paulo, não havia ninguém esperando. Ele chegou ao palácio sozinho num táxi (quatro anos depois sairia em triunfo, depois de conquistar o povo carioca e brasileiro).

É por essas e outras que é preciso fazer saber àquela boa gente do Estado Islâmico com quem Dilma Rousseff já manifestou a intenção de se entender que existem caminhos muito mais fáceis para o retorno ao Século 7º do que este que eles estão tentando abrir com bombas e decapitações.

O PT resolve isso com uma perna nas costas.

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Receita de reconstrução nacional

1 de dezembro de 2015 § 33 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de1/12/2015

A democracia teve quatro etapas de desenvolvimento.

Na primeira os cidadãos aprovavam ou não, diretamente, propostas apresentadas em praça pública. Tornou-se inviável quando a Grécia passou a ser mais que Atenas. Veio depois a Republica Romana em que o cidadão elegia quem decidia em seu nome. Naufragou na corrupção pela ausência de mecanismos de controle dos representantes pelos representados.

O passo seguinte é a República dos Iluministas que asila-se na América em 1788. É a primeira e única revolução a substituir o típico “manifesto” de direitos e objetivos utópicos em que todas as precedentes terminavam pelo desenho de instituições projetadas para submeter em vez de servir os próceres da nova ordem, pulverizar em vez de concentrar o poder dos vencedores, incentivar em vez de impedir o dissenso, e submeter cada uma dessas inovações ao debate nacional por meio dos “Artigos Federalistas” (“Federalist Papers”), de modo a “estabelecer o bom governo pela reflexão e pelo consentimento” e não mais “pelo acaso e pela força”.

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Foi escassamente lido por aqui esse manual de arquitetura institucional que o uso viria a consagrar como a melhor que a humanidade produziu. A quase democracia brasileira encalhou em algum ponto bem mais próximo da versão romana que da americana. A Republica, entre nós, foi quase inteiramente “tocada de ouvido”. Não houve consertação nacional nem esforço abrangente de reforma institucional. O voto substituiu o “direito divino” mas o Estado herdou intactos os poderes discricionários do imperador sobre os súditos. Ao sabor das idiossincrasias dos presidentes tivemos, depois de duas ditaduras militares, o “acidente” democrático Prudente de Morais num breve hiato do qual Rui Barbosa teve a oportunidade fortuita de plantar o marco institucional do capitalismo brasileiro – única inovação real da Republica – com o resultado fulgurante que fez de São Paulo o que ele é até hoje. Daí em diante, porém, vimos, entre ditaduras e quase ditaduras, empilhando leis e decretos para restabelecer privilégios perdidos e criar novos, variando apenas as clientelas contempladas, e reduzindo cada vez mais o Brasil “self made” criado a partir daquela semente à condição de uma guerrilha de resistência.

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Da quarta e última etapa de desenvolvimento da democracia, a que emancipa finalmente o eleitor como soberano absoluto do processo político, o Brasil ficou totalmente excluído. Mal tem notícia da sua existência, aliás.

A democracia americana da virada do século 19 para o 20 andava tão carcomida pela corrupção quanto a brasileira hoje. É nesse momento que, começando por uma única e solitária cidade, parte para a síntese entre o sistema representativo e o de democracia direta que inverteria a hierarquia da relação entre representantes e representados, submeteria o Estado à cidadania e liberaria as forças vivas da sociedade para mudar para sempre a velocidade do desenvolvimento.

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O “recall”, primeiro instrumento dessa “virada”, foi importado da democracia suiça que o adotara meio século antes, e garante a todo e qualquer eleitor o poder de iniciar, mediante coleta de assinaturas, um processo de cassação do mandato do representante do seu distrito e a convocação de nova eleição a qualquer momento e por qualquer motivo, sem perturbar o resto do país. Com essa arma na mão, todo cidadão passa a ter a prerrogativa de desafiar qualquer aspecto do modelo institucional ou da ação governamental e obter obrigatoriamente uma resposta do seu respresentante sob pena de demissão. E isso altera radicalmente a ordem das prioridades na pauta política da nação.

Com um século de exercício dessa prerrogativa – que sem nunca ter passado do âmbito estadual bastou para desinfetar todo o sistema – os americanos, enquanto iam filtrando o joio do trigo, foram-se equipando, de reforma em reforma, de um ferramental cada vez mais amplo de intervenção direta no processo político que hoje lhes permite decidir no voto, sem pedir licença a ninguém, tudo que nós vivemos rezando para os nossos políticos fazerem ou deixarem de fazer por inspiração do Bom Jesus da Lapa.

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Que impostos concordam em pagar; que quantidade de dívida cada governo pode emitir; qual o salário e as obrigações dos servidores; quem continua ou não empregado do Estado; qual a pena para cada crime no Código Penal; leis de inciativa popular que o legislador não pode modificar; poder de veto a leis aprovadas pelo Legislativo; confirmação ou não do juiz de cada circunscrição a cada quatro anos; revisões periódicas obrigatórias de constituições estaduais; escolha de diretores, currículos e professores das escolas públicas, tudo isso e muito mais é decidido diretamente no voto e entra ou sai da lista de questões incluídas nas cédulas de cada eleição por iniciativa de quem vota e não de quem é votado.

Democracia é isso. O resto é tapeação.

Ao fazer da facilitação das correções sucessivas de rumo o padrão do seu sistema num mundo travado pela burocracia a serviço do privilegio os Estados Unidos decolaram para o futuro. Essa nossa montanha de entulho institucional cheirando a idade média não dá mais remendo. O teste da História comprova que só ha uma maneira de construir um país “user friendly”: é as instituições passarem a ser definidas passo a passo pelos seus próprios usuários. E assim que isso começa a acontecer no elo primário da cadeia que é o município, todo o resto do sistema se vai ajustando pelo novo gabarito.

É um objetivo perfeitamente alcançável mesmo num sistema tão emperrado quanto o nosso. Apresentar cotidianamente à massa dos brasileiros o espetáculo da democracia em funcionamento onde ela de fato existe seria um poderoso acelerador. Mas ainda que a imprensa siga até o fim dos tempos tomando Brasília pelo Brasil e colocando ambos fora do mundo a rua pode conquistar sozinha esse direito fundamental à ultima palavra nas decisões que afetam o seu destino que define a democracia moderna. Tudo que é necessário é foco e persistência.

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Dêem-nos algo por que valha a pena lutar!

29 de maio de 2014 § 4 Comentários

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O programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, de domingo passado apresentou um dos personagens mais interessantes da História do Brasil de que tomei conhecimento ultimamente.

Luis Gama, hoje quase esquecido como quase todos os personagens mais interessantes da História do Brasil, era negro, foi escravo, autodidata, jornalista e poeta e teve um papel brilhante no Movimento Abolicionista, outra história que é muito mal contada como quase toda a história do Brasil que se conta nas escolas deste país.

Esse momento é, seguramente, um dos mais brilhantes da nacionalidade. Foi um movimento de raiz, vindo de baixo para cima e, por essa qualidade quase único em nossa trajetória como Nação, bem ao contrário do que diz a versão mais conhecida de que a libertação dos escravos foi uma benesse outorgada magnanimamente pela Princesa Isabel.

O Movimento Abolicionista foi um subproduto da Guerra do Paraguai que, pela primeira vez em nossa história, mobilizou brasileiros de todos os cantos de um país que, naquele tempo, mal conhecia a si mesmo e não se pensava como um país, e que envolveu todas as raças e camadas sociais espargidas pelo seu vasto território.

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Foi a primeira vez na História do Brasil que brancos, negros e mestiços de diferentes classes sociais viram-se postos, ombro a ombro, na perseguição de um objetivo comum. E o efeito que isso produziu foi em tudo semelhante ao produzido nos Estados Unidos do norte pela Guerra da Secessão, não apenas em termos de consolidação de um sentido de nacionalidade mas, sobretudo, pela experiência da convivência concreta com a diversidade em situações extremas onde todos dependem de todos e peles de todas as cores e tonalidades rompem-se a toda hora para mostrar o quanto somos iguais por dentro.

A convivência com a diversidade, num mundo em que uns viviam na Casa Grande e outros na senzala e em que a todos, do palácio real à sarjeta, eram impostas as mesmas crenças e as mesmas “verdades” e vedado qualquer desvio dessa linha estreita “por pensamentos, palavras ou obras“, é a matéria prima da ideia de tolerância que se consubstancia institucionalmente na ideia de democracia.

Foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela começou a nascer na Inglaterra de Henrique VIII quando ele baniu a intolerância católica e abriu o país a todas as crenças perseguidas da Europa; foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela saltou das teorias dos fundadores para o real “governo do povo, pelo povo e para o povo” que só se estabeleceu de fato com as reformas da Progressive Era que começaram a se esboçar a partir do final da Guerra de Secessão.

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Assim também foi praticamente aí que a ideia de Nação saiu dos textos dos teóricos e dos idealistas e se materializou nas ruas e nas selvas da vastidão brasileira.

Luis Gama,  que mais de uma vez usou as páginas do jornal A Província de S. Paulo, precursor de O Estado de S. Paulo, como sua tribuna, ao lado de Julio Mesquita, um filho de pai analfabeto ha pouco chegado ao Brasil quase tão pobre quanto aquele ex-escravo, e milhares de outros que, como esses dois, se tinham “feito” sozinhos longe dos latifúndios escravocratas e das benesses do imperador, era um representante da esmagadora maioria dos brasileiros de seu tempo que tiravam do esforço próprio a sua subsistência, ao contrário do quadro falso pintado pela historiografia marxista para a qual só existia, aqui, o senhor e o escravo e nada no meio, que continua sendo a única vendida em nossas escolas.

Essa condição não é alheia à circunstância de ambos terem sido figuras de proa desse momento brilhante da consolidação da nacionalidade brasileira na Campanha Abolicionista que mobilizou o país inteiro. (Leia mais sobre esse Brasil dos empreendedores neste link)

A entrevistada do Canal Livre, Ligia Fonseca Pereira, autora de Com a Palavra, Luis Gama (à venda neste link), uma coletânea de seus textos sem interferências da curadora “pois que ninguém pode explicar melhor o que ele foi do que ele próprio“, como ela ressaltou sabiamente, mostrou-se mais uma da grei dos intelectuais sérios que este país, apesar de tudo, tem produzido, especialmente no campo da pesquisa histórica onde se vem colhendo uma safra cada vez melhor de produtos.

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É essa revisão da verdadeira História do Brasil que, pouco a pouco, vai desintoxicar o inconsciente coletivo nacional fazendo o país passar pela necessária seção de psicanálise coletiva, que é no que consiste a tomada de consciência do que foi o seu próprio passado, experiência que fará com que a nacionalidade entenda, finalmente, como foi que se tornou aquilo que é, passo sem o qual nunca conseguirá tomar as rédeas do seu próprio destino.

É este o processo que, no final, vai nos redimir do estado patológico e da crise de identidade em que nos precipitou um século inteiro da empulhação interpretativa pseudo científica vendida em nossas escolas à guisa de História do Brasil, mas que não passa de manipulação ideológica barata, esta mesma que saltando das universidades para as ruas, chegou ao paroxismo com a vulgata lulista que já não se contenta com manipular apenas os fatos do passado, sente-se à vontade para fazer isso também com os do presente bem diante dos olhos de quem acabou de vive-los.

Luis Gama, como a nata dos abolicionistas de São Paulo e de outros estados brasileiros (as revoluções pernambucanas beberam nessa mesmíssima fonte) pertenceu à Loja Maçônica América, fundada por brasileiros que estiveram nos Estados Unidos, frequentaram a mesma loja maçônica de George Washington e outros dos grandes fundadores da democracia americana, e se encantaram com as promessas encerradas no movimento revolucionário que nascia ali com o propósito de fundar uma sociedade de iguais onde o esforço individual e o merecimento substituiriam a cumplicidade com o último criminoso a conquistar a coroa pela força que tinha prevalecido nos últimos dois milênios e na qual continuamos chafurdando até hoje, como a única fonte de legitimação da conquista de poder e de dinheiro.

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A Loja Maçônica América expressava desde o nome com que foi batizada a esperança do melhor material humano que o Brasil tinha produzido até então, de chegar um dia ao mesmo sucesso a que já tinham chegado os revolucionários do norte.

Como Ligia Fonseca explicou de forma brilhante, Luis Gama e os outros abolicionistas que se congregavam nas lojas maçônicas brasileiras ligadas às suas congêneres espalhadas por todo o mundo de então eram “homens de rede” no sentido moderno da palavra, pois que trocavam ideias e conspiravam através do primeiro protótipo de “rede mundial” criada com o propósito explícito de facilitar a livre troca de ideias e informações que a humanidade constituiu: exatamente as lojas maçônicas.

Sua admiração pela revolução americana, pelo seu federalismo e pelo seu sistema de divisão de poderes era tanta que foi de Luis Gama que saiu a sugestão de batizar o país que surgiria da nossa revolução republicana de Republica dos Estados Unidos do Brasil, nome que o Brasil de fato adotou dos albores da República até o início do regime militar.

Foi a esta altura da entrevista, porém, que um dos jornalistas presentes fez a seguinte intervenção:

É curioso que um negro como Luis Gama não tenha reagido ao (ou “percebido o”, não me lembro quais foram as palavras exatas) fundamento racista que marcava e seguiu marcando a sociedade norte-americana”.

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Lígia Fonseca Pereira, negra ela também, ficou tão desconcertada e perplexa quanto eu ao ouvi-la.

Superadas a surpresa e a dúvida (a afirmação/pergunta teve de ser repetida para ela compreende-la) ela gentilmente tartamudeou algumas palavras hesitantes enquanto na minha cabeça bombava a pergunta: “E precisava um negro ex-escravo no último país ainda escravocrata das Américas, olhar para os Estados Unidos para conhecer o racismo?!!! Seria necessário esse turismo intelectual para experimentá-lo ainda hoje?

Eis aí nu, pelado, com a mão no bolso o drama brasileiro!

O  jornalista autor desse comentário — ninguém me disse, eu mesmo sou testemunha — é das pessoas intelectualmente mais íntegras e cultivadas que conheci na profissão.

O que teria sido aquilo, então?

Não é possível viver no ambiente contaminado do debate intelectual brasileiro, do primeiro ano de escola ao último ano de vida, impunemente, é a resposta. Esse antiamericanismo resiliente, quase orgânico, subliminar, involuntário até, como suspeito que tenha sido o caso desta vez, é uma das manifestações da força que tem a lavagem cerebral por que passa todo brasileiro a cada minuto de sua trajetória por este vale de lágrimas. A própria Lígia Fonseca Pereira, cabe registrar, viveu os últimos anos de sua atividade acadêmica no exterior e foi a partir de lá, respirando ares mais livres dos carregados miasmas do Segundo Milênio que ainda predominam por aqui, que ela encontrou a paz necessária para fazer a sua pesquisa.

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Luis Gama – foi o que ela passou o programa inteiro explicando – viu nos Estados Unidos aquilo para o que a imprensa brasileira insiste em fechar os olhos até hoje: a superioridade moral da utopia e, mais especialmente, o conjunto genial de meios para realizá-la desenhados pela elite do que de melhor a humanidade produziu no seu melhor momento — o Iluminismo — que foram as instituições pelas quais a metade boa dos norte-americanos lutou até a morte contra a metade ruim, ombro a ombro com os escravos desta – e cinco milhões de pessoas perderam a vida nessa luta fratricida! – coisa que a metade boa da população brasileira não consegue encontrar motivos suficientes para fazer exatamente porque tem-lhe sido sonegada — pela escola, pela imprensa, pela televisão — uma referência pela qual valha a pena lutar.

É exatamente isto que continua pendurado no ar nesta eleição.

É disso que estão à procura os 70% de eleitores que “querem mudanças profundas”  mas não encontram quem as formule e proponha. Era exatamente isto que perambulava pelas ruas de todo o país às cegas em junho de 2013: a ausência de uma referência decente pela qual valha a pena lutar que, entretanto, está onde sempre esteve e todos os povos do mundo que “deram o salto” a encontraram, mas que a “inteligentsia” e a imprensa deste país isolado pela língua ainda se recusam a por onde nós estamos.

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Sexo, mentiras e rock & roll

28 de março de 2014 § 3 Comentários

A escola não é uma panaceia.  A educação talvez seja. Mas educação não é o que se entrega em nossas escolas. Nem nas públicas, nem nas privadas, salvo as raríssimas exceções que confirmam a regra.

Em alguma medida a escola sempre acaba por ser transformada em mecanismo de reafirmação, para os futuros súditos, das “verdades” que sustentam o sistema de poder vigente. Especialmente a escola pública mas não apenas ela.

E o sistema de poder vigente entre nós é o que é…

A universidade, nesse sentido, nasceu revolucionária. Mas também acabou por enquadrar-se. Falar do ideal universitário do Iluminismo; da ciência pura e do culto à crítica no Brasil dos tempos que correm, assim como manifestar qualquer outro traço de idealismo, é quase um atestado de insanidade ou, no mínimo, de alienação.

Esse espírito nunca prevaleceu entre nós salvo, talvez, nas duas ou três primeiras turmas formadas pela USP, a única instituição de ensino nacional que, ao menos no momento da sua implantação, foi estruturada tendo esse ideal como modelo.

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No mais, tudo aqui já nasceu para o propósito avesso, no melhor espírito da Contrarreforma a cargo da polícia do pensamento jesuíta que, não por acaso, teve por séculos o monopólio da educação no mundo Ibérico do qual a nossa “flor do lácio” foi sempre “a última” a se distanciar.

Quando uma parte substancial da educação ainda estava a cargo das famílias havia, ao menos teoricamente, uma válvula de escape desse grande “afinador” do  pensamento nacional – ou desse grande desafinador se quisermos ter por referência o mundo que existe para além da nossa ilha cercada de catolicismo e língua portuguesa por todos os lados.

Depois do advento da televisão que, especialmente no Brasil, roubou essa atribuição dos pais e das mães passando a ditar não só o modo “correto” de pensar mas também a única forma “aceitável” de cada brasileirinho e cada brasileirinha se comportar, a vaca literalmente afundou no brejo.

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Hoje juntei mais três pecinhas do quebra-cabeças particular com que vou tentando decifrar o Brasil.

Voando ontem da Argentina para cá, repassei no iPad a sequência das minhas anotações à margem do 1889 de Laurentino Gomes, exercício que os e-books tornaram muito mais fácil e interessante de fazer ao permitir a leitura de todas elas em sequência sem as dificuldades de decifração que a nossa própria letra enfiada nos espaços exíguos das margens de livros de papel impõe.

Hoje, no início da tarde, a partir de uma referência qualquer, assisti à entrevista de José Serra sobre os 50 anos do golpe de 1964 no UOL (aqui).

Agora ha pouco captei por acaso, na Globonews, a “reprise” da entrevista do ministro Joaquim Barbosa que estreou o novo programa de Roberto D’Avila.

O relato dos primeiros passos claudicantes da República no país, no 1889, é uma crônica eloquente dos desastres produzidos pela completa ignorância, não direi do povo, mas da elite brasileira da época, incluindo de Rui Barbosa para baixo, a respeito do que quer que tivesse a mais remota relação com os equipamentos institucionais de um Estado moderno e muito menos ainda com qualquer equipamento de um Estado democrático de seu tempo.

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Serra repete quase que integralmente esse mesmo relato quando descreve o quadro de desorganização econômica aguda com que se viu às voltas João Goulart, mais de 80 anos depois, e o seu completo despreparo para imaginar qualquer linha de ação que fizesse sentido para enfrentá-lo, o que, muito mais que os empurrões que vinham da direita, explicam porque ele voltou correndo para os bois e cavalos a que estava acostumado em São Borja antes mesmo que qualquer “milico” de 64 desse um espirro que fosse.

Joaquim Barbosa, finalmente, guardando os cuidados com a língua que ele tem tido sobradas razões para esquecer nos embates que tem enfrentado no STF (onde “com toda a polidez afirma-se o inaceitável“, conforme ele registrou na entrevista), tratou de explicar também que, no seu modo de ver as coisas “o Direito não se basta” (o que é ainda muito mais verdadeiro, acrescento eu, quando se fala de “direito romano” versão brasileira prática), e que “um juiz especializado no direito do Estado, no direito Constitucional, tem de sorver cargas pesadas de História, de Sociologia, de Ciência Política e de Literatura para estar à altura de interpretar os temas que lhe chegam às mãos” nesse campo como, por exemplo, no caso do Mensalão.

Educação, enfim. Ou até mais que isso, de “cultura” que é educação farta e variada “digerida” e “metabolizada” pelo indivíduo é do que ele estava falando.

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A cada vez que me deparo com essas encruzilhadas da vida brasileira vêm-me à mente as manifestações de junho de 2013.

Virgens de educação como seguimos, vamos indo, os condenados a reinventar a roda de geração em geração, re-ensaiando o que já foi ensaiado, representado e descartado centenas de vezes pelo mundo afora, inclusive aqui mesmo. E quando trombamos, ao fim de cada repetição, com o mesmo desastroso resultado de sempre, não aprendemos mais que mais um “não”, ante-sala para partirmos de volta para o mesmo erro e outro “não” quando a última repetição do percurso da mesma batida picada já tiver doído o suficiente, só que numa nova geração sem as memórias da anterior.

Sem memória histórica e conhecimento do nosso próprio passado e afastados de todo conhecimento especialmente nos campos do saber que têm alguma influência na estruturação de novas instituições para balizar as relações de poder entre governantes e governados, empregados e empregadores, produtores e consumidores e assim por diante, seguimos incapazes de formular qualquer proposição em torno da qual se possa arregimentar um “sim”, o que nos torna presa fácil para cair em mais um giro da velha roda, conduzidos pelo “salvador da pátria” da hora e embalados pelo mesmo vazio absoluto de know-how institucional.

Somos o tipo de cego acostumado à cegueira; recusamo-nos a importar tecnologia institucional moderna como fazem os asiáticos, por exemplo, o que é ainda mais burro do que seria recusar o uso da penicilina ou dos computadores só porque não foram inventados aqui.

Como consequência nossa vida política tem sido dar voltas no escuro no mesmo circuito de sempre.

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A Primeira Republica que nasceu com um golpe (o “não” contra a monarquia) e prosseguiu com duas rodadas  de ditadura militar e a criação de uma nova “nobreza de ceva” engordada nas tetas do Estado; a Segunda que, do “não” a essa falsa elite “carcomida” da Primeira, mergulhou de 1930 em diante, por absoluta ausência de “sins”, novamente na ditadura e na criação de mais uma fornada de “carcomidos” fabricados pelo Estado, desta vez nas duas pontas do Sistema, a do Capital e a do Trabalho, cujos restos incluem a falsa elite pelego-sindical que está de volta e nos governa hoje; o golpe de 64, nascido como “não” ao golpe contra a volta “no tapetão” do getulismo a cujas mãos nos devolveram os porres de Jânio Quadros e que, por completa incapacidade de formulação de “sins”, projetou-nos de volta ao estado ditatorial natural e à criação de nova “elite” econômica, “de compadrio” como sempre, cujos restos ainda vagam por aí.

Assim vimos seguindo pelo mesmo caminho, com a corrupção que vem de cima engolindo uma nova fatia da sociedade a cada volta no mesmo círculo de ideias mortas, até os atuais “barões do BNDES”, as ONGs chapas-brancas, as “organizações sociais espontâneas” sustentadas por impostos, os 70 milhões de cheques por mês que o governo emite para eleitores e à ditadura comprada que se esboça no horizonte outra vez sob um coro de “nãos” e a absoluta ausência de “sins” da classe média que sustenta essa festa que junho de 2013 expressou tão literalmente…

No meio do caminho um acidente para o bem, para variar, guindou Fernando Henrique Cardoso e a geração virtuosa da USP mesclada a outros estranhos no ninho que tiveram a oportunidade de estudar fora do Brasil e assim municiar-se de alguns “sins” e outros tantos raríssimos “comos” que propiciaram que se arrumasse a casa e desviasse por alguns anos o Brasil da sua rota cega só de “nãos”, sempre colecionados a duríssimas penas e acachapantes trambolhões.

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Mas uma vez partidos esses “alienígenas” de volta para o isolamento de que os cerca a ignorância ampla, geral e irrestrita a respeito de tudo que ultrapasse a generalidade e o diktat incutido pela “patrulha” que domina as escolas e as televisões, eis-nos de volta ao que somos, tangidos com mais força ainda para trás pela atual obsessão da Globo de redimir-se do seu próprio passado para arreglar-se com os novos donos do poder, pauta que a jornalistada em peso se sente na obrigação de acompanhar como manada.

É o que nos obriga — enquanto o mundo pensa 50 anos para frente — à essa romaria diária a 50 anos para trás em que vimos vindo desde muitos anos antes da data de comemoração dessa efeméride para reescrever “verdades históricas” de conveniência, o que obrigatoriamente se faz revivendo o jargão e os esquemas ideológicos emburrecedores de meio século atrás que, por sua vez, “confirmam”, solidificam e sacramentam o discurso idêntico que vem sendo martelado na cabeça de nossas crianças em todas as escolas do país.

Já não sei se foi Serra, já não sei se foi Barbosa quem lembrou que essa necessidade “purgativa” da Globo põe este país gigante, no limiar do Terceiro Milênio e da Inteligência Artificial, discutindo mais apaixonadamente que qualquer outra coisa a “verdadeira história”… de 50 anos atrás, “como se tentássemos resolver os problemas de hoje aplicando os remédios dos anos 60 ou fizesse sentido aplicar os dos anos 30 para resolver os daquela época…

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A par disso, o único outro grande tema que mobiliza a “intelectualidade” e a “militância política” nacionais a ir às ruas exigir o que “é seu” é tudo quanto se refere à outra estranha obsessão, esta de natureza freudiana, da nossa Vênus Platinada que, na sua cruzada para “reeducar” sexualmente o brasileiro segundo os padrões da ponta mais apodrecida da elite carioca, tem percorrido no horário nobre todas as variações do Kama Sutra e costurado os mais díspares emparceiramentos entre todas as variações de gênero, sub-gênero, trans-gênero, idade, graus de consanguinidade e distúrbios psicológicos e motores que a humanidade produz, amarrando uns aos outros, nos “pares românticos” das novelas que a família brasileira traga reunida, duplas que se montam e desmontam, embaralham e misturam, traem, destraem e re-traem-se umas às outras, sempre com o endosso geral do vale-tudo moral do baixo Leblon, a ver se transformamos o sim em não, o não em sim e tudo em mais ou menos do Oiapoque ao Chuí e nos tornamos mais bandalhos um pouco a cada dia, enquanto o país se pergunta, perplexo, de onde vem a brutalidade e a violência sem limites que assola nossas ruas, extensões dos lares constituídos sob essa boa norma.

E pra frente Brasil que atrás vem o mundo!

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 Leia sobre tecnologias institucionais modernas neste link

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