Em que Lula e os super-capitalistas se parecem

6 de agosto de 2010 § 2 Comentários

Chegaram à Economist os ecos da discussão sobre o tipo de atuação que fez do BNDES “o melhor banco do mundo” aos olhos de Eike Batista, “o homem mais rico do Brasil”, um dos super empresários que têm tido acesso ao dinheiro subsidiado pelo Tesouro Nacional que o banco tem distribuído às mãos cheias nos últimos dois anos do governo Lula.

É o “melhor banco do mundo” ou é “o ovo da serpente” da gastança com objetivos políticos e da irresponsabilidade fiscal pré-Plano Real, como afirma o ex-diretor do banco, Luis Carlos Mendonça de Barros?

É por aí que transita a matéria, que também cita Gustavo Loyola, ex-diretor do Banco Central, para quem o modo como Lula usa o banco e a ligação direta entre ele e o Tesouro constitui um “orçamento paralelo” que não passa pela aprovação do Congresso e é idêntica à famigerada “conta movimento” do tempo dos militares, que servia para a mesma coisa, com a única diferença de que aquela era operada pelo Banco do Brasil.

A coisa funciona assim: o BNDES entrega para os maiores empresários do Brasil, com juros de 6% ao ano e prazos a perder de vista, dinheiro que o Tesouro Nacional toma no mercado com a venda de títulos de curto prazo emitidos em nome do povo brasileiro que pagam juros de 12% ao ano aos seus tomadores que, ainda por cima, são em geral os bancos privados.

Em 2009, ano da véspera da eleição, registra a Economist, foram emprestados nessa base R$ 137 bilhões (US$ 69 bilhões), o dobro do que tinha sido emprestado em 2007. São mais de 11 vezes o que o governo gasta com o Bolsa Família que, em 2009, montou a R$ 12,3 bilhões.

Entre setembro de 2008 (inicio da crise financeira internacional) e janeiro de 2010, o credito concedido pelos bancos privados cresceu menos de 10% enquanto o do BNDES aumentou mais de 50%. Pelos volumes movimentados, a Economist calcula em mais de R$ 10 bilhões o valor do subsídio aos favorecidos. E 4/5 do que o BNDES emprestou foi para empresas gigantes. A estatal Petrobras levou R$ 25 bilhões. Mas privadas como a JBS e a Marfrig, frigoríficos pertencentes a bilionários (ou quase), por exemplo, dividiram entre si R$ 18 bilhões, gastos na compra de concorrentes no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na  Ásia. Não foram os únicos…

“O sistema financeiro brasileiro é muito peculiar”, diz a Economist, “os bancos comerciais privados emprestam para o governo e para os consumidores a curto prazo, mas não emprestam para o setor produtivo (…) O BNDES é quem faz isso praticamente sozinho (…) O certo seria que os bancos privados entrassem no negócio de empréstimos de longo prazo para o setor produtivo. Mas porque fariam isso se o BNDES já o faz, e com dinheiro subsidiado?”

A Economist nota que a justificativa “anticíclica” (de combate à crise), alegada lá atrás, já não vale mais nestes anos em que o problema tem sido o excesso de crescimento da economia. E constata, também, que a carteira do BNDES está “crescendo demais e de forma muito pouco transparente”. E pára por ai. É só até onde poderia ter ido com os fatos de que dispunha.

Mas o seu estranhamento é compartilhado por muitos brasileiros.

O que, afinal, explica esse tipo de inversão no governo de um presidente que se apresenta ao pais e ao mundo com o figurino de Robin Hood? Por que, ao fim de décadas de discursos irados contra a concentração da renda, ele tem tratado de rechear com o dinheiro dos pobres os bolsos de uns poucos ricaços?

Demetrio Magnoli, um dos melhores explicadores do Brasil atuando hoje, se aproximou da verdade no artigo que escreveu quinta-feira (5/8) na Pagina 2 do Estadão.

“Samuel Pinheiro Guimarães, até outro dia secretário-geral do Itamaraty, foi guindado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE)”, diz Magnoli. “No novo cargo, elaborou um documento intitulado O Mundo em 2022, ainda em versão preliminar, que circula no governo e no Itamaraty (…) com propostas de políticas estratégicas do Brasil (…) Moldado por um obsessivo antiamericanismo e (…) nostálgico do ‘Brasil Potencia’ dos tempos de Ernesto Geisel (a quem, mais de uma vez, Lula tem apontado como um parâmetro), Guimarães atribui ao Estado os papéis de ‘estimular o fortalecimento de megaempresas brasileiras (…) para que possam atuar no cenário mundial globalizado’ e de conduzir um programa de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de amplas implicações militares”.

Ali também, Guimarães “define o Tratado de Não-Proliferação Nuclear como o ‘centro’ de um processo ameaçador de ‘concentração de poder militar’”, o que, lembra Magnoli, explica a aproximação de Lula com o Irã de Ahmadinejad.

Magnoli destaca ainda que “ao longo de 54 itens, não há nenhuma menção aos direitos humanos”, o que “não é surpreendente”, posto que, “num livro publicado em 2006, Samuel Pinheiro Guimarães qualificou a defesa dos ‘direitos humanos ocidentais’ como uma forma de dissimular ‘com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das Grandes Potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos’”, o que explica as atitudes de Lula em Cuba, no Irã, no Sudão, na China e em outros países africanos nas mãos de serial killers aos quais ele tem levado seu apoio e solidariedade.

Magnoli enxerga no pano de fundo desses devaneios uma perigosa “utopia regressiva ultranacionalista” que, transformada em política de Estado, pode ser muito perigosa.

Acho que isso pode ser verdade no que diz respeito a Pinheiro Guimarães e outras figuras do petismo que Lula deixa pensar que são os formuladores da “política de inserção mundial do Brasil”. Mas ele próprio pensa de modo muito mais prático e objetivo.

O negócio de Lula é O Poder. E quando ele olha para os Estados Unidos e para a China, para os que são subornados e para os que subornam, para apedrejados e para apedrejadores, não tem um segundo de duvida sobre qual desses lados lhe promete mais longevidade no poder. Se isso combina com os planos de “inserção internacional” daqueles caras que gostam de falar difícil lá do Itamaraty, tanto melhor. Mas quando não lhe interessa o artigo da hora da “feira de utopias” do PT, ele simplesmente deixa o produto encalhar ou, se necessário, manda calar a boca do vendedor.

Por esse lado, portanto, o problema é só saber se a Dilma também terá força para tanto…

Ja a sua novíssima associação com o antes tão execrado “grande capital” é fruto de cálculo muito mais objetivo. A competição com o capitalismo de Estado empurrou o mundo para o funil dos monopólios. Agora é capital + Estado contra capital + Estado. É este o modo como se disputa O Poder hoje em dia. E esse é o jogo que Lula joga.

É nisso que ele está investindo o dinheiro do BNDES.

Intelectuais, assim como esquerdistas honestos, têm dificuldade em entender isso. Se eu fosse um dos eike batistas da hora, por exemplo, não estaria tão tranqüilo com a perspectiva de ver meus negócios crescerem à custa de me tornar sócio de alguém que tem tanto compromisso com o que disse ontem quanto o presidente petista que hoje se sustenta com o apoio de Jose Sarney, Fernando Collor e Paulo Maluf. Porque parece-me claro, como deveria estar para todo o mundo, que o que ele espera dos monopólios que está montando aqui dentro é o mesmo que os ditadores chineses esperam dos deles.

Mas isso, provavelmente, é ingenuidade de minha parte. Pois quem nasceu para ser “o homem mais rico do Brasil” a qualquer custo olha para a nova regra do jogo com a mesma objetividade do nosso Lula, que nasceu para ser o homem mais poderoso do mundo a qualquer custo. Lula põe na balança  as cobranças por coerência da minoria letrada e o poder de apagar memórias aplacando a fome das massas por 120 reais a cabeça por mês, e age em função do resultado que encontra. Assim como seus novos sócios capitalistas, quando olham para o risco dele decidir, um dia, ficar com as empresas inteiras de que hoje é apenas meio dono e a oportunidade de aumentar suas fortunas já, enquanto o vento estiver soprando a favor, não pensam duas vezes: içam todas as velas que têm e até as que não têm, e viram a proa para qualquer que seja o rumo que lhes apontar o “nosso guia”. Os empregados desses monopólios que se ardam quando o vento virar e eles se virem diante de um patrão único…

Nada de novo, afinal de contas. Lula e os seus novos sócios estão procurando a mesma coisa. Poder e dinheiro sempre andaram juntos. O poder é o caminho mais fácil para se chegar ao dinheiro. E o dinheiro é apenas um meio mais democrático que o kalashnikov para se conquistar poder. O nosso Lula, que é mais rápido que todos os eikes juntos, refestela-se na certeza de que ele é o único que pode usar os dois.

PS.: A Folha de São Paulo deste domingo trazia matéria com novos pormenores sobre os empréstimos do BNDES. Segundo o jornal, o banco emprestou R$ 168 bilhões do início de 2008 até junho deste ano e, desse total, 57% (R$ 95,76 bilhões) foram divididos entre apenas 12 empresas. Estão entre elas, alem de Petrobras e Eletrobras, as três maiores empreiteiras do país, Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Odebrecht, a Vale, a Votorantim, o frigorifico JBS e a OI, dos mesmos donos da Andrade Gutierrez. O aporte feito ao banco pelo Tesouro Nacional foi de R$ 180 bilhões.

O fim do livre mercado

21 de julho de 2010 § 3 Comentários

A partir do e-mail enviado pelo robot da Amazon.com para me provocar com base nas encomendas anteriores e pesquisas que tenho feito no site, fiquei sabendo do lançamento nos EUA do livro “O Fim do Livre Mercado – Quem Ganha a Guerra entre os Estados e as Grandes Corporações?, de Ian Bremmer.

Abrindo a série de resenhas comentadas enviadas pelos leitores, padrão da loja, a Amazon desta vez foi mais longe. Chamou Nouriel Roubini, que ficou conhecido como “o profeta do caos” por ter sido dos poucos economistas a prever a chegada da ultima crise financeira e o mais pessimista entre os que antecipam as próximas, para entrevistar Bremmer a respeito do seu livro.  A Amazon teve a boa idéia de inverter os papeis na página em que vende o livro de Roubini. Lá é Bremmer quem o entrevista. Mas as idéias de Roubini são deja vu.

Bremmer parece mais interessante.

Não li o livro dele, que acabo de encomendar (http://www.amazon.com/dp/1591843014/ref=pe_5050_16321390_snp_explore).  Mas, pela entrevista, já da pra ver que sua análise vai na mesma linha que tenho usado aqui no Vespeiro para interpretar o que está acontecendo no mundo desde a entrada em cena do capitalismo de Estado chinês, especialmente nos artigos O fim da revolução americana?, de setembro de 2009, (http://vespeiro.com/2009/09/14/o-fim-da-revolucao-americana-2/)  e Condenados ao Supercapitalismo, publicado ha 10 dias (http://vespeiro.com/2010/07/08/no-mundo-do-supercapitalismo/). É o primeiro autor americano que encontro, olhando para as coisas com a necessária coragem.

E ele também não parece otimista com o que vem por aí.

Veja a tradução da entrevista:

Roubini: Seu livro sugere que uma velha tendência, que você chama de capitalismo de Estado, se tornou muito mais importante ultimamente. O que aconteceu para as coisas mudarem desse jeito?

Bremmer: Nos últimos 18 meses a crise financeira ocidental e a recessão global aceleraram a inevitável transição do mundo do G-7 para o mundo do G-20. Isso não implica apenas um numero maior de negociadores em torno da mesa. Não é só uma questão de fazer um rebanho maior de gatos andar numa mesma direção para fazer as coisas acontecerem no cenário internacional.  Trata-se de tocar gatos junto com outros animais que, definitivamente, não gostam dos gatos. Na verdade não se trata mais de um rebanho.

No tempo do G-7 todo mundo que interessava para o crescimento da economia global aceitava o pressuposto de que a prosperidade depende do império da lei, da existência de tribunais independentes, de transparência e de uma imprensa livre. Todos acreditavam no valor do capitalismo de livre mercado, enfim. Naquele mundo, as multinacionais eram os principais peso pesados da economia. Esse consenso norteou o processo de globalização nos últimos 40 anos.

Pois o sol acaba de se por nesse mundo. O país que emergiu mais depressa e mais forte da desaceleração global é um país que não aceita a idéia de que uma economia regulamentada de livre mercado é imprescindível para o crescimento. O sucesso da China convenceu os autoritários do mundo inteiro de que eles podem ter um crescimento explosivo sem ter de abrir mão do monopólio do poder político que detêm em seus países. A China conseguiu um crescimento de dois dígitos durante 30 anos sem liberdade de expressão, sem regras econômicas estabelecidas, sem juízes em condições de ignorar as pressões políticas, sem nenhum direito de propriedade confiável – sem democracia, para resumir. E os acontecimentos dos últimos 18 meses tornaram a China mais importante que nunca para a continuação do crescimento global. Essa é uma enorme mudança que tem implicações tremendas nas quais seria melhor que nós começássemos a pensar.

Roubini: O termo capitalismo de Estado significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Como você o define hoje?

Bremmer: Eu escrevi sobre um sistema em que o Estado usa as forças do mercado, antes de mais nada, para conquistar objetivos políticos. Os líderes desses países sabem que, mais cedo ou mais tarde, as economias dirigidas virão a falhar, mas têm medo de perder o controle sobre o modo como a riqueza passará a ser criada se derem espaço para que o mercado seja realmente livre. Isso poderia gerar forças econômicas capazes de desafiar a autoridade do governo de manter sob controle a vida política da Nação. Assim eles usam a estatal do petróleo, outras estatais estratégicas, super empresas leais aos donos da política e os maiores fundos de investimentos do país, antes de mais nada, para reforçar o controle que exercem sobre o processo de criação de riqueza dentro das fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, mandam essas super empresas e fundos de investimento para fora para fazer negócios que reforcem o poder político e geopolítico de seus governos.

E esse sistema é fundamentalmente incompatível com a liberdade de mercado.

Roubini: Criando atrito entre os capitalistas de Estado e outros governos. Isso para não falarmos das companhias privadas.

Bremmer: Exatamente. No sistema de livre mercado as grandes empresas multinacionais estão focadas em maximizar o lucro. Quando os mercados não são regulados de uma forma inteligente – e nós acabamos de ver isso nos Estados Unidos – elas acabam se concentrando em aumentar os ganhos de curto prazo em detrimento da sustentação do crescimento de longo prazo que interessa aos seus acionistas. Os últimos dois anos nos serviram de lição para o perigo dos excessos do capitalismo de mercado.

Mas no capitalismo de Estado os principais atores econômicos estão olhando principalmente para alvos políticos. Os lucros ficam subordinados a esses objetivos. Em outras palavras, se o lucro serve para os interesses do Estado, eles vão perseguir o lucro. Mas se interessar ao Estado que a estatal de petróleo perca dinheiro para acumular os estoques de longo prazo de óleo, gás, metais e minerais que os políticos entenderem necessários para garantir seu crescimento futuro a perder de vista e manter uma massa de trabalhadores empregados independentemente dos custos, o lucro e a eficiência passarão a ser encarados como um passivo político e essas companhias vão pagar o preço que for necessário para que o objetivo político seja satisfeito.

Só que essas estatais estão competindo com multinacionais que não podem pagar mais do que as coisas valem. E assim, a interferência política no mercado vai distorcer todo o jogo – no caso, forçando uma alta no preço que o mundo inteiro paga pela energia e pelas outras commodities.

Roubini: Quando você menciona os capitalistas de Estado a que países especificamente você esta se referindo?

Bremmer: Você encontra capitalismo de Estado nas monarquias árabes do Golfo Pérsico – Arábia Saudita e Emirados Árabes são os mais importantes. Essa tendência também esta presente na Rússia de Putin. Existem outros exemplos de países que misturam livre mercado com políticas de capitalismo de Estado. Mas nós não estaríamos falando do capitalismo de Estado como detonador de uma mudança total das regras da economia global e da política internacional se não fosse pela China, hoje a segunda maior economia do mundo e o mercado que mais cresce no planeta.

Roubini: O fim do livre mercado é um titulo provocativo. Você esta tentando ser mais catastrófico do que eu?

Bremmer: Eu não faria isso. Mas você tem de admitir que não é um exagero. Não é que eu acredite que os Estados Unidos estejam jogando fora os princípios do livre mercado. Nem que Obama seja algum tipo de socialista. Washington vai endurecer os regulamentos do mercado financeiro nos próximos meses e muita gente não vai gostar disso. Os americanos não vão abrir mãos de sua fé no capitalismo de livre mercado só para conseguir um pouco mais de prosperidade. Mas a mesma coisa não pode ser dita sobre o resto do mundo.

O sistema econômico global não é mais regido por um consenso em torno desses valores. Agora existem formas diferente de capitalismo competindo entre si. Você usou a palavra atrito. É exatamente disso que se trata. Atrito, competição e ate conflito. Haverá ganhadores e perdedores, e está na hora das lideranças políticas e econômicas começarem a pensar em quem estará em cada uma dessas listas.

Roubini: Você chegou a sentir a tentação de chamar seu livro de “O fim da globalização”?

Bremmer: Não, isto não é o fim da globalização. É o fim do poder exclusivo e irresistível da globalização de modelar nossas vidas e o futuro da economia global. A globalização depende do acesso aos mercados globais de consumidores, de capitais e de trabalho. O capitalismo de Estado compromete as três coisas. A globalização ainda importa e vai continuar importando no futuro previsível. Mas não é mais a força diretora fundamental do crescimento numa economia global que tem de se voltar cada vez mais para a China para a  próxima etapa de expansão.

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Nouriel Roubini é professor de economia na Stern School of Business da New York University. Tem uma longa experiência no governo. Assessorou a Casa Branca e o Tesouro entre 1998 e 2000. É autor de A Economia da Crise e de Bail-outs and Bail-ins.

Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group, a maior empresa de consultoria de risco político do mundo, e presença assídua nas páginas de analise dos principais jornais e revistas americanos. É autor de The J Curve: A New Way to Understand Why Nations Rise and Fall e de The Fat Tail: The Power of Political Knowledge for Strategic Investing.


Ambições cortesãs e ambições republicanas

6 de junho de 2010 § 2 Comentários

Ambições

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cortesãs e ambições

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republicanas

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Ambição é o que move o bicho homem.  Foi ela que nos empurrou para fora do mundo animal.  E, hoje mais do que nunca, no limite do “apertamento”, sabemos que essa é a nossa benção e a nossa tragédia.

Entre o céu e o inferno; da negação à obsessão; da criminalização ao endeusamento, já se tentou de tudo para lidar com ela.

A esta altura, sabemos que é uma força da natureza tão irremovivel quanto o sexo e a fome e que tudo que é possível fazer é restringir as maneiras admitidas de servi-la.

Parece pouco, mas faz uma grande diferença. É o que foi possível conseguir nos 2500 anos de luta de Atenas até aqui.

Tomemos o caso extremo. As maiores ambições à solta no mundo. Volto ao Grande Jogo do Poder do qual descrevi um lance em detalhe na ultima série de artigos publicados aqui. Existe diferença, ao redor do globo, entre os que disputam o “Velocino de Ouro” do momento, que é o sonhado controle dos grandes vetores das “mídias convergidas”?

Não exatamente. Nem entre eles, nem na natureza da força que os move.

Mas não ha duvida: dos incentivos e constrangimentos de que se cerca essa volúpia nos distintos ambientes políticos e institucionais resultam benefícios significativos ou prejuízos devastadores para a massa dos que assistem de fora a luta dos que só entendem a vida correndo atras de se tornarem gigantes.

Reza o ditado que pau que nasce torto não tem jeito, morre torto.

E, de fato, nesta boca de Terceiro Milênio, assim como para tudo o mais, ha ambições cortesãs e ha ambições republicanas.

Na velha Europa e em seus rebentos latino americanos , a democracia é epidérmica. Não “entrou”. Joga-se, como sempre, o jogo da corte. Seja nas ricas, seja nas pobres, nada se faz sem a anuência do rei. Disso resulta, para as presas e para os predadores desse eco-sistema econômico, uma determinada lista de fatores críticos de sucesso e, como conseqüência, a seleção de um determinado tipo de “animal” como espécie dominante.

No sistema de cortes, ela não será nem a dos inovadores, nem a dos empreendedores, nem a dos mais dispostos ao trabalho. Será a dos que cultivaram com menos escrúpulo as melhores relações políticas.

Na série que precede este artigo examinei de perto o quadro da disputa pelas telecomunicações em Portugal e ex-colônias. Nenhum dos personagens envolvidos foge a esse figurino.

Não é só lá. Os oligarcas russos; Silvio Berlusconi, na Itália; Carlos Slim, no México; ou os nossos Sérgio Andrade e Carlos Jereissati, para ficarmos apenas nas criaturas deste governo, fizeram suas fortunas em negócios que são fruto de concessões do governo, nos quais as conexões políticas  são o fator decisivo de sucesso.

Em tudo se assemelham os lances que determinam a criação e o controle do gigante das telecomunicações brasileiro e do gigante das telecomunicações português. Em tudo se parecem os artífices dessa obra de cada lado do Atlântico e de cada lado do balcão governamental. Não houve criação, não houve inovação, não houve qualquer dose de risco envolvida no processo. No que foi necessário ousar foi na disposição de violar ou de manipular a lei. No que foi necessário superar a concorrência, foi na falta de escrúpulo. Aqui como lá, tendo os respectivos governos como sócios, “capitalistas de relacionamentos” notórios apenas se apropriaram de licenças para a facilitação, em regime de monopólio, do uso de  tecnologias desenvolvidas nos Estados Unidos no século passado em vastas extensões dos seus respectivos territórios nacionais. Aqui como lá, eles não disputam clientes; zelam por territórios exclusivos de caça e por sua possível ampliação. Aqui como lá, alimenta-se a expectativa de estender esse poder alem das fronteiras nacionais, aplicando a governos estrangeiros o único expediente “negocial” que funciona para satisfazer as ambições cortesãs.

No universo cortesão, ha um monopólio em cada setor da infra estrutura. E cada monopólio, se não é do governo, é cria de um governo. Com poucas exceções, é fácil traçar a linha direta de filiação entre cada nome da lista dos nossos bilionários e quase bilionários e os ditadores e presidentes que os “fizeram”.

Já no universo republicano, a linha “genealógica” dos bilionários leva diretamente às universidades. É de Stanford? É de Harvard? Sem nenhuma exceção, todos os bilionários da industria de tecnologia da informação, a arena onde se digladiam os maiores egos dos Estados Unidos, podem ser descritos como protótipos dos self made men: Bill Gates (Microsoft), Steve Jobs (Apple), Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark Zukerberg (Facebook) têm em comum destacados currículos universitários e horas sem fim de esforço criativo, muitas vezes iniciado em precárias bancadas de obscuras garagens do subúrbio.

Não é só nessa industria. Uma pesquisa recente mostra que um em cada quatro bilionários do pais que se divorciou da Europa feudal sob a máxima “nenhum poder e nenhum dinheiro que não tenha sido fruto do mérito”, partiu do zero, seja qual for o campo de atividade envolvido. Na Alemanha, que tem a melhor marca entre os europeus, um em cada 10 bilionários cabem nessa descrição. No resto do mundo eles são exceções raríssimas…

Se ha algo de fascinante que “a rede do tamanho do mundo” (www), a mais revolucionária das resultantes da meritocracia americana, nos permite acompanhar, é o modo pelo qual os seus candidatos a gigante, tangidos por suas instituições, tratam de alimentar a mesma ganância que os europeus perseguem com a sua mumunha ancestral.

Ha quem pense hoje, depois do iPad na sequência do iPhone, que o jogo de Steve Jobs, longe de ser apenas o de se tornar um dos maiores desenhistas e fabricantes mundiais de gadgets eletrônicos altamente sofisticados e inovadores (coisa que ele também é), é se transformar numa rede de comunicações e de distribuição e venda de notícias, entretenimento e bens culturais de proporções no mínimo googlelianas.

A maior parte do que ele ganha hoje ainda vem das vendas de computadores, iPods, iPhones e iPads. Mas ha sinais claros de que o novo duto de faturamento logo superará o antigo. A ficha caiu com a fulminante caracterização do iPhone como a mais fantástica plataforma de vendas de aplicativos (software) que jamais existiu. Quatro bilhões de downloads já foram feitos e a caixa registradora continua girando em ritmo alucinante. Depois da musica, com o iTunes e o iPod, seria coincidência demais para não ser deliberado. O iPad chegou para confirmar tudo, cobrando uma taxazinha por cada livro, por cada revista, por cada jornal…

O iPad, dizem alguns críticos especializados, é a primeira máquina desenhada com a convergência de mídias em mente. Os computadores, feitos para a gente se debruçar em direção a eles, são muito pouco cômodos como plataformas de entretenimento. E a televisão é péssima para se surfar na web e para se passar e-mails. O iPad, com sua genial e simplérrima capa/bancada, serve para tudo isso e ainda é perfeito para você se afundar numa poltrona ou deitar na cama e ver um filme. E tudo sem que a Apple tenha gasto um tostão enterrando cabos  ou esticando fios. Ela conseguiu, enfim, o que os grandes portais tentaram e não conseguiram e o que as “teles” cortesãs ainda sonham obter.

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Qual foi o erro deles? Eles não fabricavam iPhones e iPads. A Apple produz combinações matadoras de hardware e software. E o resto vem por conseqüência. De qualquer maneira ela é, desde já, a única plataforma online que se provou capaz de cobrar com sucesso por conteúdos digitalizados.

Mas ha quem discorde. E as discussões são apaixonadas.

O Google trabalha focado no princípio das plataformas abertas e dos “conteúdos contribuídos” (feitos por contribuições espontâneas dos próprios usuários, cedidas ou roubadas) . Ao contrario de Jobs, que produz softs apenas para as suas máquinas, o Google aposta em programas abertos que podem ser usados em qualquer máquina. O seu sistema para telefones inteligentes, o Android (28% do mercado nos EUA), por exemplo, já ultrapassou as vendas do sistema OS do iPhone ( com 21% de share contra 36% do sistema usado no BlackBerry, ainda o campeão).Mas a Google vende apenas um soft que “motoriza” qualquer aparelho de qualquer fabricante enquanto o iPhone, com seu programa fechado é, por enquanto, uma plataforma imbatível de venda de aplicativos.

Sim, mas o soft do Google é aberto e vai ter desenvolvimentos num ritmo e numa extensão que só os mutirões são capazes de produzir enquanto as máquinas, como o iPhone ou o iPad, vão virar commodities reproduzidas ao redor do mundo, como aconteceu com os PCs no passado.

Mas, que ninguém se engane, o olho grande do Google foca o mesmo objetivo de controle monopolísticos de mercados atribuído a Jobs, mas pelo caminho da reprodução virtual das cidades, das ruas e das lojas que vai sendo acoplado ao seu sistema de mapas interativos, dando a cada comerciante e a cada consumidor ao redor do mundo a condição da ubiqüidade.

E o Windows? O Windows, ainda o rei dos escritórios, parece ter perdido definitivamente  a corrida dos telefones inteligentes. Mas esse jogo ainda não acabou…

Por aí vai a discussão.

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Se e quando resultar dessa disputa prejuízo alto demais para a platéia, pode-se sempre recorrer à força de um Estado que não participa diretamente do jogo, no qual a dependência do representante em relação ao representado é real, para aplainar as arestas. O fenômeno de concentração excessiva de um insumo de uso obrigatório como as telecomunicações numa economia moderna, como este que estamos assistindo hoje por aqui, aconteceu nos Estados Unidos ha perto de 40 anos atras. Em 1974 o Departamento de Justiça abriu um processo contra a AT&T por “práticas anti concorrenciais”. Julgada em 1982, a empresa foi forçada a abdicar de seus 22 monopólios regionais, finalmente consolidados em 7 Baby Bells regionais independentes, concorrendo entre si.

A diferença mais notável entre esses dois mundos é que o Estado fica fora da disputa das ambições republicanas – idênticas às cortesãs na sua natureza e, provavelmente, também nas suas inconfessáveis intenções ultimas – e intervém para moderá-las quando isso se faz necessário. Até esse momento, porém, o jogo é jogado dentro de regras claras e estáveis o bastante para o publico admiti-las como tal. E é isso que explica porque, lá, o jogo é acompanhado com um nível de vibração da platéia que aqui só se vê nos estádios. Há torcidas para PC e para Mac como aqui há torcidas para Corinthians e para São Paulo.

Já no mundo das ambições cortesãs, quando os contendores mostram a cara, sempre suja, é nas páginas policiais dos jornais. E é isso que alimenta o descrédito e o nojo da opinião publica contra uma disputa que, entre nós, é invariavelmente viciada.

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Fecha-se assim o círculo vicioso. O tanto que, lá, a vitória consagra, aqui a vitória compromete. É, quase sempre, um atestado de desonestidade. E é isso que arma a mão do Estado para “melar” a partida sempre que lhe convier. O publico, que é sempre o grande lesado no jogo das ambições cortesãs, estará sempre pronto a aplaudir quem se apresentar como  “xerife da ética” e vier “para acabar com a bandalheira” …  por excelência o discurso dos que vêm lá de baixo loucos para entrar nela.

Para as torcidas de lá, sempre sobram os iPhones, os iPads e as redes do tamanho do mundo com tudo que elas puxam a reboque como subproduto da perseguição de ambições individuais pelo caminho do mérito. É preciso inovar e inventar para ganhar esse jogo.

Entre nós, a inovação atrapalha. Ameaça as fronteiras de territórios privativos de caça ha muito estabelecidas. Os tempos mudaram e já não estamos mais queimando os inovadores em fogueiras monumentais em praças publicas. Hoje as cortes se contentam com o linchamento moral e a sabotagem  econômica dos críticos e dos inovadores.

E disso tudo resulta que enquanto “eles”, cheios de duvidas, perscrutam os confins do universo, recriam a vida com o DNA artificial e padecem as dores de serem humanos pairando acima da miséria material, nós perambulamos por este vale de lágrimas cheios de certezas, mergulhados na pobreza e  tomando “broncas” de chefes de quadrilhas que se aprazem em cagar regras para o mundo, a quem pagamos as tarifas e os impostos mais altos do planeta.

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(Depois desta, saio para uma semana de Amazônia, que ninguém é de ferro. Até…)

O novo canto da velha sereia

5 de janeiro de 2010 § 2 Comentários

Está aí, passados 36 anos, o lance que Alain Peyrefitte previu em 1973: a China acordou … e o mundo tremeu.*

O lado bom dessa história é mais visível do Brasil que de qualquer outro lugar do mundo. Um quarto da humanidade mantida à força fora do século XX e levada à miséria extrema solta-se de repente e, sem lei e sem ordem,  salta para o século XXI faminta de commodities, em busca do tempo perdido…

Benza deus!

Abram os bolsos e fechem os olhos (para a pirataria institucionalizada e para a brutalidade do regime) porque esta é uma oportunidade única e, da China para dentro, o problema é dos chineses…

Será mesmo?

Não é o que Lula está enxergando. E se existe alguém que tem faro para os grandes eventos da meteorologia política, é ele.

O vôo da economia chinesa se dá, como alguém lembrou na imprensa esta semana, “num contexto de desastrosa perda de autoridade” da receita pregada pela grande democracia ocidental. A crise financeira, que promete mantê-los amarrados a crescimentos medíocres por não poucos anos, abalou fortemente a reputação de competência dos Estados Unidos. E os desastres  do Iraque e do Afeganistão, alem de não contribuírem em nada para reconstituí-la, apontam para o valor relativo da hegemonia militar no novo contexto que se anuncia.

O mundo já enfrentou o poder do capital, em conluio ou não com o poder do estado, e tambem o poder do estado totalitário incapaz de performance econômica. Mas a nova besta que a China soltou em campo mistura tirania com prosperidade. O capitalismo de estado, este híbrido que junta o pior de dois mundos, tira de cena os corolários ate aqui obrigatórios das tiranias – o atraso econômico e a pobreza – que, mais que todos os exércitos e todos os sonhos idealistas, as condenavam a uma duração limitada no tempo.

É uma perda terrível, essa do monopólio da afluência!

“…existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade – dizia Tocqueville –  que leva os fracos a querer atrair os fortes ao seu nível e que reduz os homens a preferir a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade”.

Sempre foi essa a força sedutora da tirania. Explorado por todos os tiranos para se instalar no poder, ironicamente foi tambem esse “gosto depravado”, com o sentido invertido, que acabou com as grandes ditaduras do século XX, quando elas ainda eram incapazes de produzir prosperidade. Mais que qualquer outra coisa era a vontade de possuir e de desfrutar, como os do outro lado, que atraia os olhares dos tiranizados para alem do Muro…

Agora, tudo empurra numa só direção. Quantos, como o Brasil, se deixarão seduzir pelo autoritarismo que põe dinheiro no seu bolso? E o capitalismo democrático, poderá sobreviver nesse ambiente?

Aquele “mercado”, força de sustentação e regulação do capitalismo democrático, é uma frágil construção jurídica. Um pacto entre pessoas. Baseia-se na subordinação de todos aos mesmos custos, às mesmas oportunidades e às mesmas regras do jogo. É um subproduto do estado de direito e do império da lei. Ultimo grau de refinamento do estado nacional, foi criado para funcionar em águas interiores.

Soçobrou na primeira onda do grande oceano sem lei da economia global.

Quando a revolução tecnológica derrubou as fronteiras nacionais e o capitalismo com limites, dos mercados com regras, passou a enfrentar o capitalismo sem limites das empresas-estados em mercados sem regras; quando a mão de obra do primeiro mundo passou a competir com a mão de obra quase escrava dos últimos  mundos, a primeira vitima foi a legislação antitruste que impunha a moderação dos apetites no capitalismo democrático.

Crescer ou morrer, o grito de alarme do primeiro momento de pânico, deu início à corrida de volta à lei da selva.

E o jogo mudou de natureza.  Sob a lei do mais forte, a escalada foi vertiginosa. Os cacifes, agora, já são de proporções nacionais. Ninguém pode banca-los sem o concurso do estado.

O que se vai desenhando é um mundo de poucos senhores e muitos servos, onde os reis de cada bloco, espontaneamente ou arrastados, anabolizam empresas com os BNDES e os TARPs da vida, criam um feudo em cada setor da economia grande o bastante para tragar todos os concorrentes à sua volta, e os distribui à sua corte de “empresários de relacionamentos”. E o resto dos mortais se torna, para tudo (do emprego ao consumo), dependente deles…

Não ha recuo suave dessa nova realidade da competição global sem limites. A volta às fronteiras nacionais instalaria uma guerra comercial de proporções catastróficas. Impossível mantê-la fria. Se for para seguir para frente, o mundo terá de caminhar junto daqui por diante.

Não parece ser o fim. Soa mais como um recomeço da História.

Seria o primeiro capítulo de uma nova História da Comunidade Humana que teria de partir da sopa ralíssima da presente média mundial de desenvolvimento político resultante da diluição, num caldeirão único, de todas as experiências nacionais vividas até aqui.

Por quanto tempo teríamos de fervê-lo até que esse caldo geral apurasse o suficiente para voltar a ter a consistência alcançada pelos povos que estão na vanguarda do desenvolvimento político nesta reta final da infância da humanidade? Eles consentirão num recuo? Terão condições de evitá-lo ?

Quem viver, verá…

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Não compre gato por lebre

30 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

luliobama x

Um fenomeno curioso está ocorrendo na cena política brasileira. É a repetição (como farsa…) do mesmo ciclo que acabamos de ver se encerrar melancolicamente lá fora, apenas com sinal invertido.

Em pleno céu das suas pequenas vitórias emprestadas, os infindáveis discursos de Lula nos dão conta de que ele acredita piamente que chegamos ao “fim da História” com a derrota final da economia de mercado e a hegemonia do estatismo que, na sua versão macunaímica, assume a velha feição do populismo assistencialista de clientela.

Trata-se de algo que, possivelmente, virá a ser conhecido no futuro como o “Consenso de Caracas”, que acrescenta aos elementos tradicionais desse tipo de formulação “sociológica”, uma versão reciclada do racismo institucionalizado de que o mundo pensava ter se livrado com o fim do apartheid na África do Sul.

Mas, que ninguem se engane: é muito cedo, ainda, para se levar essa visão de mundo totalmente na piada.

Se ainda é prematuro afirmar a morte definitiva da economia de mercado, acho que existem sobradas razões para temer que Lula venha a estar certo num futuro não muito distante, visto que o seu fã americano e sua equipe econômica tomada de empréstimo ao Goldman Sachs seguem enchendo a bola das mesmas corporações gigantes que detonaram a economia mundial, enquanto faz discursos ôcos contra elas. Esse comportamento põe em cena uma seríssima ameaça de que os Estados Unidos, desde sempre o unico baluarte do capitalismo genuinamente democrático, estejam começando uma deriva sem retorno em direção ao estágio que antecede a morte de qualquer democracia, que são o corporativismo e o “capitalismo de camaradagem”, aquele velho conhecido nosso no qual as amizades certas, e não o esforço individual, é que são o principal fator de sucesso.

luliobama 1

Não é dificil entender a mutua atração de Lula e Obama. Eles têm muito de parecidos. Descontadas as diferenças na definição do que seja esquerda e direita nos Estados Unidos e no Brasil, e levando-se em conta que o carimbo “De Esquerda”, independentemente de seu significado real, tem, aqui e lá, o efeito mágico de anular a capacidade crítica de uma boa metade da população, aí incluida a quase totalidade da imprensa, esses dois mestres da intuição lançam mão dele e governam como os violinistas, segurando o instrumento com a mão esquerda mas tocando com a direita e negando com interminável palavrório vazio e técnicas de animador de auditório aquilo que fazem na prática.

O recurso preferido dos políticos mal intencionados é a critica destrutiva com viés generalizante, desacompanhada da avaliação prévia da alternativa para a situação que se quer revogar. Trata-se de um habito fortemente arraigado entre os latinos, aliás. Da educada França ao mais iletrado grotão latino-americano, costumamos destruir aquilo que temos antes de sabermos o que vamos por no lugar.

lenin

Basta um discurso cheio de indignação e pronto! Lá vão todos os babacas para a rua apedrejar “isto que está aí” para, ao fim do comício, se verem, atônitos, nas mãos de coisa pior. De revolução em revolução, perdemos, todos, as referências do passado antes que tivessemos parado para pensar no futuro, passando das mãos dos reis para as mãos dos imperadores, das destes para as dos caudilhos,  depois para as dos ditadores, as dos governos autoritários e assim por diante.

Trocamos de exploradores, substituimos a nobreza pelo funcionalismo, mas estamos sempre no ultimo degrau da escala das liberdades efetivamente praticadas em partes mais previdentes do planeta num determinado momento histórico. Tão perdidos, desorientados e acostumados ao abuso que perdemos a capacidade de nos indignar e já não sabemos sequer a que temos direito de aspirar em matéria de direitos e liberdades civis.

É o que estamos começando a fazer mais uma vez.

O capitalismo americano foi à rasca, arrastando o mundo consigo, porque o país abriu mão do seu tradicional aparato regulatório pró-mercado, apoiado na legislação anti-truste que punha limites à concentração da propriedade e garantia a competição mais acirrada possivel dentro de cada setor da economia, e passou a permitir a competição sem limites que leva ao crescimento desmesurado das grandes corporações até que alcancem o estágio do monopólio e ao aumento exponencial do seu poder de lobby e de corrupção.

Disso resultou o abandono progressivo das políticas pró-mercado (anti-truste) e sua substituição por medidas pró-empresas articuladas em função de relações pouco claras entre políticos avidos de recursos para financiar seus planos de poder e empresas dispostas a fornecê-los em troca de vantagens regulatórias e negócios bilionários obtidos no tapetão. Foi assim, e não vencendo competidores em disputas honestas, que certas empresas se tornaram “grandes demais para quebrar”, criando castas de privilegiados que não sofrem nas crises e ainda se aproveitam delas para aumentar seus privilégios.

Eis aí o que cria um elo de identificação entre a elite de Brasília e os poderosos de Wall Street, que vêm seus salários crescer quando os do resto do país diminuem embora sejam eles os grandes fabricantes de crises, respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos.

O resumo dos fatos é que os Estados Unidos estão percorrrendo, por cima, o caminho para o “capitalismo de camaradagem” que o resto do mundo, em especial os latino-americanos, percorreu por baixo. E isto tem servido de pretexto para o “revival” mundial do estatismo com que o nosso Lula tanto se regozija.

magica

A maneira de reverter esse processo não é, entretanto, com menos economia de mercado, mais estatização (com todo o poder a empresas gigantes cujos numeros a ninguém é permitido olhar) e mais jogo casado entre empresários de araque e políticos com poder de alterar as regras do jogo como este a que assistimos recentemente na área de telefonia, criando fontes eternas de financiamento de projetos de poder.

É justamente o contrário: o poder de intervenção do Estado tem de ser exercido para criar mais mercado, ou seja, mais concorrência, e para por limites legais para o crescimento das empresas. É isso que divide e reduz a concentração do poder econômico e, em consequência, a sua influência sobre a política, sempre conseguida por caminhos tortos.

O eleitor brasileiro está sendo enganado mais uma vez.

“Nem a esquerda desonesta, nem a direita troglodita!”

“Nem monopólios estatais,  nem monopólios privados!”

“Por uma política pró-mercado e pelo fim das mumunhas e manipulações pró-empresas!”

“Pela proteção da concorrência e pelo fim da tramóia regulatória e do jogo de cooptação!”

“Por uma lei e uma polícia para todos e não só para os inimigos!”

Os “pelas” e “por umas” são só uma provocaçãozinha a que não pude resistir. Mas o que está aí são alguns dos pontos-chave para informar um verdadeiro discurso de oposição no Brasil.

Ja apanhamos o suficiente para saber que a unica coisa pior que a propriedade privada dos meios de produção regulamentada pelo Estado, é a propriedade estatal dos meios de produção sem regulamentação nenhuma criando empresários de fachada para garantir reservas estratégicas de dinheiro para eleições (e o mais…).

CORRUP~1

Temos tido provas diárias, nos ultimos sete anos, de que não existe lado são num sistema podre. Dinheiro demais corrompe. Poder demais corrompe. Os dois juntos corrompem absolutamente. E o que a “era PT” nos prova é que qualquer um que chegar a uma distância suficiente dessas máquinas de corromper, será corrompido.

O capitalismo fora dos Estados Unidos sempre esteve preso nesse circulo vicioso: quanto mais o sucesso economico depender das relações políticas e quanto menos o esforço individual e a competência fizerem diferença, mais corrupto será o sistema e menos apoio publico ele terá. E quanto menos apoio publico ele tiver, mais a elite política ocupará espaço na economia, aumentando o seu poder de distribuir favores e desfavores e, com isso, de se perpetuar no poder.

Agora os Estados Unidos tambem flertam perigosamente com a distorção que está na raiz de todos os micos que pagamos. Mas isso não justifica que afundemos ainda mais no brejo que já conhecemos. Só políticas que apontem na direção de reduzir a capacidade de corromper dessas duas máquinas de corrupção – o dinheiro e o poder político – podem sanear o sistema e melhorar a vida do povo, que é quem paga pelos abusos das duas.

Se não trabalharmos para criar um sistema econômico baseado no mérito, que possa ser apoiado por pessoas honestas, continuaremos eternamente assistindo ao achincalhamento do trabalho sério e ao triunfo do crime sem castigo.

(Na seção De Outros Autores estou arquivando o artigo “O Capitalismo depois da crise”, de Luigi Zingales, que inspirou parte deste acima. É enorme. Mas me parece tão importante e bem fundamentado que tive a pachorra de traduzí-lo para os leitores do Vespeiro).

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