Adeus poesia. Adeus revolução. Viva o dinheiro!
31 de março de 2011 § 1 comentário

Na sua linha tradicional de total intolerância para com qualquer forma de sucesso na web que não seja o seu próprio, (ou ela tenta compra-los, ou trata de mata-los sob uma avalanche de bilhões em concorrência desleal) a pantagruélica Google está tentando um novo ataque contra o Facebook, no momento a razão maior do seu obsessivo ciúme.
No ano passado a Google enterrou algumas centenas de milhões de dólares na tentativa de montar uma rede parecida com o Facebook, chamada Buzz.
Não colou.
Agora esta tentando dar a volta ao muro, em vez de saltá-lo, acoplando à sua ferramenta de busca um equivalente da famosa tecla “curtir”, responsável não só por bilhões de hits na rede do Facebook mas, também, por difundir viralmente tudo que seus usuários publicam de mais interessante, o que cimenta comunidades de usuários com gostos semelhantes e multiplica enormemente a movimentação da rede.
A Google está anunciando a disponibilização da tecla “+1” junto à sua ferramenta de busca que permitirá aos usuários “curtirem” certas páginas trazidas pelo algoritmo googleiano nas buscas por eles empreendidas. Essa avaliação personalizada (em lugar da estritamente matemática) será automaticamente transmitida à lista de “amigos” desses usuários do Google que, quando fizerem suas buscas, receberão essas páginas no topo da lista de respostas, independentemente da colocação que lhes teria sido dada pelo algoritmo puro e simples.

Essas comunidades de amigos” que o Google espera formar não são exatamente voluntarias, como as que se formam no Facebook, mas resultado do cruzamento de todas as informações sobre o uso que cada pessoa faz dos diversos produtos Google como Google Chat, Youtube, busca, serviços de e-mails, etc, e da rede em geral (sites alheios inclusive, como de hábito). Ou seja, algo na velha tradição Google de meter o nariz onde não é chamado sem perder tempo em perguntar onde o usuário gostaria ou não que ela metesse esse nariz…
A Google espera, com o tempo, compor bancos de dados com informações suficientes para dar a cada comunidade de usuários que, por uma razão ou por outra, mantiveram contato um com o outro pela rede afora, resultados personalizados nas suas operações de buscas, jogando na frente da fila tudo que foi “curtido” por estes seus “amigos” desejados ou indesejados.
A briga entre os gigantes da web é de foice no escuro.
Ninguém se satisfaz com bilhões, ainda que sejam centenas de bilhões. E todos querem invadir a seara uns dos outros, acreditando que, de um jeito ou de outro alguém acabará por fazê-lo. Fica cada vez mais distante aquele discurso “libertário” dos tempos da fundação da Google e cada vez mais explicito o da vontade de tudo açambarcar, se possível sozinho.

A Amazon, que viu o seu filão de venda de CDs minguar depois que estouraram as vendas faixa a faixa de musica na web com as invenções de Steve Jobs, anunciou hoje o lançamento de um novo sistema de venda de musica. A novidade é que ao contrário dos existentes na concorrência, quem comprar na Amazon , que hoje vende de space shuttles a alfinetes, não terá de baixar a musica para o seu gadget – celular, tablet ou computador – nem repassar o que comprar de um aparelho para o outro para ter as suas discotecas e playlists em todas as suas máquinas. As musicas e discotecas compradas na Amazon ficarão armazenadas na “nuvem” e poderão ser acessadas de qualquer lugar do mundo. Os primeiros 20 gigas são grátis. A partir daí, paga-se um fee por mês. O problema da Amazon, assim como o da Google, é que nenhuma das duas negociou previamente o seu sistema de vendas com as gravadoras, como fez Steve Jobs, que ainda detém 69% do mercado de venda de musica online.
O Facebook também não esta satisfeito em ser o campeão das redes sociais. Já tem o seu sistema de venda de musica e está entrando agora no de aluguel de filmes, território para o qual a Google também correu recentemente, todos atrás do pioneirismo de Jobs. Embora a oferta de títulos seja ainda muito pequena, Facebook está negociando com os grandes estúdios para amplia-la rapidamente. Sua vantagem é o sistema de indicação de “amigo” para “amigo” que a Google está agora tentando copiar.
Ou seja, Google, Apple, Facebook, Amazon e, atrás delas, alguns azarões que ainda não estão completamente fora do páreo (gente de “apenas” dezenas e não de centenas de bilhões de dólares) , convergem todos para vender conteúdo editorial, sonoro e de cinema online, usando estratégias de associação com os produtores em troca de proteção contra pirataria, como a de Jobs; de indicação de produtos entre amigos, como a de Zuckerberg; de busca como a de Brin e Page. Não demora nada todos eles correrão com receitas convergentes também para o varejo generalizado, como fez Bezos.

A próxima etapa da corrida do varejo online, aliás, promete ser a de internet banking, outro desses filões sem limites do qual o Japão é o paradigma. A ideia geral é fazer com que o celular ou o gadget eletrônico único do futuro muito próximo substitua todas as formas de dinheiro ou quase dinheiro usadas hoje, tais como cartões de crédito e outras mais antigas. Então, tudo se comprará, tudo se lerá, tudo se ouvirá, tudo se assistirá e tudo se pagará apertando botõezinhos da mesma máquina.
Do lado de cá do mundo, a Google é quem corre na frente, entre os gigantes, nesse setor. Está em negociações avançadas com Citigroup e Mastercard.
E como a questão regulatória ainda é uma interrogação em aberto para muitas dessas atividades, outro ponto em que todos se parecem é na corrida pela contratação, a peso de ouro, de altos funcionários de governo bons de lobby. O Facebook, por exemplo, está contratando Robert Gibbs, ex-secretário de imprensa da Casa Branca. Al Gore é do conselho do Google, e a lista vai por aí, recheada de um numero cada vez maior de nomes estrelados dos altos escalões de Wall Street ou do governo federal, que são quem ainda manda no mundo.
Pelo que, recorda-se aos sonhadores e aos “ideólogos da web” que, superada a primeira infância dos estudantes inventores em suas proverbiais garagens; experimentado o primeiro “mel”, é a velha natureza humana de sempre que se impõe. A Google nasceu com um discurso “libertário” (que desde o primeiro dia lhe deu muito lucro, diga-se de passagem, porque era com ele que justificavam ignorar direitos autorais e faturar sobre obras alheias). Seus donos, até hoje, gostam de ser chamados “Os Fundadores” ( de uma “nova ordem”) buscando um eco dos Founding Fathers da democracia americana…
Mas tudo isso foi ha 10 anos que, na era das redes, equivalem a 10 séculos. Hoje só voam mísseis cruise pelos céus do cyber espaço .
Poesia é para os poetas; revoluções são para os revolucionários. As grandes corporações querem mesmo é dinheiro, que é o outro nome do Poder.

Dilma x Lula: a vez das afinidades
29 de março de 2011 § 1 comentário

Começo por onde parou o editorial de hoje do Estadão.
A presidente Dilma mostrou diversas vezes quais são as suas diferenças em relação ao presidente Lula. Mas ao aceitar o linchamento do diretor da Vale, Roger Agnelli, está sinalizando a quem interessar possa onde começam as semelhanças.
O que me pergunto é se a escolha do sensível território das invasões barbaras que o PT tem praticado na economia privada para mostrar essas afinidades não indica que as diferenças até hoje comemoradas são mais de tática que de fundo.
Pelo seguinte.
A conquista do Estado é página virada para o PT. Foi um longo aprendizado até que Lula conseguisse aparar todas as arestas que o atritavam com os eleitores mas ele conseguiu. Agora, depois de oito anos “lá” a ocupação e o aparelhamento do máquina pública e a sua integração orgânica ao projeto de poder petista é algo tão sólida e abertamente assumido que, se resta alguma duvida por ser dirimida é se, na eventualidade da Presidência da Republica cair nas mãos de outro partido, o Estado petista vai ou não se submeter ao veredicto do eleitor e seguir as ordens de um governo não petista.
Isto posto, pensemos granmscianamente, como fariam os petistas que interessam.

Com a máquina do Estado bem segura no embornal; com os demais poderes bem amarrados pelas nomeações e seus titulares devidamente documentados no uso das suas tetas licitas e ilícitas; com os grandes empresários no bolso e o governo desfrutando de ampla liberdade para usar as polícias e as leis apenas quando convém e somente contra os incomodados, como tem acontecido desde o esquecido Mensalão 1, não faz mesmo nenhum sentido trombar de frente com as liberdades fundamentais, como a de imprensa, renegar os direitos humanos básicos, nem tampouco alinhar-se automaticamente com os mais notórios desclassificados da cena politica internacional.
Isso só serve para “sujar a barra” internacionalmente e fazer aliados perder votos.
O próprio Lula, aliás, faz jus ao mérito que todos lhe reconhecem de ter convencido os restos da esquerda radical, no Foro de São Paulo, de que já se foi o tempo da violência e da contestação, o caminho para o poder, agora, é o do voto. E convenceu tão completamente que até o velho Fidel Castro trocou a farda por um moleton e acedeu em “exortar” a ultima guerrilha esquerdista em ação – a das Farc na Colômbia – a aceitar a paz. Cuba está tão empenhada nessa paz, aliás, que as Farc foram subitamente acometidas de uma epidemia de traições em seus esconderijos na selva que resultaram na morte em sequência de todos os seus lideres “linha dura”, restando apenas os moderados que agora estão negociando com o governo de Bogotá, como deseja Fidel.

Mas tudo isso é passado. A questão que está pela frente, e que desde a segunda eleição de Lula monopoliza obsessivamente a sua atenção, é como projetar internacionalmente o poder desse novo Brasil; desse novo PT.
E para isso o modelo, hoje, indiscutivelmente, é a China.
Vista por essa ótica, passa imediatamente a fazer todo sentido a longa série de estranhos acontecimentos que desagua agora no fuzilamento publico do homem que, desde que passou a comandar a Vale, multiplicou por quase 17 vezes o seu valor.
Por que razão esses nossos antigos paladinos dos fracos e oprimidos vivem hoje abraçados aos superpoderosos empresários que, graças aos seus préstimos, galgam todos os anos novas colocações na lista dos bilionários da revista Forbes? O que explica que o único banco brasileiro de fomento ignore os milhares de empregadores brasileiros sem acesso a crédito e despeje dezenas de bilhões de dólares exclusivamente nos cofres das mega-empresas, as únicas no país que podem tomar dinheiro tanto no mercado aberto quanto em bancos nacionais ou estrangeiros? Porque um governo que diz agir em favor dos oprimidos trabalha furiosamente para criar monopólios que darão poderes absolutos a patrões contra trabalhadores com cada vez menos alternativa de empregadores? Porque focam essas operações em produtores de insumos primários em cima dos quais se estruturam todas as grandes cadeias produtivas da indústria nacional? Porque, depois de cooptar os homens mais ricos do país, tomam-nos pela mão e levam-nos ao exterior para fechar ainda mais os seus esquemas monopolísticos com recursos do Tesouro Nacional?
É a glória eterna dos Gerdau, dos Ermírio de Moraes, dos Batista, dos Joésios que este governo quer garantir?
Ou está-se juntando a fome de poder do PT com a vontade de comer dos “capitalistas de relacionamentos” de modo a reeditar os recorrentes consórcios de interesse entre o Estado e os interesses privados para controlar as torneiras dos insumos básicos onde todo o resto da economia nacional é obrigada a vir beber que sustentaram os esquemas de poder tanto de Getúlio Vargas quanto dos militares por quem Lula tantas vezes declarou admiração?
E com o crescente peso relativo da economia brasileira no cenário mundial, não é esse modus operandi, também, perfeitamente adequado para projetar internacionalmente o poder de um país de que o PT, do qual Lula se considera a encarnação viva, acredita ser “a vanguarda”.
O que, senão o desejo de usar como instrumento político o controle de gargalos nevrálgicos da economia mundial, como os de commodities minerais, petróleo e, especialmente, a produção e comercialização de proteína animal e vegetal, pode explicar o esforço ingente dos governos petistas de criar e se tornar sócio de grandes monopólios em operações onde não se leva em conta o mérito dos escolhidos ou dos preteridos no jogo de cooptação dos representantes do capital nem o interesse da massa dos brasileiros nos seus papéis de trabalhadores assalariados ou de consumidores?
A China, com a sua abordagem predatória do mercado por monopólios que somam o poder do Estado ao do capital anabolizados pelo esmagamento dos direitos dos trabalhadores que os servem, está pondo o mundo de joelhos e ameaçando o capitalismo democrático com a pura e simples supressão do seu habitat (que é o mercado livre de interferências espurias).
E o PT está louco para bancar uma parte desse jogo.

Google ataca. É o fim da Apple?
21 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário
Steve Jobs: fora de combate, de novo
Aproveitando-se da péssima repercussão entre os produtores de conteúdo do novo modelo de cobrança anunciado pela Apple na terça-feira passada (15/2), o CEO da Google, Eric Schmidt, anunciou, no dia seguinte, uma plataforma concorrente de venda em regime de dumping de conteúdos digitalizados e, neste fim de semana, no Mobile World Congress em Barcelona, um novo e revolucionário sistema de games que podem vir a ser o golpe de misericórdia na fantástica usina de gadgets e centro de criação de novos modelos de distribuição e consumo de musica, produtos editoriais, filmes e aplicativos para computador de Steve Jobs.
A Apple é totalmente dependente do gênio inovador e da elegância do design de Jobs, um espírito solitário e obsessivamente centralizador, que está mais uma vez fora de combate, derrubado pelo câncer que já lhe impôs um transplante de fígado e agora compromete o seu pâncreas.
Larry Page e Sergei Brim: tudo menos poesia
E se existe alguma coisa que o “admirável mundo novo” importou intacto do velho, foi a ganância dos poderosos e a ausência de poesia na competição entre as grandes corporações que eles montam para galgar as escadarias do poder: no momento crítico vivido pelo adversário a Google atacará por todos os flancos e com todas as armas que tem, aliada com dezenas de fabricantes de hardware e de software.
Foi Steve Jobs quem abriu o flanco. Comprou antipatias poderosas ao impor seu novo modelo de cobrança no momento em que as casas editoriais do mundo todo, estranguladas pela pirataria, viram uma tábua de salvação no seu iPad e se preparavam para “fechar” seus conteúdos ainda abertos na internet e passar a cobrar assinaturas. Como o caminho para os produtores de livros, jornais e revistas tem sido desenvolver aplicativos oferecidos gratuitamente no iPhone e no iPad que dão acesso aos seus produtos, Jobs decidiu virar a mesa.
Sucessos de Barcelona: LG Optimus 3D, grava vídeos em 3D que vão direto para o Youtube (Android)
De agora em diante, aplicativos que dão acesso a esses conteúdos não poderão ser distribuídos de graça em suas App’s stores e qualquer assinatura feita através deles pagará 30% para a Apple que, ainda por cima, continuará explorando os direitos sobre esses cadastros de assinantes. As editoras de jornais, livros e revistas têm a alternativa de vender o aplicativo que dá acesso ao seu produto em seu próprio site e ficar com 100% do que cobrarem pelas assinaturas. Mas se quiserem se oferecer também nas plataformas globais já estabelecidas de Steve Jobs, terão de dar ao assinante as mesmas condições ofertadas na sua própria banca e aceitar um corte de 30% no faturamento.
As condições são draconianas, portanto.
Tendo sido o inventor do novo modelo, Steve Jobs ainda conta com uma boa dianteira. Domina 66% do mercado de venda de musica online, via iTunes , o precursor desse novo filão que ele ainda explora praticamente sozinho. Atrás do iTunes veio o iPhone que, com velocidade fulminante, se transformou na maior plataforma universal de venda de aplicativos, e o iPad, que pretendia se transformar na maior banca de jornais e revistas do mundo e disputar com o Kindle, da Amazon, o título de maior livraria do planeta.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy S II, smartphone com duas webcams; voce vê quem fala ou vê o que ele vê (Android)
Mas este mundo em que pouco se cria e tudo (muito rapidamente) se copia, com a Google à frente, está nos seus calcanhares.
O novo sistema One Pass, baseado na nova geração da plataforma Android, que anima os celulares de todos os fabricantes do mundo que aderiram à Google para ocupar o mercado antes dominado pelo iPhone, mira a jugular da Apple: cobrará apenas 10% e deverá incluir, em breve, um aplicativo para venda de música que o tornará completo, uma vez que já é capaz de entregar filmes e texto. Além disso, a Google, ao contrário do que sempre fez até aqui, entregará todas as informações sobre os assinantes aos donos dos conteúdos vendidos. Esse novo sistema poderá rodar em celulares, tablets e computadores, indiferentemente, de todo e qualquer fabricante do planeta que quiser “motorizar” seus gadgets com ele. E eles são muitos e poderosos.
Sucessos de Barcelona: Sony Xperia Play; o “telefone Playstation”, nas lojas em abril (Android)
(No ultimo trimestre de 2010, foram vendidos 33,3 milhões de celulares com o sistema Android contra 31 milhões “motorizados” com o sistema Symbian, 16,2 milhões de iPhones, 14,6 milhões de Blackberrys (sistema RIM) e 3,1 milhões com o sistema da Microsoft).
Para matar a Apple, portanto, a Google abre mão do padrão de entregar “de graça” os conteúdos alheios, que ela sempre defendeu como sendo de fundamento “ideológico” e “libertário” aos que a acusavam de roubo de conteúdo. Não mais que de repente passa a reconhecer o direito de autoria e concede a quem produz musica ou matéria vender pelo seu sistema por módicos 10%…
Ha um consenso de que os 30% de Steve Jobs são demais. Mas isso pouco interessa à Google porque se a Apple tira, hoje, a maior parte do seu faturamento das comissōes sobre vendas de conteúdos de terceiros, a companhia de Serguei Brim e Larry Page vive de vender informações sobre os usuários da sua ferramenta de busca e dos sites de agregação de conteúdos alheios que monta, além de publicidade customizada em sites de terceiros. Não precisa da nova fonte de faturamento. E se for o caso, tem muuuuito dinheiro para perder…
Sucessos de Barcelona: Umeox Apollo, sem aplicações novas mas tocado a energia solar (Android)
Entretanto, perder dinheiro não é o que ela pretende fazer, a não ser pelo tempo necessário para ganhar muito mais logo adiante. A Google é odiada pelos produtores de conteúdos de informação que ela direta ou indiretamente pirateia. Mas vem trabalhando ha tempos os produtores de entretenimento e de hardware que tinham medo de se tornar reféns de Steve Jobs tendo se associado a alguns dos mais fortes entre eles (Sony, Intel, Best Buy e outros) em projetos de intenções matadoras. A Sony (gravadora) e a Rapsody anunciaram quase junto com o comunicado de Eric Schmidt movimentos de boicote contra o novo sistema de cobrança de Jobs. Na frente regulatória também não ha trégua e investigações por abuso de poder de mercado contra a Apple estão sendo tentadas junto às autoridades de concorrência europeias e americanas.
Com sua nova política de cobrança sobre os aplicativos, Jobs desastradamente também pisou no calo dos produtores de informação que o tinham como um aliado potencial. Como resultado, alguns grandes editores de jornais e revistas europeus (Axel Springer, na Alemanha, DMGT, na Inglaterra, Prisa, na Espanha) abriram a fila e anunciaram sua adesão ao sistema One Pass.
Sucessos de Barcelona: Sony Ericsson Live View, sincroniza com qualquer fone com Android; e-mails textos, aplicativos, etc.
A potencial pá de cal, entretanto, foi esboçada neste fim de semana em Barcelona, no Mobile World Congress do qual participaram 60 mil profissionais do setor de 200 países do mundo.
O evento foi inteiramente dominado pela Google que ocupou dois andares da exposição para apresentar a nova geração do sistema Android e, junto com seus sócios do mundo todo, os novos gadgets que ele vai animar.
O foco da exposição foi a integração dos telefones inteligentes, tablets e computadores às novas e revolucionárias capacitações para games que o novo sistema da Google vai proporcionar.
O setor de games é reconhecido como o grande laboratório de inovação das tecnologias de informática. Os aparelhos “motorizados” pelo Android terão, já a partir de abril próximo, a mesma capacidade de processamento e definição de games hoje oferecidas pelas melhores plataformas dedicadas exclusivamente aos jogos de computador como o Playstation 3 da Sony ou o Xbox 360, o que os levará muito além da capacidade hoje apresentada pelo iPhone e pelo iPad. O principal animador de jogos associado à Apple, a Gameloft, passou para o lado do Google e está lançando jogos em 3D para telefones e tablets no sistema do novo sócio.
Sucessos de Barcelona: HP WebOS; video-calls, 32 gigas e tudo que tem de ter (Android)
Mas isso é só o começo. O grande parceiro da Google no setor é a NVIDIA, que apresentou sua nova tecnologia de processamento Tegra 2, que acelerará a capacidade de telefones, tablets e computadores em 10 vezes, processará imagens, em qualquer deles, em HD de 1080 linhas e terá consumo ultra-baixo de energia capaz de oferecer 16 horas de filmes em HD ou 140 horas de música com uma unica carga.
A grande revolução, entretanto, é que o sistema promete “para o final do outono”: a possibilidade de jogos em plataformas múltiplas, em que os participantes poderão formar times para disputar uns com os outros a partir de qualquer lugar do mundo com conexão de internet. Imagine-se as possibilidades de uso de uma ferramenta com essa capacidade no mundo corporativo.
“Para 2014, o Tegra 2 evoluirá para um sistema 75 vezes mais rápido que o novo e oferecerá assinaturas para jogos em streaming video e conexão sem fio com qualquer aparelho de HDTV, sem necessidade de nenhum programa ou hardware adicional. Cada vez mais os consumidores usarão um único aparelho para tudo, incluindo games, multimídia, entretenimento e navegação na rede. E o Android está perfeitamente posicionado para esse momento”, diz Schmidt.
Com Steve Jobs com a saúde gravemente abalada o futuro da Apple não parece brilhante. Tim Cook, o segundo em comando, já tem falado, até com o endosso tácito de Jobs, em entrar no território da Google abrindo suas plataformas e programas para todo fabricante que quiser usá-los e aderindo a um sistema de desenvolvimento colaborativo. Resta saber se haverá tempo para uma mudança desse tipo.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy 10.1; Android 3.0, CPU dual-core, duas webcams, 32 gigas… (Android)
Por que Lula deu certo
20 de dezembro de 2010 § 4 Comentários

Dinheiro é Poder.
Existem empreendedores com múltiplas dimensões e existem os que usam a capacidade de empreender exclusivamente para fazer muito dinheiro. Para estes, empreender é, antes de mais nada, o caminho alternativo ao da política para conquistar Poder.
“Porque fulano, já tão rico, continua se matando de trabalhar? Nem tem tempo de gastar o dinheiro que amealhou?” Para aqueles que se deixam atrair por outras dimensões da vida, dinheiro é só um meio de alcança-las. Mas ha os que vivem para o Poder. E Poder nunca é suficiente.
Nada se parece mais com uma ditadura de partido único que a organização de uma grande corporação:
- em ambas todo o poder emana de um “comitê central”;
- não existe nenhuma instância de moderação ou divisão desse poder (e isso é tanto mais verdadeiro quanto mais fraca é a legislação de proteção dos acionistas minoritários);

- a economia é absolutamente planejada, sem nenhuma obrigação de transparência;
- não ha um “Quarto Poder” (imprensa), direito de associação ou liberdade de expressão;
- não existe nada que se pareça com um júri ou com a figura da presunção da inocência até prova em contrário;
- a menor resistência a qualquer ordem emanada do “comitê central” implica em exílio imediato;
- todos têm os seus movimentos permanentemente medidos e monitorados; as comunicações eletrônicas entre funcionários são frequentemente fiscalizadas e em muitas empresas até os relacionamentos amorosos entre empregados são proibidos;
- quem tenta organizar grupos de oposição, como sindicatos, passa a ser vigiado, é banido ou incluído numa lista negra;
- os “governantes” manipulam somas gigantescas, maiores que os produtos nacionais da maioria dos países;
- quanto mais o poder se concentra em grandes monopólios setoriais mais a força desses “comitês centrais” vaza para a sociedade como um todo através da corrupção governamental que eles fomentam, da sua influencia sobre os legisladores e da manipulação que exercem sobre o Poder Judiciário;
- a corrupção desses “governantes” superpoderosos (da empresa para dentro, a favor de si mesmos e contra os interesses dos acionistas) também é proporcional à falta de elementos moderadores dentro do sistema.

A tendência no mundo que o capitalismo de Estado chinês está moldando é, nitidamente, a de que o poder político seja cada vez mais compartilhado entre os agentes dos governos eleitos e os chefões das grandes corporações, restando ao Estado apenas o monopólio da força.
No Brasil não é diferente.
Lula e os super empresários que ele atraiu para a sua orbita – e que se deixaram docemente constranger para ela – são as duas faces de uma mesma moeda. Perseguem, por caminhos diferentes, o mesmo objetivo. E são idênticos na precisão com que são capazes de focá-lo, assim como na persistência e no pragmatismo muitas vezes extremo com que obsessivamente o perseguem.
Conhecem-se desde sempre. Entendem a lógica um do outro. Lula, na verdade, aprendeu com eles na mais refinada das escolas: a da negociação pela repartição dos resultados produzidos pelas maiores empresas do mundo que, nos seus tempos de sindicalista nos anos 70 e 80, eram as multinacionais automobilísticas.
Nem eles nem ele jamais pretenderam mudar as regras do jogo. Mas distinguiram-se sempre, cada um no seu lado do campo, por aprender melhor e mais rápido que os outros a tirar vantagem delas, especialmente das suas falhas.

A social democracia, sim, faz restrições morais e ideológicas à manifestação da força, mesmo quando decorrente do mérito. Preocupa-se precipuamente, junto com as demais correntes democráticas, com a legitimização e a moderação do Poder político. Nascida na academia, sem experiência vivida na seara áspera dos números e na permanente urgência das pressões que cercam o ato de produzir bens materiais, tem o seu foco no devir, no aperfeiçoamento das regras do jogo para fazê-las servir ao engrandecimento do individuo, referencia de todas as coisas.
É aí que ela se afasta da esquerda radical que, ao eleger “o coletivo”, cuja única encarnação possível é o Estado, e o igualitarismo a qualquer custo como valores supremos, escorrega inevitavelmente para a intolerância, a centralização do Poder e a anulação do indivíduo.
Era esta a equação do século 20. A esquerda radical, aquartelada no PT, cooptou Lula, que nunca foi ideológico, porque viu nele, acertadamente, o seu passaporte para o Poder num ambiente que explicitamente a rejeitava (e continua rejeitando). A zebra se deu no fato de que foi Lula quem catequizou o PT e não o contrário, como esperavam os seus ideólogos.

No poder (1995 a 2003), a social democracia limpou o entulho autoritário, reduziu drasticamente o território de caça privativo dos predadores da corrupção inerente ao Estado e cercou o Poder de instituições moderadoras. Mas, no seu desconhecimento de causa, errou feio a mão na carga de impostos que imaginou que a produção seria capaz de suportar. A forte turbulência da virada do milênio fez o que faltava para diminuir a sua colheita.
A “Carta aos Brasileiros”, para além dos discursos de palanque, foi o tributo de Lula à obra de FHC. E a resposta à crise de 2007 com a mais pura e “reaganiana” supply-side economics (forte redução de impostos, ainda que setorial, relaxamento da regulamentação e farta irrigação de crédito sobre o consumo, com ênfase nas camadas mais pobres da população) nos falam da longa experiência vivida de Lula no centro do grande capitalismo multinacional de seus tempos de sindicalista, ausente entre nossos social democratas.
A fome por commodities da China fez o resto.
E isso reforçou a confusão ideológica em que vivemos: o nosso “partido comunista” é que parece estar entrando para a Historia como o grande artífice do capitalismo brasileiro…
Mas o que assistimos até agora foi apenas o trailler de um filme que está só começando.

Para quem nunca provou de fato dessa sopa; para quem se formou e viveu no ambiente polarizado do século 20, “capitalismo” era, pura e simplesmente, a antítese do comunismo, quase um sinônimo de democracia.
A China invadiu o mercado pela porta dos fundos, esmagando nuances, para nos lembrar que não é assim.
Os americanos, que sentiram o gosto amargo dos monopólios ha mais de 100 anos quando os robber barons, unidos, tentaram submeter os consumidores acabando com a concorrência, aprenderam a duras penas que eles são incompatíveis com a democracia. Por isso sempre distinguiram capitalismo democrático de capitalismo selvagem. E cuidaram zelosamente de trancar essa fera na cela da legislação antitruste, que será lembrada pelos historiadores do futuro como a mais refinada obra da democracia ocidental, ora em processo de desmontagem.
O capitalismo de Estado chinês – onde o patrão único de uma constelação de monopólios ainda trata reivindicações trabalhistas com tiros na nuca – anabolizado pela digitalização da vida econômica num mundo onde tudo se copia e tudo se distribui, sem barreiras possíveis, para um mercado globalizado, pôs o monstro de volta nas ruas.

Educação e capacidade de inventar já não são fatores decisivos de sucesso. O custo – que, em ultima análise, é a quantidade de dignidade humana preservada no ato de produzir – é a única arma que decide hoje quem ganha e quem perde a competição econômica.
Como os Estados Unidos de 100 anos atrás, o mundo foi empurrado pela China para a voragem das fusões e aquisições que, em 20 anos, criou os maiores níveis de concentração de riqueza já registrado nas democracias ocidentais (e fora delas).
A perspectiva não é brilhante.
As ditaduras se profissionalizaram. Operam hoje segundo as “melhores práticas de governança corporativa”. Se a incapacidade de criar riqueza foi o que realmente derrubou as ditaduras do século 20, a novidade da ditadura próspera, introduzida pela China, será o mais duro teste do amor do homem pela Liberdade que a história produziu até hoje.
Lula, com sua legendaria intuição e seu proverbial desprezo pelas virtudes “burguesas”, entendeu perfeitamente o recado. Esta formando, com a plêiade dos eleitos do BNDES, o time que vai jogar com ele o grande jogo mundial dos monopólios, onde esses cacos da velha política a quem ele ainda atira pedacinhos do Estado terão papel menos que coadjuvante, apenas enquanto forem necessários.

Foda-se o Ceará!
12 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Os excelentíssimos leitores me perdoem o calão. Mas é que se tem uma coisa que me irrita é desonestidade intelectual.
Esse jogo de empurra que está sendo reeditado mais uma vez lá em Seul é um caso típico. Todo mundo apedrejando os americanos porque eles, afinal, recorreram à única saída que os apedrejadores lhes deixaram que é a de inundar o mundo com dólares.
Agora vem o “nosso guia” repetir a velha conversa de substituir o dólar como padrão monetário por uma “cesta de moedas”…
Mas a verdade dos fatos é a seguinte. Não existe nenhuma lei determinando que o dólar seja a moeda de referencia do resto do mundo. Isso não responde a nenhum tipo de imposição do “Império” preferido do coronel Chávez. O resto do mundo, cidadão por cidadão, poupador por poupador, é que espontaneamente adotou o dólar como referencia para fugir dos seus “chavez” particulares porque até ha bem pouco tempo, o dólar era a única moeda do planeta regida por normas técnicas, independentes da luta pelo poder dentro dos Estados Unidos e com uma garantia de conversibilidade em que todo mundo acredita. E, sendo assim, era a única que oferecia a quem a detivesse algum grau de segurança e previsibilidade quanto ao seu valor futuro.

A presente inundação monetária é uma obvia conseqüência da inflexibilidade com que a ditadura chinesa manipula a sua moeda. Não é que imprimir uma montanha de dólares vá resolver diretamente o problema deles. A expectativa que os americanos alimentam é que isso ajude a inverter o sentido da pressão internacional para a direção correta.
A solução mesmo seria todos os demais países se unirem à pressão contra a China, até pelo fato dela estar fazendo com eles a mesma coisa que faz com os Estados Unidos: uma implacável ação de dumping em uma escala que só pode se sustentar em razão do fato deles tratarem questões trabalhistas e outros tipos de reivindicações “cidadãs” com tiros na nuca (10 mil por ano) e ninguém dar a menor pelota pra esse “detalhe” na hora de negociar com eles.
Agora, se todos os anti-americanos do mundo preferem ser sodomizados em silêncio só para continuarem soberanamente negando apoio aos Estados Unidos, paciência.
Foda-se o Ceará!

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