Roendo os pilares da democracia
7 de novembro de 2011 § Deixe um comentário
Agora é oficial: a reunião de cúpula do G-20 aprovou, em Cannes, a lista dos 29 bancos globais “grandes demais para quebrar”, iniciativa que será replicada em países como o Brasil e outros emergentes em negociações marcadas para começar no primeiro trimestre de 2012.
A intenção parece boa à primeira vista. Trata-se de reforçar as obrigações desses bancos para que, “em caso de turbulências, eles não precisem ser socorridos pelos governos de novo“. Os bancos que já estão na primeira lista – 8 dos Estados Unidos, os dois grandes da Suíça, 15 da União Europeia, três japoneses e um chinês – terão de aumentar seu capital numa proporção variando entre 1 e 2,5% dos seus ativos, acima do aumento já definido para todos de 7% até 2019 se, até lá, todos estivermos vivos.
O conceito fundamental da democracia é o da responsabilidade individual.
Num mundo que sempre foi marcado pela desigualdade econômica outorgada pelos donos do poder político a quem se dispõe a ajuda-los a mante-lo nas mãos, a revolução democrática estabeleceu que só o merecimento, conquistado pelo esforço individual, poderia legitimar a riqueza. E que, para tanto, era necessário separar a economia do Estado, cuja principal função passaria a ser, não mais a de principal agente econômico do sistema, mas a de normatizar e fiscalizar o poder econômico colocando-se à margem dele.
Num segundo momento, quando o aperfeiçoamento das técnicas de gestão corporativa levaram a um crescimento tal do poder econômico que ele passou a submeter o poder político (na virada do século 19 para o 20 nos Estados Unidos), a democracia americana houve por bem estabelecer limites até para a acumulação de riqueza por merecimento, criando a legislação antitruste que obrigava à divisão das propriedades que crescessem além do limite que as dispensasse dos rigores da competição que, quanto mais acirrada, em maiores benefícios resulta para a massa dos consumidores e dos assalariados.
O conceito da empresa “grande demais para quebrar” surge no contexto da competição desigual entre as empresas com crescimento limitado por lei do capitalismo democrático e os monopólios do capitalismo de estado chinês depois que as tecnologias da informação tornaram o trabalho exportável e o mercado consumidor planetário.
Foi um expediente de emergência do governo dos Estados Unidos para evitar que a crise financeira de 2008, ela própria consequência dos paliativos políticos que, há décadas, vinham sendo aplicados para compensar a perda de poder de competição dos produtos americanos em relação aos chineses, se tornasse politicamente incontrolável.
O despejo de centenas de bilhões de dólares do governo em empresas privadas falidas criou o escândalo e a comoção que criou nos Estados Unidos justamente porque fere o conceito fundamental da democracia. Se o mérito legitima a diferença para cima, a responsabilidade pelo fracasso deve ser integralmente assumida por quem foi responsável por ele.
Consagrar institucionalmente o conceito do “grande demais para quebrar” coloca o processo numa direção sem retorno. Não ha lei escrita no papel que faça mais para estimular a prudência e o zelo do banqueiro pelo dinheiro que não é dele do que a perspectiva de ficar na miséria se ele o tratar mal.
O “grande demais para quebrar” estabelece um elo formal entre empresas privadas e governos. E, como já se viu nesta crise (GM e outras também foram socorridas) não são só os bancos que criam “riscos sistêmicos” capazes de justificar socorros de emergência, seja em nome do exorcismo ao contágio financeiro, seja no da prevenção do desemprego em massa e da instabilidade social e política.
Ha 100 anos, para prevenir o mesmo tipo de ameaça, a democracia americana legislou “pró mercado”, tomando a medida mais clara, límpida e lógica: estabeleceu que nenhuma empresa poderia ficar grande o suficiente para se tornar “grande demais para quebrar”. A partir de um determinado limite, era obrigatório dividir essa propriedade fazendo de um monstro ameaçador dois ou mais competidores regulando-se mutuamente em benefício do consumidor.
Um século mais tarde, barrada essa alternativa em função da outra metade do mundo entrar na disputa com monopólios sustentados pelos tesouros nacionais, foram obrigados ao remendo de uma legislação “pró business” como eles dizem lá, mas que seria mais adequadamente chamada de legislação “pró corporações” que, sejam quais forem os eufemismos empregados, cria uma categoria de empresários e negociantes que não responde com o próprio bolso pelos seus erros, ou seja, uma classe de cidadãos que está acima da lei que vale para todos os outros.
E o pior é que estatizar os bancos para eliminar esse privilégio seria pior emenda que o soneto. Algo como a revolução francesa que decapitou reis para criar imperadores.
É contra isso que berram o Tea Party por um lado e o Occupy Wall Street por outro.
Como já disse em outro artigo, não ha alternativa. Ou é o mérito ou é o Estado quem distribui vitórias e derrotas na economia. Quando é o mérito, educação e dedicação no trabalho são os fatores decisivos de sucesso. Quando é o Estado…
Um dulcíssimo Pão de Açúcar
28 de junho de 2011 § 2 Comentários

E você que ficou com um ponto de interrogação na cabeça quando, lá atrás, o Abílio Diniz declarou voto no Lula, o cara que patrocinou a libertação dos sequestradores dele (se é que foi só isso).
Tolinho…
Amigos, amigos, negócios aparte, já ensinava don Vito Corleone quando foi se compor com os caras que mataram seu filho e quase acabaram com ele próprio.
Aqui falamos do rei e dos seus barões, que se levantam meio donos do mundo depois que se ajoelham para o toque da espada de ouro do BNDES.
Quem vai puxar o tapete de quem, lá na frente, quando o povo estiver “por aqui” dos monopólios que estão sendo criados agora é outra história. Mas aí o Abílio pega um dos seus jatos transoceânicos e vai morar em costas mais civilizadas porque ele é mais é cidadão do mundo e pensar Brasil é pensar pequenininho…

A jogada, como sempre, é simples e transparente.
Em 2006 o grupo francês Casino, concorrente do Carrefour, comprou do dr. Abílio a opção, a ser exercida em 2012, de se tornar majoritário na sociedade 50% x 50% que eles tinham acabado de compor. Pensou que, com isso, tinha posto de lado o concorrente e podia deixar de acordar à noite pensando que ele fosse se unir, um dia, ao Pão de Açúcar para expulsá-lo do mercado.
Pelo jeitão da coisa, coitados, determinaram o Brasil como corte para exigir esse acordo. Mas, seja como for, o dr. Abílio já deu a volta pela lateral. O BTG Pactual, outro daqueles tubarões do mercado financeiro que não tem amigos nem inimigos quando se trata de negócios, foi chamado a constituir uma empresa, a Gama, para fazer no lugar do Pão de Açúcar a oferta que o Pão de Açúcar quer fazer ao Carrefour. Pelo que se sabe até o momento, parece que eles entram com 300 milhões e o BNDES com 1,7 bilhão (e mais 500 milhões de euros de “empréstimo” à firma que nascerá desse “investimento”). O dr. Abílio não se sabe exatamente com quanto entra. Mas a Gama fica com 17,7% do Novo Pão de Açúcar (aquele que vem com o Carrefour na barriga) por “serviços prestados”.

Laranja como se dizia antigamente…
O BNDES, por essa mesma estranha matemática, fica com 18%.
De quê?
O NPA nasce com 1200 lojas em 178 municípios brasileiros e mais 67 centros de distribuição em todo o território nacional, com 216 mil funcionários (grande demais para quebrar) e um faturamento previsto de 52 bilhões de euros por ano.
Negócio da China! Meeesmo: da inspiração à realização…
O Grupo Casino, coitado, está na rua gritando “ladrão”. Mas o governo Lula, sócio do acusado, também é patrão do judiciário, aquele cuja instância máxima, ainda outro dia, abriu mão de dar a última palavra nos casos que interessem especialmente sua majestade como este ultimo envolvendo um assassino italiano que caiu nas graças dela.

O Cade, coitado, não foi palpado nem cheirado sobre esta operação que deixa os consumidores brasileiros nas mãos de um monstro que, depois deste salto, não terá nenhuma dificuldade para engolir o resto dos peixinhos que sobrarem por aí.
O Cade nem sequer julgou ainda as ultimas deglutições do Pão de Açúcar (Casas Bahia e Ponto Frio)…
Quanto ao BNDES que, como a Petrobrás, “é nosso”, agiu com a discrição que se exige em governos que contemplam em voz alta ideias como o sigilo eterno sobre seus atos. Emitiu um “curto comunicado” em que confirma sua participação na transação, que “está seguindo os trâmites habituais”, que são incertos e não sabidos, havendo fortes indícios de que se apoiem apenas e tão somente nas manifestações de vontade emanadas da garganta do “nosso líder”.
Dos bancos aos açougues o processo é sempre o mesmo. Todos os produtores de insumos e serviços básicos da economia brasileira estão monopolizados por sócios do BNDES com os quais o nosso líder não se vexa de exibir sua intimidade, conseguindo-lhes negócios da China em outras monarquias hereditárias da sua zona de influência pelo mundo afora, que visita na companhia de seus barões e nos aviões de seus barões que, em caso de necessidade, lhe pagam extras por palavra proferida.
Mas e o consumidor brasileiro? O pequeno produtor? O empregado com cada vez menos opções de patrão? Não têm medo de ficar nas mãos de tão poucos? Não estão vendo para onde tudo isso aponta?
Estão, claro. Mas pelo momento caminham festivamente para o abismo a bordo de carros próprios (financiados pelo BNDES), com roupinhas de grife (financiadas pelo BNDES), de barriga cheia e tomando uma cervejinha.
O que mais?!
Estão tão felizes quanto os barões.
Depois, vê-se…
Artigo relacionado: \”Empresários: compre um, leve centenas\

A democracia sobrevive à festa dos milionários? Façam suas apostas…
2 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Materinha do Wall Street Journal de terça-feira dá um retrato bem preciso da tradução prática do fim da legislação antitruste a que os Estados Unidos (e não só eles) foram obrigados desde que os grandes monopólios operados pelo capitalismo de Estado chinês entraram em cena com a sua operação global de dumping, que está forçando o mundo inteiro a participar de uma insana corrida de consolidações em todos os setores mais importantes da economia, sob o pretexto de ganhar a economia de escala sem a qual é impossível competir com eles.
A matéria corria assim:
“O ano passado foi mais um grande ano para os milionários, embora o ritmo do crescimento do numero deles tenha diminuído um pouco.
De acordo com uma nova pesquisa do Boston Consulting Group publicada segunda-feira o numero de milionários no mundo aumentou 12,2% em 2010, alcançando um total de 12,5 milhões. (O BCG define como milionário quem tem US$ 1 milhão ou mais em dinheiro disponível para investimento, descontadas casas, bens de luxo ou participações em empresas próprias).
Os Estados Unidos continuam sendo os primeiros do mundo em numero de milionários, com 5,2 milhões deles, seguidos pelo Japão com 1,5 milhão, a China com 1,1 milhão e a Inglaterra com 570 mil. Singapura é o país que tem a maior “densidade” de milionários, com 15,5% de sua população dentro dessa categoria.

A tendência mais importante que esses números revelam diz respeito à distribuição global das riquezas. Os milionários representam 0,9% da população mundial mas controlam 39% das riquezas do mundo (eram só 37% um ano antes). Eles detêm, hoje, US$ 47,4 trilhões em dinheiro livre para investimento, numero que, em 2009, era US$ 41,8 trilhões.
Os que estão mais altos na pirâmide dos milionários foram os que mais ganharam. Os que têm US$ 5 milhões ou mais, que representam 0,1% da população do planeta, detêm 22% de toda a riqueza mundial, numero que subiu de 20% em 2009.
Nos Estados Unidos, os milionários controlam 29% da riqueza nacional. No Oriente Médio e na África, essa proporção gira em torno de 38%. E como nos Estados Unidos ha um numero muito maior de milionários do que nessas regiões, a riqueza, embora muito concentrada, está mais espalhada entre eles.
Mas por qualquer ângulo que se olhe para os números levantados pelo BCG, eles confirmam uma tendência que não se altera ha anos: a ascensão global da economia em que o vencedor leva tudo”.

A alegação, como ficou dito acima, é que sem economia de escala é impossível enfrentar a competição chinesa. E é uma afirmação verdadeira. A má notícia é que isso não é suficiente. Mesmo com a crescente monopolização de todas as economias nacionais e a opressão da massa dos consumidores que isso implica, continua sendo impossível competir com os monopólios chineses que, por cima da economia de escala, têm a imbatível vantagem de pagar salários esquálidos para trabalhadores que ainda não se revoltam contra isso porque até pouco antes, recebiam salários de fome ou simplesmente trabalhavam como escravos para o Estado.
Esta é a razão pela qual ao fim de décadas a fio de recordes sucessivos no numero de operações de fusão e aquisição de empresas que antes concorriam entre si (merges and aquisitions), fenomeno que desencadeou um processo de elefantíase no setor financeiro de todas as economias do mundo (são eles que operam essas fusões ganhando fortunas a cada passo em cima de produção zero de novos bens reais) os monopólios que daí resultam acabam requerendo, ainda, monstruosos aportes de dinheiro publico para não irem à rasca diante do dumping praticado por seus concorrentes chineses na disputa pelos mercados globais.
Consumidores e assalariados estão, portanto, num jogo de perde-perde, determinado por aquela insolúvel sinuca que o vulgo brasileiro descreve com perfeição no dito “se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.
Onde antes havia centenas de empresas empregando trabalhadores, hoje ha uma, duas ou no máximo três gigantes que, por empregarem uma massa de dezenas de milhares de trabalhadores antes distribuídos entre dezenas de concorrentes, tornam-se “grandes demais para quebrar”, sob pena de, se isso acontecer, precipitarem crises sociais que nenhum governo que dependa de eleições tem condiçōes de assimilar.

Ou seja: sob o chapéu de “trabalhador”, você fica na mão de um único empregador, com força suficiente para arrochar o seu salario o quanto achar necessário ou conveniente, porque você não terá outra alternativa de emprego; sob o chapéu de “consumidor”, você fica na mão de um único fabricante ou distribuidor daquele bem, que pode subir seu preço quanto achar necessário ou conveniente porque não terá competidores para limitar sua ganância; e sob o “chapéu” de pequeno produtor de bens intermediários ou matérias primas para esses gigantes, você ficará nas mãos de um único comprador ou distribuidor, que poderá jogar sua oferta lá para perto do chão porque você não tem para quem mais oferecer o seu produto.
Com a crescente insatisfação e desespero que isso causa, as sociedades nacionais se dividem e conflagram na busca de “culpados”, procurando-os sempre em quem está perto, o que faz a festa dos demagogos que, graças a isso, encontram mais e mais espaço na política. E enquanto todos se chutam uns aos outros acusando-se mutuamente de exploradores ou de cumplices dos exploradores, a China, em quem ninguém ousa tocar porque, mesmo sendo o foco original de todo esse desarranjo, é um cliente grande demais para que possa ser retaliado, segue nadando de braçadas.
Olhando-se para o futuro, ha duas hipóteses: ou esse quadro melhora porque os chineses conseguirão se organizar e ter força para fazer suas reivindicações valerem contra o partido único que os mantem sob férreo controle, até receberem salários competitivos com os dos trabalhadores do lado do mundo onde ha quase dois séculos se vêm acumulando conquistas trabalhistas, ou o rebaixamento geral dos salários para aproximá-los dos padrões chineses, a concentração extrema da riqueza, a corrupção que disso decorre e a crescente simbiose entre governos e super empresários acaba transformando o mundo inteiro em algo parecido com o que a China é hoje, do ponto de vista político.
Façam suas apostas.

“Nós sabemos quem voce é; nós sabemos o que você faz”
25 de abril de 2011 § 2 Comentários
Quando os lobos e os leões tentam devorar um ao outro sempre sobra alguma coisa de útil para os cordeiros aqui de fora que deixam temporariamente de ser o menu.
A briga entre Rupert Murdoch, o rei da old mídia, com Steve Jobs e a dupla de canídeos que criou a Google, os reis da new mídia, é um desses casos: acaba por revelar antecipadamente ao menos com que tipo de tempero eles pretendem nos devorar na próxima rodada do banquete.
O Wall Street Journal, que Murdoch tragou em 2007, tem, de fato, feito o melhor trabalho jornalístico da praça para desvendar aquilo que os alquimistas dos telefones inteligentes prefeririam manter escondido. Foi esse jornal que revelou ha cerca de seis meses, em matéria impecavelmente apurada e espetacularmente detalhada, como os sites todos por onde navegamos, inclusive o do próprio WSJ (coisa de que seus jornalistas até então não sabiam e denunciaram junto com os demais investigados), plantam, cada um deles, dezenas, às vezes centenas de programas espiões nos nossos computadores que, daí por diante, relatam-lhes o que fazemos internet afora. E revelou também como os fabricantes, os provedores de internet, os fornecedores de aplicativos e outros dividiam entre si o dinheiro que amealham armando e vendendo o produto dessas emboscadas cibernéticas de que todos somos vitimas, na maioria das vezes sem sabermos.

Na semana passada o WSJ fechou o foco em novas e bombásticas revelações. Ele mostrou que tanto a Google (que “motoriza” celulares de diversos fabricantes com o seu sistema Android) quanto a Apple com seus iPhones e outros gadgets animados pelo sistema iOS, monitoram até os deslocamentos físicos dos portadores de seus telefones. Informações cruzadas contendo marcações de GPS, de distancia de torres de conexão e informações sobre as chamadas que você faz colhidas “a cada poucos segundos” são remetidas para a Google “diversas vezes por hora”. A Apple já tinha sido flagrada fazendo a mesma coisa e, no ano passado, intimada pelo Congresso dos Estados Unidos, admitiu que essas informações eram remetidas para a sua central “duas vezes por dia”.
As duas empresas alegaram em sua defesa que essas informações eram “anonimizadas” e serviam para prestar melhores serviços aos usuários, que podiam, se quisessem, desligar os serviços de localização (que vinham ligados de fábrica, o que vai contra o principio do opt-in, ou de autorizar as invasões).
O WSJ, porém, contratou agencias especializadas em segurança de comunicações e provou que isso era mentira (aqui): os telefones seguiam captando e enviando informações sobre localização às centrais mesmo depois que os dispositivos tinham sido desligados pelos usuários, e as informações são relacionadas a um numero IP exclusivo de cada telefone que pode ser ligado ao seu dono.

Na sexta-feira santa, alguns dias depois da denuncia, a Google concordou em falar ao jornal e deu desculpas esfarrapadas. A Apple nem isso. Consentiu calando-se.
Hoje o jornal publica extensa matéria (aqui) revelando diversas “experiências cientificas” que vêm sendo levadas a cabo por renomadas instituições europeias e americanas com base no monitoramento dos movimentos de voluntários com a ajuda dos seus celulares, e os detalhes são de arrepiar.
“Nunca houve um aparelho tão pessoal quanto um celular, que o usuário carrega por toda parte onde anda e usa para quase tudo que faz. Nunca houve antes uma oportunidade tão completa de acompanhar tão minuciosamente o que alguém faz”. E isso explica a curiosidade dos cientistas que vem de encontro ao interesse dos fabricantes dessas máquinas.
Uma experiência do Massachusetts Institute of Technologies (MIT) que monitorou 60 famílias vivendo em seu campus durante dois anos concluiu que cada indivíduo tem uma rede particular de “influenciadores” capazes de faze-los mudar de ideia sobre consumo e até sobre política em direções que se tornam previsíveis com margens de acerto superiores a 87% baseado apenas nos seus deslocamentos e na frequência com que essas pessoas entram em contato umas com as outras.
A experiência foi reconfirmada com precisão ainda maior quando foram acoplados aos telefones monitorados equipamentos capazes de reconhecer outros telefones de participantes que se aproximassem a menos de 4 metros, o que caracterizaria um encontro “cara a cara” entre seus donos.

As principais companhias telefônicas já estão usando essa tecnologia (um programa de computador capaz de interpretar essas informações cruzadas foi desenvolvido em cima da experiência) para enviar propaganda especialmente dirigida para clientes que começam a fazer muito contato com outros usuários identificados como capazes de influenciar a troca de companhia telefônica.
Cruzadas com outras informações sobre relações pessoais, estados de humor, saúde, gastos e hábitos em geral, fornecidos voluntariamente pelos pesquisados, mais os seus movimentos e a analise das variações dos seus contatos telefônico, uma experiência de Harvard desenvolveu modelos de “contagio” de ideias, doenças e modas e a velocidade de sua dispersão com altíssimo grau de acerto.
O estudo mostrou, também, que um terço dos pesquisados mudou de ideia a respeito de seus votos nos três meses que antecederam a eleição, e que é possível prever a direção dessa mudança monitorando a frequência dos contatos telefônicos e, principalmente, pessoais, entre indivíduos com diferentes pontos de vista políticos previamente conhecidos.

Outra experiência conduzida sobre o Twitter, com base em incidência de palavras em mensagens trocadas entre grupos específicos, conseguiu antecipar movimentos do Indice Dow Jones da bolsa de valores americana com até seis dias de antecedência com 87,6% de acerto.
Na Europa, pesquisa envolvendo 100 mil usuários avaliando posicionamento, contatos telefônicos, duração e data desses contatos levou à capacidade de prever deslocamentos futuros dos usuários com 93,6% de acerto.
Malte Spitz, um deputado do Partido Verde alemão, exigiu da Deutsche Telekom que abrisse todas as informações que detinha sobre ele. Num período de seis meses, sua localização tinha sido registrada mais de 35 mil vezes. Cruzando esses dados com registros jornalísticos de suas andanças, o site de jornalismo Zeit Online conseguiu reconstituir minuciosamente todos os seus passos naquele período.

As telefônicas europeias descobriram também que uma pessoa fica cinco vezes mais propensa a mudar de companhia telefônica se algum de seus amigos chegados tiverem feito isso antes dele. E passaram a enviar propaganda seletiva a seus clientes com base nesse tipo de informação.
Por enquanto, até onde sabemos, esse tipo de experiência tem em foco encontrar meios de chegar mais facilmente ao seu dinheiro. Mas, obviamente, os usos “civis” não são os únicos que se pode dar a tais ferramentas, assim como cientistas pagos por empresas em princípio pacíficas não são os únicos que estão levando a cabo esse tipo de pesquisa.
Dinheiro, política e guerra são diferentes gradações do tamanho da sede com que se vai ao mesmo bom e velho pote do Poder. E tudo que é inventado para uma forma de mitigar essa sede, pode, facilmente, ser adaptado para as outras.
O que a História comprova, no final das contas, é que a única condição para que uma nova arma venha a ser usada em todas as versões disponíveis pela velha humanidade de sempre é ela ter sido inventada.

Empresários: compre um, leve centenas
7 de abril de 2011 § 4 Comentários

Agora existe uma prova científica!
Também no Brasil monopólio faz mal pra todo mundo, menos pro dono do monopólio.
Não é que se tenha descoberto nada que o resto da humanidade já não tivesse aprendido, quase sempre no hard way. Mas como nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados as informações chegam com grande atraso, sempre vale alguma coisa reafirmar velhas verdades.
Este momento em que, na sequência da criação de uma já bastante ampla constelação de monopólios estratégicos para o funcionamento de toda a economia brasileira de que se vem cercando, o PT lança os seus tentáculos sobre a Vale é, aliás, dos mais oportunos para se voltar a esse assunto.
A medida dos prejuízos mencionados foi tomada pelos professores de direito da FGV do Rio de Janeiro, Antônio José Maristrello e Rafaela Nogueira em trabalho executado para o Centro de Pesquisa em Direito Econômico (CPDE), e o objeto de seu estudo foi a cadeia de produção e vendas do frigorífico JBS, uma das empresas privadas que o BNDES lulista, em função de critérios estritamente arbitrários, municiou com enormes quantidades de dinheiro publico a fundo perdido para que se tornasse hegemônica no setor em que opera comprando todos os seus concorrentes no Brasil e, se possível, também no exterior.
O resultado, agora cientificamente medido pelo CPDE, foi que os produtores de carne passaram a ganhar menos, os consumidores de carne passaram a pagar mais e os donos da JBS passaram a ter muito mais lucro por cada quilo de carne intermediado entre produtores de bois e consumidores de bifes no Brasil e em boa parte do mundo.
O óbvio ululante, enfim.

Mas porque diabos um governo que, teoricamente, age em nosso nome, haveria de usar o nosso próprio dinheiro para nos enfiar nessa armadilha?
A sugestão, que nunca chegou a ser definida formalmente, é de que isso seria uma das ações tomadas visando transformar em “marolinha” o tsunami financeiro de 2008.
“Qualquer forma de política industrial”, lembram porém os dois professores no artigo para O Estado de S. Paulo em que relatam o resultado de sua pesquisa, “deve ser dirigido a ganhos da sociedade. E a discussão sobre quem deve ser o escolhido para receber os incentivos deveria passar por critérios claros e transparentes e ser objeto de maior controle democrático”.
No caso em tela não acontece nem uma coisa nem outra. Tudo se parece menos com uma verdadeira política industrial que com mais um dos expedientes petistas para “fazer amigos e influenciar pessoas”.
A “sociedade”, representada por produtores e consumidores, perde dinheiro, perde liberdade de escolha, perde liberdade de emprego.
E o que orienta as escolhas do BNDES é tudo menos o mérito do contemplado, o unico critério eticamente justificado de legitimação da riqueza. Frequentemente, ao contrário, a operação começa quando eles fracassam.
Também não existe nenhum controle democrático sobre a distribuição desses bilhões. O Executivo (PT) decide arbitrariamente quem receberá a graça de comprar seus concorrentes com dinheiro publico sem nenhuma consulta ao distinto público ou participação dos demais poderes da Republica.
O felizardo, naturalmente, ficará eternamente empenhado pela graça recebida. E sua gratidão vai materializar-se, desde logo, na hora de financiar campanhas eleitorais. Mas este é o menor dos frutos que o partido colhe com essa estratégia.

O BNDES do PT torna-se sócio para sempre dos monopólios que cria. E tem escolhido invariavelmente produtores de insumos indispensáveis a extensas cadeias de produção que ficarão dependentes dos seus fornecimentos.
Ou seja, comprando um único empresário disposto a se vender leva de troco centenas de outros que, resguardando ou não a própria dignidade, prezando ou não a própria liberdade, também ficarão à sua mercê.
Junto com eles entram para a condição de dependentes do novo gigante da praça todos os consumidores dos seus produtos, agora nas mãos de um único vendedor; todos os trabalhadores especializados nesse setor, agora reduzidos a uma única opção de empregador; e todos os fornecedores do insumo que ele processa, agora nas mãos de um único comprador.
É poder pra ninguém botar defeito!
Os monopólios não levam apenas o que você tem no bolso. Eles acabam com a sua liberdade. Instalados com amplitude suficiente, podem deixa-lo diante da alternativa única de submeter-se ou resignar-se a sobreviver na miséria, à margem da economia organizada.
É, resumidamente, aquele tipo de equação que transformou o socialismo real numa relação entre opressores e oprimidos sustentada pela soma da violência política com a violência econômica que, periodicamente, levava a parcela da humanidade que esteve submetida a ele a enfrentar tanques e armas de fogo de peito aberto de tão ruim que a coisa fica.
Agora olhe à sua volta e veja a quantas andamos nessa estrada:
O petróleo, que tudo move, já era “deles”. Os minérios acabam de “subir no telhado”. E mediante as unções do BNDES, o governo se associou ou passou a ter posição de forte influência sobre tudo que gira em torno das industrias do aço, do cimento, de papel e celulose, das petroquímicas (plásticos e cia. ltda.), da rede de distribuição de energia, de toda a cadeia de produção e distribuição de proteína animal, de uma boa parte da infraestrutura de telecomuicações e, direta ou indiretamente, também dos bancos.
Em 2009 o Tesouro Nacional (você) “emprestou” ao BNDES, a juros subsidiados (por nós) R$ 100 bilhões para essas aquisições. O que ele distribuiu para uns poucos privilegiados corespondeu a 52% de todo o esforço agregado de investimento feito na economia brasileira naquele ano. Em 2010, somente até julho, o Tesouro “emprestou” ao banco mais R$ 80 bilhões. Faltam-me dados sobre o que rolou daí por diante. Ha, enfim, um orçamento paralelo sendo executado em favor dos amigos do PT, que não passa por nenhum dos canais institucionais da democracia brasileira.
O perigo desse movimento é ainda mais potencializado pela crise do capitalismo democrático que ha pelo menos 30 anos vem sendo minado em seus fundamentos pela destruição dos mecanismos naturais de defesa do mercado contra o abuso econômico que a invasão chinesa, que não respeita regras nem direitos de propriedade, está provocando.
Os monopólios estatais chineses, servidos por mão de obra quase escrava, vêm obrigando o mundo inteiro a consolidar a produção em conglomerados gigantes dominando monopólios setoriais e obrigando os trabalhadores das democracias ocidentais a devolver conquistas e abrir mão de direitos arrancados ao capital em lutas seculares para não serem completamente excluídos do mercado global.
No mundo inteiro, as legislações antitruste estabelecendo limites para o crescimento do poder econômico e submetendo até o mérito ao interesse maior do cidadão nas suas dimensões essenciais de consumidor e trabalhador, que é onde ele de fato exerce a sua liberdade de escolha, estão caindo por terra esmagadas pelo preço vil das mercadorias quase sempre pirateadas fabricadas pelos quase escravos dos monopólios do Estado chines.
Mas, para nós brasileiros, não basta esse formidável inimigo externo. Em vez de enfrentá-lo, o PT está usando o nosso próprio dinheiro para acelerar, ele próprio, a criação dos monopólios domésticos aos quais se associa e que, discursos aparte, estão armando o seu braço para fazer com que o emprego e o sustento de cada família brasileira se torne cada vez mais dependente da sua condescendência.






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