E o palhaço quem é?
16 de dezembro de 2010 § Deixe um comentário

Período………………………………………………2007 a 2010
Nós…………………………………………..……13 salários/ano
Eles……………………………..15 salários/ano (fora o resto)
Inflação……………………………………………………+ 19,64%
Salario mínimo…………………………………….……+ 34,21%
Salario dos deputados:………….…………………….+ 61,8%
Salario do presidente:…………………………………+ 133,9%
Salario dos ministros:…………………………………+ 148,6%
Automaticamente, por especial “direito constitucional”, as Assembleias Legislativas e Camaras Municipais do pais inteiro vão no arrasto.
O pretexto foi dar a todos “isonomia” com os ministros do Supremo Tribunal Federal. R$ 26.723,13 (adoro essas casas centesimais!), por enquanto. Mas já estão pedidos mais 14,78%: para R$ 30,675 e uns quebradinhos. Mas este é só, digamos assim, o multiplicador da equação dos salários dos parlamentares. Somado tudo que se expressa em cifrões naquilo que recebem (auxílios aluguel, gasolina, transporte, telefone, roupa, médico, dentista, etc), cada um deles + respectiva equipe nos custa R$ 128 mil por mês.

Sabe como é: no mundo encantado de Brasília o seu salário não sobe só se você trabalhar melhor, inventar alguma coisa ou render mais; o seu slário sobe porque o do seu vizinho subiu. E “punto e basta”, como diz aquele italiano fajuto da novela…
Um por todos; todos por um. É a cumplicidade que os une. Igualdade perante a lei é coisa pra americano “babaca”.
Para malandros espertos, como nós, a conta: R$ 2 bi, antes que a onda “isonomica” desça pelo funcionalismo publico abaixo, o que fatalmente acontecerá mais adiante.
Daqui por diante, alias, os “representantes” que nós livremente elegemos querem os ministros do Supremo Tribunal Federal como arrombadores oficiais da porta do cofre. Sempre que eles conseguirem um aumento, o que podem fazer por deliberação inter pares (um grupinho só de 11), a corja toda tem o salário automaticamente aumentado, Brasil afora, “sem ter de passar pelo constrangimento de aprovar uma lei só para isso” debaixo dos holofotes da imprensa livre (enquanto houver imprensa livre).
Aumentos como o aprovado ontem já passam em “votação simbólica”, sem registro da posição individual de cada parlamentar. E por se tartar de um “decreto legislativo”, o presidente da Republica não pode vetar, nem que tenhamos, um dia, um presidente da Republica disposto a moralizar aquele circo. Basta, como ontem, que o Sarney da vez ponha o decreto na mesa e o aprove em seguida, em nome dos demais. Não se requer nem lista de presença.

“Agora já sei o que faz um deputado”, disse o bom Tiririca, que é a cara de todos nós.
Porque, então, não acabar com essa burocracia besta e tornar secretos os salaries de todos os “servidores publicos” logo de uma vez? Nos poupa a vergonha e a dor de estômago de nos vermos cerimonial e oficialmente rapelados todo fim de ano.
Um dia chegaremos lá. Porque como diz o NANP (“nunca antes neste país”), democracia só não basta. Queremos “excesso de democracia” como a que o bom coronel Chavez proporciona ao povo venezuelano.
E já que a eleição acabou mesmo, vamos deixar pra lá as formalidades. Nas véspera da diplomação da Dilma, diploma tambem pro Maluf, pro Garotinho e pra todos aqueles bons brasileiros injustamente visados por essa anti-isonômica “lei dos fichas sujas”, hoje excelentíssimos membros da “aliança” que nos mantêm “lá”.
Barrá-los seria uma discriminação inadmissível. Afinal, este é o país onde ontem, no momento em que, para prevenir que lá na frente algum “partido pela ética na política” venha a rescrever a história do Brasil, o “nosso guia”, em pleno Palácio, registrava a sua versão dela em cartório incluindo, desde já, suas realizações futuras, até o Zé Dirceu resolveu assumir: “Eu nunca saí daqui”.
Impunidade über alles, que está nascendo o nosso Reich de Mil Anos!

Sobre territórios ocupados pelo crime
9 de dezembro de 2010 § Deixe um comentário

Democracia é como gravidez. Não existe pela metade. Ou a Lei vale para todos ou não vale para ninguém.
Fora do Brasil, acompanhei pela internet a “Guerra do Rio” e, principalmente, o modo como ela foi coberta pela imprensa.
Tenho repetido aqui que vejo a imprensa como uma espécie de termômetro da sensibilidade da classe media (que é quem escreve e lê jornal) que, ao devolver, inevitavelmente, o que as nossas escolas enfiam na cabeça dos brasileiros pelo pais afora – pobres cabeças! – nos permite vislumbrar a que distancia estamos de começar a mudar aquilo que exigimos dos governos, primeiro passo para que os governos comecem a pensar em mudar aquilo que nos entregam.

Cheguei a me animar com o gradual abandono do entusiasmo ufanista em que ela ameaçou embarcar no inicio do processo, diante da comovente reação do povo carioca a esse primeiro mísero sinal de atenção recebido em muitos anos (desde que Leonel Brizola – que a Dilma chama de “guru” – entregou um pedaço da cidade ao crime organizado).
O Rio virou, mesmo, uma pobre criança abandonada, carente até o limite onde se pode ser carente…
Senti-me aliviado quando foram ouvidas as vozes das lideranças da imprensa – que ainda as ha, mesmo que poucas – chamando a atenção do publico para a realidade da corrupção policial, da “ausência de polaridade” entre a policia e o crime no Rio de Janeiro (e não apenas lá), que permanece intocada. Meu orgulho cívico sentiu-se remendado quando o tom começou a mudar do agradecimento para a cobrança de uma verdadeira “pacificação” dos morros, em vez desta “para inglês ver”, determinada mais pela eleição e pela perspectiva da Olimpíada e da Copa que vêm aí do que pela vontade de restituir ao povo pobre do Rio o direito elementar de sair do inferno dos enclaves ocupados pelo crime.

Quanto tempo vai levar para os policiais das UPPs se corromperem e tomarem o lugar dos traficantes como exploradores da miséria dos morros? E os militares, quanto tempo resistirão ao “faça você também porque não vai acontecer nada mesmo”?
Decepcionei-me, mais uma vez, enfim, pela discussão não ter ido alem do binômio crime x corrupção policial.
Os morros cariocas não são o único nem o mais importante pedaço do Brasil onde a Lei não entra. A Lei não ocupará os morros cariocas enquanto não ocupar, primeiro, o território livre do Estado; os governos e sua extensão administrativa que é o funcionalismo publico.
O presidente da Republica não acata a Lei. O Poder Executivo não acata a Lei. Os membros do Poder Legislativo não acatam a Lei. E as poucas que acatam são leis especiais, feitas só para eles. As leis que negam o principio fundamental da democracia e do Estado de Direito que prescreve, antes de mais nada, a igualdade de todos perante a lei.

A policia carioca e todas as policias do Brasil, assim como os variados fiscais de todos os órgãos publicos e o resto da horda que vive de nos achacar, vão continuar vivendo impunemente na regra dos “arregos” com o crime organizado enquanto aqueles que os nomeiam para essas funções puderem continuar vivendo na regra dos “arregos” impostos aos contribuintes, dos achaques aos fornecedores do Estado, da posse e uso irretorquível e ilimitado das “suas” estatais, das ações em causa própria, dos privilégios e dos assaltos impunes ao Tesouro Nacional.
É tudo um sistema de vasos comunicantes. A impunidade é um imperativo para o nomeado pelo impune. É a cumplicidade que os une. Um não pode continuar impune se o outro não se tornar impune. A corrupção empurra a corrupção. O achacado numa ponta terá de achacar na outra e a corda estourará sempre do lado mais fraco. Do lado de quem paga dobrado para ter menos da metade. Do lado de quem paga com a vida porque é tudo que lhe resta.

O mais dolorido em todo esse sofrimento é que é tudo um desperdício. Um falso labirinto cuja saída está mapeada pela História. Uma mera armadilha da ignorância.
Somente quando a imprensa se impuser o dever de expor essa cadeia da impunidade a cada vez que qualquer dos efeitos dela se manifestar, seja onde for, apontando a raiz por mais distante que esteja o galho, poderemos começar a alimentar a esperança de que o povo venha a dirigir a força que tem de sobra, mas não sabe onde aplicar, para esmagar o mal no nascedouro.
Até lá, estaremos apenas enxugando gelo. Ou pior, apenas enxugando sangue.

Lula dá provas do que ele é
19 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Acaba de dar no site do Estadão:
A diplomacia brasileira se absteve de apoiar uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovada na noite de quinta-feira, 17, que pede o fim do apedrejamento como método de execução no Irã assim como a discriminação contra mulheres.
A resolução pede ainda o fim da restrição à liberdade de expressão e de associação, o fim da intimidação contra ativistas, advogados, políticos da oposição, bloggers e jornalistas, além de condenar o desaparecimento de pessoas que tenham participado de demonstrações. Condena, também, a alta taxa de condenações à morte anunciadas pelo governo iraniano, a execução de pessoas com menos de 18 anos que tenham cometido crimes e a existência de leis que permitem a pena de morte contra pessoas que sejam “inimigas de Deus”.
Segundo Mohammad-Javad Larijani, representante de Teerã na ONU, essa resolução não é justa e politiza os direitos humanos. É fruto da hostilidade americana em relação ao Irã. “O apedrejamento consiste em jogar um certo número limitado de pedras, de uma forma especial, nos olhos de uma pessoa. É uma punição menor que a execução porque existe a chance de sobreviver. Mais de 50% das pessoas (apedrejadas) podem não morrer“.

Larijani disse, ainda, que não há um silenciamento de advogados e nem jornalistas. “Todos podem falar com a imprensa estrangeira. Mas depende do que querem dizer. Se estão difamando o sistema legal, devem ser responsáveis por isso“.
O documento foi apresentado pela delegação do Canadá
Entre os outros países que se abstiveram estão Angola, Benin, Butão, Equador, Guatemala, Marrocos, Nigéria, África do Sul e Zâmbia.
Votaram contra a proposta Venezuela, Síria, Sudão, Cuba, Bolívia e Líbia.
A resolução foi aprovada com o apoio de 80 países, entre eles um dos membros do Mercosul, a Argentina, todos os países europeus, EUA, Canadá, Chile e Japão.

PS.: Um leitor qualificado observou-me que é exagerado adjetivar o nome do presidente Lula desde o título, como eu tinha feito nesta matéria. A vantagem da web é que, nela, os textos estão vivos. Estou de acordo. A indignação às vezes desqualifica a informação. E essa está aí, limpinha, no texto da notícia do Estadão. Assim, deixo para você, leitor os adjetivos para qualificar este belo gesto do nosso presidente e sua diplomacia.
Onde Tropa de Elite 2 “pega” pra valer
27 de outubro de 2010 § Deixe um comentário
O edifício do crime no Brasil se apóia na pedra fundamental da impunidade dos políticos e dos seus nomeados. Corrupção policial é efeito e não causa. Só reformas políticas mudam esse quadro.
Tropa de Elite 2 é um soco no estômago. Fui assistir ontem. É um filmaço! Mas que não deixa nenhuma esperança. A única esperança com que ele acena, melhor dizendo, é o fato de ainda poder ter sido rodado no pais onde os eleitores do Ministério da Cultura nomeados pelo próprio retratado indicam O Filho do Brasil como nosso candidato ao Oscar de filme estrangeiro na véspera de uma eleição conflagrada…
Num único momento Tropa 2 é inverossímil: quando, ao fim da CPI, um dos políticos ligados ao crime organizado vai para a cadeia. Tudo o mais, nele, é de uma desconsoladora verdade que as platéias estão sufragando em massa, inclusive e principalmente o travelling final da câmera pela Esplanada dos Ministérios até o Congresso Nacional que aponta o local onde se homiziam os chefões do “Sistema”.
No seu discurso final, um “capitão Nascimento” que simboliza o Brasil derrotado pela corrupção, começa se interrogando, do alto da tribuna da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, uma das sedes do “Sistema”, sobre a ausência de sentido em matar ou morrer numa guerra que ele (“o Sistema”) deliberadamente deflagrou e da qual se alimenta – o que remete à discussão mundial do sentido prático da criminalização da droga – e termina afirmando que a remissão do Rio de Janeiro teria de começar “pela completa extinção da Policia Militar” como a conhecemos hoje.

É aí que quero enfiar minha colher: isso seria perda de tempo.
Ha um precedente histórico do qual não pude deixar de me lembrar diante dessa cena. Ha pouco mais de um século, na virada do 19 para o 20, os Estados Unidos estavam em situação muitíssimo parecida com a do Brasil de hoje em matéria de impotência diante da corrupção e da violência do crime (semi) organizado. Terminavam a ocupação física de seu território, como aqui à custa de um alto grau de depredação ambiental; viviam um processo insano de urbanização que destruiu a cultura rural antes de por outra em seu lugar. Multidões amontoavam-se em áreas degradadas de cidades sem planejamento criando bolsões de miséria e violência onde as forças do Estado não entravam. E tudo isso tornava a vida nas grandes cidades americanas um inferno.
No âmbito nacional o quadro era desolador. A política era dominada pelos chefões dos dois maiores partidos sem o beneplácito dos quais não se fazia nada no pais. Os presidentes não podiam governar sem eles. As principais comissões dos diversos níveis do Legislativo (federal, estadual e municipal) eram controladas por eles o que garantia a impunidade geral (através do controle dos equivalentes das nossas CPIs) e os cargos públicos eram distribuídos, país afora, entre as tropas dos vencedores das eleições que os usavam para enriquecer e se perpetuar no poder. Os eternos caciques dos partidos cuidavam, por fim, de evitar qualquer renovação da política determinando quem, quando e aonde poderia se apresentar ao eleitorado para pedir votos.
O pais vivia, ainda, a primeira grande onda de fusões e aquisições de empresas que criou corporações gigantes e monopólios setoriais de altíssimo poder de corrupção que operavam em simbiose com a baixa politicagem.

A ausência de fronteiras entre o crime organizado e a policia corrupta, que transformou a vida em cidades como Nova York em algo muito parecido com o que Martin Scorcese descreveu no seu As Gangues de Nova York, levou a população a tal estado de desespero que, em dado momento, decidiu-se pela extinção da policia existente, considerada irrecuperável, e a criação de uma nova a partir do zero. O resultado foi que a policia “extinta” resistiu à ordem e passou a se confrontar a tiros com a nova (que não demorou muito a se corromper), piorando a situação. Qualquer coisa de semelhante às forças que hoje se enfrentam no Rio: policias, quadrilhas e milícias comandadas por ex-policiais.
A situação só começou a ser revertida com o início das reformas políticas da chamada Progressive Era, que reduziram drasticamente a impunidade dos políticos.
O crime organizado é função direta da impunidade. Nenhuma organização tem poder suficiente para enfrentar o monopólio da força armada do Estado se ele estiver realmente disposto a usa-la para o bem. Pelo mundo afora, a limitada impunidade de que desfruta o crime organizado é comprada com o suborno da policia. E esse suborno se torna impossível de conter se a atividade criminosa for rentavel o suficiente para pagá-lo, como acontece no caso da droga. Daí a discussão mundial em torno da idéia de tornar a droga legal para deter a carnificina do combate ao tráfico.
Acontece que, no Brasil, a impunidade é coisa que vem junto com o ingresso do sujeito no serviço publico. O cidadão comum, uma vez eleito para qualquer cargo que seja, torna-se intocável. Praticamente não ha limite. A lei não consegue mais alcançá-lo. E junto com a eleição, vem o poder de estender essa impunidade a quem ele nomear funcionário publico. (“A única coisa que eles temem é a mídia“, lembra o personagem de Wagner Moura).

Todo o resto é conseqüência. O vasto edifício do crime no Brasil suplanta em muito os limites estreitos da corrupção policial. Ele se apóia na pedra fundamental da ilimitada impunidade dos políticos e dos seus nomeados. Toda a cadeia de comando do país, da policia para cima, é especialmente suscetivel à corrupção em função dessa garantia de impunidade. É mais que natural, portanto, que os cabeças do “Sistema” estejam abrigados no centro dessas cadeias de impunidade, que coincidem com os centros nacionais de decisão política.
Basta romper a impunidade, ainda que parcialmente, para colher resultados fulminantes. Foi porque Alkmin instituiu um rito sumario para o julgamento de policiais corruptos que, em poucos anos, o numero de crimes graves caiu 70% em São Paulo. Mas, restrito ao ambiente policial, o processo de saneamento não pode ir muito longe.
É nesse sentido, portanto, que é precisamente exato o movimento de câmera final de Tropa 2 das favelas para as delegacias, destas para as sedes dos governos estaduais, donos das policias, e deles para o centro do poder (de ter e de outorgar impunidade) em Brasília.
Como já descrevi em outros artigos aqui no Vespeiro, os americanos reduziram a impunidade e a corrupção em seu pais a ponto de se tornarem o pais mais rico do mundo com cinco linhas de reformas principais:

- legislação anti-truste, limitando o direito de crescer das corporações privadas para fomentar a concorrência em nome da proteção do consumidor (é claro que numa economia onde o Estado é apenas e tão somente um ente fiscalizador);
- reforma do serviço publico com forte restrição às nomeações políticas; os funcionários com cargos executivos, policiais inclusive, passaram a ser diretamente eleitos pelo povo enquanto os cargos de confiança, estritamente políticos, foram drasticamente reduzidos e condicionados ao mérito;
- eleições primárias para tirar dos caciques dos partidos o poder de decidir quem tem ou não direito de pedir votos aos eleitores e voto distrital para tornar claro quem representa quem;
- despartidarização das eleições municipais que reduziu drasticamente o campo de ação dos políticos profissionais e da politicagem; hoje a maioria das cidades americanas não têm prefeitos, têm CEO’s demissíveis a qualquer momento;
- reforço dos mecanismos de democracia direta como o de iniciativa de propor leis populares, o de convocar referendos para confirmar ou suspender leis dos legisladores eleitos e o de “recall”, para cassar funcionários eleitos (do presidente da republica para baixo).
A discussão hoje, nos EUA, se dá em torno da conveniência de se eleger tambem os juízes de direto e dar ao povo o poder de cassar sentenças judiciais consideradas desonestas que já está em vigor em diversos estados e municípios do pais.
No Brasil e na America Latina, onde vivemos em sistemas que parecem democracias mas não são, usa-se pedaços dessa receita, aplicadas seletivamente, para reduzir ainda mais a democracia. Mas aplicada em conjunto e com garantias de transparência, para reforçar o cidadão e enfraquecer os políticos e não o contrário, ela é um santo remédio.

Farc: “O dossiê brasileiro”
22 de julho de 2010 § 2 Comentários
Revista Cambio – Colômbia – 31 de julho de 2008
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“O computador de Raul Reyes revela que os vínculos das Farc com altos funcionários do governo brasileiro, entre eles cinco ministros, chegaram a níveis escandalosos”
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No entardecer do sábado, 19 de julho, na fazenda Hatogrande, a casa presidencial ao norte de Bogotá, o presidente Álvaro Uribe, sorridente e impertinente como poucas vezes antes, não teve duvidas em oferecer ao seu homologo brasileiro Luis Ignácio Lula da Silva um copo da aguardente de Antióquia para espantar um frio que penetrava até os ossos. Esse brinde selou a jornada que tinha começado na sexta-feira, 18, e que terminaria domingo, em Letícia, com a celebração do Dia da Independência da Colômbia. Uma festa que, como nunca antes, incluiu artistas do calibre de Shakira e da qual o presidente peruano Alan Garcia também participou.
A agenda Lula /Uribe em torno de acordos bilaterais foi temperada de elogios públicos. O presidente Uribe agradeceu a Lula e a seu governo por seis anos de relações dinâmicas e de confiança mutua. Mas em uma reunião privada que mantiveram diante de poucas testemunhas, Uribe fez a Lula um breve resumo sobre o conteúdo de uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de Raul Reyes que comprometia cidadãos brasileiros e funcionários do seu governo com as Farc.
Ao contrario do que aconteceu com as informações relativas a servidores do governo Rafael Correa e a cidadãos equatorianos, que o governo tornou publicas, no caso do Brasil as instruções de Uribe foram para que se mantivesse a discrição e se lidasse diplomaticamente com o caso para não deteriorar as relações comerciais e de cooperação com o governo Lula.
O governo colombiano usou de forma seletiva os arquivos do PC de Raul Reyes. Enquanto os que diziam respeito ao Equador e à Venezuela foram divulgados para causar constrangimentos para Chávez e para Correa, ambos hostis a Uribe, os que diziam respeito ao Brasil foram passados por baixo do pano para não constranger Lula da Silva, que vinha se mostrando mais hábil e menos agressivo que seus colegas com relação à Colômbia.
Ainda assim, alguns veículos da imprensa brasileira conseguiram algumas informações parciais sobre os arquivo, razão pela qual, em 27 de julho, consultaram o ministro Juan Manuel Santos que, numa entrevista a O Estado de S. Paulo, confirmou que o governo colombiano tinha informado Lula sobre o tema. “Ha uma serie de informações sobre conexões das Farc no Brasil que entregamos ao governo brasileiro para que possa agir da forma que achar mais apropriada”, disse Santos. Mas ele se absteve de comentar sobre se havia ou não políticos e funcionários públicos na lista dos que mantinham contatos com o grupo hoje encabeçado por Alfonso Cano.
Coube a Marco Aurélio Garcia, assessor de política internacional do governo brasileiro responder às declarações do ministro. E ele disse que eram “irrelevantes” as informações passadas pelo governo colombiano.
Note-se o “uniforme“
O “padre Camilo”
Não se sabe o quanto eram detalhadas as informações que Uribe passou para o governo brasileiro, mas é certo que aquilo que se poderia chamar “o dossiê brasileiro” tinha implicações bem mais serias que as relacionadas com a Venezuela e o Equador.
Cambio teve acesso a 85 correios eletrônicos que, entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008, circularam entre “Tirofixo” (a mais alta patente das Farc), Raul Reyes, Mono Jojoy, Oliverio Medina – delegado das Farc no Brasil – e dois homens identificados como “Hermes” e “Jose Luis”.
A julgar pelo conteúdo das mensagens as relações das Farc no Brasil chegaram até às mais altas esferas do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores, PT – o partido do presidente – à alta direção política e à esfera da administração da Justiça. Nesses correios são mencionados cinco ministros, um procurador geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro, cinco deputados, um conselheiro e um juiz superior.
O personagem central dos correios é Oliverio Medina, também conhecido como o “padre Camilo”, um sacerdote que ingressou nas Farc em 1983 e que, numa rápida ascensão, chegou a ser secretario de “Tirofixo”. Ele chegou ao Brasil como delegado especial das Farc em 1997 e esteve na Colômbia durante o Processo de Caguán, no qual teve o cargo de chefe de imprensa do grupo. (San Vicente del Caguán é uma cidade no limite da área do território colombiano que chegou a ser ocupado pelas Farc onde, de 1998 a 2002, o presidente Andrés Pastrana tentou, em vão, chegar a um acordo político com as Farc).
Com o rompimento das negociações em fevereiro de 2002, regressou ao Brasil onde retomou sua missão, e sua influencia chegou ate o nível mais alto da administração Lula, que assumiu a presidência em janeiro de 2003. Graças às pressões das autoridades colombianas, o “padre Camilo” foi capturado no Brasil em agosto de 2005. A Colômbia pediu sua extradição mas o Tribunal Superior de Justiça brasileiro não apenas negou essa extradição em 22 de março de 2007 como deu a Medina a condição de “refugiado político”.
Raul Reyes
Até o topo
A prisão não foi obstáculo para que o “padre Camilo”encerrasse seu trabalho de proselitismo e propaganda. Prova disso são os numerosos correios que enviou a Reyes e que mostram como ele conseguiu ter acesso à cúpula do governo brasileiro.
Quatro dos correios a que Cambio teve acesso se referem diretamente ao presidente Lula. Em um deles, com data de 17 de julho de 2004, Raul Reyes diz a “Tirofixo”que o governo Lula ajudaria com o acordo humanitário: “Os padres me enviaram carta pedindo entrevista com eles no Brasil”, escreve reyes. “Dizem que falaram com Lula e este assumiu o compromisso de ajudar no acordo humanitário intercedendo junto a Uribe para fazer a reunião em seu pais”.
No segundo, datado de 25 de setembro de 2006, Olivério Medina conta a Reyes: “Não lhe disse que ha alguns dias Lula chamou o ministro Paulo Vanucchi (ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos), indicando-lhe que telefonasse ao advogado Ulisses Riedel e o felicitasse pelo êxito jurídico da sua brilhante defesa a favor do meu refugio”.
No terceiro, com data de 23 de dezembro de 2006, Medina informa a Reyes que “mandei a Lula e aos dois assessores que nos ajudaram o certificado de bônus (afiche de aguinaldo)”. Os funcionários são Silvino Heck, assessor especial do presidente, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete, que aparecem mencionados em outro correio de 23 de fevereiro de 2007, também dirigido a Reyes: “É possível que me visite um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck, que junto com Gilberto Carvalho foi outro que nos ajudou bastante”.
Entre os 85 correios a que Cambio teve acesso ha um, sem data, também enviado por Medina a Reyes, que diz: “Estive falando com a deputada federal Maria Jose Maninha. Ela ficou de me abrir o caminho para Marco Aurélio Garcia”. Garcia é secretario de Assuntos Internacionais.



Gilberto Carvalho, Paulo Vanucchi, Marco Aurélio Garcia
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Não menos comprometedores são aqueles em que aparecem mencionados alguns ministros. Em um deles, dirigido a Reyes em 4 de junho de 2005 por um tal “Jose Luis”, figura o nome do ministro da Presidência Jose Dirceu. “Chegou um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT); me disse que vinha da parte do ministro da Presidência Jose Dirceu, que por medida de segurança eles tinham decidido que as relações não passarão pela secretaria de Relações Internacionais, mas que fossem feitas através do ministro com a intermediação de Breno”. No fim da mensagem, “Jose Luis” diz que o governo brasileiro e o PT darão proteção a Medina enquanto prosseguem os tramites da extradição: “Perguntei se podíamos estar tranqüilos; se não iam seqüestrá-lo e levá-lo para a Colômbia e ele respondeu: Podem ficar tranqüilos”.
Em um correio de 24 de junho de 2004, Reyes comenta com Medina a possível saída de Dirceu do Gabinete, e lhe diz: “Se acontecer, essa vitoria dos detratores de Lula poderá afetar a incipiente abertura das relações conosco”.
As Farc também tentaram chegar ao gabinete do ministro de Relações Exteriores, Celso Amorin. Em um correio de 22 de fevereiro de 2004, “Jose Luis” escreve a Reyes: “Por intermédio do legendário líder do PT, Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorin, atual ministro de Relações Exteriores. Plínio nos mandou dizer por Albertão (conselheiro de Guarulhos) que o ministro esta disposto a nos receber. Que assim que tiver um espaço na agenda nos recebe em Brasília”.
Celso Amorin, José Dirceu, Roberto Amaral
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O procurador e o Juiz
O embaixador das Farc desempenhou tão bem a sua missão que conseguiu chegar até o procurador Luis Francisco de Souza, mencionado em um correio de 22 de agosto de 2004 que Medina e “Jose Luis” enviaram a Reyes e a Rodrigo Granda: “Ele deu o seguinte conselho: andar com uma maquina fotográfica e, na medida do possível, com um gravador para, no caso de voltar a aparecer um agente de informação, fotografá-lo e gravá-lo, tendo o cuidado de não permitir que nos tome a câmera ou o gravador. Que em relação ao que aconteceu, façamos uma denuncia dirigida a ele, como Procurador, para que ele a faça chegar ao chefe da Policia Federal e à Agencia Brasileira de Informação”. (Mais detalhes de como Luis Francisco afrontou o Judiciário para proteger o “padre Camilo”, aqui http://www.ternuma.com.br/revjuridica080.htm
e aqui http://www.conjur.com.br/2006-mai-09/supremo_determina_porta-voz_farc_volte_presidio)
Alguns correios foram escritos durante o processo de Caguán e envolveram um prestigiado juiz e um alto oficial das Forças Armadas brasileiras. Em um deles, datado de 19 de abril de 2001, por exemplo, Mauricio Malverde informa Reyes: “O juiz Rui Portanova, amigo nosso, nos pediu para visitar os acampamentos, receber instrução e conhecer a vida das Farc. Ele paga sua própria viagem”. Portanova era, àquela altura, juiz superior da corte estadual do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Três dias antes, em 16 de abril, Medina relata a Reyes um encontro de Raimundo, Pedro Henrique e Celso Brand – ao que parece agentes das Farc no Brasil – com o brigadeiro Ivan Frota, ex-chefe da Força Aérea Brasileira. “O homem se interessou e disse que gostaria de ter um encontro pessoal conosco, disse que estão começando a amadurecer a tomada da base de Alcântara pelas forcas nacionalistas para impedir que os Estados Unidos fiquem com os 600 km quadrados que estão sob seu domínio”.
Essa pequena amostra dos 85 correios a que Cambio teve acesso revela a importância do Brasil na agenda exterior das Farc, manejada por Raul Reyes, e não deixa duvida de que o “padre Camilo”, para implementar a estratégia continental da guerrilha aproveitou a conjuntura criada pela chegada ao poder de Lula e seu poderoso Partido dos Trabalhadores para se aproximar das mais altas esferas do governo.
E se bem que os correios são apenas indícios de um possível compromisso do governo de Lula com as Farc, pois nenhum dos funcionários citados enviou mensagens pessoais aos membros do grupo guerrilheiro, eles despertam muitas interrogações que exigem respostas do governo brasileiro.
Rui Portanova, Luis Francisco, deputada Maninha
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Os contatos das Farc
A expansão das Farc na America Latina não incluiu apenas funcionários dos governos da Venezuela e do Equador mas também dirigentes, políticos e membros da cúpula do Partido dos Trabalhadores ao qual pertence o presidente Lula da Silva. O grupo também manteve contatos com juízes e procuradores do Brasil.
- Jose Dirceu, ministro da Presidência
- Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência
- Erika Kokay, deputada
- Gilberto Carvalho, chefe de gabinete
- Celso Amorin, chanceler
- Marco A. Garcia, assessor de Assuntos Internacionais
- Perly Cipriano, subsecretario de Promoção dos Direitos Humanos
- Paulo Vanucci, ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos
- Silvino Heck, assessor presidencial
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Sequestro da Novartis
20 de setembro de 2001
De: Jorge Briceño “Mono Jojoy”
Para: Secretariado
“Edwin, velho conhecido comandante da Policarpo, junto com Julian, roubaram meio milhão de dólares e mais 700 milhões de pesos do seqüestro da Novartis. O negocio estava planejado para 10 milhões de verdes. Para completar, armou-se uma ligação com o México, a Suíça e o Brasil porque nos não entregávamos os caras. Falei com representantes desses países e concordamos que se nos dessem mais meio milhão de dólares libertávamos os dois senhores. Ordenei que fossem soltos e até agora não pagaram. Se continuarem enrolando, penso em dar-lhes um susto”.
Convite para o acampamento
12 de junho de 2005
De: Raul Reyes
Para: Jose Luis
“É preciso convidar o porta-voz do Brasil a nos visitar aqui e explicar-lhe que, para chegar às definições é imprescindível a sua conversa com o secretariado. Dizer-lhe que temos formas seguras de recebê-lo em nosso acampamento sem que isso seja registrado pelas autoridades colombianas”.
Apoio financeiro
6 de julho de 2005
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Solidariedade recebida durante o primeiro semestre de 2005: deputado Paulo Tadeu US$ 833,33. Sindicato da Empresa de Energia de Brasília U$ 666,66. Corrente Comunista Luis Carlos Prestes US$ 766,66. Senhora Solene Bontempo US$ 250,00. Conselheiro Leopoldo Paulino US$ 433,33. Sindicato da Empresa Aqueduto de Brasília US$ 33,33”.
Extradição de Camilo
17 de setembro de 2005
De: Raul Reyes
Para: Roque
“Bastante significativa a solidariedade dos partidos comunistas do Brasil e de outros países com a luta das Farc e no empenho para impedir a extradição do “padre”. Existe no Brasil um importante grupo de amigos solidários conosco em que ha sindicalistas, professores, congressistas, ministros, advogados e personalidades encarregados de pressionar pela imediata libertação de Camilo”.
Emprego de “la Mona”
17 de janeiro de 2007
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Segunda-feira, 15, “la Mona” começou em seu emprego novo e para garanti-la ou fechar a porta para a direita se em algum momento ela tentar molestá-la, colocaram-na na Secretaria de Pesca naquilo que aqui chamam um cargo de confiança ligado à Presidência da Republica”. (“La Mona” é Angela Maria Slongo, mulher do “padre Camilo”).
Giro pelo Brasil
15 de fevereiro de 2007
De: “padre Camilo”
Para Raul Reyes
“Os responsáveis pela organização da viagem do camarada Carlos Lozano são: Albertão e Pietro Lora em Guarulhos, São Paulo e Rio. Em Brasília: Paulo Tadeu, Érica Kokay. Para as atividades no Rio, se apoiarão no ex-deputado federal Milton Temer, do Partido Socialismo e Liberdade. E em Florianópolis um deputado estadual que eles ajudaram e que esta disposto a ajudar”.
Encontros com ministros
23 de fevereiro de 2007
De: “padre Cmilo”
Para: Raul Reyes
“A defensora publica está organizando para “la Mona” um encontro com o ministro, o vice-ministro e o principal assessor da Secretaria de Direitos Humanos, pela ordem, Paulo Vanucchi, Perly Cipriano e Dalmo de Abreu Dalari, um prestigioso jurista de quem o ministro relator tem pavor. O vice-ministro Perly vai falar com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Serão visitadas entidades importantes que nos apoiarão, começando pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz”.
Atuar com cautela
14 de abril de 2007
De: “padre Camilo”
Para: Raul Reyes
“Devo agir com cautela para não dar ao inimigo argumentos que levem ao questionamento do refugio. Nesse sentido, ter conseguido a transferência de “la Mona” e “la Timbica” para a capital do pais foi importante. Manterei esse perfil baixo ate a neutralização. Uma vez obtida, terei um passaporte brasileiro e a primeira coisa que quero fazer é ir vê-los”.









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