E se…
11 de março de 2011 § 1 comentário

Na crise, “back to the basics”, dizem os americanos.
Nada como a sabedoria popular!
É o que a “oposição” brasileira está precisando fazer.
O que se lê nos jornais sobre ela é de dar pena.
Serras, kassabs, chalitas…
A coisa vai de mal a pior.
E mesmo o Aécio, coitado, não sabe pra onde se virar.
A oposição está, como diria Voltaire, como aquele “cego, num quarto escuro, procurando um gato preto, que não está lá”.
Pois de volta ao básico!

E o básico é o seguinte. Desde que Roma inventou a Republica, só existe uma questão importante para o desenvolvimento da democracia: como submeter o representante ao representado.
É isso que conserta ou entorta tudo.
O Império Romano caiu porque não resolveu esse problema. A Inglaterra inventou a modernidade construindo essa resposta. E os Estados Unidos dominaram o mundo depois que conseguiram aperfeiçoá-la.
O Brasil balança na mesma alternativa: ou cria controles da cidadania sobre os políticos e a máquina publica ou o desembesto geral em que eles andam desmoraliza de uma vez por todas a ideia de democracia nestes tristes trópicos.
Aécio tem procurado associar a ideia de “choque de gestão” à sua “marca” política.

É por aí mesmo!
Só que está na hora de sairmos do “choque de gestão” opcional, episódico, cosmético, para o choque de gestão permanente e irreversível no setor publico. Só isso permitirá ao Brasil sair da alternância entre o péssimo e o apenas ruim. Só isso dará ao país a oportunidade de mudar definitivamente de patamar e deixar de festejar o sofrível.
É desta ilusão que Lula tem vivido. E superá-la é a única forma de superar o lulismo.
O mundo mudou mais nos últimos 30 anos do que tinha mudado nos 30 milhões de anos precedentes justamente porque passou por um profundo “choque de gestão”. E esse choque de gestão consistiu em retirar do entorno do trabalho todos os anteparos de que os políticos o cercaram para tornar a garantia de emprego, o desenvolvimento nas carreiras e a remuneração de cada trabalhador mais dependentes da sua submissão à política que do esforço pessoal e do mérito de cada um.
Dirão os mal intencionados que derrubar a parafernália de falsificações de que se cerca o trabalho até hoje em países como o Brasil é tirar “direitos dos trabalhadores”. Mas isso é uma mentira grosseira que a globalização da produção e dos empregos e a revolução das comunicações tornam a cada dia mais evidente.
A verdade é que foi o “choque de gestão”; as regras internacionais de governança corporativa; os sistemas de trabalho baseados no mérito que trouxeram a democracia para o andar de baixo da sociedade e colocaram-na – finalmente! – ao alcance da massa trabalhadora.

Porque num sistema de mérito não é preciso puxar o saco do patrão (nem do político) para subir na vida. Cada um pode ganhar tanto quanto estiver disposto a cavar com seu trabalho. Não ha mais limite. Pela primeira vez na história do mundo, é possível ficar rico vendendo apenas “mais valia”, sem se tornar dono do capital.
Os trabalhadores recuperaram, enfim, o direito à dignidade e o controle sobre o seu próprio destino.
Isto sim é que é democracia! O resto é conversa para enganar trouxa.
É claro que, humanos que somos, logo passamos a inventar novas maneiras de viciar o novo sistema para que também ele passe a abrigar privilégios.
Mas os privilégios de hoje no mundo corporativo são, na maior parte dos casos, privilégios que se combate com a polícia e não privilégios protegidos por ela. Distorções que decorrem de relações libidinosas entre as corporações e os políticos. Mas, mesmo assim, são privilégios infinitamente mais limitados que os que definiam a situação anterior.
Não foi necessário arquitetar qualquer projeto especial para que essa revolução se processasse no universo privado brasileiro. Bastou deixar o Brasil exposto à competição mundial e à globalização do emprego e da produção, que “cassa” implacavelmente quem não se ajusta, para que todo o resto acontecesse de motu próprio.
O instinto de sobrevivência faz milagres…

É isso que precisa acontecer no Brasil oficial.
A impunidade é uma cadeia que, num sistema onde prevalecem as nomeações, desce como uma praga hierarquia abaixo.
Garanta a impunidade aos cabeças e atribua-lhes o poder de outorgar esse privilégio com uma simples nomeação e você estará criando uma máfia onde o único valor que restará em pé, com a força do instinto de sobrevivência, será a cega lealdade ao chefe.
Exponha o primeiro da fila à responsabilização e você estará expondo todos os demais. Faça o emprego dele depender do desempenho dos seus nomeados e ele tratará de fazê-los, todos, mostrarem para que servem.
Impunidade e estabilidade no emprego são os dois pilares que sustentam todos os vícios do Brasil oficial. Enquanto cada político, cada funcionário publico souber que posto um pé dentro do “sistema” o emprego e a impunidade estão garantidos, aconteça o que acontecer, a continuação de tudo quanto temos lamentado nos últimos 500 anos será mera consequência.
Só a instabilidade dos políticos e dos funcionários públicos poderá gerar um Brasil estável.
Tornar os nomeadores imputáveis pela obra dos nomeados é, portanto, o caminho.
Eis aí uma bandeira para um partido de oposição que aqueles 44 milhões de brasileiros que, apesar do Serra, se recusaram a votar no Lula, abraçariam com todas as suas forças.

Não ha como leva-la adiante?
É outra mentira.
Será preciso carregar essa proposta pela porta dos fundos para dentro do Legislativo, hoje um inimigo do Brasil real posto a serviço do Brasil oficial. Mas os caminhos institucionais para isso estão postos e abertos. O Brasil conta com as figuras da Lei de Iniciativa Popular, a que gerou a lei da Ficha Limpa, e do Referendo, que adiciona força a esse instrumento. É com essas duas que se poderá dar mais agilidade à terceira, que é a que torna as outras duas realmente efetivas: o direito de determinar a demissão de qualquer funcionário eleito – legisladores inclusive e principalmente – a qualquer momento e por qualquer motivo que os eleitores achem suficiente, mediante um abaixo assinado seguido de plebiscito dos eleitores interessados (ou manifestação especifica na eleição seguinte, ja que temos uma a cada dois anos por aqui).
Os americanos usaram esse caminho ha cerca de 100 anos. O resultado foi que a corrupção foi reduzida em pelo menos 80%, o que os transformou no que são hoje: o povo mais rico e mais dono do seu próprio nariz em todo o mundo. Dado o primeiro passo, completaram a obra reduzindo drasticamente as funções preenchíveis por nomeação, concentrando nos municípios e nos Estados a maior parte dos serviços públicos e passando a eleger diretamente a maior parte de seus funcionários públicos (para poder cassá-los a vontade e a qualquer momento). Hoje a cédula de cada eleição americana inclui, em média, 60 quesitos, entre recalls (cassações) de funcionários, leis de iniciativa popular e eleições de funcionários como policiais, diretores de escolas publicas e outros. O pais discute, agora, o direito à cassação de juízes e sentenças judiciais que o povo julgue viciadas.
Para o Brasil bastaria a primeira parte da receita, para começar. Tornar instável – periclitante mesmo – a carreira dos nossos políticos, já faria uma revolução. Mesmo despreparados como são, você se surpreenderia com o que eles se mostrariam capazes de fazer a seu favor se a sobrevivência deles dependesse disso.
Tudo que está faltando é um líder de oposição que acredite que os brasileiros não são piores que os egípcios e se disponha a dar o primeiro grito.

Lula e sua galeria de monstros
24 de fevereiro de 2011 § 1 comentário
Para refrescar a memória do publico, segue uma lista não necessariamente completa de alguns dos momentos mais vergonhosos que Lula nos fez passar ao colocar o Brasil ao lado do lixo do mundo na defesa intransigente de cleptocratas e assassinos pelo mundo afora.
O artigo homenageia o editorial perfeito publicado hoje no Estadão (aqui) sobre a mudança “da água para o vinho” da diplomacia de Dilma, “uma defensora sem meios termos dos direitos humanos”, que resgata nossa dignidade no cenário internacional.

Muamar Kadafi: é brutal, sanguinário e corrupto até a medula; seu ex-chanceler, que fugiu para a Europa diante do selvagem massacre que ele comanda neste momento em seu país, diz ter provas de que ele ordenou pessoalmente o atentado de Lokerbie em que explodiu no ar, com uma bomba plantada no bagageiro, um Boeing com 250 passageiros sobre essa cidade escocesa. Documentos vazados pelo Wikileaks hoje mostram novos detalhes sobre como ele e seus filhos saqueiam o país e mantêm seu povo sob uma férrea repressão.
Lula te uma queda particular por Kadafi: chama-o de “amigo e irmão”; teve quarto encontros com ele durante seus mandatos, na Libia, no Brasil, na Venezuela de Chavez e na Nigéria.

Mamud Ahmadinejahd: é o ícone da vertente linha-dura dos radicais xiitas que controlam o país desde 1979 e, indiretamente, está ganhando força com a sucessão de quedas de ditadores sunitas no Oriente Médio. É conhecido por afirmar que o Holocausto nunca existiu e que Israel deve ser varrido do mapa. Para tanto, dedica-se a construir a bomba atômica iraniana e a testar os foguetes capazes de levá-la até Israel. Enforca opositores, fuzila manifestantes e apedreja “mulheres adulteras”. Lula o recebeu no Brasil, foi a Teerã, tentou, sem sucesso, dar cobertura aos seus métodos de burlar a fiscalização internacional de suas instalações nucleares e negou a assinatura do Brasil numa moção da ONU condenando as bárbaras execuções ordenadas por seu governo.

Fidel Castro: ficou no poder por 49 anos antes de ficar doente e ter de passá-lo ao seu irmão; fuzilou a maioria dos seus antigos companheiros da Sierra Maestra e, a seguir, seus opositores. Suas tropas participaram diretamente de gerrilhas em diversos países; treinou, financiou e deu cobertura dilomática a inumeros grupos terroristas. Com o poder consolidado, passou a fuzilar menos e prender todo e qualquer critico. Lula estava em Cuba, festejando com os carceireiros, quando um deles, em greve de fome, morreu. Comparou-o, e aos demais prisioneiros politicos de Cuba, com bandidos comuns presos no Brasil.
Para Lula, Fidel é o único mito vivo da humanidade e construiu isso com “competência e caráter”.
Hugo Chavez: age há 11 anos como dono da Venezuela; fecha jornais e TVs que ousam criticá-lo, estatiza empresas e bancos, financia governos “bolivarianos” por toda a América Latina e culpa o “Império” por tudo que incomoda o mundo, da dor de dente aos terremotos.
Para Lula, “sem dúvida, Chávez é o melhor presidente que a Venezuela já teve nos últimos 100 anos” e o problema da Venezuela é o “excesso de democracia”.

Robert Mugabe: ha 30 anos no poder no Zimbabue, isolado pela comunidade internacional em represália à violência e corrupção de seu governo e pela acusação de financiar o terrorismo internacional, Mugabe ganhou de Lula um presente precioso na véspera dos seus 86 anos, num encontro dos dois no Irã de Ahmadinejad: um jogo amistoso da seleção brasilera na véspera da Copa do Mundo.
O ditador decretou feriado, lotou seu estádio, posou ao lado de Kaká e passou semanas faturando o evento.
“Devemos isso ao Lula. Ele tem apoiado muito o Mugabe“, comemorou o seu assessor de gabinete, Mike Chando.
Mugabe é um homem de princípios: não faz mas rouba. Sempre. Sua seleção está no 113ro lugar na classificação da Fifa. O estádio estava cheio. Mas os US$ 640 mil (R$ 1,08 milhão) coletados pela bilheteria nunca foram encontrados nas contas da Federação de Futebol do Zimbábue. A empresa que patrocinou o jogo está processando a entidade até hoje em tribunais suíços.

Islam Karimov: está no poder no Uzbequistão desde 1989, governa pelo terror com uma polícia temida e odiada pela população por sua brutalidade e corrupção. O Conselho de Direitos Humanos da ONU o acusa de praticar tortura, aceitar o trabalho infantil e perseguir jornalistas e muçulmanos.
Lula o recebeu em Brasília alegando querer “promover um maior engajamento entre os dois países”.

Paul Bya: é o dono da Republica dos Camarões há 28 anos; saqueia implacavelmente seu país e passa férias no sul da França, onde gasta mais de 40 mil euros por dia. A renda media nacional em Camarões é de 700 euros por ano.
Em visita ao país, Lula comemorou com o ditador num banquete as suas “afinidades eletivas”.

“Mel” Zelaya: Tentou aplicar um golpe de estado para permanecer no poder alterando na marra a constituição de Honduras, mas não deu certo. Foi barrado no Legislativo, “impedido” pelo Judiciário e destronado pelos militares. Graças a articulações do coronel Chavez, da Venezuela, e da camarilha sandinista da vizinha Nicarágua, conseguiu fugir e infiltrar-se, com companheiros armados, na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, que os recebeu “docemente constrangida”.
Com o beneplácito de Lula, permanceu lá, cercado pelas autoridades de seu país, até que ele e Chavez esgotaram todas as tentativas de reinstalá-lo no poder e garantiram-lhe a fuga de Honduras.

Teodoro Obian Nguema Mbasogo: tomou o poder na Guiné Equatorial por meio de um golpe de Estado há 31 anos e, desde então, comporta-se como um reizinho despótico. Para a ONG Human Rights Watch, é um dos ditadores mais corruptos e violentos do mundo.
Quando foi levar-lhe pessoalmente o “apoio do Brasil”, Lula, depois de atravessar uma cidade miserável, posou para os fotógrafos como uma rainha, à direita do trono de sua majestade, num suntuoso palácio protegido por tanques de guerra.

Aleksander Lukashenko: no poder desde 1994 na Belarus é conhecido como “o último ditador da Europa”. Como Ahmadinejad, adora fazer declarações antisemitas. As eleições em que se consagrou vencedor mais uma vez, há quatro anos, foram chamadas de “uma farsa” pelo Conselho da Europa, principal organização de direitos humanos do continente.
Recebido no Brasil pelo presidente Lula, afirmou que “os dois países pensavam de maneira parecida”.

Omar Bongo Ondin: governou o Gabão, país rico em petróleo, com mão de ferro por 42 anos, até sua morte, no ano passado. Muito dinheiro e violência o mantiveram por tanto tempo no poder. Com o lucro do petróleo, ele comprava aliados e mandava matar opositores.
Lula desfilou em carro aberto ao lado do ditador quando visitou o país.
Este post foi inspirado no que foi publicado em julho do ano passado no blog O Candango Conservador (aqui)
O xerife chegou! Quem não é bandido?
16 de fevereiro de 2011 § 3 Comentários
José Mariano Beltrame
Dá quase pra pegar com as mãos a tensão que ronda a polícia carioca. E a adrenalina corre solta não só entre seus funcionários como também entre seus patrões.
Alguém decidiu – até que enfim – começar a limpeza sem a qual os avanços na segurança publica de que o povo do Rio de Janeiro já sinalizou que de jeito nenhum abrirá mão começaria a descer pelo ralo desde já, como provam as filmagens e gravações que mostram policiais que participaram de operações para a implantação de UPPs saqueando não só as propriedades dos traficantes em fuga mas também as quinquilharias dos barracos de cidadãos comuns que estavam no caminho das tropas.
Esse grau de desfaçatez, diga-se de passagem, mostra o ponto a que chegou a septicemia que contamina as polícias cariocas que não se pejam de exibir a sua rapacidade mesmo em operações praticamente transmitidas ao vivo para todo o país, das quais participavam outros agentes civis e militares estranhos àquele ambiente podre.
Enfim, não é de hoje que se sabe que, se o crime organizado, em qualquer lugar do mundo, só pode ser explicado pela corrupção das forças de segurança do Estado que SEMPRE têm condições materiais e força de sobra para eliminá-lo completamente se houver vontade politica para tanto, o do Rio de Janeiro só pôde ocupar fisicamente pedaços inteiros da cidade porque contava não só com a corrupção mas também com a aliança explícita das forças de segurança.
Agora, com décadas de atraso, ensaia-se uma limpeza.
Carlos Antônio de Oliveira
Bravo! É assim que se faz! Nenhum avanço na segurança publica do Rio se sustentará sem ela. Alkmin baixou os índices de criminalidade de São Paulo à metade dos do resto do Brasil instituindo o rito sumário para o julgamento de policiais corruptos e limpando o grosso da sujeira da sua polícia. A imprensa inteira e mais os “especialistas” das universidades que gostam de condicionar a criminalidade a “causações” de ordem econômica e social o negam, mas esta é que é a verdade histórica.
Esperemos que o Rio lhe siga o caminho e o resto do Brasil venha atrás.
Mas desde o primeiro momento o problema com que se deparam as autoridades cariocas é como limitar as “quedas” num sistema que está podre de alto a baixo antes que elas incendeiem toda a hierarquia dos três poderes estaduais, contaminados de alto a baixo pela rede de cumplicidades e omissões que explicam a tragédia carioca.
Se tivesse se detido diante de Allan Turnowski a “Operação Guilhotina” teria se revelado menos que uma velha gilete enferrujada já que é impossível supor que um velho profissional da desconfiança, como deve ser um Chefe da Policia Civil de um Estado como o Rio de Janeiro, não tivesse notado qualquer sinal do envolvimento de seu “braço direito” – o delegado Carlos Antônio de Oliveira preso sexta-feira junto com mais 37 policiais corruptos – com o crime organizado e as milícias que disputam com os traficantes pedaços do território do Rio de Janeiro.
Ainda assim, demorou quatro dias para que o chefe do policial criminoso fosse arrastado para fora da posição a partir da qual dava cobertura ao seu subordinado, além de entregar, ele próprio, as operações em preparo pela polícia à bandidagem, conforme gravações de que a Policia Federal e o governador do Rio têm conhecimento há vários meses.
Allan Turnowski
Por que?
Porque sua imediata reação à prisão de seu protegido foi determinar, em represália, a invasão e a devassa da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas – Draco – chefiada pelo delegado Claudio Ferraz, promovido dias antes pelo secretario Jose Mariano Beltrame que é quem comanda a operação de limpeza da policia carioca. E como dificilmente alguém na polícia do Rio deixa de ter ao menos a sua meia dúzia de telhas de vidro, teve de haver uma negociação para esta rendição sem maiores tiroteios.
O próprio governador Sérgio Cabral, chefe de todos esses policiais – os presos e os ainda soltos – teve o cuidado de se ausentar do Rio de Janeiro enquanto a Policia Federal agia no seu terreiro. Emudeceu pelos mesmos quatro dias em que Turnowski ficou esperneando e, depois de sua queda, falou afinal. Primeiro pondo todas as responsabilidades passadas, presentes e futuras sobre os ombros largos do secretario Beltrame e, depois, dando o recado de que, de agora em diante, polícia será só caso de polícia no Rio de Janeiro, sem o envolvimento de mais ninguém.
Por que teve de dizer isso? Porque até hoje não foi assim. A cadeia de cumplicidade subia pela Câmara de Vereadores e pela Assembleia Legislativa, onde se homiziam notórios representantes do crime organizado com nomes e endereços devidamente identificados e extensos dossies de provas de suas atividades como donos de milícias ou como agentes do tráfico de drogas.
E não parava aí: a rede subia até o palácio do governo, nos tempos do casal Garotinho, e estendia seus tentáculos até o Congresso Nacional. Até que ponto isso mudou é algo ainda por ser conferido. Mas desde sempre está claro que para as coisas terem chegado a esse ponto muito pouca gente – se é que alguém está imaculado nesse esquema – escapa de algum grau de culpa no cartório, seja nas policias, seja no Legislativo, seja no Judiciário, seja no Executivo cariocas.
O Rio de Janeiro vive, aos quase 500 anos de idade e na condição de grande metrópole, aquele momento clássico dos filmes de caubói em que um xerife finalmente chega ao vilarejozinho da fronteira dominado pelos bandidos. E, como naqueles filmes, a população, cansada de apanhar, já mostrou que está disposta até a pegar em armas para lutar ao lado do xerife.
Difícil vai ser conte-los antes que cheguem tão alto quanto foi a cadeia de cumplicidade e omissão que jogou a cidade no fundo do buraco do qual está começando a sair.

Porque as UPPs me revoltam
8 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Em menos de duas horas e sem disparar um único tiro a polícia ocupou mais nove das favelas cariocas que Leonel Brizola entregou ao crime organizado ao proibir toda e qualquer incursão policial nos morros nas duas vezes em que foi governador do Rio de Janeiro, de 1983 a 87 e de 1991 a 94.
Foi só a autoridade constituída mostrar que a disposição de exercê-la desta vez é pra valer que desapareceu a “valentia” dos chefões. Agora as até ontem “inexpugnáveis” cidadelas do tráfico nas favelas cariocas mostram cada uma mais pressa que a outra em se auto desmantelar.
Faz todo sentido porque para controlar o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, como em qualquer outra cidade do mundo, não é nem nunca foi necessário controlar os territórios que o Estado manteve livres para quem quisesse se candidatar a ocupá-los nos últimos 20 anos ou mais. Armar e manter os exércitos particulares necessários para fazê-lo era um luxo que os traficantes cariocas se davam porque podiam arcar com ele apenas para desfrutar a sensação de onipotência que lhes proporcionava o poder de vida e morte e o exercício impune do terror permanente sobre os quase dois milhões de favelados do Rio de Janeiro, graças à corrupção do Estado brasileiro.

O que explica a bestialidade das guerras que fizeram a triste fama da antiga cidade maravilhosa, portanto, são vaidades primitivas em busca de poder deixadas livres para se lambuzar no sangue do povo por políticos corruptos. Os componentes sinistramente carnavalescos da iconografia pejada de ouro que nos permite entrever o universo mental desses brutais “imperadores” dos morros cariocas não deixa duvidas quanto à “psicologia” que inspira o fogo cruzado no meio do qual o Rio se acostumou a se esgueirar nas últimas duas décadas.
Como todas as grandes manchas negras da nossa História, esta é mais uma das que só começou a ser apagada pelos “heróis” domésticos quando o mundo lhes impôs uma atitude. Assim como a escravidão só começou a cair, entre nós, depois que a Inglaterra impôs um bloqueio naval ao país, nossos políticos só se dignaram a gastar um minuto de seu tempo com a tragédia dos descendentes desses escravos e outros desvalidos do Rio de Janeiro e com as rebarbas que dela sobravam para o resto dos cariocas (sim, porque o descaso deles para conosco é democraticamente amplo, geral e irrestrito) quando o governo Lula foi avisado pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Fifa de que ela poderia vir a constituir um bloqueio para a Olimpíada e a Copa do Mundo por ele contratadas.
“Mulheres de malandro” exibem no Orkut presentes dos chefões
Eis porque essa tão comemorada “virada” e toda a exploração política que agora se faz em cima dela, em vez de aplacar, aguça ao nível do insuportável a minha indignação e a minha revolta.
O rio de sangue que correu; o caudal de tragédias e felicidades destroçadas nestes mais de 20 anos; os traumas a serem lentamente purgados pelas próximas gerações dos milhares de familiares e amigos das vítimas dessa guerra inútil – é o que comprova esta sucessão de debandadas dos “imperadores” dos morros – é tudo um imperdoável desperdício que poderia ter sido evitado desde o primeiro momento por um simples ato de vontade dos grandes patronos do crime e artífices das recorrentes tragédias brasileiras que são essas figuras trêfegas que, no momento como a cada quatro anos desde o restabelecimento da Republica, nos oferecem o deprimente espetáculo da falta de pudor e da sofreguidão com que disputam os pedaços do que é nosso.
Continua sendo dado aos conhecidos predadores de sempre a condição objetiva de ignorar olimpicamente tudo que nos aflige e de engatilhar nossas desgraças futuras, graças à inexpugnável blindagem que vem junto com o diploma de investimento do titular em qualquer cargo publico no Brasil, seja por eleição, seja por nomeação.
É tão completa a impotência do cidadão brasileiro diante dos seus “representantes” e “servidores” que nosso sistema político é mais suscetível às pressões internacionais que às dos seus próprios eleitores, e só ela tem nos redimido do pior quando as consequências do nosso aleijão político chegam ao paroxismo.


A velha cortina de fumaça atrás da qual eles se escondem com a cumplicidade de uma imprensa relapsa que cede fácil demais à manipulação pelas fontes e ajuda o publico a esquecer que é disso que se trata, está muito bem resumida na arte que acompanha a matéria da Veja desta semana sobre “A Cara do Congresso”:
- dos 513 congressistas recém diplomados, só 36 se elegeram com votos próprios; os outros 477 ganharam o mandato e a garantia de impunidade que vem com ele tomando carona no mecanismo fraudulento que aqui se conhece como “coeficiente eleitoral”;
- 80 dos novos deputados são filhos, netos, sobrinhos ou cônjuges de outros políticos e 288 foram reeleitos, duas indicações seguras de que, uma vez alcançada a condição de assaltar a coisa publica de dentro fica mais fácil conseguir os milhões necessários para comprar eleições num sistema tão distorcido como o nosso e seguir para a segunda etapa que é tornar vitalício e hereditário o desfrute desses privilégios;
- 71 dos novos deputados já se elegeram na condição de réus por crimes de improbidade na Justiça brasileira, aquela onde os julgamentos de quem pode pagar por esse “serviço” nunca chegam ao fim mas que, ao mesmo tempo, afirma o preceito de que só há culpa para os réus julgados até esse nunca alcançável ultimo recurso;
- no quadro das distorções regionais de que se valem os fugitivos da memória do publico para lhes impor sua volta recorrente ao poder, um voto em Roraima vale 12,5 vezes o que vale o voto de um paulista.
A libertação da condição de escravos dessa canalha começa pelo mecanismo destacado na segunda arte da mesma matéria da Veja, que explica o funcionamento do voto distrital, a ferramenta inventada ha 126 anos pelos ingleses (1885) para deixar mais claro quem representa quem numa democracia “representativa”, de modo que uns possam controlar o comportamento dos outros.
Sem esse primeiro passo elementar, que é mais que tempo de exigir, não da para começar a sonhar com um Brasil melhor.

“É proibido proibir”
14 de janeiro de 2011 § 1 comentário

A raiz de tudo está lá atrás: se não ha escolha real; se tudo é “causado” pela nossa história e pelas circunstâncias que cercaram a existência de cada um de nós, nenhum homem merece reprovação, seja qual for a abominação que pratique. Descartado o livre arbítrio, não existe responsabilidade. Não se aplicam os julgamentos de valor. Não ha certo nem errado. Não ha mérito nem há culpa. Não ha crime nem deve haver castigo.
Logo, “é proibido proibir”!
Por todos os lados que se olhe, a geração que acreditou nesse engano está pagando caro pelo seu erro.
Do mergulho da juventude no nada à epidemia da corrupção e do crime, tudo nasce aí.
Mas isso são só as manifestações extremas do fenômeno.
O próprio processo democrático tratou de disseminar essa distorção por todo o tecido social. A crise financeira que afeta todo o Ocidente (e mais que ele) é uma consequência sistêmica desse desvio. Afinal, como eleger-se propondo acabar com a festa numa cultura onde a suprema heresia é ousar dizer “não”?

Foi surfando essa onda que a Europa foi do Plano Marshall ao welfare state cevando gerações inteiras na falsa ideia da desconexão da causalidade entre “ter” e “fazer”; negando a realidade, adiando os ajustes, endividando netos e bisnetos, comprometendo a saúde do mundo.
E com que fúria reage, agora, ao imperativo de cair na real!
E os americanos, então? Estão começando a pagar os 30 anos que se permitiram fechar os olhos para as consequências da revolução tecnológica que enfiou a Ásia no quintal das suas casas, roubando seus empregos, roendo aos poucos o poder de compra dos seus salários.
Quem se proporia a ser “o chato” a chamar a atenção para as realidades desagradáveis? Como se eleger na terra do “Compro, ergo sunt”, senão anabolizando o crédito com doses “generosas” de demagogia política para que a festa continuasse e a conta fosse jogada para algum lugar no futuro, a que finalmente chegamos em 2007?

Ha um longo aprendizado pela frente. O processo de reeducação está só começando. Uma cultura profunda de demonização do “não” subsiste e ainda vai cobrar seu preço. Associada, então, à varinha mágica do computador que produz milagres ao toque de um botão, tende a fazer da menor contrariedade uma derrota insuportável.
Uma parcela ainda crescente da humanidade – a que pode dar-se esse luxo – espera a realimentação automática de qualquer vontade manifestada e toma qualquer posicionamento crítico como anti democrático.
A autoproclamada “utopia googleiana”, que o mundo endossa e realimenta com milhões de dólares por segundo, é a síntese matemática da ideologia do repudio ao não.
“A crítica é anti democrática” – decretam “os fundadores” Larry Page e Sergei Brim. “Nada de julgamentos de valor! Tratemos da satisfação automática de qualquer desejo que ponha o nariz para fora da toca do inconsciente. Diga-nos metade do que você vagamente quer e nós adivinharemos o resto. Mais! Aprenderemos o que você costuma querer para antecipar os seus desejos e empanturra-lo de satisfação. Compre uma vez e nós o faremos comprar sempre. Esboce um vago querer e nós correremos atrás dele para você. Prometemos-lhe doses pantagruélicas, no milésimo de segundo, sem críticas nem perguntas. Qualquer coisa entre o sublime e o ignóbil; qualquer coisa entre o céu e o inferno só é e só vale segundo a quantidade de vezes que é desejada”.

“É proibido contrariar. É proibido reprovar. É proibido resistir”.
(…)
O Brasil está casado com a impunidade.
Aqui não ha corrupção; ha profissionais negociando “governabilidade”. Aqui não ha criminosos; ha “infratores” de regras “polêmicas” (ou “controvertidas”; depende do jornal que você lê). Nem a vida é um valor absoluto. Tudo depende de a quem ela pertencia e quem acabou com ela…
Não ha regra sem exceção nem lei que não possa ser violada.
Os mortos das enchentes de cada verão são parte dessa conta. Pingadinhos nos anos bons; às centenas nos anos ruins; aos milhares quando deus quer, estarão sempre onde vêm sendo colhidos porque “é proibido proibir”.

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