Uma “causa” para todo esse protesto – 2

18 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

Ficou capenga o meu artigo de ontem sobre a ausência de foco das manifestações que se espalharam pelo mundo a partir do Occupy Wall Street iniciado em Nova York ha um mês.

Eu critiquei o artigo de Nouriel Roubini por mencionar como solução a situação ideal com que todo mundo sonha, muito ao estilo dos políticos brasileiros, mas sem dar nenhuma sugestão sobre como chegar lá.

Mas acabei fazendo a mesma coisa que ele. Fiquei apenas na enumeração daqueles entre os pleitos dos manifestantes que, ainda que muito justos, não são solução para o problema. E apenas indiquei que a solução não está no Ocidente, onde se acumulam as piores consequências do processo ora em curso no mundo, mas sim na Ásia, onde ele se origina.

Recordo a síntese de que processo é esse.

Ao jogar no mercado de trabalho 2,3 bilhões de novos braços pagos a preço vil, a China e a Índia (assim como os países menores que engrossam essa conta), aviltaram o valor do trabalho no mundo todo sem aumentar de forma correspondente o numero de consumidores porque o que esse novo contingente ganha mal dá para viver.

Há muito mais trabalhadores e cada vez menos demanda.

A única maneira de reequilibrar o quadro é ajudar esses trabalhadores a serem melhor remunerados o quanto antes porque a lei do mercado sempre acerta as contas por baixo. O consumidor compra o bem mais barato, que é o produzido pelo trabalhador mais mal pago, e assim os trabalhadores bem pagos, que é a outra identidade dos consumidores, acabam sendo expulsos do mercado. Disso resulta, ao longo do tempo, que todos os salários do mundo são rebaixados até encontrar o nível em que serão capazes de concorrer com os dos trabalhadores chineses e indianos.

Ora, salários baixos são, em última instância, sinônimo de falta de democracia. Quanto mais democracia, mais poder de reivindicação e mais direitos conquistados. O inverso também é verdadeiro. Só debaixo de pau é que se consegue segurar a insatisfação de quem se mata de trabalhar por nada ou, pior ainda, de quem fica sem emprego nenhum.

Logo, se quiserem manter os seus direitos, os seus salários e a sua democracia os trabalhadores do Ocidente terão de se organizar politicamente para ajudar a acelerar a libertação dos trabalhadores semi escravos da Ásia, boicotando o consumo do que eles produzem e trabalhando ativamente pelo aumento dos direitos e dos salários deles.

Impossível?

E quem diria que seria possível levar, em menos de um mês, uma manifestação local a se transformar numa manifestação global? Não são as próprias empresas ocidentais, ao alcance da pressão direta de seus conterrâneos, as que mais se servem desses trabalhadores semi-escravos da Ásia?

É o mundo aqui fora que terá de fazer campanha salarial pelos trabalhadores chineses e denunciar quem os explora no Ocidente para aumentar seus lucros. O empenho da China em censurar a internet, o que felizmente é tecnicamente impossível, não é outra coisa, aliás, senão uma confissão da vulnerabilidade que ela sente a campanhas de mobilização por mais direitos (= a mais salários) vindas de fora da sua “muralha” que ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, começarão a acontecer.

É hora, portanto, de tratar de criar um foco para essa mobilização mundial que já se provou possível.

O caminho para isso é uma política comercial e uma atitude de consumo condicionadas a uma política de direitos humanos, nos níveis governamentais, e uma política sindical globalmente sincronizada para exigir a elevação do nível mínimo de direitos e salários ao menos nas industrias que fabricam bens de consumo global.

E a melhor contribuição que pode dar quem analisa profissionalmente esse problema é demonstrar exaustivamente o seu componente essencial, qual seja, o de que neste novo mundo sem fronteiras o salário do trabalhador de Nova York ou de Geneve, será determinado muito mais pelo que a Foxconn estiver pagando em Shenzhen do que por qualquer ação política cosmética ao alcance do presidente Obama, do Congresso dos Estados Unidos ou do comando da União Européia em Bruxelas.

Uma vez comprendido esse dado incontornável da realidade, o resto fica mais fácil.

Uma “causa” para todo esse protesto – 1

17 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

Já não é mais Jim Stark nem Marlon Brando. O mundo virou um rebelde sem causa.

A vida imita a arte…

O site da Al Jazeera em inglês trazia, neste fim-de-semana, artigo bastante didático de Nouriel Roubini (aqui) sobre “a onda global de agitação política e social” na qual ele inclui “a Primavera Árabe, a onda de saques em Londres, os protestos da classe média de Israel contra a inflação e a deterioração do padrão de vida, os protestos dos estudantes chilenos, a onda de depredação de automóveis de luxo na Alemanha, o movimento contra a corrupção na India, a crescente insatisfação com a corrupção e a desigualdade na China e, agora, o movimento Occupy Wall Street que saltou de Nova York para o mundo”.

Para Roubini, o que eles têm em comum é que todos expressam, de alguma forma “a angustia das classes média e trabalhadora do mundo todo diante do que advém para elas da crescente concentração de poder e riqueza nas mãos das elites financeira e política, qual seja, o desemprego e o subemprego crescentes, a inadequação dos sistemas de educação da juventude para a realidade globalizada, o ressentimento generalizado contra a corrupção e o aprofundamento acelerado da desigualdade social”.

Ele é preciso, também, na identificação da causa essencial (ainda que não a considere a única) do processo que levou à crise.

“A súbita adição de 2,3 bilhões de trabalhadores chineses e indianos à força de trabalho global reduziu drasticamente o número de empregos para trabalhadores não especializados e levou à exportação dos empregos de nível médio dos países industrializados (o que reduziu a capacidade de consumo de uma ampla parcela da população). Nos países anglo saxões a resposta (dos políticos) foi democratizar o crédito (o que forçou o aumento da alavancagem financeira e eventualmente desencadeou a crise). Na Europa, o buraco entre as aspirações e a real capacidade de consumo foi preenchido com serviços públicos como educação e saúde (aposentadorias e redução da carga de trabalho) que não eram financiados pela real arrecadação, o que inflou o déficit publico”.

Roubini não chegou a mencionar o último e potencialmente mais perigoso elemento dessa equação que é o que o mundo está descobrindo agora. Não é só o Ocidente que está viciado em crédito barato direta ou indiretamente subsidiado pelo Estado. Também o crescimento chinês tem sido fortemente anabolizado por um nível de financiamento da produção e do consumo determinado por cálculos políticos e não sustentado por cálculos econômicos, com consequências semelhantes às que esse tipo de expediente teve no resto do mundo que agora começam a fugir ao controle do Partido Comunista Chinês.

Nada de muito diferente disso está acontecendo também, é bom lembrar, nos chamados BRICs ou, pelo menos, no primeiro inspirador da sigla, o Brasil de Lula, onde a sustentação do crescimento também tem sido feita à força de facilitação do crédito para consumo por iniciativa do governo, sobretudo nos períodos pré-eleitorais. A diferença, no caso brasileiro, é que, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, os governos petistas partiram de uma situação em que os bancos estavam completamente saneados e sob rígido controle da fiscalização, tudo obtido pelos sempre apedrejados PROER e ajuste das finanças do Estado executados pelo antecessor do PT na presidência, às custas da mesma (inevitável) “década perdida” que agora se inicia para os países centrais.

O que eles podem aprender de útil com o Brasil, portanto, é como sanear as finanças públicas e colocar o sistema financeiro sob controles confiáveis e não como por em risco esse patrimônio inestimável decretando que a vontade pessoal dos governantes está acima das leis da aritmética e gastando tanto mais quanto mais se aprofundar o buraco da dívida pública como a nossa Dilma tem recomendado que façam aos seus incrédulos ouvintes pelo mundo afora.

Roubini, entretanto, é muito preciso na descrição do passado mas pouco criativo na especulação sobre o futuro.

Com a redução geral do poder de compra, as empresas das economias avançadas estão, agora, cortando empregos para ajustar a oferta. Mas cortar empregos enfraquece a demanda futura porque reduz a renda e aumenta a desigualdade. E como o trabalho, que é custo para as empresas, é renda para os consumidores, aquilo que parece racional para cada empresa individualmente é destrutivo quando olhado em conjunto”.

(…)

Para estabilizar as economias de mercado será necessário voltar a um balanceamento adequado entre os mercados e a oferta de benefícios públicos. O que quer dizer afastarmo-nos tanto do modelo anglo saxão de mercados sem regulamentação quanto do modelo baseado no endividamento público da Europa Continental. Mesmo a alternativa asiática de crescimento – se é que existe uma – não conseguiu evitar o crescimento da desigualdade na China, na Índia e onde mais esteja em desenvolvimento”.

Va benne

Só que para fazer as coisas se moverem não adianta dizer onde se gostaria de chegar. É preciso mostrar como é que se chega lá.

Como quase todo mundo que tem abordado essa charada no Ocidente, Roubini, do meio para o final de seu artigo, deixa-se arrastar para a discussão ideológica em torno do problema. E os debates ideológicos não são travados em torno da questão “como resolver um problema?” mas sim em torno de “como explorar as consequências de um problema para se afirmar no poder?“, seja ele o poder político, seja o da disputa pela hegemonia de uma linha teórica sobre outra nos arraiais intelectuais.

Logo, vamos ao que interessa:

Sim, a adição de 2,3 bilhões de novos braços a uma força global de trabalho que antes não contava nem um terço desse total – adição da qual as novas tecnologias de comunicação foram o veículo – tem necessariamente de provocar a diluição que provocou.

Fixar os olhos nesse dado fundamental já é um grande passo na direção de buscar o foco sem o qual a mais ampla mobilização popular de que o mundo tem notícia em muitos anos não deixará de ser o que é por enquanto: apenas um desperdício barulhento.

É preciso, agora, identificar com precisão o que de fato é capaz de mitigar os efeitos dessa diluição.

  1.  A taxação progressiva da riqueza, penalizando proporcionalmente mais os mais ricos não vai resolvê-lo. Vai apenas tornar menos injusta a repartição das perdas que todos continuaremos a sofrer. É uma satisfação obrigatória que precisa ser dada rapidamente à ponta dos que mais estão sofrendo com a crise para que ela não degenere em espasmos de ódio sem controle. Mas não é a solução do problema.
  2. Mesmo sendo urgentemente necessária, pelas mesmas razões acima e mais algumas, a reorganização dos controles do sistema  financeiro internacional também não será suficiente para reverter a crise. Se não bastasse a enormidade do numero referido – 2,3 bilhões de novos bolsos dividindo o mesmo bolo salarial – sobram as evidências de que o principal fator a determinar o crescimento em mestástese do peso do setor financeiro nas economias ocidentais foram os 30 anos de fusões e aquisições no setor de manufaturas e empresas em geral em todo o planeta de que ele foi apenas o agente operacional, ainda que regiamente remunerado.
  3. Essa onda de fusões e aquisições conduzindo a uma acelerada monopolização em todos os setores da produção e, portanto, a um processo de concentração aguda da riqueza e a um aumento avassalador da corrupção, por sua vez, ocorreu não em função de uma conspiração política ou de maquinações dos donos do dinheiro, mas como reação à entrada em cena do capitalismo de Estado chinês que, com a sua ação planetária de dumping salarial e monetário, tomou de assalto todos os consumidores do mundo inteiro.
  4. Tendo a economia planetária se tornado uma só e um sistema vazo comunicante, não ha como reverter esse processo de monopolização que, inevitavelmente e por definição massacra o consumidor e o trabalhador assalariado, a não ser que todas as economias de peso do mundo concordem em revertê-lo ao mesmo tempo. Quem tomar essa iniciativa sozinho será inapelavelmente excluído do mercado.
  5. A maior de todas as distorções do sistema hoje é a concentração de todos os ganhos nesse processo principalmente nas mãos do Estado chinês que já não sabe o que fazer com tanto dinheiro. Enquanto os 2,3 bilhões de trabalhadores que entraram no mercado não se tornarem consumidores (isto é, não tiverem seus salários e direitos igualados aos do resto do mundo) não será quebrado o círculo vicioso descrito por Roubini (“menos consumo levando a menos produção, menos produção levando a menos empregos e salários, menos salários levando a menos consumo…“). O processo terá de começar de novo a partir do ponto a que foi rebaixado com a entrada em cena dos 2,3 bilhões de novos trabalhadores. 
  6. Nenhum governo ou partido político do mundo poderá mudar nada de significativo nessa nova realidade sozinho. Se tivermos de esperar que todos os que estão atualmente no poder caiam por força dessa circunstância, os que estão na oposição subam e por sua vez fracassem nas suas tentativas solitárias, até que o mundo se convença de que o buraco é mais embaixo, ele já poderá estar tão fundo que não haverá mais como sair dele.
  7. Não ha como evitar a abordagem ideológica entre os profissionais do poder. Mas se ao menos a grande imprensa internacional voltasse a ter um mínimo de autonomia intelectual e voz própria como já teve no passado em vez de apenas amplificar as vozes dos que se digladiam pelo poder como tem feito até aqui, haveria ao menos um discurso objetivo e desinteressado em torno desse problema.

Isso poderia contribuir para que a força desse gigantesco protesto mundial ainda sem rumo se concentrasse sobre o alvo certo e a libertação dos trabalhadores da Ásia (ou das ásias do mundo) poderia ser acelerada.

Sem ela, não nos salvamos. Doravante é assim: ou crescemos ou empobrecemos todos juntos, dando-se o “estouro” de cada parcela nacional do todo da economia global com uma diferença apenas de meses.

O resto é embromação para enganar eleitor.

Nós, Steve Jobs e nossa circunstância

7 de outubro de 2011 § 1 comentário

Nossos heróis têm uma espada na mão ou uma corda no pescoço. É uma sina que compartilhamos com toda a latinidade, da mais sofisticada à mais tosca, porque para todos nós o inferno é a política.

Os heróis norte-americanos têm uma invenção na mão e, quase sempre, uma obra gigantesca e uma montanha de dinheiro a apresentar.

Nós temos os panteões de mártires ou de fazedores de mártires que trocam de lugar uns com os outros com frequência desconcertante dependendo do governo que os festeja em cada etapa de nossas histórias.

Eles têm os panteões dos empreendedores-inventores.

Napoleão, Pedro I, Bolívar, Tiradentes, Mussolini, Guevara…

Henry Ford, Sam Walton, Thomas Edison, Grahan Bell, Andrew Carnegie, Steve Jobs…

Nossos heróis são só nossos. Os deles acabam sendo de toda a humanidade.

Não ha precedente na morte de um empreendedor bilionário provocar uma onda de comoção universal.

Se Ford democratizou o transporte, Edison aparelhou cada casa com uma fonte de energia, Walton deu a todos a condição de se apresentar decentemente vestidos, Bell, a quem quisesse, a capacidade de se comunicar, Jobs deu a todos nós a capacidade de potencializar a força do pensamento e dar alcance ilimitado ao produto do nosso talento.

E fez isso com a simplicidade dos gênios, aliando a tecnologia à arte.

Ele inventava novos equipamentos como Mozart e Beethoven escreviam música“, cheguei a ler de um fã mais extremado. “E se o melhor do que Beethoven escreveu foi quando já estava surdo, quanto do que Jobs nos legou não foi inventado depois que ele recebeu sua sentença de morte oito anos atrás?

Mas das dezenas de coisas de e sobre Steve Jobs que li nestes últimos dias, uma em especial fez minha cabeça voar.

O pai biológico do homem que mudou para sempre o mundo como o conhecíamos é Abdul Fatah Jandali, muçulmano nascido em 1931 em Homs, ainda na Síria francesa, que emigrou bem jovem para os Estados Unidos. A história da trágica série de maldosos truques do destino que fez com que ele e Steve nunca chegassem a por os olhos um sobre outro em carne e osso eu relato na postagem na sequência desta.

É uma incrível trama de desencontros que foi preparando minha cabeça para o devaneio “roseano” (de Guimarães Rosa mesmo) a respeito da força do acaso a que acabei por me entregar depois que, ao chegar a uma das entrevistas que deu este ano na vã tentativa de fazer com que seu filho perdido concordasse em conhecê-lo antes de morrer, o velho Abdul, aos 80 anos, mencionou que se pudesse voltar no tempo jamais teria saído da Síria…

Foi o gatilho.

O que poderia ter sido “Steve” Fatah Jandali se tivesse nascido e passado sua vida na Síria? Haveria um Steve Jobs sem Silicon Valley, sem Stanford? Determinado apenas pela genética? Para que lado poderia ser canalizada toda a genialidade que deus lhe deu naquele ambiente oprimido há duas gerações pela brutal ditadura dos Assad?

Nós, cada um de nós, somos ou podemos ser, intrínseca, individual e solitariamente, alguma coisa? E o que seria o mundo hoje se o jovem Abdul tivesse feito o que hoje pensa que gostaria de ter feito?

Foi a lembrança de Jose Ortega y Gasset que me trouxe de volta à Terra: “Eu sou eu e minha circunstância; e se não salvo a ela não salvo a mim“.

Não, Steve Jobs e a sua Apple só seriam possíveis na única democracia que a humanidade criou que elegeu como seu fundamento inegociável o culto incondicional ao mérito. Nada da história que o tornou célebre seria possível senão no único país que substitui o panteão dos mártires pelo panteão dos empreendedores-inventores.

Go west” foi o grito que simbolizou, no século 19, as esperanças de um novo começo e novas oportunidades numa terra virgem dos obstáculos e limites que tolhiam os súditos da Europa e até mesmo os norte-americanos do Leste.

Steve Jobs, de Cupertino, Califórnia, que plantou a primeira semente da maior empresa do mundo e reinventou a vida moderna numa garagem é o legítimo herdeiro dessa mentalidade.

Quantas tragédias individuais, quanto desperdício se poderia poupar à humanidade se fosse possível enterrar para sempre os sistemas de privilégio e disseminar o império universal do mérito, corolário obrigatório e indissociável do Estado de Direito de que tantos falam mas tão poucos realmente desfrutam!

Mas não é…

Go west” continua sendo a única alternativa para gente como os Jandali, da Síria, e a esmagadora maioria dos habitantes desta Terra de oprimidos de serem avaliados apenas pelo que se mostrarem capazes de construir.

Mas até quando?

O Economist desta semana faz uma incursão ao lado escuro deste universalmente festejado luar da inovação tecnológica que ninguém ousa apedrejar.

Designed by Apple in California, Assembled in China, é a frase que está gravada atrás de todos os produtos da fábrica de maravilhas de Steve Jobs.

A liderança econômica global dos Estados Unidos tem beneficiado uma fatia cada vez menor do seu próprio povo na ultima década … A autoestima do empreendedorismo americano hoje é corporificada pela Apple, o Google, o Facebook e a Amazon. De fato são todas companhias fabulosamente inovadoras, embora a gente se pergunte se, cada vez mais, elas não são a exceção e não a regra …

Empreendedorismo e inovação não são a mesma coisa. E ainda que a capacidade de inovação continue muito boa na economia americana, o problema do quão estreitamente os seus frutos são repartidos cresce todos os dias …

Apple, Google, Facebook e Amazon juntas empregam 113 mil pessoas, um terço do que estava na folha de pagamentos da GM em 1980 … o avanço da tecnologia fez, provavelmente, muito mais que o comércio para marginalizar a classe média e ampliar a desigualdade … a globalização beneficiou muito mais os acionistas das empresas e os seus banqueiros do que a massa dos que trabalham nelas …

… mas com todos os defeitos que eles realmente têm, seria injusto culpar os políticos americanos por tudo que está acontecendo: a crescente desigualdade, o declínio dos empregos para a classe média na indústria de manufaturas é um problema que envergonha todos os governos do mundo.

E se os Estados Unidos continuarem se apoiando apenas na sua vantagem tecnológica, é fácil prever que tudo isso vai acabar mal“.

Steve Jobs e suas criações não são apenas uma ilustração viva da malignidade dessa vertente do processo de inovação. Cada nova geração dos seus gadgets, cada nova funcionalidade que eles incorporam, quase cada novo aplicativo que eles assimilam é mais uma indústria que desaparece, é mais uma cadeia inteira de valor que é destruída. A indústria de PCs, a de foto e vídeo, a da música, a de telefones, a de publicação digital, estão entre as muitas que foram revolucionadas por ele. E por traz de cada uma dessas revoluções, terra arrasada.

Steve Jobs e suas criações simbolizam também o instrumental que universalizou as leis da economia antes de universalizar as leis da política que, na sua melhor acepção, é a força que estabelece os limites toleráveis da desigualdade, seja ela fruto do mérito, seja ela consequência da ignorância e da ausência de direitos, que são as armas que “as chinas” do mundo têm usado para arrastar de volta em direção à condição proletária as classes médias dos países mais adiantados.

Ironicamente, só a democracia americana poderia gerar o grau de inovação tecnológica que agora, indiretamente, ameaça destruí-la. A criatura, proverbialmente, se volta contra o criador…

Neste mundo de um só mercado de trabalho e um só mercado de consumo, cada vez mais, também as Nações são as Nações e sua circunstância e, se não salvam a ela, não salvam a si mesmas.

Não há mais ilhas isoladas de direito, de democracia e de bem estar material. Ou os temos todos, ou nãos os teremos nenhuns.

A democracia sobrevive à festa dos milionários? Façam suas apostas…

2 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Materinha do Wall Street Journal de terça-feira dá um retrato bem preciso da tradução prática do fim da legislação antitruste a que os Estados Unidos (e não só eles) foram obrigados desde que os grandes monopólios operados pelo capitalismo de Estado chinês entraram em cena com a sua operação global de dumping, que está forçando o mundo inteiro a participar de uma insana corrida de consolidações em todos os setores mais importantes da economia, sob o pretexto de ganhar a economia de escala sem a qual é impossível competir com eles.

A matéria corria assim:

O ano passado foi mais um grande ano para os milionários, embora o ritmo do crescimento do numero deles tenha diminuído um pouco.

De acordo com uma nova pesquisa do Boston Consulting Group publicada segunda-feira o numero de milionários no mundo aumentou 12,2% em 2010, alcançando um total de 12,5 milhões. (O BCG define como milionário quem tem US$ 1 milhão ou mais em dinheiro disponível para investimento, descontadas casas, bens de luxo ou participações em empresas próprias).

Os Estados Unidos continuam sendo os primeiros do mundo em numero de milionários, com 5,2 milhões deles, seguidos pelo Japão com 1,5 milhão, a China com 1,1 milhão e a Inglaterra com 570 mil. Singapura é o país que tem a maior “densidade” de milionários, com 15,5% de sua população dentro dessa categoria.

A tendência mais importante que esses números revelam diz respeito à distribuição global das riquezas. Os milionários representam 0,9% da população mundial mas controlam 39% das riquezas do mundo (eram só 37% um ano antes). Eles detêm, hoje, US$ 47,4 trilhões em dinheiro livre para investimento, numero que, em 2009, era US$ 41,8 trilhões.

Os que estão mais altos na pirâmide dos milionários foram os que mais ganharam. Os que têm US$ 5 milhões ou mais, que representam 0,1% da população do planeta, detêm 22% de toda a riqueza mundial, numero que subiu de 20% em 2009.

Nos Estados Unidos, os milionários controlam 29% da riqueza nacional. No Oriente Médio e na África, essa proporção gira em torno de 38%. E como nos Estados Unidos ha um numero muito maior de milionários do que nessas regiões, a riqueza, embora muito concentrada, está mais espalhada entre eles.

Mas por qualquer ângulo que se olhe para os números levantados pelo BCG, eles confirmam uma tendência que não se altera ha anos: a ascensão global da economia em que o vencedor leva tudo”.

A alegação, como ficou dito acima, é que sem economia de escala é impossível enfrentar a competição chinesa. E é uma afirmação verdadeira. A má notícia é que isso não é suficiente. Mesmo com a crescente monopolização de todas as economias nacionais e a opressão da massa dos consumidores que isso implica, continua sendo impossível competir com os monopólios chineses que, por cima da economia de escala, têm a imbatível vantagem de pagar salários esquálidos para trabalhadores que ainda não se revoltam contra isso porque até pouco antes, recebiam salários de fome ou simplesmente trabalhavam como escravos para o Estado.

Esta é a razão pela qual ao fim de décadas a fio de recordes sucessivos no numero de operações de fusão e aquisição de empresas que antes concorriam entre si (merges and aquisitions), fenomeno que desencadeou um processo de elefantíase no setor financeiro de todas as economias do mundo (são eles que operam essas fusões ganhando fortunas a cada passo em cima de produção zero de novos bens reais) os monopólios que daí resultam acabam requerendo, ainda, monstruosos aportes de dinheiro publico para não irem à rasca diante do dumping praticado por seus concorrentes chineses na disputa pelos mercados globais.

Consumidores e assalariados estão, portanto, num jogo de perde-perde, determinado por aquela insolúvel sinuca que o vulgo brasileiro descreve com perfeição no dito “se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.

Onde antes havia centenas de empresas empregando trabalhadores, hoje ha uma, duas ou no máximo três gigantes que, por empregarem uma massa de dezenas de milhares de trabalhadores antes distribuídos entre dezenas de concorrentes, tornam-se “grandes demais para quebrar”, sob pena de, se isso acontecer, precipitarem crises sociais que nenhum governo que dependa de eleições tem condiçōes de assimilar.

Ou seja: sob o chapéu de “trabalhador”, você fica na mão de um único empregador, com força suficiente para arrochar o seu salario o quanto achar necessário ou conveniente, porque você não terá outra alternativa de emprego; sob o chapéu de “consumidor”, você fica na mão de um único fabricante ou distribuidor daquele bem, que pode subir seu preço quanto achar necessário ou conveniente porque não terá competidores para limitar sua ganância; e sob o “chapéu” de pequeno produtor de bens intermediários ou matérias primas para esses gigantes, você ficará nas mãos de um único comprador ou distribuidor, que poderá jogar sua oferta lá para perto do chão porque você não tem para quem mais oferecer o seu produto.

Com a crescente insatisfação e desespero que isso causa, as sociedades nacionais se dividem e conflagram na busca de “culpados”, procurando-os sempre em quem está perto, o que faz a festa dos demagogos que, graças a isso, encontram mais e mais espaço na política. E enquanto todos se chutam uns aos outros acusando-se mutuamente de exploradores ou de cumplices dos exploradores, a China, em quem ninguém ousa tocar porque, mesmo sendo o foco original de todo esse desarranjo, é um cliente grande demais para que possa ser retaliado, segue nadando de braçadas.

Olhando-se para o futuro, ha duas hipóteses: ou esse quadro melhora porque os chineses conseguirão se organizar e ter força para fazer suas reivindicações valerem contra o partido único que os mantem sob férreo controle, até receberem salários competitivos com os dos trabalhadores do lado do mundo onde ha quase dois séculos se vêm acumulando conquistas trabalhistas, ou o rebaixamento geral dos salários para aproximá-los dos padrões chineses, a concentração extrema da riqueza, a corrupção que disso decorre e a crescente simbiose entre governos e super empresários acaba transformando o mundo inteiro em algo parecido com o que a China é hoje, do ponto de vista político.

Façam suas apostas.

“Nós sabemos quem voce é; nós sabemos o que você faz”

25 de abril de 2011 § 2 Comentários

Quando os lobos e os leões tentam devorar um ao outro sempre sobra alguma coisa de útil para os cordeiros aqui de fora que deixam temporariamente de ser o menu.

A briga entre Rupert Murdoch, o rei da old mídia, com Steve Jobs e a dupla de canídeos que criou a Google, os reis da new mídia, é um desses casos: acaba por revelar antecipadamente ao menos com que tipo de tempero eles pretendem nos devorar na próxima rodada do banquete.

O Wall Street Journal, que Murdoch tragou em 2007, tem, de fato, feito o melhor trabalho jornalístico da praça para desvendar aquilo que os alquimistas dos telefones inteligentes prefeririam manter escondido. Foi esse jornal que revelou ha cerca de seis meses, em matéria impecavelmente apurada e espetacularmente detalhada, como os sites todos por onde navegamos, inclusive o do próprio WSJ (coisa de que seus jornalistas até então não sabiam e denunciaram junto com os demais investigados), plantam, cada um deles, dezenas, às vezes centenas de programas espiões nos nossos computadores que, daí por diante, relatam-lhes o que fazemos internet afora. E revelou também como os fabricantes, os provedores de internet, os fornecedores de aplicativos e outros dividiam entre si o dinheiro que amealham armando e vendendo o produto dessas emboscadas cibernéticas de que todos somos vitimas, na maioria das vezes sem sabermos.

Na semana passada o WSJ fechou o foco em novas e bombásticas revelações. Ele mostrou que tanto a Google (que “motoriza” celulares de diversos fabricantes com o seu sistema Android) quanto a Apple com seus iPhones e outros gadgets animados pelo sistema iOS, monitoram até os deslocamentos físicos dos portadores de seus telefones. Informações cruzadas contendo marcações de GPS, de distancia de torres de conexão e informações sobre as chamadas que você faz colhidas “a cada poucos segundos” são remetidas para a Google diversas vezes por hora”. A Apple já tinha sido flagrada fazendo a mesma coisa e, no ano passado, intimada pelo Congresso dos Estados Unidos, admitiu que essas informações eram remetidas para a sua central “duas vezes por dia”.

As duas empresas alegaram em sua defesa que essas informações eram “anonimizadas” e serviam para prestar melhores serviços aos usuários, que podiam, se quisessem,  desligar os serviços de localização (que vinham ligados de fábrica, o que vai contra o principio do opt-in, ou de autorizar as invasões).

O WSJ, porém, contratou agencias especializadas em segurança de comunicações e provou que isso era mentira (aqui): os telefones seguiam captando e enviando informações sobre localização às centrais mesmo depois que os dispositivos tinham sido desligados pelos usuários, e as informações são relacionadas a um numero IP exclusivo de cada telefone que pode ser ligado ao seu dono.

Na sexta-feira santa, alguns dias depois da denuncia, a Google concordou em falar ao jornal e deu desculpas esfarrapadas. A Apple nem isso. Consentiu calando-se.

Hoje o jornal publica extensa matéria (aqui) revelando diversas “experiências cientificas” que vêm sendo levadas a cabo por renomadas instituições europeias e americanas com base no monitoramento dos movimentos de voluntários com a ajuda dos seus celulares, e os detalhes são de arrepiar.

Nunca houve um aparelho tão pessoal quanto um celular, que o usuário carrega por toda parte onde anda e usa para quase tudo que faz. Nunca houve antes uma oportunidade tão completa de acompanhar tão minuciosamente o que alguém faz”. E isso explica a curiosidade dos cientistas que vem de encontro ao interesse dos fabricantes dessas máquinas.

Uma experiência do Massachusetts Institute of Technologies (MIT) que monitorou 60 famílias vivendo em seu campus durante dois anos concluiu que cada indivíduo tem uma rede particular de “influenciadores” capazes de faze-los mudar de ideia sobre consumo e até sobre política em direções que se tornam previsíveis com margens de acerto superiores a 87% baseado apenas nos seus deslocamentos e na frequência com que essas pessoas entram em contato umas com as outras.

A experiência foi reconfirmada com precisão ainda maior quando foram acoplados aos telefones monitorados equipamentos capazes de reconhecer outros telefones de participantes que se aproximassem a menos de 4 metros, o que caracterizaria um encontro “cara a cara” entre seus donos.

As principais companhias telefônicas já estão usando essa tecnologia (um programa de computador capaz de interpretar essas informações cruzadas foi desenvolvido em cima da experiência) para enviar propaganda especialmente dirigida para clientes que começam a fazer muito contato com outros usuários identificados como capazes de influenciar a troca de companhia telefônica.

Cruzadas com outras informações sobre relações pessoais, estados de humor, saúde, gastos e hábitos em geral, fornecidos voluntariamente pelos pesquisados, mais os seus movimentos e a analise das variações dos seus contatos telefônico, uma experiência de Harvard desenvolveu modelos de “contagio” de ideias, doenças e modas e a velocidade de sua dispersão com altíssimo grau de acerto.

O estudo mostrou, também, que um terço dos pesquisados mudou de ideia a respeito de seus votos nos três meses que antecederam a eleição, e que é possível prever a direção dessa mudança monitorando a frequência dos contatos telefônicos e, principalmente, pessoais, entre indivíduos com diferentes pontos de vista políticos previamente conhecidos.

Outra experiência conduzida sobre o Twitter, com base em incidência de palavras em mensagens trocadas entre grupos específicos, conseguiu antecipar movimentos do Indice Dow Jones da bolsa de valores americana com até seis dias de antecedência com 87,6% de acerto.

Na Europa, pesquisa envolvendo 100 mil usuários avaliando posicionamento, contatos telefônicos, duração e data desses contatos levou à capacidade de prever deslocamentos futuros dos usuários com 93,6% de acerto.

Malte Spitz, um deputado do Partido Verde alemão, exigiu da Deutsche Telekom que abrisse todas as informações que detinha sobre ele. Num período de seis meses, sua localização tinha sido registrada mais de 35 mil vezes. Cruzando esses dados com registros jornalísticos de suas andanças, o site de jornalismo Zeit Online conseguiu reconstituir minuciosamente todos os seus passos naquele período.

As telefônicas europeias descobriram também que uma pessoa fica cinco vezes mais propensa a mudar de companhia telefônica se algum de seus amigos chegados tiverem feito isso antes dele. E passaram a enviar propaganda seletiva a seus clientes com base nesse tipo de informação.

Por enquanto, até onde sabemos, esse tipo de experiência tem em foco encontrar meios de chegar mais facilmente ao seu dinheiro. Mas, obviamente, os usos “civis” não são os únicos que se pode dar a tais ferramentas, assim como cientistas pagos por empresas em princípio pacíficas não são os únicos que estão levando a cabo esse tipo de pesquisa.

Dinheiro, política e guerra são diferentes gradações do tamanho da sede com que se vai ao mesmo bom e velho pote do Poder. E tudo que é inventado para uma forma de mitigar essa sede, pode, facilmente, ser adaptado para as outras.

O que a História comprova, no final das contas, é que a única condição para que uma nova arma venha a ser usada em todas as versões disponíveis pela velha humanidade de sempre é ela ter sido inventada.

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