É aí que mora o perigo

16 de novembro de 2012 § 1 comentário

O Capitalismo de Estado chinês é o marco ao pé do qual foi enterrada para sempre a ilusão que embalou os sonhos de certos estudiosos das ciências sociais de que o capitalismo é capaz de engendrar a democracia, e vice-versa.

Desde que, no final dos anos 70, Deng Xiaoping proclamou, com alguns séculos de atraso em relação aos protestantes, que “Enriquecer é glorioso”, esses rousseaunianos às avessas vêm esperando em vão que o “socialismo de mercado”, ao estimular a demanda reprimida por mais liberdade, acabe por empurrar a China para mais abertura política.

O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês que delibera a sucessão no comando da ditadura que governa a China desde 1949, acaba de reafirmar textualmente que não há no horizonte qualquer sinal de relaxamento.

O que há, ao contrário, é um muito concreto movimento universal de refluxo do capitalismo democrático, aquele caracterizado pela oposição do poder do Estado ao poder do Capital, para fazer frente à competição predatória que os grandes monopólios chineses estão impondo ao mundo na disputa pelo mercado dos manufaturados que ainda sustentam a maior parte dos empregos do mundo.

Dos Estados Unidos democrata-goldmansachianos de Barak Obama ao Brasil petista-gerdau-mckinseyniano de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, passando por onde mais se queira passar, o Estado e o Capital cada vez mais se dão as mãos com a consequência necessária de que não sobra em cena nenhuma força capaz de se lhes opor.

A lição reintroduzida pelo pragmatismo chinês, superados os mal entendidos do século 20, é a de que nada se parece mais com o “centralismo democrático” leninista que a organização interna de uma empresa capitalista, havendo, portanto, muito mais a aproximar do que a afastar o governante autoritário do megaempresário, estes irmãos siameses que nasceram para buscar o poder pelo caminho do dinheiro ou o dinheiro pelo caminho do poder.

A verdade histórica, aliás, é que eles sempre andaram de mãos dadas sendo a democracia – um artifício da inteligência inventado exatamente para forçá-los a separar-se e opor-se um ao outro – um mero interregno a truncar o livre curso das forças da natureza nos pouquíssimos lugares onde chegou a realizar-se de modo pleno.

E no entanto, todos os segmentos “educados” dos diversos países do mundo, sob a regência de uma imprensa em crise que, por assim dizer, lidera a onda mundial de pânico, age e vocifera como se o que estivesse acontecendo fosse precisamente o contrário.

O problema é que, especialmente quando estão com o rabo preso no torniquete da crise da hora, as pessoas costumam perder todo sentido de perspectiva. Que dizer, então, da perspectiva histórica.

E é aí que mora o perigo.

O mundo viveu o certame Obama x Romney como se fosse seu. Num instigante artigo para o New York Times anterior à reeleição, Capitalists and other Psycopaths, William Deresiewicz argumentava com humor para concluir que “a ética, no capitalismo, é puramente opcional e extrínseca à sua natureza”.

Não é só “no capitalismo”. A ética é extrínseca aos seres humanos enquanto espécie. É uma construção defensiva das sociedades humanas (entidade com natureza própria) que tem de ser imposta à força a cada um de seus membros.

O pormenor sintomático é que, para ilustrar seu ponto, Deresiewicz teve de viajar 300 anos para traz para lembrar “A Fábula das Abelhas – Vícios Privados, Benefícios Públicos”, do inglês Bernard Mandeville, “um Maquiavel do reino da economia que nos mostrou como realmente somos e afirmou que a sociedade comercial criava prosperidade ao constranger (para uma boa direção) os nossos impulsos naturais para a fraude (não há lucro sem ao menos uma pequena mentira), a luxúria e o orgulho” (que criam a demanda), de onde saiu o conceito que teria inspirado Adam Smith a formular o seu sobre “a mão invisível” do mercado.

A ‘mão’ de Smith era ‘invisível’”, alertava Deresiewicz. “Mas a de Mandeville tinha de ser ‘manejada com destreza por um político muito qualificado’, ou seja, em termos modernos essa ‘mão’ seriam a lei, a regulamentação e os impostos”.

Os Estados Unidos podem dar-se o luxo de dividirem-se apaixonadamente em torno da nuance da “mão visível” x a “mão invisível”, que parece ridícula para quem vive a realidade esmiuçada no julgamento do Mensalão, porque nos 300 anos que nos separam do início dessa discussão têm sido uma excrescência histórica: o primeiro e único governo da Terra desenhado a partir da premissa de que “os homens não são santos”, por isso necessitam que a lei lhes imponha à força um comportamento (ético) que os afaste de sua natureza corrupta, aperfeiçoado logo a seguir com a definição complementar de que a principal função do Estado, encarnado por gente movida a sede de poder, é impor limites ao Capital, detido por gente movida a sede de poder, mesmo quando o que o Capital conquista é estritamente função de mérito.

Fogo contra fogo.

Já a esmagadora maior parte do resto do mundo vem desde os primórdios e sem nenhuma interrupção, submetido a ligeiras variações do eterno modelo de um rei cercado de seus barões para os quais não vale lei nenhuma vivendo em eterno banquete, enquanto o resto da patuléia pasta.

O medo é o maior inimigo da razão, já se sabe. Mas a Era das Comunicações Instantâneas já vai longe o bastante para que os jornalistas vacinem-se contra a ilusão da “aldeia global”, que por enquanto só se realizou no que diz respeito ao alcance da voz, e reaprendam a focar seu discurso na sua própria realidade em vez de confundi-la com a realidade alheia.

Está na hora, aliás, de todos os que vivem sob patrões e governos se lembrarem, dentro e fora dos Estados Unidos, que o auge da democracia foi a cruzada antitruste que o tsunami chinês afogou e que este continua sendo o grande objetivo a ser perseguido.

Ou seremos todos engolidos, feito patos laqueados, e jogados de volta para o passado da selvageria política.

Utopias cibernéticas e outras ilusões de noiva

6 de agosto de 2012 § Deixe um comentário

Em plena era do “mundo em rede“, enquanto os arautos da utopia global saúdam o Terceiro Milênio como o portal de um novo tempo de liberdade e transparência, o futuro visível da humanidade começa a ser decidido numa reunião secreta de 9 pessoas de uma entidade que não se pauta por nenhuma regra conhecida ou publicada dentro de um quarteirão murado de um longínquo balneário no litoral chinês.

É lá que será decidida a sucessão dentro do órgão máximo de decisão da China e, em função dela, a velocidade em que passará a andar a claudicante economia mundial.

Se ha uma ilustração poderosa das contradições e ilusões que o rompimento de novas fronteiras tecnológicas põe em campo, esta é das mais eloquentes.

As minorias ilustradas e “conectadas” que, em diferentes países da região, protagonizaram a Primavera Árabe estão sentindo na carne o amargo despertar da ilusão vivida ha um ano e meio de que a graça alcançada de “poder falar” que lhes coube como efeito colateral do milagre das novas tecnologias, bastaria para transformar minorias em maiorias ou para igualar às suas, tomadas de culturas exóticas, as expectativas e horizontes sedimentados por milênios de isolamento e servidão das massas miseráveis dos seus compatriotas que agora ameaçam empurrar os países “libertados” de ditaduras laicas para ditaduras religiosas.

Assim com o resto do mundo.

As novas tecnologias tornaram-no menor. Ficou mais difícil manter o isolamento.

Mas o que não estava suficientemente percebido é que era à numericamente insignificante minoria politicamente civilizada – ou quase – que esse isolamento favorecia, e não o contrário.

Tudo ficou mais perto, sim, mas como sempre primeiro para os tubarões.

E aí está o mundo do trabalho com direitos, com proteção social, com tribunais; aí está o mundo que respeita minorias, põe a lei acima da força e tem a liberdade como um valor indiscutível, desarvorado, em pânico com a dissolução das suas conquistas no grande oceano dos sem nada, dos que trabalham por migalhas debaixo de pau e agradecem aos céus por isso, predando seus mercados, transformando seus direitos em luxos insustentáveis, arrastando para baixo os que sonhavam que bastaria abrir as comportas para que todos viessem para cima.

Beidaihe, o balneário preferido da nomenklatura chinesa, posto em verdadeiro estado de sítio para que nunca se chegue a saber como nem porque foram tomadas as decisões que vierem a ser anunciadas ao fim desse misterioso evento, tem sido o retiro de verão de gerações sucessivas dos poderosos da nova dinastia que tomou a China a partir de 1949.

A cidade em torno do quarteirão murado de três quilômetros a beira-mar, feito versão moderna da Cidade Proibida dos imperadores em Pequim, está paralisada desde sexta-feira quando chegaram em seus carros pretos de janelas escuras, os membros quase desconhecidos do Comitê Central do Politburo do Partido Comunista Chinês para começar a discutir a sucessão dos nove membros do órgão que tem poder de vida e morte sobre 1/5 da população da Terra e de regular a velocidade daquela que, com a unificação global dos mercados, se tornou o motor de uma economia mundial por isso mesmo em crise.

À distância – e com tanta precisão quanto a que se podia esperar dos oráculos do passado ancestral – os jornalistas mais bem equipados do mundo, sem wi-fi, tentam captar os sinais cifrados que os ajudem a antecipar o que poderá sair de trás daqueles muros.

Teoricamente todos os membros da liderança do Partido Comunista Chinês são eleitos pelos membros do Comitê Central“, lembram estudiosos do labirinto chinês citados pela imprensa inglesa, “mas na verdade o sistema funciona muito mais de cima para baixo do que o contrário, mesmo nesse círculo restrito. O secretário geral do partido ainda tem força para impor a maior parte das suas decisões“.

E, sendo assim, a tendência darwiniana é, salvo acidentes de percurso, que ele garanta a perpetuação da sua própria genética política.

A expectativa é, portanto, a de que prevaleçam as escolhas do premier Hu Jintao, tido como um “liberal” pelos padrões chineses, expectativa esta que se sustenta em um único acontecimento, ou num acontecimento e meio, de acordo com os mais otimistas.

Foram eles o expurgo, em maio passado, de um membro do comitê central, Bo Xilai, tido como um “linha dura” acusado de ensaiar namoros com as massas em vez de conchavos com seus pares para subir na hierarquia do partido e, mais recentemente, a nomeação de outro conhecido “liberal” para o mais alto cargo da hierarquia militar, onde se abriga a ala mais forte da resistência à continuação da “ocidentalização” da economia chinesa, “ocidentalização” esta que, como o mundo sabe melhor hoje, é mais de fachada que de fato.

Se tudo der certo pouco mudará, é pelo que se torce mais do que o que se sabe aqui fora.

Mas os sinais que vêm de dentro da China são de que é preciso haver mudanças, mas ninguém sabe bem quais, nem como promovê-las sem que o circo pegue fogo.

De certo mesmo, nesta nova era da “economia do conhecimento“, restam-nos os sinais de que o que antes levava cem anos para acontecer, agora leva menos de 10. Fica por decidir se tal multiplicação de velocidade se dará no sentido ascendente ou descendente. Ou, se quisermos ser otimistas, quanto ainda teremos de descer antes que a orientação geral do todo vire para cima de novo.

O medo da Europa e o único antídoto possível

8 de maio de 2012 § 1 comentário

A França ainda é um rebelde racional.

Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.

Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.

A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.

As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.

Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.

A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?

A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.

A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.

Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.

Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.

Pelo menos por enquanto.

Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.

Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.

E este é o verdadeiro problema.

A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.

Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.

Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.

Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.

Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.

Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.

O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.

A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.

A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.

Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.

Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.

Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.

O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.

Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.

As super-empresas e você

2 de março de 2012 § Deixe um comentário

O artigo é de David Rothkopf e saiu na Foreing Policy.

O valor das vendas anuais da maior empresa privada do mundo, a Wal-Mart Stores Inc. é maior que o PIB de todos os países do mundo menos os 25 maiores. Com 2,1 milhões de empregados, ela tem em sua folha de pagamentos mais gente que a população de 100 dos países do mundo. O maior gestor de investimento do mundo, gerido por uma empresa bem low-profile de Nova York chamada BlackRock, controla US$ 3,5 trilhões em valores – mais que as reservas nacionais de qualquer país no planeta. Em 2010, uma instituição filantrópica privada, a Gates Foundation com seus fundos de US$ 33,5 bilhões, distribuiu mais dinheiro em diferentes ações pelo mundo afora do que a Organização Mundial de Saúde tinha no seu orçamento anual.

Ao longo do último século, as maiores organizações privadas do mundo se tornaram maiores que tudo menos meia dúzia dos governos dos mais ricos países do mundo em matéria de recursos, alcance global e influência. Ao mesmo tempo, até os países mais ricos estão às voltas com burocracias inchadas, crises orçamentárias e a perda generalizada de confiança do público nos governos. Os governos estão ainda, em toda a parte, limitados a agir dentro de suas fronteiras  em uma época em que todos os problemas que afetam as pessoas são, cada vez mais, transnacionais.

Conseguir um balanço adequado dos poderes público e privado é o maior desafio de nossa época. Encontre o ponto de equilíbrio – uma dose prudente de regulamentação, poder suficiente às pessoas para competir, condições de dinamismo para a economia, condições justas de luta para todos – e a sua será uma das sociedades prósperas do século 21. Erre a equação e o resultado virá na forma de instabilidade social, prosperidade declinante, menos condições de construir o seu próprio destino. E decisões que hoje ainda parecem inteiramente locais vão ter consequências geopolíticas decisivas.

Nos Estados Unidos esta é a questão política do momento. O governo é grande demais, um fardo para a sociedade e uma ameaça para as liberdades individuais? Ou foi cooptado pelos donos do dinheiro e é fraco demais para proteger os interesses das pessoas comuns? Tem contribuído para o bem estar geral ou está institucionalizando a desigualdade, a serviço de uns poucos – os 1% – e não da maioria?

Na Europa esse debate também está quente, ainda que abafado no momento pela discussão sobre quanto de suas prerrogativas o governo de cada país deve ceder à União Europeia e a que interesses esse governo colaborativo serve – o que já deixa para trás o papel tradicional do estado-nação. Faça essa pergunta a um grego e a um alemão e você colherá respostas bem diferentes.

Na China, o cabo-de-guerra entre o público e o privado é visível em todos os níveis de uma sociedade que está se reinventando numa velocidade tão alucinante que estabilidade e  crescimento frequentemente parecem conceitos tão irreconciliáveis quanto eles são essenciais um para o outro. É um tipo de desafio que também esta sendo enfrentado em outros lugares do mundo emergente, da Rússia das batalhas entre oligarcas e governantes ao mundo árabe mergulhado na agitação social que reage tanto contra esquemas patrimonialistas e governos a serviço dos interesses econômicos de pequenas elites quanto contra a falta de liberdade e oportunidade para todos.

É preciso achar um ponto de equilíbrio. Ha uma década e meia os Estados Unidos estavam comemorando o triunfo do capitalismo e a derrota do estatismo pelas forças do mercado. Dançava-se sobre o túmulo do comunismo e do socialismo Mas hoje está claro que a comemoração foi prematura.

Desde então o mundo evoluiu da luta entre capitalismo e comunismo para algo bem mais complexo: uma batalha entre diferentes formas de capitalismo na qual a diferença está nos papéis relativos dos agentes públicos e privados. Enquanto o modelo do livre mercado que Washington promovia se vê às voltas com ferimentos auto-infligidos, outros formatos ganham terreno. Modelos em ascensão competem por influência – do “capitalismo à chinesa” de Pequim ao “capitalismo desenvolvimentista democrático” da Índia e do Brasil; das economias apoiadas numa forte disciplina fiscal mas também numa aliança forte entre o público e o privado da Europa do Norte ao “capitalismo de estado empreendedor” de países pequenos como Israel, Singapura e os Emirados Árabes.

Nos Estados unidos e outros países que adotaram o modelo americano, a noção de que a mão pesada do poder econômico nas esferas legal, legislativa e regulatória desequilibrou as coisas a favor do poder econômico vai se generalizando. A desigualdade aumentou, tanto no que diz respeito à distribuição dos benefícios econômicos e aos privilégios ostentados por uma elite super-poderosa quanto, o que é mais grave, no que se refere ao alcance da lei. Nada pode ilustrar melhor essas distorções que a última crise na qual as grandes instituições financeiras passaram por cima dos regulamentos, abusaram da liberdade que lhes foi dada, convenceram o governo a resgatá-las (mas não às vítima dos seus abusos) e, em seguida, barraram as reformas e voltaram quase exatamente às mesmas práticas que as meteram na enrascada inicial. O resultado é essa ressaca moral que se manifesta em movimentos como o Occupy Wall Street e os protestos nacionalistas contra a globalização.

O mundo precisa de uma nova ordem institucional que reflita a nova realidade. Todos os países do mundo tiveram sua soberania enfraquecida; a autoridade dos governos deixou de ser o que era. Pilares básicos do poder do Estado como o controle de fronteiras, o poder de emitir dinheiro, o poder de impor a lei e o de projetar força internacionalmente foram afetados de modo irreversível. Graças à internet, os meios de transportes modernos e a globalização em geral, os Estados nacionais não conseguem mais ver, quantificar ou controlar a maior parte das coisas que atravessam as suas fronteiras. Só uma pequena minoria de países tem moedas de fato conversíveis enquanto a quantidade de papéis de valor internacional emitidos por entidades privadas, como os derivativos, ultrapassa enormemente o valor das moedas emitidas por governos. As companhias globais têm hoje meios de escapar de regulamentos e legislações nacionais que não lhes convêm simplesmente mudando suas operações de lugar. Em contrapartida, não existem mais de 20 países com condições reais de projetar poder além de suas fronteiras.

Uma companhia como a Exxon Mobil, com vendas de US$ 350 bilhões em 2011, opera em duas vezes mais países do que aqueles em que um pais rico como a Suécia, por exemplo, mantém embaixadas. O orçamento de defesa da Suécia inteira, aliás, é seis vezes menor do que os gastos previstos no orçamento anual da Exxon. O gigante da energia tem mais dinheiro investido e um envolvimento muito mais decisivo em dezenas de economias; é capaz de mobilizar muito mais recursos para influenciar decisões políticas pelo mundo afora do que a Suécia. Agora responda: qual entidade, a Suécia ou a Exxon, influenciará mais as decisões internacionais sobre a mudança climática? Ou qualquer decisão internacional sobre meio ambiente?

Comparar o tamanho de empresas privadas com o de países é sempre uma tarefa complicada porque as métricas são diferentes, mas considere o seguinte: a milésima maior companhia do mundo tem vendas anuais maiores que os PIBs de 57 países. Trata-se da Owens-Illinois, que produz garrafas de vidro; suas vendas passaram de US$ 7 bilhões em 2010, mais que o PIB do Benin, das Bermudas, do Haiti, de Kosovo, Liechtenstein, Moldávia, Mônaco, Nicarágua, Níger, Ruanda, Tadjiquistão e dúzias de outros países. Na verdade, as 500 companhias listadas entre as maiores do mundo pela Forbes poderiam, sem exceção, se alinhar entre as 100 maiores economias do mundo. (PIB é uma medida complicada e enganosa que não pode ser comparada diretamente a vendas de uma empresa. Mas a comparação dá, de qualquer maneira, uma ideia de grandeza.)

O fenômeno do poder corporativo não é novo, é verdade. A Companhia das Índias Ocidentais Britânica governou o subcontinente indiano e mantinha um dos maiores exércitos do mundo em seu tempo. Andrew Carnegie e Henry Ford construíram cidades completas com escolas e o mais para seus milhares de trabalhadores. Ao longo do século passado esses papéis que companhias privadas dividem com o Estado foram mudando e se tornando mais complexos à medida que as multinacionais iam crescendo. Hoje em dia muitas dessas companhias podem se dar o luxo de ter a sua própria política externa. Lançam suas próprias campanhas políticas, como a Exxon fez, por exemplo, com seu lobby para impedir que os Estados Unidos assinassem o Protocolo de Kyoto. Assumem importantes iniciativas na área de segurança, como aconteceu com a Blackwater na guerra do Iraque. Montam sistemas de saúde, de treinamento, de habitação e assumem outras funções que os estados nacionais deveriam mas já não aguentam oferecer.

O resultado disso é que sociedades inteiras tornam-se dependentes de corporações gigantes com excesso de poder nas mãos mas com centros de decisão distantes e que respondem apenas e tão somente aos seus acionistas. E aparelhos institucionais construídos a duras penas ficam cada vez mais fracos, incapazes de processar os pleitos das pessoas. O contrato social, base da democracia, vai sendo rasgado numa realidade em que os problemas que eles teriam de resolver estão, cada vez mais, fora da sua jurisdição.

Este artigo não é um chamado para a revolução. Se a carnificina, as experiências em arquitetura social e a polarização do século 20 nos ensinou alguma coisa foi que soluções extremas não funcionam quando se trata de procurar a melhor dosagem de poder público e poder privado. Nenhuma sociedade pode ir para a frente sem conseguir um equilíbrio entre os dois. Para alguns americanos é preocupante realizar que ficou bem reduzida a prerrogativa de influenciar a decisão sobre o modo pelo qual esse equilíbrio deve ser procurado. Mas para a maioria, para os 99% que saíram perdendo nessa troca, esse capitalismo híbrido que está emergindo da competição global pelo mercado das idéias (tão avesso às tradições da democracia ianque) vai acabar parecendo uma alternativa mais justa e sustentável do que o que eles têm hoje em dia.

(Tradução FLM)
 

Na Grécia, as dores do adeus ao mundo das aldeias

4 de novembro de 2011 § 3 Comentários

Bismark costumava dizer que “Europa” é um conceito geográfico e não um conceito político.

Isto para resumir a realidade de que se não existe sintonia nem mesmo entre as aldeias que constituem as Nações do grande promontório a Oeste da Ásia nas quais, frequentemente, falam-se línguas diferentes, que dirá entre cada uma delas.

Mas “economia global” é sim um conceito político, no sentido de que ha uma só lei a regê-la, e uma lei que, respondendo ao que há de mais básico na natureza humana, dispensa o consenso exigido nas democracias e arrasta de roldão toda a geografia atrás de si.

É acatá-la ou morrer, pelo menos por enquanto.

Os gregos podem chorar sua saudade e insistir em querer a Grécia só para eles, mas é tarde. A Grécia enquanto ilha do arquipélago econômico global não é mais dos gregos, é só mais um dos quintais da humanidade.

No momento, para ser mais específico, ela é o local do casco do frágil navio onde todos nós flutuamos alguns centímetros acima do caos econômico que apresenta o maior rombo por onde mina a água que ameaça levar-nos ao fundo. E esta ameaça é tão real e premente que concorrem à reunião em que se pretende decidir os meios de tapar esse furo de Barak Obama a Dilma Roussef, passando por tudo quanto ha no meio depois de dada a volta ao mundo.

Não é certo ainda, enquanto escrevo, se os gregos tomarão a iniciativa de se jogar sozinhos ao mar ou mesmo se isto vai lhes ser permitido ainda que o desejem.

Mas, se acontecer, será provavelmente a última vez que veremos algo parecido.

A Europa terá de ter o seu “banco central” único pela mesma razão que o Brasil teve de acabar com a “conta de movimento” do Banco do Brasil que permitia a cada governador gastar o que quisesse e mandar  a conta para a União no passado recente, jogando o país inteiro em sucessivas voragens inflacionárias e outras formas de ressaca que são sempre a consequência desse tipo de abuso das drogas da política.

Mais adiante, o mundo todo também terá de se compor em torno, senão de um banco central internacional único, ao menos de um acordo sobre as regras mínimas de comportamento neste salão que agora nós todos somos obrigados a frequentar ao mesmo tempo, gostando ou não.

Serão tempos duros para a liberdade, sinônimo de particularismo e diversidade. Mas voltaremos a correr atrás dela quando calhar.

O que se está assistindo nesta Europa que estertora e cujos líderes nacionais, exasperados com a novidade da própria impotência, chutam-se uns aos outros cada dia com menos cerimônia, são as dores do parto daquilo que, no futuro, será conhecido como o  governo planetário que, pelo menos no que diz respeito à economia, virá a se instalar para por um fim, quando todos estivermos fartos, a esta nova era de desordem e sofrimentos que está apenas começando.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com globalização em VESPEIRO.