A luta dentro do Partido Comunista Chinês
25 de agosto de 2010 § Deixe um comentário

Sigo a pista sobre a existência de divergências sérias em torno da política econômica dentro do Partido Comunista Chinês sugerida pelo fato do seu jornal oficial ter tomado a iniciativa de publicar matéria dando conta da existência de 64,5 milhões de imóveis desocupados na China, o que constituiria uma “bolha” cinco vezes maior que a que desencadeou a crise financeira nos Estados Unidos e no mundo (veja duas postagens abaixo desta).
Eis o que encontrei:
A 1 de julho passado o jornal 21st Century Economic Report, pertencente a um empresário de Xangai, jogou na arena um escândalo envolvendo o filho do primeiro ministro Wen Jiaobao, o mais próximo aliado do presidente Hu Jintao. Na China o primeiro nome é o de família e o segundo é que é o nome próprio. Wen Yunsong, que nos Estados Unidos, onde estudou, era conhecido como “Winston Wen”, teria recebido sob falsa identidade o equivalente a US$ 900 milhões para, mancomunado com o ex-diretor da entidade regulatória da industria de seguros da China, conseguir aprovação para que a segunda maior companhia de seguros do país – a Ping An – lançasse ações na bolsa de Hongcong burlando a legislação que impede a participação de capitais estrangeiros nessa industria em porcentagem maior que 50%.
“Winston” Wen
As acusações foram imediatamente reproduzidas por todos os maiores websites chineses, inclusive o da agencia oficial de notícias Xinghua e o do Diário do Povo, órgão oficial do PCC. Vinte e quatro horas depois todas as matérias foram deletadas. Mas a bomba estava lançada e continuou repercutindo nos bastidores.
Segundo A Voz da America o assunto foi trazido à baila na reunião de julho do Comitê Central do Politburo, na qual o secretário da seccional de Xangai do PCC, Chen Liangyu, desafiou abertamente o primeiro ministro a “assumir a responsabilidade política” pelas eventuais conseqüências de sua política econômica.
Foi o primeiro ministro que insistiu no pacote de medidas de contenção do crédito anunciadas em abril para tentar deter a escalada da inflação que, segundo Chen Liangyu, “prejudicou fortemente a economia de Xangai e das cidades da costa oeste da China”. O primeiro ministro respondeu rispidamente ao representante de Xangai e “uma ácida discussão” se instalou e só foi suspensa diante da intervenção enérgica do presidente Hu Jintao.
Dada a rígida estrutura stalinista da burocracia chinesa um desafio desse nível de uma liderança municipal ao primeiro-ministro, assim como a publicação das acusações contra seu filho em órgãos oficiais do PCC, só pode ser imaginado se houver forte respaldo de altas patentes do partido.
O presidente Hu Jintao e seu primeiro ministro Wen Jiaobao, considerados liberais, substituíram o presidente Jiang Zhemin, da linha dura, em 2002. Mas Jiang manteve sob seu controle o poderoso Comitê Central dos assuntos Militares e a maioria dos membros do Politburo, e tem feito criticas publicas às medidas de contenção do crédito anunciadas pelo governo.


Hu Jintao e Wen Jiaobao
Sentindo-se isolado e desafiado, Hu Jintao passou a dirigir as explicações de sua política diretamente à opinião publica e a divulgar a agenda das reuniões plenárias do partido para torná-las abertas ao debate publico e eximir-se da responsabilidade pelo que não lhe permitirem fazer. A próxima reunião, em setembro vai debater o tema do “reforço da capacidade de comando do partido”, fato que está sendo interpretado como uma tentativa de recompor a autoridade de Hu. Sua principal base de apoio é a Liga dos Jovens Comunistas que, no final de julho, sinalizou que ele pode estar montando o seu próprio dossiê de acusações contra Jiang Zheming ao publicar no seu órgão oficial, o Diário da Juventude Chinesa, que o ex-presidente “estaria diretamente envolvido com diversos projetos imobiliários”, inclusive alguns que implicaram a “desocupação forçada” de terrenos cobiçados pelos incorporadores, fato que provocou muita revolta.
Confirma-se, portanto, a existência de uma versão chinesa da clássica luta entre a parcela do governo que sente a perspectiva de ser cobrada, logo adiante, por não ter agido para deter um desastre anunciado e os interesses particulares da multidão de parasitas que costuma cercar os governos para “mamar”, com o recurso ao clássico repertório de dossiês e outras variadas formas de chantagem comuns à baixa política ao redor do globo.
Na China como alhures a discussão em torno do tema se traveste, na arena política, na dicotomia “heterodoxos” versus “ortodoxos” ou, se quiserem, “desenvolvimentistas”, pedindo leniência para com a inflação, versus “monetaristas”, recomendando responsabilidade fiscal para mantê-la sob controle.

Como aconteceu no resto do mundo o governo chinês também injetou montanhas de dinheiro na economia nos primeiros dias da crise financeira mundial, temendo o que pudesse acontecer se a economia deixasse de crescer no ritmo a que os chineses se acostumaram num pais que só consegue manter a paz social, em meio a carências dramáticas afetando verdadeiras multidões, enquanto todos souberem que apesar da crescente desigualdade e das misérias inerentes a um processo descontrolado de urbanização o crescimento acelerado seguirá empurrando ricos e pobres um pouco mais para cima a cada ano.
Na primeira metade de 2009, o governo liberou perto de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos subsidiados quando o orçamento para o ano inteiro previa limitar o crédito num máximo de US$ 730 bilhões.
Uma parte desse dinheiro foi investida em novos projetos industriais e, mais especialmente, em obras de infra estrutura rodoviária e ferroviária, dentro do programa do governo para promover uma interiorização do desenvolvimento capaz de deter um pouco a onda de trabalhadores migrantes que vem do interior para o litoral e proporcionar às empresas que se decidirem a se afastar da costa acesso a trabalhadores dispostos a receber salários menores.
Num pais às voltas com a excessiva dependência de investimentos estrangeiros e exportações, essa manobra é considerada essencial para aliviar a pressão por aumentos de salários, generalizada no litoral, e melhorar a competitividade dos produtos chineses num cenário de importações decrescentes das economias ocidentais em crise.

Mas esse afrouxamento monetário produziu dois outros efeitos indesejáveis. Grande parte desse dinheiro barato (uns 20% do total, calculam as autoridades) foi parar no mercado financeiro, o que explica o salto de 75% no Xangai Composite Index em plena crise. Esse enorme “esticamento” do mercado acionário contribuiu para reforçar o medo da inflação e para desviar mais dinheiro ainda para o mercado de imóveis, percebido como um abrigo mais seguro que o mercado financeiro contra uma inflação que um numero cada vez maior de chineses acredita que vem vindo. A procura por imóveis no primeiro semestre de 2009 cresceu 33%, o que contribuiu para a alta dos preços que está tornando proibitiva a compra do primeiro imóvel num país onde ha, hoje, 150 milhões de trabalhadores que migraram do interior para o litoral e precisam encontrar onde morar.
Foi à luz desses dados que o governo decidiu baixar o pacote de restrição ao crédito anunciado em abril passado. Mas ainda que claramente sub-dimensionadas para o tamanho do problema, as medidas tiveram impacto sobre os poderosos empresários da industria da construção que estavam enriquecendo com o boom da especulação imobiliária, todos eles com fortes conexões e inúmeros “sócios” dentro do partido e nos governos provinciais e municipais que fornecem os terrenos para os empreendimentos imobiliários. Os investimentos em imóveis caíram de um crescimento de 43% no primeiro quadrimestre de 2010 para um crescimento de 33% no segundo, e a produção industrial também passou a diminuir nos últimos quatro meses.
A disposição do governo, entretanto, é ir mais longe nesse aperto. Discretamente, ele promoveu stress tests nos bancos chineses no final do ano passado para avaliar se eles conseguiriam absorver uma redução de 30% no valor dos imóveis. E diante da resposta positiva que encontrou, está promovendo nova rodada para avaliar o que aconteceria se o preço dos imóveis caísse 50%.
Em Tianamen, à direita de Zhao Ziyang
Esses sinais permitem entrever vários aspectos pouco difundidos da realidade chinesa, que vive um perigoso aprofundamento do gap entre pobres e ricos que põe os interesses das diferentes “classes” em que a sociedade se divide em campos antagônicos e dificulta enormemente a definição das políticas econômicas uma vez que os interesses da ponta de cima da pirâmide se confundem com os dos integrantes das diferentes facções do partido.
Hu e Wen agem para exorcizar o fantasma da inflação que, acreditam eles, vem vindo, e se ficar fora de controle tem o potencial de jogar o país no caos social. E os seus críticos, associados à ponta que está lucrando com o status quo, afirmam que, ao contrário, o tipo de remédio que eles propõem é o mesmo que foi administrado em 1989 e acabou resultando na revolta esmagada na praça Tianamen.
A mesma Tianamen, aliás, que projetou Wen Jiaobao na política chinesa. No dia 19 de maio de 1989, às vésperas do massacre, foi ele quem acompanhou o presidente Zhao Ziyang, que estava prestes a ser expurgado por se ter oposto à decretação da lei marcial pela linha dura, numa visita emocional aos estudantes rebelados em Tianamen que, desde então, passou a ser lembrada como um ato heróico.
Tianamen
Por baixo do discurso “desenvolvimentista” que a linha dura do PCC subscreve e que ignora a crescente insatisfação popular com um processo inflacionário que afeta principalmente os mais pobres pode estar, portanto, ao lado da ganância dos que se associaram à corrupção no setor imobiliário, a velha confiança no “poder de dissuasão” da polícia política e das forças armadas para qualquer “eventualidade”, exatamente o tipo de “eventualidade” que Hu e Wen querem evitar que surja controlando as distorções econômicas que podem precipitá-la.
Wen Jiaobao é filho e neto de professores que sobreviveram à Revolução Cultural de Mao Tsetung, e apoiou toda a sua carreira política na incontestável competência como administrador que mesmo os inimigos lhe reconhecem. Foi ele que, em 1998, como um dos quatro vice-primeiros-ministros ungidos pelo Politburo, arquitetou e executou o programa de saneamento dos bancos chineses que propiciou o relançamento da economia do país. Foi ele também a primeira autoridade chinesa a reconhecer a existência da AIDS no país, deixando-se filmar com doentes para os quais pediu tratamento humanitário, o que explica sua popularidade junto à juventude. Sua carreira tem estado atrelada à de Hu Jintao desde 1982 e ele tem sido um dos grandes inspiradores das políticas de modernização da economia chinesa. Seu filho estudou na Kellog School of Management, nos Estados Unidos, e fundou a New Horizon Capital que administra três dos maiores fundos de investimentos da China. Sua filha, que também trabalha no setor financeiro, é casada com Xu Ming, “um dos 15 homens mais ricos da China”, segundo a Forbes, dono de uma companhia de materiais de construção e do maior time de futebol do país.
Tudo isso faz dele um antípoda da linha dura do partido integrada, em grande medida, por quadros ligados às forças armadas e à polícia política, com a qual ele começa a se atritar frontalmente.

Em que Lula e os super-capitalistas se parecem
6 de agosto de 2010 § 2 Comentários

Chegaram à Economist os ecos da discussão sobre o tipo de atuação que fez do BNDES “o melhor banco do mundo” aos olhos de Eike Batista, “o homem mais rico do Brasil”, um dos super empresários que têm tido acesso ao dinheiro subsidiado pelo Tesouro Nacional que o banco tem distribuído às mãos cheias nos últimos dois anos do governo Lula.
É o “melhor banco do mundo” ou é “o ovo da serpente” da gastança com objetivos políticos e da irresponsabilidade fiscal pré-Plano Real, como afirma o ex-diretor do banco, Luis Carlos Mendonça de Barros?
É por aí que transita a matéria, que também cita Gustavo Loyola, ex-diretor do Banco Central, para quem o modo como Lula usa o banco e a ligação direta entre ele e o Tesouro constitui um “orçamento paralelo” que não passa pela aprovação do Congresso e é idêntica à famigerada “conta movimento” do tempo dos militares, que servia para a mesma coisa, com a única diferença de que aquela era operada pelo Banco do Brasil.
A coisa funciona assim: o BNDES entrega para os maiores empresários do Brasil, com juros de 6% ao ano e prazos a perder de vista, dinheiro que o Tesouro Nacional toma no mercado com a venda de títulos de curto prazo emitidos em nome do povo brasileiro que pagam juros de 12% ao ano aos seus tomadores que, ainda por cima, são em geral os bancos privados.
Em 2009, ano da véspera da eleição, registra a Economist, foram emprestados nessa base R$ 137 bilhões (US$ 69 bilhões), o dobro do que tinha sido emprestado em 2007. São mais de 11 vezes o que o governo gasta com o Bolsa Família que, em 2009, montou a R$ 12,3 bilhões.

Entre setembro de 2008 (inicio da crise financeira internacional) e janeiro de 2010, o credito concedido pelos bancos privados cresceu menos de 10% enquanto o do BNDES aumentou mais de 50%. Pelos volumes movimentados, a Economist calcula em mais de R$ 10 bilhões o valor do subsídio aos favorecidos. E 4/5 do que o BNDES emprestou foi para empresas gigantes. A estatal Petrobras levou R$ 25 bilhões. Mas privadas como a JBS e a Marfrig, frigoríficos pertencentes a bilionários (ou quase), por exemplo, dividiram entre si R$ 18 bilhões, gastos na compra de concorrentes no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. Não foram os únicos…
“O sistema financeiro brasileiro é muito peculiar”, diz a Economist, “os bancos comerciais privados emprestam para o governo e para os consumidores a curto prazo, mas não emprestam para o setor produtivo (…) O BNDES é quem faz isso praticamente sozinho (…) O certo seria que os bancos privados entrassem no negócio de empréstimos de longo prazo para o setor produtivo. Mas porque fariam isso se o BNDES já o faz, e com dinheiro subsidiado?”
A Economist nota que a justificativa “anticíclica” (de combate à crise), alegada lá atrás, já não vale mais nestes anos em que o problema tem sido o excesso de crescimento da economia. E constata, também, que a carteira do BNDES está “crescendo demais e de forma muito pouco transparente”. E pára por ai. É só até onde poderia ter ido com os fatos de que dispunha.
Mas o seu estranhamento é compartilhado por muitos brasileiros.
O que, afinal, explica esse tipo de inversão no governo de um presidente que se apresenta ao pais e ao mundo com o figurino de Robin Hood? Por que, ao fim de décadas de discursos irados contra a concentração da renda, ele tem tratado de rechear com o dinheiro dos pobres os bolsos de uns poucos ricaços?

Demetrio Magnoli, um dos melhores explicadores do Brasil atuando hoje, se aproximou da verdade no artigo que escreveu quinta-feira (5/8) na Pagina 2 do Estadão.
“Samuel Pinheiro Guimarães, até outro dia secretário-geral do Itamaraty, foi guindado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE)”, diz Magnoli. “No novo cargo, elaborou um documento intitulado O Mundo em 2022, ainda em versão preliminar, que circula no governo e no Itamaraty (…) com propostas de políticas estratégicas do Brasil (…) Moldado por um obsessivo antiamericanismo e (…) nostálgico do ‘Brasil Potencia’ dos tempos de Ernesto Geisel (a quem, mais de uma vez, Lula tem apontado como um parâmetro), Guimarães atribui ao Estado os papéis de ‘estimular o fortalecimento de megaempresas brasileiras (…) para que possam atuar no cenário mundial globalizado’ e de conduzir um programa de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de amplas implicações militares”.
Ali também, Guimarães “define o Tratado de Não-Proliferação Nuclear como o ‘centro’ de um processo ameaçador de ‘concentração de poder militar’”, o que, lembra Magnoli, explica a aproximação de Lula com o Irã de Ahmadinejad.
Magnoli destaca ainda que “ao longo de 54 itens, não há nenhuma menção aos direitos humanos”, o que “não é surpreendente”, posto que, “num livro publicado em 2006, Samuel Pinheiro Guimarães qualificou a defesa dos ‘direitos humanos ocidentais’ como uma forma de dissimular ‘com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das Grandes Potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos’”, o que explica as atitudes de Lula em Cuba, no Irã, no Sudão, na China e em outros países africanos nas mãos de serial killers aos quais ele tem levado seu apoio e solidariedade.
Magnoli enxerga no pano de fundo desses devaneios uma perigosa “utopia regressiva ultranacionalista” que, transformada em política de Estado, pode ser muito perigosa.

Acho que isso pode ser verdade no que diz respeito a Pinheiro Guimarães e outras figuras do petismo que Lula deixa pensar que são os formuladores da “política de inserção mundial do Brasil”. Mas ele próprio pensa de modo muito mais prático e objetivo.
O negócio de Lula é O Poder. E quando ele olha para os Estados Unidos e para a China, para os que são subornados e para os que subornam, para apedrejados e para apedrejadores, não tem um segundo de duvida sobre qual desses lados lhe promete mais longevidade no poder. Se isso combina com os planos de “inserção internacional” daqueles caras que gostam de falar difícil lá do Itamaraty, tanto melhor. Mas quando não lhe interessa o artigo da hora da “feira de utopias” do PT, ele simplesmente deixa o produto encalhar ou, se necessário, manda calar a boca do vendedor.
Por esse lado, portanto, o problema é só saber se a Dilma também terá força para tanto…
Ja a sua novíssima associação com o antes tão execrado “grande capital” é fruto de cálculo muito mais objetivo. A competição com o capitalismo de Estado empurrou o mundo para o funil dos monopólios. Agora é capital + Estado contra capital + Estado. É este o modo como se disputa O Poder hoje em dia. E esse é o jogo que Lula joga.
É nisso que ele está investindo o dinheiro do BNDES.

Intelectuais, assim como esquerdistas honestos, têm dificuldade em entender isso. Se eu fosse um dos eike batistas da hora, por exemplo, não estaria tão tranqüilo com a perspectiva de ver meus negócios crescerem à custa de me tornar sócio de alguém que tem tanto compromisso com o que disse ontem quanto o presidente petista que hoje se sustenta com o apoio de Jose Sarney, Fernando Collor e Paulo Maluf. Porque parece-me claro, como deveria estar para todo o mundo, que o que ele espera dos monopólios que está montando aqui dentro é o mesmo que os ditadores chineses esperam dos deles.
Mas isso, provavelmente, é ingenuidade de minha parte. Pois quem nasceu para ser “o homem mais rico do Brasil” a qualquer custo olha para a nova regra do jogo com a mesma objetividade do nosso Lula, que nasceu para ser o homem mais poderoso do mundo a qualquer custo. Lula põe na balança as cobranças por coerência da minoria letrada e o poder de apagar memórias aplacando a fome das massas por 120 reais a cabeça por mês, e age em função do resultado que encontra. Assim como seus novos sócios capitalistas, quando olham para o risco dele decidir, um dia, ficar com as empresas inteiras de que hoje é apenas meio dono e a oportunidade de aumentar suas fortunas já, enquanto o vento estiver soprando a favor, não pensam duas vezes: içam todas as velas que têm e até as que não têm, e viram a proa para qualquer que seja o rumo que lhes apontar o “nosso guia”. Os empregados desses monopólios que se ardam quando o vento virar e eles se virem diante de um patrão único…
Nada de novo, afinal de contas. Lula e os seus novos sócios estão procurando a mesma coisa. Poder e dinheiro sempre andaram juntos. O poder é o caminho mais fácil para se chegar ao dinheiro. E o dinheiro é apenas um meio mais democrático que o kalashnikov para se conquistar poder. O nosso Lula, que é mais rápido que todos os eikes juntos, refestela-se na certeza de que ele é o único que pode usar os dois.

PS.: A Folha de São Paulo deste domingo trazia matéria com novos pormenores sobre os empréstimos do BNDES. Segundo o jornal, o banco emprestou R$ 168 bilhões do início de 2008 até junho deste ano e, desse total, 57% (R$ 95,76 bilhões) foram divididos entre apenas 12 empresas. Estão entre elas, alem de Petrobras e Eletrobras, as três maiores empreiteiras do país, Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Odebrecht, a Vale, a Votorantim, o frigorifico JBS e a OI, dos mesmos donos da Andrade Gutierrez. O aporte feito ao banco pelo Tesouro Nacional foi de R$ 180 bilhões.
Condenados ao Supercapitalismo
8 de julho de 2010 § 1 comentário

Ha 100 anos os americanos sabem que democracia e empresas gigantes são incompatíveis e não podem conviver pacificamente. Mas é impossível enfrentar o capitalismo de Estado sem elas. No mundo todo, a competição com a China e o medo do desemprego estão trazendo os monopólios de volta. Do açougueiro ao banco, os brasileiros já se deparam com eles em cada ato do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos…
***
Desde que a China apresentou ao mundo a força do capitalismo de Estado os sinais de que o capitalismo democrático não poderá conviver nem sobreviver a ele vêm se multiplicando.
O modelo desenvolvido nos Estados Unidos ao longo do século 20 baseava-se naquilo que o ex-secretário do Trabalho do governo Clinton, Robert Reich, descreve como “o contrato social tripartite entre empresas fortes, sindicatos fortes e um governo forte”, em que cada parte tratava de garantir que ela, assim como as outras duas, recebessem uma parcela justa dos ganhos do sistema.
A distinção entre medidas pró-mercado (de reforço da concorrência e proteção do consumidor) e regulamentos pró-business (contemplando interesses específicos das corporações) era nítida. O Estado, com a legislação anti-truste, limitava por cima a competição o que garantia um nível saudável de disputa pelos consumidores e proporcionava um mecanismo eficiente de estabilização dos preços livre de manipulações políticas. E os sindicatos limitavam por baixo a possibilidade das empresas crescerem às custas do esmagamento dos salários.
Nesse ambiente, a inovação se impunha como o único caminho para a conquista de grandes diferenciais competitivos, o que vale dizer que a qualidade da educação era, para empregados e para empregadores, o fator decisivo de sucesso.
Com isso os indivíduos eram incentivados a se organizar para reivindicar junto aos empregadores e para se fazerem ouvir pelo legislador/regulador assim como este, para se eleger, tinha de se mostrar sensível às pressões do eleitor assalariado e do consumidor. Um arranjo que reforçava a dimensão de cidadão dos indivíduos e tendia a promover o continuo aperfeiçoamento do sistema representativo. E que acenava, para quem estava mais para traz no caminho da democracia, com a promessa de um futuro melhor.

Ao contrario do que afirmava a propaganda esquerdista, esse sistema estava no extremo oposto do laissez-faire, onde chora mais quem pode menos, que agora volta triunfalmente à arena global ressuscitado pelo capitalismo de Estado. O capitalismo democrático resulta de uma minuciosa teia de regulamentos que definem os deveres, os direitos e os limites para a atuação do Estado, do capital e do trabalho nas relações econômicas. Acontece que esse complexo pacote de convenções e ficções legais só pode ser negociado, aperfeiçoado e cobrado num ambiente de sólida estabilidade do estado de direito, um privilégio de pouquíssimos quando o que se considera é a arena global.
Essa invenção genuinamente americana – a competição econômica livre apenas até o ponto considerado bom pelo conjunto da sociedade e legalmente cerceada a partir daí – começou a tomar forma no final do século 19, quando a primeira onda de fusões e incorporações de empresas tornou algumas das grandes corporações ianques maiores e mais poderosas do que era compatível com o sistema democrático. E evoluiu para o estado da arte entre 1945 e os meados da década de 70 quando aquele pais registrou o menor “gap” entre ricos e pobres de sua história.
Se não era, como não foi, um sistema perfeito, ele conseguiu subordinar o poder econômico aos interesses da comunidade e produzir a melhor equação de distribuição de renda e liberdade individual jamais alcançada por qualquer sociedade humana moderna. A economia norte-americana era, no século 20, e ainda continua sendo hoje, para resumir, a mais regulamentada do mundo, qualidade que, na nova realidade de competição aberta com o capitalismo de Estado, que opera sem respeitar nenhuma regra ou limite pré-estabelecido, se transformou no mais pesado handicap que ela paga para o novo adversário.

A entrada em cena do capitalismo de Estado trouxe de volta as empresas gigantes que, ha cem anos, os americanos já sabem que são incompatíveis com a democracia.
E, ironicamente, foi pela porta aberta pelas novas tecnologias de informação, comunicações e transportes, que nunca poderiam ter sido desenvolvidas sem ele, que o capitalismo democrático ficou exposto ao inimigo que poderá matá-lo.
O primeiro golpe veio com a padronização dos processos de gestão empresarial e a possibilidade da migração das industrias e dos empregos para territórios onde não vigora o estado de direito, onde a produção é monopólio do Estado e onde o regime de trabalho é quase escravo. O segundo foi consequência do advento da cópia idêntica ao original, ao toque de um botão, de produtos, de desenhos, de softwares e de ferramentas de produção, inerente à transformação de tudo em “bits”, que anulou os efeitos do gap educacional para todas as etapas da produção que sucedem os processos de pesquisa e desenvolvimento. E o terceiro veio com as tecnologias de redes virtuais globais que proporcionam aos comerciantes e consumidores de todo o mundo a condição da ubiqüidade.
Essas mudanças inverteram o sentido das forças positivas que atuavam sobre o sistema. E embora todo mundo esteja plenamente consciente de onde tudo isso vai acabar, é para esse buraco que as coisas caminham, inexoravelmente, tangidas pelo medo do desemprego em massa iminente. O mundo parece ter entrado num funil. O processo tem uma lógica própria e não ha maneira discernível de detê-lo.
No campo do trabalho, por exemplo, o que a competição entre a China e o mundo parece indicar é que um aparato de repressão capaz de garantir disciplina e conformismo com condições sub humanas de trabalho faz uma diferença muito maior que o investimento em educação e em recompensas crescentes na equação custo x qualidade nos esquemas de produção em escala num ambiente onde tudo é “pirateavel” impunemente e as cópias são idênticas ao original.

O medo de perder o mercado chinês, envolvendo mais de 1/5 da humanidade, por outro lado, blinda o regime contra pressões externas em favor da distensão no campo dos direitos humanos. E isso inverte o sentido do ajuste que seria lícito esperar: fica mais fácil fazer os salários do Ocidente se aproximarem dos níveis chineses que fazer os salários chineses subirem ao nível dos ocidentais.
Não é algo que possa acontecer de uma hora para outra. Mas a persistência desse tipo de pressão acaba produzindo efeito. A presente crise financeira, é bom lembrar, posto de lado o fator do crescimento exponencial da corrupção corporativa que também tem seu peso, resulta basicamente dos ganhos minguantes das classes assalariadas dos países ricos cruzada com a inapetência dos políticos por medidas impopulares como a redução dos benefícios do welfare state e a contenção do consumo pelo encarecimento dos financiamentos. O consumo e a expansão dos benefícios sociais, ao contrario, vêm sendo mantidos à custa do endividamento crescente do Estado (na Europa) e dos consumidores (nos Estados Unidos) num processo cujo caráter nitidamente insustentável foi e continua sendo escamoteado pelos caçadores de votos.
Simplesmente é falsa a momentosa questão “to keynes or not to keynes” a que jornalistas e economistas badalados, famintos de popularidade fácil, querem reduzir o problema. Pois, como o próprio Keynes ensinava, só pode gastar keynesianamente em medidas anticíclicas na crise (Lula) quem poupou ortodoxamente na bonança (FHC).
Tudo indica, portanto, que haverá, sim, mergulhos sucessivos na recessão enquanto os limites da aritmética continuarem sendo desrespeitados em favor da satisfação de hábitos difíceis de abandonar e de projetos individuais de poder.

O problema da escala de produção, outro fator que afeta decisivamente os custos, também lança pressões negativas sobre o sistema. No campo do capitalismo de Estado a produção se dá em regime de monopólio. E só outro monopólio pode chegar à escala de produção de um monopólio. Desse fato incontornável decorre, para o resto do mundo, a desmontagem acelerada do aparato anti-truste, sem duvida a mais preciosa construção da democracia, e a desabalada corrida para o “crescer ou morrer” com fusões e aquisições que jogou as autoridades reguladoras no colo das grandes corporações.
“Salvar empregos” hoje é alterar leis de proteção à concorrência e eliminar direitos individuais para favorecer a consolidação de monopólios deste lado do mundo capazes de fazer frente aos do lado de lá em matéria de ganhos de escala. Mas a associação explicita entre o poder político e o poder econômico que essa mudança exige, alem de minar a confiança do publico na democracia, favorece o desenvolvimento de relações promiscuas altamente indesejáveis entre eles.
A constituição dessas empresas-gigantes requer quantidades de capital que nenhum individuo sozinho pode fornecer. É preciso ir buscá-lo nas bolsas de valores. Os gestores e executivos dos monopólios do Supercapitalismo manipulam valores muitas vezes maiores que os PIB’s nacionais da maioria dos países. Mas não enfrentam nada de parecido com o complexo sistema de prestação de contas a poderes independentes aperfeiçoado a duras penas ao longo de 2.500 anos para garantir o bom uso do dinheiro alheio pelos governantes nas democracias. A tecnologia institucional de proteção ao acionista anônimo desses conglomerados ainda é apenas incipiente. Daí a corrupção desenfreada que grassa entre os controladores desses estados dentro do Estado, que se outorgam prêmios milionários enquanto esfarinham impunemente o patrimônio de seus acionistas e põem em risco o equilíbrio da economia mundial.
Por força da onda de consolidações, aliás, o setor de intermediação financeira inchou como nunca antes pelo mundo afora (nos EUA, saiu de pouco mais de 8% ha cerca de duas décadas, para mais de 40% da renda nacional) o que proporcionou à camada de cima das populações afetadas, com maior capacidade de poupança, embarcar na especulação financeira e apropriar-se das sobras do banquete dos grades predadores que se aproveitam desses momentos de crise.
Esse fenômeno produz três tipos de efeitos deletérios. O primeiro é a desmoralização da ética do trabalho. O segundo é dividir ainda mais a opinião publica, criando em parte dela a falsa impressão de estar ganhando com o que está acontecendo. E a terceira é tornar toda a economia dependente das entidades financeiras que conseguirem ficar “grandes demais para quebrar”, o que resulta, como já vimos, em dar aos seus gestores garantia de impunidade para toda forma inovadora de roubar o próximo que vierem a inventar.
E, no final, a consolidação forçada e o inchaço do setor de intermediação aprofundam o fosso social. Hoje, 1% da população americana detém 23% da renda nacional. A ultima vez em que a riqueza esteve tão concentrada nos EUA foi em 1928, não por acaso às véspera da Grande Depressão.
Mas tudo isso são apenas as mudanças que já ficaram para trás. O que se esboça pela frente pinta um quadro ainda mais preocupante.
Se a incapacidade de produzir riqueza era o maior inimigo da longevidade das tiranias, com o advento do capitalismo de Estado isso deixou de ser um obstáculo. A violência não é mais a única arma dos ditadores que, agora, estão aparelhados para explorar vertentes bem menos resistentes da natureza humana. Essa novidade deu uma decisiva injeção de animo às forças antidemocráticas ao redor do globo. E como o Estado democrático cuja razão de ser é, por definição, moderar a força corruptora do poder econômico, foi impelido a se aliar a ele para enfrentar a ameaça do capitalismo de Estado, desapareceram todos os obstáculos para a completa “dinheirização” de todos os aspectos da vida.

Organicamente incorporado ao Estado, o poder econômico se transforma, também, na melhor das ferramentas de projeção internacional (ou multinacional) de poder político. E, para este fim, o foco se concentra nos setores de infra estrutura com maior valor estratégico, tendo como alvo principal as empresas de telecomunicações que, com poderes condicionalmente concedidos pelos políticos, controlam as grandes estradas por onde transitam os dados que hoje põem a economia e o mundo em movimento. É com elas atuando nos campos da produção e distribuição de conteúdos informativos e de entretenimento que os governos planejam conseguir o desde sempre sonhado controle da circulação da informação.
Nos trópicos, onde sempre se mostrou mais o corpo que alhures, esse jogo de cooptação mutua entre os candidatos a controladores de monopólios setoriais e candidatos a controladores de monopólios políticos é mais explícito. O governo, o Tesouro Nacional, os bancos públicos e até os fundos de pensão da casta que se apropriou do Estado – para não mencionar os imprescindíveis atores coadjuvantes dessa construção no Legislativo e no Judiciário, – estão abertamente empenhados nele. Com isso, em poucos anos, a economia saiu de algo que parecia familiar e dizia respeito a cada um de nós para este fechado arquipélago de grandes sesmarias econômicas ao largo do qual o cada vez mais insignificante cidadão comum tenta se manter à tona. Do açougueiro ao banco, o pobre trabalhador brasileiro confronta-se com monopólios hoje em praticamente todos os atos do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos eles.

Se as eleições nunca estiveram à salvo da influencia do poder econômico, antes a contaminação era, pelo menos, restrita a grupos de interesse bem identificados. Agora as campanhas se transformaram em gigantescas operações abertas de suborno eleitoral. Duas classes são cooptadas: a base da pirâmide social, que aqui ainda pesa mais em termos de votos que todas as outras somadas, e a militância do partido no poder que hoje coincide exatamente com o aparato de administração do Estado e com os quadros do funcionalismo publico. Somente as migalhas do balúrdio extorquido de quem trabalha e produz retornam à sociedade em obras de infra estrutura. Mesmo assim, a falsa sensação de enriquecimento que a disseminação do dinheiro do suborno eleitoral proporciona economia abaixo é de tal modo inebriante para uma geração que nunca tinha visto crescimento econômico que mesmo quem, na política, tem plena consciência do crime que esta sendo cometido não tem coragem de denunciá-lo. Ao contrario, adere ao discurso corruptor.
O cidadão, cada vez mais minúsculo nesse mundo movido a bilhões, ainda vota. Mas é o caso de perguntar se quando essa obra tiver sido completada e eles forem donos do emprego e do salário de todos nós não vão dispensar essa formalidade.
Quem viver verá…

Como funciona o regime que o PT mais admira
13 de dezembro de 2009 § Deixe um comentário

“DIETA BRANDA”
“No meio de historias como esta vive Adolfo Fernandez Saínz que ontem fez 61 anos, seis dos quais passou trancado na prisão de Canaleta onde está desde a primavera de 2003”.
“Naquela tarde iria extrair o ultimo canino que lhe restava. Ha dias vinha nessa empreitada, ajudado por outro preso que era prático em arrancar dentes. A coleção dos dentes já arrancados estava guardada debaixo do travesseiro e ficaria ali ate que lhe desse vontade de atirá-los – com seu esmalte amarelado – pela pequena janela que havia na cela.
Se tudo saísse conforme o esperado, na semana seguinte estaria mostrando sua boca com as gengivas nuas para o médico. Diria que tinham caído sozinhos como fez o protagonista do filme Papillon, que assistiu quando era criança. Naquela história o prisioneiro tinha sido vítima do escorbuto. Mas ele não. Tinha renunciado à sua dentadura para ter acesso à dieta especial que era servida aos prisioneiros que não podiam mastigar. A papinha de banana com batata era muito superior, em sabor, à rançosa comida que serviam aos prisioneiros com dentes, de maneira que era uma questão de sobrevivência prescindir dessas coisas inuteis que vinha carregando ao redor da língua.
Antes de passar para o catre de Cojo, que já tinha preparado os “instrumentos” como se ostentasse um diploma de protético, olhou o canino pela ultima vez na lata polida que lhe servia de espelho. Não havia nada a lamentar, estava roído pelas cáries, torcido para a direita e manchado de nicotina. Esse pequeno obstáculo que emergia de sua boca não iria mais se interpor entre as carnes e as necessidades do seu corpo. Feita a consideração, começou a bater no dente para afrouxá-lo um pouco e seguiu para o lugar onde vários presos aguardavam uma extração. Por cima do colchão, o cabo partido de uma colher e uma pequena barra de metal faziam as vezes do martelo e do cinzel que seriam usados para abalar o dente, e uma pinça improvisada, feita com dois pedaços de arame, que seria usada para extrair a raiz. O pagamento pela cirurgia improvisada seria feito em cigarros, uns 20 que ele tinha conseguido poupar durante vários dias sem fumar.
Depois iria dormir com o buraco do dente latejando mas alegre por poder entrar na confraria dos desdentados, o seleto clube dos privilegiados que comiam um pouco melhor. Outros prisioneiros, em seus catres, tambem estariam controlando a dor e sonhando, durante toda a noite, com uma quentinha de alumínio transbordante de uma suave papinha”.
O que você acabou de ler é a tradução do post de 1º de dezembro passado do site Generacion Y, de Yoani Sanchez, que descreve, de Havana, como é a vida em Cuba, ha 53 anos sob o mesmo regime que nas décadas de 60 e 70 treinou os agentes da luta armada que tentaram derrubar o governo militar instalado no Brasil.
Adolfo Fernandez Saínz é tio dela.

O Human Rights Watch, ONG insuspeita de antipatias especiais para com regimes de esquerda, publicou em novembro passado o seu ultimo relatório sobre Cuba, sob o título “Novo Castro; a Cuba de sempre” (http://www.hrw.org/en/news/2009/11/18/cuba-ra-l-castro-imprisons-critics-crushes-dissent). Afirma-se ali que ha 53 prisioneiros politicos cumprindo penas em Cuba que variam de 13 a 28 anos. Mas a lista publicada não inclui o nome do tio de Yoani, de onde se conclui que a lista se refere apenas aos formalmente condenados, que são uma minoria.
Espancamentos sucessivos, meses em celas solitárias, ameaças de estupro, comida insuficiente e de péssima qualidade são alguns dos castigos corriqueiros que esses prisoneiros sofrem. Mas o pior deles talvez seja o da “condenação” à tuberculose. Com celas superlotadas, sem nenhuma higiene, a tuberculose é endêmica nas prisões cubanas. O Human Rights Watch registra pelo menos tres casos recentes de prisioneiros sadios arrancados de surpresa de suas celas e atirados em celas de quarentena, com até 70 prisioneiros doentes, para serem contaminados pela tuberculose.
O relatorio é muito longo e detalhado. Baseia-se em entrevistas contrabandeadas, feitas por telefone ou em testemunhos diretos coletados em delicadas operações de voluntários da ONG que visitam a ilha e fazem contato com familiares de presos e outras testemunhas tomando cuidados redobrados para que isso não lhes renda novas brutalidades por parte do regime.
Desde que Raul Castro substituiu seu irmão Fidel, em 2006, o numero de prisões arbitrarias aumentou muito. Organizações de direitos humanos que atuam em Cuba documentaram, para Human Rights Watch, 325 prisões arbitrárias em 2007. Só nos primeiros seis meses de 2009, o numero subiu para 532.
As leis cubanas não apenas incentivam como, em alguns casos, obrigam os agentes do governo a fazerem prisões arbitrárias não apenas de quem infringiu alguma das drásticas leis de proteção do regime. O artigo 243 da Lei de Procedimentos Criminais ordena a prisão – por “periculosidade” – tambem de quem as autoridades suspeitem que possa vir a faze-lo no futuro. As definições são suficientemente vagas para permitir que qualquer um seja preso sob qualquer pretexto.
O Poder Judiciário praticamente não existe. É inteiramente subordinado ao Conselho de Estado, orgão máximo do regime com 31 membros presididos por Raul Castro, que nomeia e demite todos os juizes e manda e desmanda nos membros da Assembleia Nacional que se finge de Poder Legislativo. As “eleições” para essa assembleia só admitem um candidato por vaga e o “eleitor” pode votar nele ou votar em branco…
As penas, nos primeiros estágios da perseguição, são indefinidas. A autoridade policial pode prender sem julgamento ou pode haver um julgamento sumário com sentença passada em menos de 24 horas após a prisão. Tambem pode não haver julgamento nunca e a pessoa ficará presa “para reeducação política” até que a autoridade ache que a reeducação foi completada.
O relatório do Human Rights Watch registra, para cada fórmula mencionada neste artigo, inumeros casos reais como ilustração.

A ação policial que se apresenta como tal, entretanto, só virá depois de uma sucessão de atos de terrorismo contra o alvo e seus familiares e amigos que poderão ser perpetrados por policiais ou por civis dos “Comites para a Defesa da Revolução” instalados em cada bairro de cada cidade ou, ainda, pelas “Brigadas de Resposta Rápida” tambem constituídas por “voluntários civis”.
O uso generalizado de espionagem por agentes infiltrados e de vigilância eltrônica (grampos telefônicos, vigilância das mensagens por computador, filmagens, etc.) faz com que todo cubano se sinta devassado. O governo pressiona diretamente a família e os amigos dos suspeitos de dissidência a se afastarem dele sob pena de também sofrerem sansões (perda do emprego, etc.). O isolamento é uma arma poderosa…
O medo leva muita gente a se aproximar dos agentes do aparelho repressor para melhorar sua pontuação junto ao partido. Pertencer ao “Comite de Defesa da Revolução” local ou a algum dos sindicatos ligados ao governo são formas de ganhar simpatias dos poderosos. A simples participação nos eventos comemorativos do partido já conta uns pontinhos (positivos para quem vai e “se entusiasma”, negativos para quem não vai ou para quem não mostra entusiasmo com os “discursos revolucionários” dos que estão ha 53 anos no poder). Mas as maiores recompensas vão mesmo para quem delatar seus vizinhos e parentes.
Todo mundo suspeita de todo mundo.
Quando parte para a ação direta o governo recorre a prisões que mais se assemelham a sequestros, espancamentos (Yoani foi sequestrada e espancada por quatro ou cinco brutamontes ha cerca de duas semanas) e intimidações verbais feitas por gente fardada, às vezes, ou a paisana e sem identificação, quando convem. Tambem são muito usados os “atos de repudio” em frente à casa dos famíliares do dissidente em que “manifestações” de grupos ligados ao governo os fazem passar por seções de humilhação e achincalhamento que, frequentemente, chegam até às vizinhanças do linchamento. As famílias dos dissidentes presos também são multadas em valores suficientes para deixa-las passando necessidades (os salários, em media, são de US$ 15 dolares por mes) e o acesso aos serviços sociais básicos como medicina, por exemplo, pode ser fechado.
O relatório segue por 120 páginas de variações sobre o tema que incluem todo tipo imaginável de covardia, de ignomínia e de sordidez. Só no final desse tunel é que estão as prisões e a tuberculose…
É este o regime que a maior parte dos petistas que não aceitam fazer concessões ao “governo ilegítimo” eleito em Honduras tem como modelo.

Indo e voltando no “capitalismo de relacionamentos”
29 de outubro de 2009 § Deixe um comentário
Socialismo?
Quem teve medo de Lula e do PT por causa dele estava lhes fazendo um elogio imerecido.
Pa-tri-mo-nia-lis-mo.
Aliás, diga-se, a bem da verdade, foi assim em toda a parte. Socialismo é a formulação teórica. Patrimonialismo é a tradução prática. As diferenças são só de grau.
É inescapável. Também existe um Estado teórico, bom pras discussões, e o Estado concreto. O Estado concreto são pessoas. O teórico serve a si mesmo. O concreto serve pessoas. Primeiro, é dos seus funcionários. Depois é do governo que o controla (e o governo também são pessoas…). O que sobra é para a parcela do resto que não desafia nem uns nem o outro. É para quem – “capitalista de relacionamentos” ou miserável – retribui os favores renovando-lhes o mandato.
Para os independentes e sobretudo para os críticos, a lei…
E assim vamos nós, volta após volta, presos no mesmo bom e velho círculo vicioso.
Abrir um negócio próprio e trabalhar só é uma maneira viável de se ganhar a vida e até, eventualmente, de enriquecer, quando se exclui todas as outras. Só é possível onde o Estado está completamente fora da atividade econômica, trabalhando para fiscalizá-la e regulamentá-la. Quando o Estado é um agente direto da economia, quanto mais amplo for o espectro dos seus gastos, mais fácil fica fazer dinheiro desviando recursos públicos ou ganhando contratos e favores regulatórios.
Aí, não há competição possível. Com raríssimas exceções, as grandes fortunas privadas serão filhas das conexões políticas e da corrupção. E quanto mais fortunas privadas forem filhas das conexões políticas e da corrupção, mais o sistema, como um todo, será avaliado como injusto e indefensável.
Afinal, para quem nunca viveu outra coisa, não existe um capitalismo democrático e um “capitalismo de relacionamentos”. Só existe o “capitalismo de relacionamentos”…
Para evitar uma identificação com ele no imaginário do publico, os políticos oportunistas são os primeiros a insuflar os ataques contra o capitalismo que temos. Isso assusta os investidores legítimos, que passam a não ter mais certeza de contar com o cumprimento dos contratos e o respeito à lei. Encurta o espaço para estes, que passam a procurar freguesias mais seguras, enquanto aumenta o território para os “dispostos a tudo”. Afinal, como não estar disposto a tudo se a regra do jogo é a que é?
Ao fim e ao cabo, a hostilidade do publico acaba fomentando e “justificando” a busca de privilégios junto ao governo. E a concessão desses privilégios aumenta a hostilidade do publico contra os empresários, o que joga mais água para o moinho daqueles a quem interessa mais estatização…
E a quem interessa mais estatização?
Às pessoas que são o Estado, entre as quais se inclui as que são o governo. O país politicamente organizado, que é o dos funcionários do Estado, quer mais Estado porque sabe bem como isso vai irrigar a sua tetinha particular. O país miserável quer mais Estado porque espera que isso resulte em que a sua esmola aumente. O país dos “capitalistas de relacionamentos” espera, como sempre sentado, para morder o seu pedaço da caça abatida. E o país dos profissionais do poder saliva e lambe os beiços, prelibando a proteína extra que lhe vai ser servida.
Já o país moderno, este vai encolhendo enquanto tenta explicar, no meio do barulho dos fatos, como as coisas poderiam vir a ser.
Ou emigra.
Os jornais que sempre o citam quando ele elogia, desta vez omitiram a declaração. Mas o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, já sentiu o cheiro, esta semana na Argentina: lá vai o Brasil, o “eterno país do futuro”. Lá vai o Brasil, onde a imagem da mobilidade social – ficar milionário jogando futebol, cantando pagode, sendo um “famoso” na TV ou se aliando a Judas – corre o risco de permanecer para sempre no “padrão Cinderela”, e onde o esforço e o mérito, esmagados pela conformada remediação do funcionalismo ou pela exposição do sucesso dos corruptos e dos “capitalistas de relacionamentos”, seguirão, para sempre, valendo nada…
Em que momento da presente volta no velho círculo nós estamos nesta reedição lulística da nossa história de sempre?
Você decide…
Dentro do governo, os honestos que sobraram estão ligando o alarme. Domingo, no Estadão, Luciano Coutinho clamava no deserto, soando como um eco de um passado distante: “é preciso controlar os gastos, reformar a Previdência, incentivar a poupança e o investimento publico…”
Por trás das suas palavras, no meio da balburdia ufanista do governo do qual ainda faz parte, estão o aparelhamento desenfreado da máquina publica; 20% de aumento da folha de salários do Estado em um ano; a explosão do déficit da Previdência; o afrouxamento das metas fiscais…
Lá se foi a “Carta aos Brasileiros”…
À frente das suas palavras está a apropriação do petróleo futuro e o “agrandamento” da Petrobras, acompanhado da proverbial “banana” para os seus sócios e acionistas; o início do jogo do lobo e do cordeiro com a Vale; o avanço dos bancos públicos com toda a sua nefanda memória de abusos e de instrumentalização política…
E o que há de novo na versão lulística da nossa velha história?
Uma dose maior de bílis. Um amargor; um travo de desvirtuado “profissionalismo” no crime. O Estado não está se voltando apenas para servir mais um grupo de bandalhos, como sempre. Estes que estão aí querem mais e por muito mais tempo. O Estado, agora, serve a um projeto de poder. Os caronas sindicais, os caronas privados, são iguais aos de sempre. Mas existe no ar um novo condimento policialesco; uma guilhotina moral que uma polícia e uma TV aparelhadas acionam, de quando em quando, para as nossas “tricoteuse”; tentativas sucessivas, insistentes, de calar a imprensa, de tutelar a produção intelectual, de controlar a mídia eletrônica; uma forma crescentemente assumida de patrocinar o desrespeito à lei ou de aplicá-la seletivamente; uma desfaçatez cada vez mais acintosa na afirmação de mentiras patentes; um alinhamento cada vez mais ostensivo a governos criminosos e aos párias do mundo.
Daqui não parece tão brilhante o futuro do “país do futuro”.





Você precisa fazer login para comentar.