Macho mesmo, no Brasil, só as bichas

21 de março de 2013 § 4 Comentários

foto-67

foto-69

foto-70

As esperanças que vêm com o papa

18 de março de 2013 § 1 comentário

papa12

O papa Francisco mandou uma mensagem inequívoca para dentro e para fora da Igreja no encontro com jornalistas no Vaticano, sábado passado:

O papel da imprensa cresceu muito nos últimos tempos, tornando-se indispensável. Vocês têm o compromisso de divulgar a verdade e isso nos torna muito próximos pois a Igreja quer comunicar exatamente isso, a verdade, a bondade e a beleza”.

A descrição aplica-se tanto ao papel desempenhado pela imprensa na denuncia dos casos de pedofilia envolvendo padres e bispos quanto, principalmente, na resistência aos autocratas sul-americanos que, num ambiente de crescente desinstitucionalização, vêm anulando os poderes moderadores do Judiciário e do Legislativo, seja pelo constrangimento direto, como na sua Argentina natal, seja pelo indireto com o recurso à corrupção sistemática, como no Brasil do PT.

papa11

A imprensa “tornou-se indispensável” como último refúgio da oposição à onda de violência antidemocrática que, com poucas exceções, assola o continente sul-americano.

É bom saber que não estamos sozinhos nessa luta…

Vai, Francisco, e reconstrói a minha Igreja que está em ruinas”, foi o que teria ouvido em Assis, do Cristo na cruz, o santo de quem o novo papa tirou o seu nome.

Da Igreja para dentro é gigantesco o desafio que o novo papa enfrentará, assim como a reconciliação dela com um rebanho em dispersão.  Para enfrentar esse duplo desafio dosar os limites da ação, para um lado e para o outro, será essencial.

Curiosamente, do muito que se escreveu sobre o novo papa nos jornais brasileiros deste fim-de-semana, o que mais chamou minha atenção saiu da pena de um judeu, Lee Siegel, em artigo para O Estado de S. Paulo (aqui).

papa3

Ele fazia duas advertências.

Invocando suas memórias de infância alertava, como filho de uma religião que se expressa em termos preferencialmente racionais, para o perigo de se tornar excessivo o esforço do novo pontífice para desmistificar o papado, lembrando os efeitos indesejados do primeiro grande salto da Igreja nessa direção quando determinou que as missas deixassem de ser rezadas em latim e passassem a ser ditas nas línguas nacionais de cada rebanho.

Eu tinha inveja de meus amigos católicos. Os ritmos belos e encantatórios do idioma arcaico, o cheiro de incenso, os cantos. O vinho e as velas e hóstias – tudo tornava presente e real o mundo invisível, espiritual, que eu tão ardentemente esperava que existisse como uma alternativa melhor que aquele em que eu habitava mundanamente”.

papa8

A razão ordena e a tudo torna inteligível. E ao faze-lo reduz o espaço para a imaginação, a diferença e a individualidade. Apaga a dimensão do sonho que é o espaço onde a religião nada de braçada.

Quem não pensou ainda, ao se deparar com a aridez de um mundo cada vez mais sem mistérios, no sentido da advertência bíblica sobre o gatilho da expulsão dos homens do Paraíso: “Não comerás da árvore do conhecimento”?

A outra advertência de Siegel, de sentido mais prático, trata em termos precisos do primeiro problema concreto com que o papa Francisco terá de se deparar.

Sem o celibato e as patologias que ele amiude origina, sem as barreiras institucionais erigidas para mulheres, sem a tolerância aos abusos de poder coexistindo com a misericórdia para os impotentes, a mensagem de amor e esperança do catolicismo – única na história humana – seria revigorada e disseminada livremente”.

papa7

Nada como um olhar estrangeiro!

Como explicar a enorme expectativa de toda a comunidade humana com relação à eleição do novo chefe de uma igreja (crescentemente) minoritária, traduzida pelo gigantesco aparato de midia que se instalou na Praça de São Pedro nas últimas semanas, senão pelo reconhecimento universal de que “a mensagem de amor e esperança do catolicismo” é a base do que Mario Vargas Llosa descreveu, em artigo recente, como “a ilustre e revolucionária cultura clássica e renascentista que (…) impregnou o mundo com ideias, formas e costumes que acabaram com a escravidão e tornaram possíveis as noções de igualdade, solidariedade, direitos humanos, liberdade e democracia” ou, em outras palavras, a mensagem que está na base do que de melhor a humanidade produziu em todos os tempos?

Ao trocar o acessório (o celibato) pelo principal, a Igreja vem ha séculos derrapando na besteirada em torno do sexo e deixando em segundo plano a sedutora beleza universal da sua mensagem essencial.

Que seja o papa Francisco a resgatá-la desse desvio.papa9

Direitos da mulher

18 de março de 2013 § 3 Comentários

Vídeo sugerido por Roberto Lacerda de Oliveira Filho

Lembrete

25 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

foto-69

O casamento gay não é, exatamente, o problema mais premente da humanidade no momento.

Ele ganhou a importância que ganhou na eleição presidencial americana porque é um dos últimos que restaram ainda por ser resolvidos na relação entre o Estado e o povo dos Estados Unidos da América.

foto-70

Sendo assim, roga-se à grande imprensa abaixo do Equador não esquecer que nós, cá embaixo, ainda temos de resolver todos os outros, a começar pelo primeiro, que é o de estabelecer a igualdade de todos (os de dentro e os de fora do aparelho do Estado) perante a lei.

foto-71

Pelo imposto da dignidade

1 de outubro de 2012 § 1 comentário

O motim que explodiu na semana passada na unidade de Taiyuan, província de Shanxi, China, da Foxconn, com 40 feridos, foi o enésimo episódio de violência do trabalho registrado sob essa marca que se vai transformando no símbolo mundial do capitalismo selvagem, mas que cresceu e apareceu no cenário das gigantes da manufatura da China especializando-se em trabalhar para a Apple, representante máxima do último refinamento do capitalismo democrático.

A Apple e a Foxconn são, por assim dizer, o ponto onde a cobra morde o próprio rabo, a mostrar que a civilização é mesmo só uma fina camada de verniz e a dar uma nova leitura ao velho ditado de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“.

Comentei quinta-feira passada a entrevista à Veja do poeta Ferreira Gullar em que ele dizia que, sendo um reflexo dos instintos humanos que empurram para a desigualdade e a injustiça mas, ao mesmo tempo, a forma mais eficaz de produzir riqueza, único remédio capaz de corrigir essas injustiças da natureza, o capitalismo é uma necessidade, “uma fatalidade” que precisa ser controlada, sendo função do Estado impedir que ele seja reduzido a uma mera expressão da lei do mais forte e leve a exploração do homem pelo homem a níveis extremos.

Somente essa fábrica da Foxconn, grupo que emprega mais de um milhão de pessoas, tem 79 mil funcionários, mais ou menos o equivalente a toda a força de trabalho que move a General Motors, um dos últimos “gigantes” (coitados!) remanescentes da era pré-globalização e um dos maiores empregadores que restam nos Estados Unidos.

Este motim, que se segue a episódios que chegaram a extremos como o de suicídios em massa ha dois anos, começou com uma briga entre dois funcionários bêbados que foram atacados com tanta “ferocidade” pelos “seguranças” da fábrica que provocaram uma rebelião geral que requereu a interseção de 5 mil policiais para amainar os ânimos.

A fábrica de Shanxi trabalha tão somente para a Apple, onde se materializam os sonhos futuristas do genial Steve Jobs, símbolo do ápice da sofisticação do capitalismo democrático mas que … jamais teria chegado onde chegou se não explorasse da maneira mais vil e desonesta possível – e antes dos seus concorrentes – a oportunidade de fugir às leis de proteção ao trabalho dos Estados Unidos e pisar na garganta de seus operários aberta pela globalização do mercado de trabalho proporcionada em parte pela informática por ele desenvolvida, exportando a montagem dos computadores que desenhava para a China Comunista onde vale tudo.

Foxconn é uma estrutura que fica a meio caminho entre uma fábrica e uma prisão. Boa parte dos funcionários vive em cubículos dentro da própria fábrica cumprindo turnos de até 12 horas sob a fiscalização estrita de brutamontes armados.

Como foram trazidos do interior da China, sem um tostão, tornam-se totalmente dependentes desse empregador, quase escravos submetidos a “castigos físicos“, turnos dobrados e etc.

Essa condição vai piorando desde o momento em que se inaugura a produção. Como essas empresas são montadas apenas para servir a Apple, uma vez completado o investimento começam as renegociações draconianas, ano a ano, entre os chineses e a empresa americana que se torna a compradora única de tudo que eles produzem.

Como sempre, entre fechar e seguir vivendo como der, a corda da “redução de custos” e dos “ganhos de produtividade” estoura do lado mais fraco: salários e direitos são esmagados, turnos são aumentados, a qualidade dos materiais, especialmente os que envolvem segurança e limpeza das fábricas, alojamento e alimentação dos operários e outros que não aparecem imediatamente em seu produto final, é espremida…

Vai por aí. Não tem mágica.

Um dia, quando se cansarem de chutar-se uns aos outros em nome de esotéricos conceitos de “esquerda” e “direita“, e métodos “monetaristas” ou “keynesianos” de lidar com o empobrecimento geral que a exportação dos empregos, o aviltamento planetário dos salários e o mau humor geral que disso resulta, os americanos talvez atentem para o verdadeiro foco do problema que eles foram os primeiros a identificar e encaminhar ha quase 240 anos.

Qual seja: não sendo os homens santos, é preciso que sejam controlados para que não se devorem uns aos outros, cabendo ao Estado esse papel. Se o estado se associar ao capital (como está fazendo em marcha acelerada no Brasil do PT e até, em certa medida, nos próprios Estados Unidos), resultam daí as chinas e as foxconn da vida. E, nesta nova realidade globalizada onde “nenhum homem é uma ilha“, havendo um “chinês” disposto a trabalhar como quase escravo, a quem os steve jobs possam recorrer para ganhar um pouco mais, todos nós estaremos fadados a virar quase escravos também.

De modo que a solução para a crise dos Estados Unidos e da Europa não está nos livros de Keynes ou dos monetaristas, nem muito menos em ter uma atitude “liberal” ou “republicana” e em esgrimir brilharecos retóricos em torno dessas nulidades pela imprensa, mas sim em dar um jeito de taxar os produtos que se consome segundo o grau de liberdade e dignidade do trabalho embutidos neles.

Porque sendo o homem a fera que é, regida pela economia (“quem come mais vive mais“), se a liberdade e a dignidade do trabalho continuarem não valendo nada e sendo apenas “custo” estão irremediavelmente fadadas a desaparecer da face da Terra.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com direitos humanos em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: