O modelo honesto de participação popular

30 de agosto de 2014 § 9 Comentários

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Publicado em O Estado de S. Paulo de 30/8/2014

Ha uma perigosa conversa de surdos no Brasil em torno dos conceitos de “democracia direta” e “governo de participação popular”.

A rejeição generalizada ao que a imprensa chama de “política tradicional” não significa a rejeição da democracia tradicional. É exatamente o contrário pois nenhum dos elementos que definem esse regime está presente na ordem institucional brasileira: não somos iguais perante a lei, não elegemos nossos representantes na base de “um homem, um voto” e nem vivemos numa meritocracia.

Enquanto o país não tomar consciência de que a droga institucional em que está viciado define-o como um doente grave de insuficiência democrática, e não o contrário, não se disporá a curar-se. Continuará, a cada crise, aceitando doses crescentes dos venenos populistas que ingere no lugar do remédio democrático até que a overdose de migalhas de “direitos adquiridos” sem fazer força acabe por matar definitivamente a moral e a economia nacionais.

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Até agora só o PT mostrou que sabe para que quer a sua formula de “participação social”, sintomaticamente decidida sem a participação de ninguém, que faz do Congresso Nacional eleito por todos os brasileiros uma espécie de “rainha da Inglaterra” submetida a Organizações Não Governamentais Organizadas pelo Governo na sequência da “cristianização” do Judiciário que se seguiu ao julgamento do mensalão.

É historicamente justificável, aliás, que só quem se alinhe no campo antidemocrático tenha know how sólido sobre o que fazer na disputa pelo poder no Brasil posto que democracia, ao contrário das bugigangas institucionais vendidas pelos nossos camelôs da política, requer, sim, muita prática e muita habilidade e nós, lusófonos, não temos nenhuma.

O PT não só é versado na praxis autoritária que nós dividimos com os outros povos latinos e católicos, como é ultra especializado na vertente francamente antidemocrática dessa tradição representada pelo corporativismo ibérico, o expediente que mais refinou a prática de usar as expressões e as ferramentas da democracia para impedir a sua entrada no território nacional e matar qualquer semente dela que, por acidente, chegue a germinar no solo pátrio.

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As demais correntes políticas brasileiras – e tanto mais quanto mais sinceramente apegadas forem aos dogmas da tolerância e do respeito pela diferença e, consequentemente, da liberdade de pensamento e expressão – tateiam no escuro da nossa completa ausência de experiência prática no assunto, agravada pelo nosso isolamento linguístico, na sua busca pelo aperfeiçoamento da nossa democracia, penumbra esta que a imprensa não tem ajudado a iluminar em função da regra que se impõe de só mostrar das democracias mais avançadas o que elas produzem de pior.

Marina Silva não sabe qual tipo de “participação popular” deseja e nem exatamente para que, podendo facilmente tornar-se vítima de enganos fatais como aquele em que quase embarcou comprando por lebre o gato que Dilma vende no Decreto 8243 (integra aqui). Alertada recuou, e desde então trata de produzir o seu modelo de “participação” para não mostrar-se surda à demanda posta por 76% do eleitorado, o que nos põe sob risco iminente.

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Já Aécio, o único que não hesita na afirmação de sua fé anti-autoritária, sabe que é gato a lebre de Dilma mas não sabe apontar com precisão o que é que define essa falsificação. Na dúvida abraça a metade inócua da solução certa com sua proposta de voto distrital “misto”, apodo que lhe tira o componente mais forte de participação popular, e com isso perde não só a oportunidade de propor uma solução democrática consagrada capaz de revolucionar a política brasileira como também a de acrescentar ao seu discurso a contundência reformista que lhe falta.

O primeiro pingo a ser reposto nos “is” para retomar essa questão em melhores termos é estabelecer definitivamente que, ao contrário do que sugere o blá-blá-blá geral, só a democracia “tradicional”, que tem obrigatoriamente de ser representativa no contexto de multidões em que vivemos, garante a real participação da sociedade na definição do seu próprio destino político, desde que legitimada pelo sufrágio universal.

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O segundo é lembrar que garantir o controle do representante pelo representado sempre foi o calcanhar de Aquiles do regime tendo posto a perder as suas duas primeiras tentativas de caminhar pela Terra – em Atenas e em Roma – mas que na terceira, iniciada na Inglaterra e consolidada em seu prolongamento americano, conseguiu-se, após uma série de tropeços, uma solução boa o bastante para reduzir a corrupção a ponto de extinguir a miséria e dar flexibilidade ao sistema de modo a produzir a mais próspera e progressista das sociedades que nossa espécie jamais reuniu.

Essa solução, que pressupõe o restabelecimento do federalismo e da independência entre os tres poderes da Republica que nós já tivemos e nos foram suprimidos, é o voto distrital com recall ou “retomada”, que arma a mão do eleitor para cassar, a qualquer momento, o mandato do representante que não honrar a sua representação sem provocar nenhuma perturbação maior no bom andamento dos negócios públicos, o que põe todos os eleitores participando de forma transparente e inverte radicalmente a hierarquia das relações entre cidadãos e servidores públicos.

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Nesse modelo cada candidato só pode concorrer por um distrito definido e qualquer eleitor desse colégio eleitoral pode iniciar uma petição pela “retomada” do mandato condicionalmente concedido ao seu representante que, se aprovada por seus pares numa votação circunscrita, manda-o de volta para casa ou deixa-o à disposição do Judiciário já como cidadão comum.

Isso põe os políticos na dependência da nossa boa vontade e não o contrário como é hoje, o que, de saída, obriga-os a jogar a nosso favor, introduz a meritocracia no serviço público e abre as portas para todas as demais reformas que nos parecerem necessárias que, então, poderão ser empurradas pela formidavel arma da remoção expressa de todos que se lhe opuserem de dentro das nossas casas legislativas.

Isso opera milagres! O resto é tapeação.

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Que tal mudar a mudança?

22 de agosto de 2014 § 7 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 22 de agosto de 2014

Passados nove dias da morte de Eduardo Campos em que a imprensa serviu doses maciças de revisões e análises da crucial eleição de 2014 onde todos se apresentam como representantes da “mudança”, nenhum fato que possa servir de referência foi fincado fora do terreno pantanoso da propaganda em que tudo continua boiando para balizar a eleição por esse critério que a unanimidade dos candidatos adicionou pelo menos ao rótulo da embalagem com que se apresenta ao público.

Mudança em relação a quê?

Desde as ruas de 2013 não ha político nem marqueteiro que tenha conseguido formular qualquer coisa de convincente.

Mas existe uma chave para esse mistério. A única mudança que não merece aspas nem é unanimidade entre todas as que aparecem nas propostas dos candidatos é aquela que, inexplicavelmente, menos para os seus protagonistas, ninguém menciona.

Mais do que propor, o partido de Dilma Rousseff impôs à mesa a carta de uma mudança daquelas que é para ser infinita enquanto durar. Continua em vigor, fazendo tres meses agora, o Decreto Presidencial nº 8243, de 25 de maio de 2014, assinado por ela, que revoga o sistema representativo eleito pelo voto universal e tira do Congresso Nacional as prerrogativas que são exclusivas dele numa democracia.

Não foi a única tentativa. Mas entre esta e a primeira muito mais coisa mudou no Brasil do que a incorporação de suites especiais ao Presídio da Papuda.

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A medida da gravidade da intoxicação que acomete o país não está no fato do PT ter apresentado uma nova modelagem do seu DNA antidemocrático desde sempre conhecido mas sim na enormidade que é, depois de impo-lo ao Brasil na forma de um édito de sua majestade em pleno Terceiro Milênio ele não ter sido mencionado uma única vez em todo o debate eleitoral, nem pelos candidatos, uns interpelando os outros, nem pela imprensa cobrando de cada um que se posicione em relação a ele.

Quem, afinal, está em desacordo com isso?

A docilidade com que o Poder Legislativo segue permitindo que o seu pescoço permaneça acomodado no cêpo de uma guilhotina com a lâmina já destravada, posto que decretada e não meramente proposta a execução está, é de arrepiar os cabelos.

O Congresso Nacional, vá lá, é o que foi feito dele. Mas sendo ainda uma criatura da democracia, sempre acaba dando sinais de vida desde que a imprensa cumpra a sua função de fustigá-lo com os necessários rigor e pertinácia, tanto que esboçou reação antes que a Copa esvaziasse a pressão.

É assim mesmo que funciona.

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Perseguir a corrupção faz, sim, parte do “metier”. Mas o tema da quantidade de máculas carregada por cada candidato num quadro institucional que não admite trânsito isento de vício é insuficiente para criar uma distinção livre de argumentações teóricas desviantes, ainda que as diferenças de grau possíveis nesse quesito e suas funestas consequências sejam as que se conhece. Essa linha de ação, portanto, mais serve para igualar coisas que são diferentes do que ajuda o eleitor a diferenciá-las. Não é por acaso que o “Eu sou, mas quem não é”? foi transformado, desde a segunda semana do Mensalão, praticamente na divisa armorial do brasão do lulismo.

Ha valores muito mais importantes em jogo. E, no entanto, Eduardo Campos morreu a 53 dias da decisão sem nunca ter sido instado a nos contar como se posicionava diante deste édito tão cheio de consequências definitivas da contendora de quem já tinha sido um aliado e um servidor. No país dos 30 e tantos partidos políticos, quase todos “socialistas”, aliás, qual seria a diferença entre o “socialismo” do PT, o “socialismo” de Eduardo Campos e o “socialismo” de Marina Silva?

Ninguém disse nem jamais foi-lhes perguntado.

O de Aécio Neves declara-se formalmente “democrático”, “social democracia” que seria. Mas, mesmo a ele, como aos demais, não conviria peguntar diretamente, olho no olho do eleitor, como se posicionam em relação ao menos a algumas daquelas 521 alterações na Constituição da Republica que integram o “Plano Nacional de Direitos Humanos”, programa oficial de governo do PT que, segundo a nova “Política Nacional de Participação Social” decretada pelo Palácio, passarão a ser implementadas ou não segundo o que for decidido entre o presidente e os “movimentos sociais” que o Secretário Geral da Presidência houver por bem selecionar?

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Concordam, por exemplo, que todos os professores e alunos do país sejam submetidos a um programa de reeducação para entender qual a nova interpretação que o governo exige que se aceite em ordem unida, do conceito de direitos humanos? Estão de acordo com que a confirmação ou não da posse de propriedades rurais ou urbanas invadidas deva sair das mãos do Poder Judiciário e passar às dos “movimentos sociais” que tomarem a iniciativa de invadí-las? Que todas as polícias do país passem a depender e obedecer exclusivamente ao presidente? Que os ungidos do senhor secretário passem a determinar que leis os representantes eleitos de todos os brasileiros poderão examinar, o que cada um de nós poderá ou não ler e a imprensa publicar?

E à própria candidata à reeleição, não cabe pedir que nos explique, ponto por ponto, por qual tipo de matemática pode-se demonstrar ao eleitor que as novas Organizações Não Governamentais Organizadas pelo Governo (ONGOGs) o representam melhor que o representante em quem ele votou?

É da permanência ou não do Brasil no campo democrático que se trata. Ha 12 anos o país tem vivido num empurra-empurra para fora, mediante todo tipo de expediente tipificado ou não no Código Penal, e de volta para dentro dele na undécima hora, e é isto que explica porque está ficando tão difícil trabalhar aqui. E a cada tentativa abortada o elemento de resistência tem sido sumariamente eliminado, tenha o peso institucional que tiver. O que esta eleição pode mudar é acabar de uma vez por todas com esse tipo de mudança, reverter os pedaços dela que nos foram impingidos ilegalmente e reafirmar como indestrutível o pacto deste país com a democracia para que todos possamos recomeçar a trabalhar em paz.

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O poderoso senhor Boulos

6 de agosto de 2014 § 3 Comentários

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Guilherme Boulos, assim como o “lobista” José Carlos Bumlai, amigo do Lula, o todo-poderoso José Dirceu, ex-“capitão do time”, a elegante Rosemary Noronha, de diferentes predicados, e tantos outros nesta Era PT, é um furador oficial de filas.

Não que tenha, exatamente, feito por merecer os poderes que tem. O PT tem, como se sabe, problemas insuperáveis com o conceito do merecimento. Não foram as suas idéias, não foram os seus discursos; não foi o seu carisma, nem muito menos o seu currículo que lhos conferiu. Guilherme Boulos nunca formulou um conjunto de ideias novas ou teve de convencer alguém a aderir às que tomou de empréstimo. Não teve sequer, como é o caso de alguns de seus correligionários, de pegar em armas para constranger os outros a aceitar seus “argumentos“. Nem uma simples indenização por prejuízos impostos pela ditadura ele tem para exibir.

Guilherme Boulos é apenas um intermediário; um transferidor de poderes que não são dele.

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Ao público aqui de fora, ele se impôs, da noite para o dia, como um “abridor de portas” para o sonho da casa própria nos bairros mais cobiçados da maior cidade da América do Sul para candidatos sem paciência nem disposição para as idas e vindas, os ganhos e as perdas, os suores e as lágrimas que aqueles que, vindos do nada como vieram todos os brasileiros, conquistaram passo a passo, antes deles, o direito a esses “filés”, pela mesma razão pela qual foi dado a José Carlos Bumlai franquear as portas de todos os gabinetes da República, a José Dirceu garantir acesso a todos os negócios do governo ultrapassando a casa do bilhão e a Rosemary Noronha arrumar cantinhos em licitações públicas menores: porque o governo do PT, onde cada um deles tem os amigos certos, mandou comunicar a quem interessar possa que, sim, casa própria é com ele mesmo e, assim como faz para os outros aqui citados, honra rigorosamente esse mandato outorgado por cima de toda a lei, doa a quem doer, sejam eles os sem-teto preteridos, os proprietários esbulhados ou os tribunais emasculados do poder de executar as leis que, para o comum dos mortais, mandam coibir tais expropriações.

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Guilherme Boulos é um homem de resultados. Furar a fila da casa própria pelas mãos dele é algo que pode ser feito por simples procuração. Seus comandados estão dispensados de todos os desconfortos vividos por seus precursores. Sem ter de passar pela burocracia de que não nos livramos os que insistimos em suar a camisa para ver se ganhamos o direito a algum “filé”, o que vai sem dizer, eles são hoje “pessoas jurídicas” que podem esconder suas identidades e estão dispensadas até das vicissitudes dos acampamentos em pleno inverno a que seus antecessores estavam submetidos. Assim, se der zebra e  houver ordem de despejo, só o quase-barraco será “despejado“, podendo ser reerguido com o mínimo de esforço logo a seguir.

Não ha filas na ida, nem sorteios no meio, nem cartórios, emolumentos, impostos e os impossíveis “habitem-ses” sem “amaciantes” que povoam os nossos pesadelos na volta. Os acampamentos de “sem-tetos” de Guilherme Boulos vivem a paz dos cemitérios. Não ha neles viv’alma. Àqueles que lhe vendem a sua bastam dois metros de plástico barato, cinco varas de bambu e uma lata de tinta branca para pintar a sua “marca” no quase-barraco e pronto: está “piruzado” o terreno que ninguém mais terá o poder de tirar-lhes no próximo “condomínio social” a ser enfiado pelo prefeito Fernando Haddad, como uma justa lição aos seus moradores “burgueses” da odiada classe média “velha“, no meio dos bairros mais disputados da cidade.

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A Organização Não Governamental Organizada pelo Governo (ONGOG) do senhor Boulos, dita MTST, tem todos os poderes que são negados a quem conquista as coisas pelo suor. Ela zelará para que a cada barraco corresponda o seu legítimo dono, esteja onde estiver.

A dispensa da presença física propiciará, além da fulminante multiplicação dos “sem-teto” indispensável para que sejam quebradas as resistências iniciais, o surgimento, garantido pelo argumento indiscutível do sucesso, de uma legião de “lumpen-especuladores” (adjetivos que se anulam mutuamente tornando-se automaticamente isentos de incorreção política) capazes de, com simples variações de garranchos, garantir a parte que lhes cabe em todo e qualquer “latifúndio” com probabilidades de valorização em diversos pontos desta aprazível metrópole.

É o espetáculo da “ubiquidade invasiva”, garantia da paz e da justiça social prometidas pelo PT.

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Haverá choro e ranger de dentes pela cidade afora? Algum porque, na intrincada hierarquia das classes sociais e das “raças” que pauta a justiça petista, ha quem tenha nascido para ganhar e quem tenha nascido para perder, condições estas que o esforço e o desempenho pessoal serão incapazes de alterar. Mas os pais da “matemática criativa” com que deve ser tratado o dinheiro público aplicam uma rigorosa aritmética no que diz respeito a contas eleitorais, e não têm nenhuma dúvida sobre a legítima pertinência de mais esta entre as suas “políticas sociais” que, como as outras, veio para ficar enquanto houver votos a serem adquiridos.

Quem duvidar que entre na fila da casa própria de quem não tem as credenciais do poderoso senhor Boulos, cuja ONGOG terá, naturalmente, privilégios muito mais amplos — indiscutíveis mesmo — quando a coleção de “movimentos sociais” do gênero, prevista naquele Decreto 8243 que vai indo no vai da valsa, estiver do tamanho que o Secretário Geral da Presidência da República, o único ungido dessa prerrogativa, julgar adequado para que possam passar, conforme o previsto, a escrever no lugar do Congresso Nacional as leis que nos governam.

E quem não gostar dessa idéia que vá esgrimir argumentos com os blogueiros do tio Franklin.

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O 9 de Julho, de Getulio ao PT

24 de julho de 2014 § 5 Comentários

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Versão de artigo anteriormente publicado no Vespeiro para O Estado de S. Paulo de 23/7/2014

São Paulo comemorou este mês o 82º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932 que muito pouca gente, neste Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi.

É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista que desaguou na República e se confunde com a história deste jornal é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde é que se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie? No Estado de Direito com a Lei igual para todos ou nas variações do caudilhismo populista onde fala quem pode e obedece quem tem juízo? Numa meritocracia em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença ou no sistema onde a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o Poder e para a afluência?

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O Movimento Abolicionista é o primeiro na História do Brasil a surgir nas ruas e não nos palácios e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana. Muitos dos seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas”, lá nos Estados Unidos, em que a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual vivia o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por dois mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém. Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização a mais direta possível dos representados sobre os representantes concentrando nos municípios todas as decisões e serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles, nos estados apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município e na União só os que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, e mais as relações internacionais.

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Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fossem divididas em três poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi atôa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar suas vidas a faze-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República; foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 32, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

Getulio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política” que levou os dois ao poder em 1930 e em 2002. Getulio adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada em 1932; Lula aliando-se a todos os “carcomidos” da política que se elegeu atacando para perenizar-se no poder.

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Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getulio, depois de devolver o governo do estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que ele teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura, um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8243 que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

Um dos primeiros atos da ditadura varguista foi queimar cerimonialmente as bandeiras dos estados da federação. O PT também trata de centralizar o poder mas por meio de uma sucessão de Medidas Provisórias e outros expedientes subreptícios que, passo a passo, vão tirando atribuições e fontes de arrecadação dos estados e municípios de modo a deixá-los totalmente dependentes da União.

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Getulio fechou o Congresso; o PT subornou o Congresso. Getulio instalou um Poder Judiciário teleguiado; o PT criou um Poder Judiciário colonizado. Getulio instituiu o regime em que “Para os amigos, (o Estado dava) tudo; para os inimigos, (o Estado aplicava) a lei”; o PT instituiu o sistema dos vazamentos seletivos para a imprensa dos “podres” dos seus adversários políticos, verdadeiros ou falsos, de par com as suítes especiais nos presídios para os poucos “amigos” condenados antes da desmontagem do Poder Judiciário. Getulio criou a industria de base e a distribuiu entre os “amigos” que financiavam o regime; o PT reverteu a economia democratizada que recebeu na política dos “campeões nacionais” donos de monopólios financiados com dinheiro público, hoje os maiores contribuintes de suas campanhas. Getulio seduziu o povão com a outorga de direitos sem a contrapartida de deveres; o PT seduziu o povão com os salários sem a contrapartida do trabalho. Getulio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo Estado; Lula e o PT são o produto direto deles.

São Paulo resistiu sozinho a Getulio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT.

A luta de 1932, portanto, ainda não acabou. E em outubro próximo haverá mais uma batalha decisiva.

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O Brasil em excelente companhia

22 de julho de 2014 § 13 Comentários

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Os 298 homens, mulheres e crianças mortos por um míssil russo disparado contra o Boeing 777-200 de passageiros da Malaysian Airlines na Ucrânia estavam arrumando as malas para embarcar no fatídico vôo MH17 quando a presidente Dilma Rousseff assinou, ao lado de Vladimir Putin, a declaração conjunta da 16a Reunião de Cupula dos BRICS, em Brasilia, afirmando que “Somos reconhecidos por nossa atuação autônoma no plano internacional em favor de um mundo mais justo, mais próspero e pacífico”.

Menos de quatro meses antes desta honesta declaração Vladimir Putin, sem mais aquela, tinha mandado os seus “black blocs” – tropas do exército nacional russo devidamente mascaradas e sem identificação mas conduzindo tanques e portando armamento pesado – invadir e tomar a Criméia, parte do território da Ucrânia, outro dos ex-anexados à “Cortina de Ferro” soviética que, para prevenir recidivas do vizinho “entrão“, preparava-se para aderir à União Européia.

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Desde então, nas palavras do secretário de Estado norte-americano John Kerry, ele “vem apoiando, abastecendo, encorajando, armando e treinando” os supostos “guerrilheiros separatistas” ucranianos que querem tomar mais um pedaço daquele país para anexá-lo à Russia que, 24 horas após a saída de Putin de Brasilia, derrubaram o avião malaio e seus 298 passageiros com um ou mais disparos de mísseis Buk fornecidos por Moscou.

Enquanto os corpos despedaçados das vítimas dos aliados de Putin despencavam dos céus da Ucrânia, dona Dilma recebia, como hóspede especial da Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência da República, ninguém menos que Raul Castro, da dinastia dos proprietários daquela ilha cheia dos “prisioneiros comuns” a quem Lula nega uma palavra de apoio humanitário que seja mesmo quando, minados pela tuberculose, estão morrendo em greves de fome.

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Castro chegou um dia depois da partida de Putin para participar da Reunião de Cupula Brasil-China e Líderes Latino-americanos e do Caribe do Itamaraty que pretende articular as relações econômicas dos próceres do “excesso de democracia” bolivarianos do continente com outro campeão mundial dos direitos humanos, o chinês Xi Jimping, interessado em “ampliar a presença comercial e política da China nas Américas Central e do Sul e no Caribe” que, no jargão desse pessoal, resume-se a Cuba.

Não cobro de Dilma que anteponha ideologia a interesses comerciais nem que confunda governantes com os povos que eles supostamente representam. Como representante de um país ela tem de se relacionar com todos, ou ao menos com todos os que estiverem dentro dos limites da decência humanitária.

Mas é precisamente isso que ela não faz. São estes que ela exclui por razões alheias, tanto às de Estado, quanto às de pragmatismo comercial.

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Não é por acaso que estiveram representados em Brasilia e privando da intimidade e das homenagens especiais da presidente do Brasil apenas e tão somente representantes das diversas etapas de desenvolvimento da “hiperdemocracia” que o PT declara todos os dias que pretende impor ao país.

O ex-chefe da polícia política soviética que, desde 1999 quando se tornou primeio-ministro pela primeira vez, vem governando a Russia diretamente ou por interpostos “postes” escalados para substituí-lo entre mandatos com métodos semelhantes aos da máfia, como de resto eram os adotados pela KGB, ostenta em seu currículo, multiplicado por milhões, todos os feitos de um delegado Fleury, o antigo chefe do Doi-Codi onde Dilma passou dias memoráveis.

Devidamente repaginado para os tempos do capitalismo de Estado selvagem e sem fronteiras, ele já se tem servido de diversos dos ingredientes que o PT inclui em seu programa oficial.

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Na sua Russia não existe imprensa nem muito menos televisão sem “controle”; blogueiros são obrigados a se registrar no Ministério das Comunicações com quer o tio Franklin; sites são fechados por publicar comentários como este que você está lendo; pessoas são presas por protestar contra o regime; as antigas ONGs estão restritas aos atuais “Gongos”, da sigla em inglês para “Government Organized Non Governmental Organization”, exatamente equivalentes aos “movimentos sociais” com os quais o PT quer dividir, com exclusividade, o governo do Brasil segundo reza o Decreto 8.243, ainda vigente; os “campeões nacionais” dos setores básicos e/ou estratégicos da economia são criados pelo governo e dependem dele para sobreviver, monopólios estes de cuja boa vontade, por sua vez, dependem todos os outros empreendedores e trabalhadores do país, seja para vender-lhes sua produção, seja para comprar-lhes insumos para os seus produtos, seja para dar-lhes o emprego sem os quais todos eles podem acabar condenados à morte econômica.

China's President Xi Jinping and Brazil's President Dilma Rousseff attend the official photo session for the meeting of China and CELAC at Itamaraty Palace in Brasilia

Quanto aos genocidas e psicopatas do mundo sentados em tronos, fardados ou não, de Bashar Al Assad, o envenenador, aos mais pitorescos trogloditas da África e da Ásia, ele, com as prerrogativas de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, dá o mesmo tratamento que o PT reserva a essa mesma grei: tapinhas nas costas e posição fechada contra qualquer boicote, represália ou ação militar que lhes tolha a sede de sangue de modo a que matem até o último dos seus “oposicionistas” ou anexem o último dos seus cobiçados “satélites”, tudo sempre em nome da democracia e da paz.

Para os demais reservam as leis que não acatam…

O Brasil poderá alegar tudo menos que não sabia com quem estava lidando, portanto, se voltar a eleger o PT em outubro, fato que certamente resultaria em que ninguém mais pudesse ser eleito por muitos e muitos anos nestas terras, exatamente como acontece nas de todos os convidados preferenciais da Granja do Torto e cercanias nestas ultimas trágicas semanas.

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