Até tu, China!?
3 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
A gente vê o mundo se desmanchando aí fora e se agarra àquela esperança: o Brasil tem vivido mesmo é da fome de commodities da China, logo, enquanto a China estiver indo bem, nós não caímos.
Mas até quando a China irá bem?
Sexta-feira os jornais econômicos já estavam manchetando a maior queda no preço das commodities desde a crise de 2008. Mas não é, ainda, a marcha a ré. A China está só desacelerando um pouco a velocidade do seu crescimento.
E assim vamos nos agarrando, de esperança em esperança…
Um relatório detalhado de um fundo especializado em investimentos na China a que o Vespeiro teve acesso, entretanto, joga uma ducha de água fria nesse caldo que já ia ficando morno.
Eis, resumidamente, o que ele diz:
- a situação na China vem se deteriorando muito rapidamente nos últimos meses;
- o governo cometeu um grande erro no tratamento que deu à crise financeira mundial ao manter uma política monetária muito frouxa, o que está produzindo indicadores perigosos;
- isso eleva o risco de um hard landing da economia chinesa para algo entre 20 e 30%.
São os seguintes os indicadores perigosos.
No setor de produção:
- o custo do trabalho tem subido entre 20 e 30% ao ano;
- os salários nas regiões urbanas subiram entre 6 e 16% do ano passado para este;
- o preço da energia também está subindo;
- o mesmo acontece em relação às despesas com juros;
- o mercado de exportações caiu muito.
No setor financeiro:
- com os empréstimos bancários tendo atingido a marca de 48 trilhões de remnibi, os empréstimos não bancários aumentaram 10 trilhões de remnibi de 2010 para 2011, o que representa quase 20% dos empréstimos do sistema oficial;
- os empréstimos do setor extra oficial custam entre 2 e 3% ao mês o que dá uma taxa anualizada de entre 24 e 36%;
- esse mercado está cheio de “esquemas Ponzi” (pirâmides de empréstimos sem lastro real) o que o torna super vulnerável;
- existe ainda um terceiro “mercado negro” que está crescendo rapidamente onde as garantias são, em geral, propriedades imobiliárias, o que nos conduz ao próximo fator de risco;
No setor imobiliário:
- o governo tem feito um grande esforço para deter o aumento do preço dos imóveis mas o mercado tem resistido às medidas e agora a situação parece ter atingido um limite;
- um dos sinais disso são as vendas deste mês de setembro, tradicionalmente o mês mais quente para vendas de imóveis na China: somente em Shangai, as vendas caíram 50% em relação ao ano passado;
- o mercado imobiliário tem sido pautado pela especulação mais que pela venda para proprietários únicos e os sinais são de que o excesso de oferta seja uma resposta à necessidade dos investidores de conseguir liquidez.
Gastos dos governos provinciais:
- o governo cometeu um erro grave ao permitir que os governos regionais gastassem livremente;
- como haverá uma troca de governo no ano que vem, os sinais são de que essa gastança não será contida e se transformará num problema grave a partir de 2013;
- o resultado será um forte crescimento nos calotes do setor publico o que levará a um forte aperto do crédito;
Fuga de investidores estrangeiros:
- o investimento estrangeiro inundou os mercados chineses com a expectativa de apreciação da moeda local;
- em algum momento a China terá de acelerar a desvalorização da moeda, o que desencadeará o movimento inverso.
Do jeito que a coisa vai eu recomendaria a todos que rezassem a deus se não houvessem tantos sinais no ar de que ele anda puto com a gente e isso tudo é ele mesmo quem está nos mandando…
O roto, o rasgado e nós, pobres de nós
8 de agosto de 2011 § 1 comentário

Não é que Obama e o Congresso americano estejam com essa bola toda mas na disputa de credibilidade que abriu com eles a Standard & Poor’s perde longe.
Em artigo para o NY Times de hoje o prêmio Nobel, Paul Krugman, que nessa crise toda também não tem primado por não fazer concessões aos argumentos passionais, lembra as razões pelas quais não se deve levar a sério nem a S& P nem suas congêneres Moody’s e Fitch:
- elas têm enorme responsabilidade pela crise de 2007/8, mãe desta crise da dívida americana, porque mantiveram a classificação “AAA”, que agora negam ao Tesouro dos EUA, para os derivativos lastreados em hipotecas que detonaram com a economia do mundo e, quando a coisa estourou, continuaram dando desculpas esfarrapadas para não admitir o erro que cometeram;
- na imediata sequência, também mantiveram a avaliação “A” para o Lehman Brothers, o banco que, quando foi à bancarrota (carregando aquele “A” para o fundo), precipitou a débacle financeira mundial e, depois desse vexame, continuaram mantendo o “A” e dando desculpas esfarrapadas para se explicar;

- antes de anunciar a desclassificação dos Estados Unidos a S&P mandou o texto em que justificava o que ia fazer para o Tesouro conferir e este lhes apontou um erro banal de cálculo que fazia uma diferença de US$ 2 trilhões; embora a atual crise gire em torno de cortar (ou arrecadar) US$ 2 trilhões a mais do que o Congresso já concordou em fazer, a S&P reagiu como sempre: deu desculpas esfarrapadas para o seu erro e manteve a conclusão que inclui esse erro;
- ainda que tivesse acertado nas contas, o fato dos Estados Unidos serem o único país do mundo que podem emitir a moeda em que sua divida está denominada implica que nunca se chegará ao ponto de ser obrigado a um calote, que é o que as agências de risco consideram quando fazem suas análises técnicas;
- desta vez a própria S&P afirma que não estava fazendo uma análise técnica mas sim expressando “a sua duvida de que os dois partidos políticos em choque no Congresso possam chegar a uma decisão técnica que garanta a sustentabilidade das finanças dos EUA”.
É o roto falando do rasgado.

É claro que a desclassificação, mesmo vindo da S&P, não ajuda a melhorar a credibilidade da economia americana ou dos políticos que andam instrumentalizando a crise para ganhar votos mais do que para tentar, sinceramente, ajudar a resolvê-la. Talvez a reação dos investidores que essa desclassificação ajudou a exacerbar contribua para que os políticos façam o trabalho que falta com um pouco mais de juízo.
Mas o fato da S&P ter deixado de lado o seu terreiro técnico para aderir à balburdia política justamente na hora em que tudo que mais faz falta ao mundo, como ela própria chega a mencionar antes de abrir mão dessas três coisas é calma, responsabilidade e bom senso é a pá de cal que faltava para enterrar essas agências de classificação de risco que não têm feito outra coisa senão agrava-lo.
Tanto melhor.
Já passou da hora de se pensar em reformular o precaríssimo sistema de alarme da economia mundial.
No mais, se o mundo chegar a recuperar a calma antes que morra de seu próprio nervosismo, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes:
- as contas dos Estados Unidos vão ter de passar por um ajuste que virá, ou na forma de inflação (para o mundo todo, que aliás, já corre bem solta), se tudo que eles fizerem for emitir mais e mais dólares para pagar as contas; ou na forma de juros mais altos para financiar o endividamento; ou na forma de aumentos de impostos para pagar parte dos gastos;

- na verdade deverá acontecer uma mistura dessas três coisas e a dose é o que os políticos estão discutindo sem chegar a um acordo porque estão mais interessados em marcar posição junto aos mais prejudicados por cada uma dessas opções do que em resolver o problema;
- seja qual for a decisão, não haverá calote em momento algum; no máximo cada vez mais inflação;
- o dólar também não deixara de ser a moeda de referência do mundo porque isso é uma escolha de um mundo sem escolha e não uma imposição dos Estados Unidos;
- apesar da torcida de uns tantos e dá má fé de muitos outros, os Estados Unidos continuam sendo o único país do mundo onde, para mexer com o dinheiro do povo o presidente da republica tem de passar pelo suadouro que o Obama está passando, enquanto todos os demais fazem gato e sapato do povo e do dinheiro dele sem dar satisfação a ninguém;

- por mais que a economia americana encolha e a da China cresça, ninguém depositará os seus ovos de ouro na cesta da moeda que representa um sistema em que 100 ou 200 velhotes sentados num falso congresso que obedece cegamente a outra meia dúzia de velhotes que são os que realmente mandam, fazem o que bem entendem em seu país, distribuem lucros e prejuízos segundo critérios que não é possível definir ou prever e, quando a coisa não dá certo, mandam o exército massacrar o seu próprio povo.
A questão real, como já se disse muitas vezes aqui no Vespeiro, é saber até quando a democracia resistirá em seu próprio berço se a irresponsabilidade dos políticos que fazem qualquer papel por um voto a mais for tão longe que acabe por torna-la sinônimo de empobrecimento.
E se alguém pensa que isso só vai acontecer no dia de São Nunca é melhor olhar para as imagens de Londres em chamas ha três dias e pensar mais uma vez.

A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda
7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.
Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.
A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.
“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.
Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.
“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.
Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.
O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.
Segue a tradução dos trechos mais interessantes:
“Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.
“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”
“…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.
“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.
“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.
“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.
(…)

“Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.
“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.
“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.
“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

A democracia sobrevive à festa dos milionários? Façam suas apostas…
2 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Materinha do Wall Street Journal de terça-feira dá um retrato bem preciso da tradução prática do fim da legislação antitruste a que os Estados Unidos (e não só eles) foram obrigados desde que os grandes monopólios operados pelo capitalismo de Estado chinês entraram em cena com a sua operação global de dumping, que está forçando o mundo inteiro a participar de uma insana corrida de consolidações em todos os setores mais importantes da economia, sob o pretexto de ganhar a economia de escala sem a qual é impossível competir com eles.
A matéria corria assim:
“O ano passado foi mais um grande ano para os milionários, embora o ritmo do crescimento do numero deles tenha diminuído um pouco.
De acordo com uma nova pesquisa do Boston Consulting Group publicada segunda-feira o numero de milionários no mundo aumentou 12,2% em 2010, alcançando um total de 12,5 milhões. (O BCG define como milionário quem tem US$ 1 milhão ou mais em dinheiro disponível para investimento, descontadas casas, bens de luxo ou participações em empresas próprias).
Os Estados Unidos continuam sendo os primeiros do mundo em numero de milionários, com 5,2 milhões deles, seguidos pelo Japão com 1,5 milhão, a China com 1,1 milhão e a Inglaterra com 570 mil. Singapura é o país que tem a maior “densidade” de milionários, com 15,5% de sua população dentro dessa categoria.

A tendência mais importante que esses números revelam diz respeito à distribuição global das riquezas. Os milionários representam 0,9% da população mundial mas controlam 39% das riquezas do mundo (eram só 37% um ano antes). Eles detêm, hoje, US$ 47,4 trilhões em dinheiro livre para investimento, numero que, em 2009, era US$ 41,8 trilhões.
Os que estão mais altos na pirâmide dos milionários foram os que mais ganharam. Os que têm US$ 5 milhões ou mais, que representam 0,1% da população do planeta, detêm 22% de toda a riqueza mundial, numero que subiu de 20% em 2009.
Nos Estados Unidos, os milionários controlam 29% da riqueza nacional. No Oriente Médio e na África, essa proporção gira em torno de 38%. E como nos Estados Unidos ha um numero muito maior de milionários do que nessas regiões, a riqueza, embora muito concentrada, está mais espalhada entre eles.
Mas por qualquer ângulo que se olhe para os números levantados pelo BCG, eles confirmam uma tendência que não se altera ha anos: a ascensão global da economia em que o vencedor leva tudo”.

A alegação, como ficou dito acima, é que sem economia de escala é impossível enfrentar a competição chinesa. E é uma afirmação verdadeira. A má notícia é que isso não é suficiente. Mesmo com a crescente monopolização de todas as economias nacionais e a opressão da massa dos consumidores que isso implica, continua sendo impossível competir com os monopólios chineses que, por cima da economia de escala, têm a imbatível vantagem de pagar salários esquálidos para trabalhadores que ainda não se revoltam contra isso porque até pouco antes, recebiam salários de fome ou simplesmente trabalhavam como escravos para o Estado.
Esta é a razão pela qual ao fim de décadas a fio de recordes sucessivos no numero de operações de fusão e aquisição de empresas que antes concorriam entre si (merges and aquisitions), fenomeno que desencadeou um processo de elefantíase no setor financeiro de todas as economias do mundo (são eles que operam essas fusões ganhando fortunas a cada passo em cima de produção zero de novos bens reais) os monopólios que daí resultam acabam requerendo, ainda, monstruosos aportes de dinheiro publico para não irem à rasca diante do dumping praticado por seus concorrentes chineses na disputa pelos mercados globais.
Consumidores e assalariados estão, portanto, num jogo de perde-perde, determinado por aquela insolúvel sinuca que o vulgo brasileiro descreve com perfeição no dito “se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.
Onde antes havia centenas de empresas empregando trabalhadores, hoje ha uma, duas ou no máximo três gigantes que, por empregarem uma massa de dezenas de milhares de trabalhadores antes distribuídos entre dezenas de concorrentes, tornam-se “grandes demais para quebrar”, sob pena de, se isso acontecer, precipitarem crises sociais que nenhum governo que dependa de eleições tem condiçōes de assimilar.

Ou seja: sob o chapéu de “trabalhador”, você fica na mão de um único empregador, com força suficiente para arrochar o seu salario o quanto achar necessário ou conveniente, porque você não terá outra alternativa de emprego; sob o chapéu de “consumidor”, você fica na mão de um único fabricante ou distribuidor daquele bem, que pode subir seu preço quanto achar necessário ou conveniente porque não terá competidores para limitar sua ganância; e sob o “chapéu” de pequeno produtor de bens intermediários ou matérias primas para esses gigantes, você ficará nas mãos de um único comprador ou distribuidor, que poderá jogar sua oferta lá para perto do chão porque você não tem para quem mais oferecer o seu produto.
Com a crescente insatisfação e desespero que isso causa, as sociedades nacionais se dividem e conflagram na busca de “culpados”, procurando-os sempre em quem está perto, o que faz a festa dos demagogos que, graças a isso, encontram mais e mais espaço na política. E enquanto todos se chutam uns aos outros acusando-se mutuamente de exploradores ou de cumplices dos exploradores, a China, em quem ninguém ousa tocar porque, mesmo sendo o foco original de todo esse desarranjo, é um cliente grande demais para que possa ser retaliado, segue nadando de braçadas.
Olhando-se para o futuro, ha duas hipóteses: ou esse quadro melhora porque os chineses conseguirão se organizar e ter força para fazer suas reivindicações valerem contra o partido único que os mantem sob férreo controle, até receberem salários competitivos com os dos trabalhadores do lado do mundo onde ha quase dois séculos se vêm acumulando conquistas trabalhistas, ou o rebaixamento geral dos salários para aproximá-los dos padrões chineses, a concentração extrema da riqueza, a corrupção que disso decorre e a crescente simbiose entre governos e super empresários acaba transformando o mundo inteiro em algo parecido com o que a China é hoje, do ponto de vista político.
Façam suas apostas.

Para entender fácil a crise econômica
9 de dezembro de 2010 § 1 comentário
A historinha que traduzi abaixo, enviada por Carlo Gancia, circula pela internet na Europa e explica de um modo que todo mundo entende essas crises que se repetem no mundo.
Mary é proprietária de um bar em Dublin. Um dia ela se dá conta de que quase todos os seus clientes são alcoólatras desempregados que, como tal, não agüentariam sustentar o seu bar por muito mais tempo. Para resolver o problema ela imagina um novo plano de marketing baseado no slogan “beba agora, pague depois”. E começa a anotar numa caderneta o consumo a prazo de cada cliente.
O boca a boca corre e o bar onde se pode “beber agora e pagar depois” fica lotado de clientes. Não demora muito e Mary se torna a dona do bar que mais vende em Dublin.
Como não exige pagamento a vista de seus clientes, Mary também não enfrenta nenhuma reclamação quando, em intervalos regulares, vai aumentando o preço das bebidas. A conseqüência é que o volume de vendas de Mary cresce, no papel, geometricamente. Então, um jovem e atento presidente do banco local percebe que as dívidas dos clientes de Mary são um bem valioso a ser resgatado no futuro e, com base nisso, aumenta o limite de endividamento dela. Não ha nenhum problema ou violação das regras bancarias na escrituração dos novos empréstimos para Mary já que as dívidas dos alcoólatras desempregados são lançadas como garantia dos novos empréstimos.

Tanto movimento chama a atenção e logo, no quartel-general do banco vizinho, financistas sofisticados e experientes imaginam meios de ganhar altíssimas comissões transformando as dívidas dos clientes de Mary em “títulos de securitização” batizados de “Bebumbonds”. Assim re-empacotados, os novos papéis começam a ser vendidos no mercado internacional de títulos de securitização. Os compradores naturalmente não sabem que os títulos que lhes foram oferecidos com avaliação “AAA” representam, na verdade, dividas de alcoólatras desempregados. E assim, o preço dos títulos vai subindo, os papéis vão sendo cada vez mais notados e “hypados” até se tornarem os mais vendidos em todas as corretoras do pais.
Um dia, apesar do preço dos títulos ainda continuar subindo, um avaliador de risco do banco onde tudo começou se dá conta de que está na hora de cobrar as dívidas dos clientes de Mary.
Sob pena de execução, Mary começa a cobra-los. Mas em se tratando de alcoólatras desempregados, eles não tem como pagá-la. Mary é executada e vai à falência. O bar é fechado e seus 11 empregados perdem o emprego.

A noticia corre o mercado como fogo na palha e, de um dia para o outro, os “Bebumbonds” caem 90% destruindo a liquidez do banco emissor que, assim, fica impedido de fazer novos empréstimos, o que resulta no congelamento de toda a atividade econômica da comunidade.
Os fornecedores de Mary, contando com o aumento dos ganhos com cliente tão especial, tinham passado a investir os fundos de pensão de suas empresas em títulos de securitização e agora vêm-se obrigados a fazer provisionamentos para compensar a perda de 90% do valor desses títulos. Foi assim que seu fornecedor de vinhos, um negócio familiar que vinha de três gerações, também teve de pedir falência. Já o seu fornecedor de cerveja, com sua cotação na bolsa na bacia das almas, foi comprado numa “oferta hostil” por uma agressiva multinacional, gigante mundial das cervejas, cuja primeira providência foi fechar a fábrica local, desempregando mais 150 pessoas.
Felizmente o banco, as corretoras e seus respectivos executivos são salvos por uma operação de resgate dos agentes financeiros do governo, todos eles ex-funcionários desses mesmos bancos, que injetam em seus cofres bilhões de euros a fundo perdido e sem impor condições. Os fundos para essa operação de socorro são obtidos com aumentos dos impostos sobre trabalhadores da classe média que nunca beberam ou passaram na porta do bar de Mary.






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