Uma “causa” para todo esse protesto – 2
18 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
Ficou capenga o meu artigo de ontem sobre a ausência de foco das manifestações que se espalharam pelo mundo a partir do Occupy Wall Street iniciado em Nova York ha um mês.
Eu critiquei o artigo de Nouriel Roubini por mencionar como solução a situação ideal com que todo mundo sonha, muito ao estilo dos políticos brasileiros, mas sem dar nenhuma sugestão sobre como chegar lá.
Mas acabei fazendo a mesma coisa que ele. Fiquei apenas na enumeração daqueles entre os pleitos dos manifestantes que, ainda que muito justos, não são solução para o problema. E apenas indiquei que a solução não está no Ocidente, onde se acumulam as piores consequências do processo ora em curso no mundo, mas sim na Ásia, onde ele se origina.
Recordo a síntese de que processo é esse.
Ao jogar no mercado de trabalho 2,3 bilhões de novos braços pagos a preço vil, a China e a Índia (assim como os países menores que engrossam essa conta), aviltaram o valor do trabalho no mundo todo sem aumentar de forma correspondente o numero de consumidores porque o que esse novo contingente ganha mal dá para viver.
Há muito mais trabalhadores e cada vez menos demanda.
A única maneira de reequilibrar o quadro é ajudar esses trabalhadores a serem melhor remunerados o quanto antes porque a lei do mercado sempre acerta as contas por baixo. O consumidor compra o bem mais barato, que é o produzido pelo trabalhador mais mal pago, e assim os trabalhadores bem pagos, que é a outra identidade dos consumidores, acabam sendo expulsos do mercado. Disso resulta, ao longo do tempo, que todos os salários do mundo são rebaixados até encontrar o nível em que serão capazes de concorrer com os dos trabalhadores chineses e indianos.
Ora, salários baixos são, em última instância, sinônimo de falta de democracia. Quanto mais democracia, mais poder de reivindicação e mais direitos conquistados. O inverso também é verdadeiro. Só debaixo de pau é que se consegue segurar a insatisfação de quem se mata de trabalhar por nada ou, pior ainda, de quem fica sem emprego nenhum.
Logo, se quiserem manter os seus direitos, os seus salários e a sua democracia os trabalhadores do Ocidente terão de se organizar politicamente para ajudar a acelerar a libertação dos trabalhadores semi escravos da Ásia, boicotando o consumo do que eles produzem e trabalhando ativamente pelo aumento dos direitos e dos salários deles.
Impossível?
E quem diria que seria possível levar, em menos de um mês, uma manifestação local a se transformar numa manifestação global? Não são as próprias empresas ocidentais, ao alcance da pressão direta de seus conterrâneos, as que mais se servem desses trabalhadores semi-escravos da Ásia?
É o mundo aqui fora que terá de fazer campanha salarial pelos trabalhadores chineses e denunciar quem os explora no Ocidente para aumentar seus lucros. O empenho da China em censurar a internet, o que felizmente é tecnicamente impossível, não é outra coisa, aliás, senão uma confissão da vulnerabilidade que ela sente a campanhas de mobilização por mais direitos (= a mais salários) vindas de fora da sua “muralha” que ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, começarão a acontecer.
É hora, portanto, de tratar de criar um foco para essa mobilização mundial que já se provou possível.
O caminho para isso é uma política comercial e uma atitude de consumo condicionadas a uma política de direitos humanos, nos níveis governamentais, e uma política sindical globalmente sincronizada para exigir a elevação do nível mínimo de direitos e salários ao menos nas industrias que fabricam bens de consumo global.
E a melhor contribuição que pode dar quem analisa profissionalmente esse problema é demonstrar exaustivamente o seu componente essencial, qual seja, o de que neste novo mundo sem fronteiras o salário do trabalhador de Nova York ou de Geneve, será determinado muito mais pelo que a Foxconn estiver pagando em Shenzhen do que por qualquer ação política cosmética ao alcance do presidente Obama, do Congresso dos Estados Unidos ou do comando da União Européia em Bruxelas.
Uma vez comprendido esse dado incontornável da realidade, o resto fica mais fácil.
Uma “causa” para todo esse protesto – 1
17 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
Já não é mais Jim Stark nem Marlon Brando. O mundo virou um rebelde sem causa.
A vida imita a arte…
O site da Al Jazeera em inglês trazia, neste fim-de-semana, artigo bastante didático de Nouriel Roubini (aqui) sobre “a onda global de agitação política e social” na qual ele inclui “a Primavera Árabe, a onda de saques em Londres, os protestos da classe média de Israel contra a inflação e a deterioração do padrão de vida, os protestos dos estudantes chilenos, a onda de depredação de automóveis de luxo na Alemanha, o movimento contra a corrupção na India, a crescente insatisfação com a corrupção e a desigualdade na China e, agora, o movimento Occupy Wall Street que saltou de Nova York para o mundo”.
Para Roubini, o que eles têm em comum é que todos expressam, de alguma forma “a angustia das classes média e trabalhadora do mundo todo diante do que advém para elas da crescente concentração de poder e riqueza nas mãos das elites financeira e política, qual seja, o desemprego e o subemprego crescentes, a inadequação dos sistemas de educação da juventude para a realidade globalizada, o ressentimento generalizado contra a corrupção e o aprofundamento acelerado da desigualdade social”.
Ele é preciso, também, na identificação da causa essencial (ainda que não a considere a única) do processo que levou à crise.
“A súbita adição de 2,3 bilhões de trabalhadores chineses e indianos à força de trabalho global reduziu drasticamente o número de empregos para trabalhadores não especializados e levou à exportação dos empregos de nível médio dos países industrializados (o que reduziu a capacidade de consumo de uma ampla parcela da população). Nos países anglo saxões a resposta (dos políticos) foi democratizar o crédito (o que forçou o aumento da alavancagem financeira e eventualmente desencadeou a crise). Na Europa, o buraco entre as aspirações e a real capacidade de consumo foi preenchido com serviços públicos como educação e saúde (aposentadorias e redução da carga de trabalho) que não eram financiados pela real arrecadação, o que inflou o déficit publico”.
Roubini não chegou a mencionar o último e potencialmente mais perigoso elemento dessa equação que é o que o mundo está descobrindo agora. Não é só o Ocidente que está viciado em crédito barato direta ou indiretamente subsidiado pelo Estado. Também o crescimento chinês tem sido fortemente anabolizado por um nível de financiamento da produção e do consumo determinado por cálculos políticos e não sustentado por cálculos econômicos, com consequências semelhantes às que esse tipo de expediente teve no resto do mundo que agora começam a fugir ao controle do Partido Comunista Chinês.
Nada de muito diferente disso está acontecendo também, é bom lembrar, nos chamados BRICs ou, pelo menos, no primeiro inspirador da sigla, o Brasil de Lula, onde a sustentação do crescimento também tem sido feita à força de facilitação do crédito para consumo por iniciativa do governo, sobretudo nos períodos pré-eleitorais. A diferença, no caso brasileiro, é que, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, os governos petistas partiram de uma situação em que os bancos estavam completamente saneados e sob rígido controle da fiscalização, tudo obtido pelos sempre apedrejados PROER e ajuste das finanças do Estado executados pelo antecessor do PT na presidência, às custas da mesma (inevitável) “década perdida” que agora se inicia para os países centrais.
O que eles podem aprender de útil com o Brasil, portanto, é como sanear as finanças públicas e colocar o sistema financeiro sob controles confiáveis e não como por em risco esse patrimônio inestimável decretando que a vontade pessoal dos governantes está acima das leis da aritmética e gastando tanto mais quanto mais se aprofundar o buraco da dívida pública como a nossa Dilma tem recomendado que façam aos seus incrédulos ouvintes pelo mundo afora.
Roubini, entretanto, é muito preciso na descrição do passado mas pouco criativo na especulação sobre o futuro.
“Com a redução geral do poder de compra, as empresas das economias avançadas estão, agora, cortando empregos para ajustar a oferta. Mas cortar empregos enfraquece a demanda futura porque reduz a renda e aumenta a desigualdade. E como o trabalho, que é custo para as empresas, é renda para os consumidores, aquilo que parece racional para cada empresa individualmente é destrutivo quando olhado em conjunto”.
(…)
“Para estabilizar as economias de mercado será necessário voltar a um balanceamento adequado entre os mercados e a oferta de benefícios públicos. O que quer dizer afastarmo-nos tanto do modelo anglo saxão de mercados sem regulamentação quanto do modelo baseado no endividamento público da Europa Continental. Mesmo a alternativa asiática de crescimento – se é que existe uma – não conseguiu evitar o crescimento da desigualdade na China, na Índia e onde mais esteja em desenvolvimento”.
Va benne…
Só que para fazer as coisas se moverem não adianta dizer onde se gostaria de chegar. É preciso mostrar como é que se chega lá.
Como quase todo mundo que tem abordado essa charada no Ocidente, Roubini, do meio para o final de seu artigo, deixa-se arrastar para a discussão ideológica em torno do problema. E os debates ideológicos não são travados em torno da questão “como resolver um problema?” mas sim em torno de “como explorar as consequências de um problema para se afirmar no poder?“, seja ele o poder político, seja o da disputa pela hegemonia de uma linha teórica sobre outra nos arraiais intelectuais.
Logo, vamos ao que interessa:
Sim, a adição de 2,3 bilhões de novos braços a uma força global de trabalho que antes não contava nem um terço desse total – adição da qual as novas tecnologias de comunicação foram o veículo – tem necessariamente de provocar a diluição que provocou.
Fixar os olhos nesse dado fundamental já é um grande passo na direção de buscar o foco sem o qual a mais ampla mobilização popular de que o mundo tem notícia em muitos anos não deixará de ser o que é por enquanto: apenas um desperdício barulhento.
É preciso, agora, identificar com precisão o que de fato é capaz de mitigar os efeitos dessa diluição.
- A taxação progressiva da riqueza, penalizando proporcionalmente mais os mais ricos não vai resolvê-lo. Vai apenas tornar menos injusta a repartição das perdas que todos continuaremos a sofrer. É uma satisfação obrigatória que precisa ser dada rapidamente à ponta dos que mais estão sofrendo com a crise para que ela não degenere em espasmos de ódio sem controle. Mas não é a solução do problema.
- Mesmo sendo urgentemente necessária, pelas mesmas razões acima e mais algumas, a reorganização dos controles do sistema financeiro internacional também não será suficiente para reverter a crise. Se não bastasse a enormidade do numero referido – 2,3 bilhões de novos bolsos dividindo o mesmo bolo salarial – sobram as evidências de que o principal fator a determinar o crescimento em mestástese do peso do setor financeiro nas economias ocidentais foram os 30 anos de fusões e aquisições no setor de manufaturas e empresas em geral em todo o planeta de que ele foi apenas o agente operacional, ainda que regiamente remunerado.

- Essa onda de fusões e aquisições conduzindo a uma acelerada monopolização em todos os setores da produção e, portanto, a um processo de concentração aguda da riqueza e a um aumento avassalador da corrupção, por sua vez, ocorreu não em função de uma conspiração política ou de maquinações dos donos do dinheiro, mas como reação à entrada em cena do capitalismo de Estado chinês que, com a sua ação planetária de dumping salarial e monetário, tomou de assalto todos os consumidores do mundo inteiro.
- Tendo a economia planetária se tornado uma só e um sistema vazo comunicante, não ha como reverter esse processo de monopolização que, inevitavelmente e por definição massacra o consumidor e o trabalhador assalariado, a não ser que todas as economias de peso do mundo concordem em revertê-lo ao mesmo tempo. Quem tomar essa iniciativa sozinho será inapelavelmente excluído do mercado.
- A maior de todas as distorções do sistema hoje é a concentração de todos os ganhos nesse processo principalmente nas mãos do Estado chinês que já não sabe o que fazer com tanto dinheiro. Enquanto os 2,3 bilhões de trabalhadores que entraram no mercado não se tornarem consumidores (isto é, não tiverem seus salários e direitos igualados aos do resto do mundo) não será quebrado o círculo vicioso descrito por Roubini (“menos consumo levando a menos produção, menos produção levando a menos empregos e salários, menos salários levando a menos consumo…“). O processo terá de começar de novo a partir do ponto a que foi rebaixado com a entrada em cena dos 2,3 bilhões de novos trabalhadores.

- Nenhum governo ou partido político do mundo poderá mudar nada de significativo nessa nova realidade sozinho. Se tivermos de esperar que todos os que estão atualmente no poder caiam por força dessa circunstância, os que estão na oposição subam e por sua vez fracassem nas suas tentativas solitárias, até que o mundo se convença de que o buraco é mais embaixo, ele já poderá estar tão fundo que não haverá mais como sair dele.
- Não ha como evitar a abordagem ideológica entre os profissionais do poder. Mas se ao menos a grande imprensa internacional voltasse a ter um mínimo de autonomia intelectual e voz própria como já teve no passado em vez de apenas amplificar as vozes dos que se digladiam pelo poder como tem feito até aqui, haveria ao menos um discurso objetivo e desinteressado em torno desse problema.
Isso poderia contribuir para que a força desse gigantesco protesto mundial ainda sem rumo se concentrasse sobre o alvo certo e a libertação dos trabalhadores da Ásia (ou das ásias do mundo) poderia ser acelerada.
Sem ela, não nos salvamos. Doravante é assim: ou crescemos ou empobrecemos todos juntos, dando-se o “estouro” de cada parcela nacional do todo da economia global com uma diferença apenas de meses.
O resto é embromação para enganar eleitor.
O irmão que faltava
10 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
A democracia americana nasceu para colocar as duas grandes forças que até hoje oprimem a maior parte do resto do planeta – “big government” e “big business” – sob o controle do povo.
A primeira parte da tarefa foi endereçada ao longo do debate publico travado através de três jornais de Nova York entre 27 de outubro de 1787 e 4 de abril de 1788 contra e a favor da criação de um governo central a ser aprovado pelas convenções dos 13 estados chamados a apreciar o projeto de Constituição Federal enviado ao Congresso.
Alexander Hamilton, John Jay e James Madison foram os autores dos 85 artigos mais tarde reunidos no que até hoje é considerado um dos maiores clássicos da teoria democrática, The Federalist Papers (compre O Federalista traduzido para o português aqui), defendendo a necessidade de um governo central e estabelecendo limites precisos para a sua atuação.
A segunda parte da tarefa começou a ser executada um século mais tarde quando as técnicas de gestão empresarial se aperfeiçoaram o bastante para proporcionar um crescimento explosivo das empresas daquele país que, fundindo-se umas as outras em busca de ganhos de escala, criaram monopólios com enorme poder de corrupção, contaminaram a política e quase puseram a perder a democracia americana.
Ao longo dos quase 30 anos seguintes, – as reformas da Progressive Era trataram de devolver o poder de fato aos eleitores.
O primeiro passo foi a Lei Antitruste – o Sherman Act aprovado em 1890 – que impôs limites ao poder do dinheiro, mesmo àquele legitimamente conquistado pelo mérito, proibindo o crescimento das empresas além de uma certa porcentagem do seu mercado. O sistema financeiro foi objeto de rigor especial, ficando cada banco praticamente reduzido a ter um alcance não mais que estadual.
O passo seguinte foi disciplinar o Estado através de ampla reforma do Civil Service (funcionalismo) acabando com as nomeações políticas.
E o terceiro foi a instituição de mecanismos de democracia direta como o referendo, as leis de iniciativa popular e o recall (impeachment) de funcionários públicos, que armaram os eleitores para de fato impor as novas regras do jogo aos seus representantes e aos servidores públicos.
Foram estas reformas que criaram os Estados Unidos modernos e, ao reduzir drasticamente a corrupção e o abuso do poder político, produziram em pouco mais de meio século a sociedade mais próspera da história da humanidade.
Esse aparato institucional vigorou praticamente intacto até os anos 80 do século passado quando passou a ser indiretamente solapado pela revolução das tecnologias da informação.
“Direita” e “esquerda”, “conservador” e “liberal”, “republicano” e “democrata” no jargão político norte-americano, traduzem essencialmente a precedência que se dá ao “big government” ou ao “big business” como Inimigo Publico No 1 da hegemonia que “We, the people” deve ter, incontestável e incontrastável, sobre o sistema político dos Estados Unidos.
O que tem sido a regra em quase todo o resto do mundo – a sociedade a serviço do Estado e dos “amigos do Estado” – é a exceção nos Estados Unidos. Daí a dificuldade geral do resto do mundo de compreender o que está acontecendo lá.
As grandes crises da democracia americana – e esta a que estamos assistindo é a segunda dessas proporções – se dão quando, pela força da corrupção, principalmente, esses dois inimigos tão velhos quanto os próprios Estados Unidos se dão as mãos e passam a responder mais um ao outro que a “nós, os 99%” a que se referem muitos dos cartazes que compõem os slogans do movimento Occupy Wall Street que, com algum atraso em relação ao seu par necessário, o Tea Party, levantou-se para, como ele, reivindicar o restabelecimento da hegemonia popular sobre o sistema.
Até mesmo essa sequência na articulação de cada um obedece ao padrão histórico.
O resto do que você tem lido sobre o caráter “revolucionário” de um ou do outro, tanto na imprensa brasileira quanto, até mesmo, na imprensa americana, são bobagens que respondem mais à contaminação de quem escreve em ambas por antiquados padrões ideológicos europeizados ou latinizados, como preferirem, que pouco têm a ver com a realidade histórica daquele país.
Como notou um comentarista do NYTimes traduzido pelo Estadão deste domingo, “nem os manifestantes de um nem os manifestantes do outro lado querem uma alternativa para o consumismo; o que eles querem é continuar sendo os consumidores“.
“Abaixo o big government; vamos restaurar a liberdade individual” ou “Abaixo o big business; vamos restaurar a justiça social“, os gritos que hoje parecem dividir os Estados Unidos em dois lados de um abismo intransponível, no fundo desaguam na mesma solução prática: “Toda a força de volta aos eleitores“.
Wall Street é o inimigo comum dos dois, tanto hoje quanto historicamente falando.
O Tea Party, cujas raízes estão fincadas no anti-federalismo e no anti-intelectualismo da corrente inaugurada por Thomas Jefferson (“Acredito sinceramente que os bancos são mais perigosos que exércitos em posição de combate … a especulação financeira é uma espécie de aposta que destrói a moralidade“), começou como um gemido vago contra o resgate dos banqueiros que afundaram o país com o dinheiro das suas próprias vítimas, e a cínica reação dos resgatados.
Occupy Wall Street, que ainda engatinha e não firmou uma pauta e um discurso próprios, é uma ponta da corrente democrata que pretende-se mais refinada e responde com o fígado ao que vê como a brutalidade caipira do Tea Party. Mas a questão é mais de tom que de fundo. Ele tem suas raízes na tradição de Andrew Jackson, o quarto presidente que também denunciava os bancos “essencialmente como uma trapaça para enriquecer os abastados às custas do trabalhador” e no espírito reformista da Progressive Era (idem, ibidem). Seu inimigo principal é, igualmente, o aliado do momento do big government: Wall Street.
O que ambos representam, na verdade, é a extensa lista das insatisfações que são consequência do desemprego e da ameaça hoje temida por milhões de perder o trem para o sonho americano disseminadas pela crise financeira.
Com a rapidez característica da única democracia onde a estabilidade no emprego público ou político depende essencialmente de desempenho, o que a torna sempre ágil e disposta a se auto reformar, os pleitos do Occupy Wall Street não tardarão a se fixar e a se refletir no Congresso como já ocorre com os do Tea Party e, logo adiante, também nas próximas campanhas eleitorais.
É historicamente muito rápido, por lá, o trânsito dos pleitos levantados na periferia do sistema para o centro do debate político. É isto que torna o deles um modelo que dispensa revoluções. O problema é que, desta vez, a solução não depende nem do establishment político, nem dos eleitores americanos.
O inchaço do sistema financeiro dos EUA não é a causa do drama que o país está vivendo. É antes a consequência de um problema muito maior. Não é fruto de uma conspiração sinistra mas sim de 30 anos de recordes semanais sucessivos de fusões e aquisições entre as empresas daquele país, forçadas pela competição com os monopólios do capitalismo de Estado chinês na nova realidade de mercados de consumo e de emprego globalizados.
“Crescer ou morrer” tem sido o mote do jogo econômico nos últimos 30 anos, sob o qual sucumbiu de fato a legislação antitruste e foi sendo empurrada a aliança entre o Estado e o Capital também nos Estados Unidos, operada, sim, pelo sistema financeiro que a cada fusão ou aquisição morde a sua gorda fatia, mas não contra a vontade do povo. Ela foi, verdade seja dita, primeiro consentida e depois exigida pelos trabalhadores/eleitores em pânico com a competição chinesa.
É um fenômeno planetário, aliás, porque somos todos vítimas do dumping monetário e do trabalho semi escravo asiático, mas que só é novidade e causa escândalo nos Estados Unidos, um dos únicos países do mundo onde tal aliança nunca foi pacificamente admitida.
Na maior parte do planeta a aliança entre o Capital e o Estado sempre foi e continua sendo o padrão.
Só que desta vez a questão não poderá ser resolvida com os mesmos remédios do século passado porque não ha leis nacionais capazes de mudar a realidade da desigualdade em matéria de direitos e de remuneração entre os trabalhadores dos diferentes países que disputam o mercado global. Enquanto for o preço dos produtos que determinar quem ganha o consumidor, os dos trabalhadores semi-escravos da Ásia ou do resto do mundo pobre sempre ganharão a parada. E até que isso mude, nem os salários no mundo rico pararão de cair, nem os empregos de desaparecer.
Nós, Steve Jobs e nossa circunstância
7 de outubro de 2011 § 1 comentário
Nossos heróis têm uma espada na mão ou uma corda no pescoço. É uma sina que compartilhamos com toda a latinidade, da mais sofisticada à mais tosca, porque para todos nós o inferno é a política.
Os heróis norte-americanos têm uma invenção na mão e, quase sempre, uma obra gigantesca e uma montanha de dinheiro a apresentar.
Nós temos os panteões de mártires ou de fazedores de mártires que trocam de lugar uns com os outros com frequência desconcertante dependendo do governo que os festeja em cada etapa de nossas histórias.
Eles têm os panteões dos empreendedores-inventores.
Napoleão, Pedro I, Bolívar, Tiradentes, Mussolini, Guevara…
Henry Ford, Sam Walton, Thomas Edison, Grahan Bell, Andrew Carnegie, Steve Jobs…
Nossos heróis são só nossos. Os deles acabam sendo de toda a humanidade.
Não ha precedente na morte de um empreendedor bilionário provocar uma onda de comoção universal.
Se Ford democratizou o transporte, Edison aparelhou cada casa com uma fonte de energia, Walton deu a todos a condição de se apresentar decentemente vestidos, Bell, a quem quisesse, a capacidade de se comunicar, Jobs deu a todos nós a capacidade de potencializar a força do pensamento e dar alcance ilimitado ao produto do nosso talento.
E fez isso com a simplicidade dos gênios, aliando a tecnologia à arte.
“Ele inventava novos equipamentos como Mozart e Beethoven escreviam música“, cheguei a ler de um fã mais extremado. “E se o melhor do que Beethoven escreveu foi quando já estava surdo, quanto do que Jobs nos legou não foi inventado depois que ele recebeu sua sentença de morte oito anos atrás?”
Mas das dezenas de coisas de e sobre Steve Jobs que li nestes últimos dias, uma em especial fez minha cabeça voar.
O pai biológico do homem que mudou para sempre o mundo como o conhecíamos é Abdul Fatah Jandali, muçulmano nascido em 1931 em Homs, ainda na Síria francesa, que emigrou bem jovem para os Estados Unidos. A história da trágica série de maldosos truques do destino que fez com que ele e Steve nunca chegassem a por os olhos um sobre outro em carne e osso eu relato na postagem na sequência desta.
É uma incrível trama de desencontros que foi preparando minha cabeça para o devaneio “roseano” (de Guimarães Rosa mesmo) a respeito da força do acaso a que acabei por me entregar depois que, ao chegar a uma das entrevistas que deu este ano na vã tentativa de fazer com que seu filho perdido concordasse em conhecê-lo antes de morrer, o velho Abdul, aos 80 anos, mencionou que se pudesse voltar no tempo jamais teria saído da Síria…
Foi o gatilho.
O que poderia ter sido “Steve” Fatah Jandali se tivesse nascido e passado sua vida na Síria? Haveria um Steve Jobs sem Silicon Valley, sem Stanford? Determinado apenas pela genética? Para que lado poderia ser canalizada toda a genialidade que deus lhe deu naquele ambiente oprimido há duas gerações pela brutal ditadura dos Assad?
Nós, cada um de nós, somos ou podemos ser, intrínseca, individual e solitariamente, alguma coisa? E o que seria o mundo hoje se o jovem Abdul tivesse feito o que hoje pensa que gostaria de ter feito?
Foi a lembrança de Jose Ortega y Gasset que me trouxe de volta à Terra: “Eu sou eu e minha circunstância; e se não salvo a ela não salvo a mim“.
Não, Steve Jobs e a sua Apple só seriam possíveis na única democracia que a humanidade criou que elegeu como seu fundamento inegociável o culto incondicional ao mérito. Nada da história que o tornou célebre seria possível senão no único país que substitui o panteão dos mártires pelo panteão dos empreendedores-inventores.
“Go west” foi o grito que simbolizou, no século 19, as esperanças de um novo começo e novas oportunidades numa terra virgem dos obstáculos e limites que tolhiam os súditos da Europa e até mesmo os norte-americanos do Leste.
Steve Jobs, de Cupertino, Califórnia, que plantou a primeira semente da maior empresa do mundo e reinventou a vida moderna numa garagem é o legítimo herdeiro dessa mentalidade.
Quantas tragédias individuais, quanto desperdício se poderia poupar à humanidade se fosse possível enterrar para sempre os sistemas de privilégio e disseminar o império universal do mérito, corolário obrigatório e indissociável do Estado de Direito de que tantos falam mas tão poucos realmente desfrutam!
Mas não é…
“Go west” continua sendo a única alternativa para gente como os Jandali, da Síria, e a esmagadora maioria dos habitantes desta Terra de oprimidos de serem avaliados apenas pelo que se mostrarem capazes de construir.
Mas até quando?
O Economist desta semana faz uma incursão ao lado escuro deste universalmente festejado luar da inovação tecnológica que ninguém ousa apedrejar.
“Designed by Apple in California, Assembled in China, é a frase que está gravada atrás de todos os produtos da fábrica de maravilhas de Steve Jobs.
A liderança econômica global dos Estados Unidos tem beneficiado uma fatia cada vez menor do seu próprio povo na ultima década … A autoestima do empreendedorismo americano hoje é corporificada pela Apple, o Google, o Facebook e a Amazon. De fato são todas companhias fabulosamente inovadoras, embora a gente se pergunte se, cada vez mais, elas não são a exceção e não a regra …
Empreendedorismo e inovação não são a mesma coisa. E ainda que a capacidade de inovação continue muito boa na economia americana, o problema do quão estreitamente os seus frutos são repartidos cresce todos os dias …
Apple, Google, Facebook e Amazon juntas empregam 113 mil pessoas, um terço do que estava na folha de pagamentos da GM em 1980 … o avanço da tecnologia fez, provavelmente, muito mais que o comércio para marginalizar a classe média e ampliar a desigualdade … a globalização beneficiou muito mais os acionistas das empresas e os seus banqueiros do que a massa dos que trabalham nelas …
… mas com todos os defeitos que eles realmente têm, seria injusto culpar os políticos americanos por tudo que está acontecendo: a crescente desigualdade, o declínio dos empregos para a classe média na indústria de manufaturas é um problema que envergonha todos os governos do mundo.
E se os Estados Unidos continuarem se apoiando apenas na sua vantagem tecnológica, é fácil prever que tudo isso vai acabar mal“.
Steve Jobs e suas criações não são apenas uma ilustração viva da malignidade dessa vertente do processo de inovação. Cada nova geração dos seus gadgets, cada nova funcionalidade que eles incorporam, quase cada novo aplicativo que eles assimilam é mais uma indústria que desaparece, é mais uma cadeia inteira de valor que é destruída. A indústria de PCs, a de foto e vídeo, a da música, a de telefones, a de publicação digital, estão entre as muitas que foram revolucionadas por ele. E por traz de cada uma dessas revoluções, terra arrasada.
Steve Jobs e suas criações simbolizam também o instrumental que universalizou as leis da economia antes de universalizar as leis da política que, na sua melhor acepção, é a força que estabelece os limites toleráveis da desigualdade, seja ela fruto do mérito, seja ela consequência da ignorância e da ausência de direitos, que são as armas que “as chinas” do mundo têm usado para arrastar de volta em direção à condição proletária as classes médias dos países mais adiantados.
Ironicamente, só a democracia americana poderia gerar o grau de inovação tecnológica que agora, indiretamente, ameaça destruí-la. A criatura, proverbialmente, se volta contra o criador…
Neste mundo de um só mercado de trabalho e um só mercado de consumo, cada vez mais, também as Nações são as Nações e sua circunstância e, se não salvam a ela, não salvam a si mesmas.
Não há mais ilhas isoladas de direito, de democracia e de bem estar material. Ou os temos todos, ou nãos os teremos nenhuns.
O outro lado de Dilma
4 de outubro de 2011 § Deixe um comentário
O editorial do Estado de hoje alinha de modo bem convincente as provas de que “a autonomia de fato do BC, adotada nos anos 90 e mantida nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma experiência encerrada” e que agora é Dilma Rousseff quem está no comando do Banco Central.
Embora o governo não o admita oficialmente, tanto a presidente quanto seus ministros mais próximos, em especial os da Fazenda e da Casa Civil, repetem com frequência cada vez maior e pudor cada vez menor declarações que deixam claro que, às vésperas de um ano eleitoral, com os salários do setor publico ainda em alta e o horizonte internacional carregado de nuvens negras, o governo tem um plano traçado que inclui o adiamento de medidas efetivas de austeridade fiscal, a redução dos juros e o afrouxamento do regime de metas de inflação, acompanhados da adoção de medidas protecionistas pontuais muito evidentemente mal planejadas para reduzir os efeitos da ausência de medidas estruturais para reverter a perda de competitividade dos produtos brasileiros, cabendo ao novo presidente do BC ouvir e obedecer.
A novidade é perfeitamente coerente com os traços de personalidade que a presidente vem revelando com desenvoltura cada vez maior.
Dilma é menos tolerante com a corrupção do que Lula, já sabemos, mas também dá sinais de que respeita menos que ele as grandes forças da Natureza (das quais a propensão do bicho homem para a corrupção não é das manifestações mais desprezíveis).
Lula navegava a vela, mudando de rumo ao sabor das ondas e dos ventos. Dilma navega a motor, com os olhos pregados na bússola e tendendo a subestimar a força dos elementos.
É tudo muito coerente com a marca voluntarista do passado revolucionário de quem pega em armas para “mudar a História”. Na economia, a presidente parece acreditar que pode “pilotar os fatos”, enquanto a marca do conservadorismo ultra pragmático de Lula, levava-o a pilotar conforme os fatos, mudando de rumo sempre que o vento assim o recomendasse.
Lula agia assim tanto no que diz respeito à economia quanto no que se refere à política. Nunca moveu uma palha para tentar mudar a realidade torta da política brasileira. Ao contrário, acentuou suas piores características ao aderir totalmente a elas para instrumentaliza-las a serviço do seu plano pessoal de poder.
Em compensação também não teve a pretensão de enfrentar a incontrolável conjunção de forças de naturezas diversas de que resulta isto que chamamos de economia mundial, com a qual, ao contrário de Dilma que nunca teve de trabalhar na realidade do mercado para viver, ele lidou desde sempre ao longo de sua carreira de sindicalista.
Matreiro e instintivo como é, teve o bom senso de manter intocados os mecanismos institucionais de disparo automático testados pelo conjunto da experiência internacional implantados por seu antecessor, Fernando Henrique Cardozo, que sua sucessora se dispõe a desmontar agora.
Como lembra O Estado, depositário da memória viva dos muitos desastres que custaram ao Brasil a substituição de fórmulas consagradas que privilegiam a prudência e a impessoalidade para preservar a estabilidade dos fundamentos da economia pelos expedientes voluntaristas que, fatalmente, acabam pondo tudo isso a reboque da política, esse retrocesso pode sair muito caro para o país.
Nessa trajetória entre o ultra pragmatismo que deságua no cinismo, no naufrágio da ética e na pistolagem na política e o voluntarismo que tende a ignorar a força da realidade e levar a desastres ainda teremos saudades de FHC que, tanto em matéria política quanto econômica, representa a melhor das verdades que invariavelmente é a que está no meio.






























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