A definição de ato antidemocrático

16 de agosto de 2021 § 17 Comentários

A definição de ato antidemocrático é punir “ato antidemocrático” com prisão. 

Alexandre de Moraes é o Roberto Jefferson do Judiciário. Os dois são dados a pronunciamentos e encenações bizarras. Mas os de Roberto Jefferson morrem na internet enquanto os de Alexandre de Moraes põem em campo toda uma geração de degenerescências irreversíveis Sistema abaixo.

Foi Jefferson quem reagiu a ele e não ele quem reagiu a Jefferson. Quem, afinal, criou a desconfiança generalizada no nosso sistema eleitoral? Jair Bolsonaro e o Congresso Nacional ou o STF que revogou o julgamento de 9 juízes diferentes e desmontou o que restava do aparato de defesa do favelão nacional contra a roubalheira para por Lula de volta na eleição? Que maior prova de que o político, como todo mundo, trabalha para quem tem o poder de demiti-lo, do que a diferença entre os 433 votos a 7 da penúltima e os 229 a 218 da terceira e última blitz do STF para reverter a decisão da maioria com legítimo aval dos brasileiros de acoplar à máquina de votar dos sonhos de Dilma Roussef, de Luís Roberto Barroso e das exemplares democracias do Butão e de Bangladesh a impressora exigida pelo resto do planeta inteiro?

Quem começou essa briga? Quem é mais desonesto e mais falso ao descrever o que o outro faz, Bolsonaro com a imprensa torta ou a imprensa torta com Bolsonaro? Faço a ele todas as restrições que tenho à privilegiatura para a extinção da qual tenho dedicado toda a minha vida. Sou anti-bolsonarista pela mesma razão que sou anti-petista e anti-Sistema. Não vejo diferença substancial entre o presidente sindicalista de fardados e o presidente sindicalista de paisanos no que diz respeito à clivagem vertical “nobreza x plebeus” que é a que de fato ainda divide e empobrece o Brasil. A divisória horizontal “esquerda x direita”, neste país pré-iluminista e semi-feudal, é só a isca artificial importada com que a privilegiatura trata de desviar o olhar do favelão nacional da verdadeira fonte da sua miséria.

Mas as semelhanças cessam aí. Pandemia o Brasil tira de letra. Já vacinamos mais que os Estados Unidos da América com todos os seus trilhões de dólares. Duro é lidar com as cepas sucessivas de anti-democracia que a bizarrice do Inquisidor-Mor do STF põe em circulação. Quem iniciou o mergulho do Brasil na fossa abissal da anti-democracia, como já tinha acontecido em 64, foram os patronos da camarilha bolivariana que domina o castelinho onde se homiziam os juízes supremos made by Lula. Bolsonaro ajuda a coisa a afundar com o peso do seu primitivismo e da sua radical inabilidade verbal, é indiscutível. Mas por baixo dela cada um de nós, os que temos e os que não temos coragem de admiti-lo em público, enxerga claramente a límpida, a translúcida desonestidade dos seus atacantes. Se for a única escolha que restar fico antes com a incompetência do bolsonarismo, que tem cura, que com a ausência completa de limites do lulismo em seu desenfreado amor pelo poder “tomado”.

Democracia é outra coisa. Democracia é a convivência dos contrários e a alternância deles no poder como estamos constatando que não se admite que ocorra neste “estado de direito” da privilegiatura, pela privilegiatura e para a privilegiatura, em que, assim, bem na tua cara, a impossibilidade de provar fraude no sistema eleitoral vira “a prova de que não existe fraude”, o pleito de acoplar impressora à urna eletrônica vira “a volta ao sistema anterior à urna eletrônica”, as maiorias expressas no voto viram “o isolamento de Bolsonaro”, a falta de provas de corrupção vira condenação por “bruxaria”, e assim por diante.

Não ha engano nessa ordem unida da mentira esbofeteando a cara dos fatos. Esse STF sabe o que está fazendo. A privilegiatura e sua imprensa sabem o que estão fazendo. Sem norma constitucional, sem lei, sem eira nem beira, tem gente presa ou sumariamente condenada ao degredo da praça publica eletrônica fora da qual não ha, nem sobrevivência política, nem sobrevivência econômica, por conta disso. Para prosseguir nessa batida terão de ir até o fim. Terão de reacender as fogueiras. De transformar-nos numa filial da China ou da Venezuela. E não faltam avisos de que o plano dessa minoria numericamente tão insignificante quanto o seu tamanho frente ao oceano do favelão nacional que paga a conta dos seus luxos é esse mesmo.

A vontade da maioria não se vai impor nem a tiro enquanto o eleitor brasileiro não conquistar o direito de fazer suas leis e de reaver, por recall, a propriedade que lhe foi usurpada dos mandatos políticos que temporária e condicionalmente empresta aos políticos. Essa é A ÚNICA chave comutadora efetiva dessa mentira que nos tem sido imposta para a democracia, o sistema em que é o povo quem manda no governo e não o pedaço eleito ou não do governo quem manda no povo.

Contra o Tiririca de grife e outras avenças

13 de julho de 2021 § 53 Comentários

Renan Calheiros, Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e cia. ltda. são o que são: a enésima extração do sistema que, a cada volta no círculo, apresenta ao povo umas tantas “escolhas” dentro da seleção armada pelos últimos selecionados por esse filtro que só os piores entre os piores conseguem atravessar. Está tudo certo, portanto. Foi para perpetuá-los no poder que os chefões do crime político a serviço de si mesmos inventaram esse sistema de seleção negativa a cargo de partidos paridos e sustentados pelo Estado e não pelo povo que, para os otários, chamam de “democracia”. E é exatamente isso que ele entrega.

Mas porque a imprensa que se diz democrática, em vez de mostrar aos brasileiros como funciona a democracia moderna que os suíços inventaram e vivem ha mais de 700 anos com resultados fulgurantes, ou como os americanos que a copiaram, mesmo aplicando-a só nos âmbitos estadual e municipal, tornaram-se o povo mais rico, mais criativo e mais livre do mundo, trata de vender como sérias as armações dos renans, dos omares, dos randolfes e do STF bolivariano de Lula em torno de um escroque que roubava brasileiros a partir de Miami e se elegeu deputado via internet prometendo vir “salvar-nos do comunismo”, em vez de contribuir com informação útil para jogar este país isolado da modernidade pela língua lá na frente do Terceiro Milênio?

Já lhes digo: porque são criminosamente irresponsáveis os herdeiros dos jornais e televisões brasileiros movidos a pequenas vaidades e os sub-marajás aposentados das universidades públicas a quem venderam suas redações transformadas em bunkers da censura contra a informação que liberta em prol da defesa de privilégios medievais. Não é cabível qualquer dúvida honesta sobre o que mais conviria, entre essas duas “políticas editoriais”, para o resgate do favelão nacional da miséria e da guerra crônica em que vive conflagrado…

Porque a social-democracia viajada e culta não trata de mostrar que a democracia real pode prescindir até da qualidade individual dos personagens que a encarnam porque a última palavra sobre tudo pertence sempre a quem caberá cumprir e não a quem caberá impor as leis que “o governo do povo, pelo povo e para o povo” produz para si mesmo, em vez de correr atrás do Tiririca de grife que, com a condição de não mudar nada do que sustenta a privilegiatura, os carregue de volta para o poder?

De novo lhes digo: porque são a elite desse mesmo marajalato universitário agarrado às suas aposentadorias gordas e precoces e não acreditam que poderão continuar viajando e “dedicando-se à cultura” se tiverem de ganhar esse direito competindo pelo trabalho. Não ha, na cabeça de qualquer deles, a menor sombra de duvida honesta sobre as intenções, os métodos e o compromisso com a verdade, a higidez no trato do dinheiro público e o amor pelo Brasil por traz das maquinações do Torquemada das Alagoas e seus fiéis escudeiros…

É por conta desse tanto pouco que em vez de denunciar a absoluta independência do País Oficial em relação ao País Real que está na raiz de todas as doenças brasileiras; que em vez de apontar a relação direta de causa e efeito do aumento automático dos salários públicos independentemente da quantidade e da qualidade do trabalho investido e a redução continuada dos salários de quem só avança suando; que em vez de tratar de deter o processo galopante de monopolização de todos os setores da economia com as consequentes concentração da riqueza e esmagamento dos direitos individuais do proletário que não pode escolher patrões nem fornecedores; é por causa desse tanto pouco, dizia, que em vez da denuncia da desigualdade perante a lei que nos exila da vida civilizada, do desemparceiramento entre representantes e representados que garante o anonimato do criminoso fundamental que trai sistematicamente o seu representado, e até do amor bandido que Jair Bolsonaro compartilha com eles pela privilegiatura, o Brasil vive conflagrado na “investigação” do suborno que não foi pago na compra da vacina que não foi fechada pelo picareta que não representava nenhum fabricante de remédios ao funcionário do quarto escalão do Ministério da Saúde que não tinha o poder de decidir o negócio, como se estivesse falando lé com cré.

Essa gente não é séria. Todos se merecem e se não forem detidos já chegaremos encurralados ao desastre de 2022 e vamos todos acabar no buraco sem fundo que eles cavam em mutirão sob os nossos pés.

Reforma política com recall, referendo e iniciativa de leis é o único remédio jamais inventado que realinha as lealdades na direção da construção de um país para os eleitores, e não só para os eleitos, neste mundo em que cada um só trabalha para quem tem o poder de demiti-lo. É simples assim. O resto é mentira da grossa.

Da quase democracia ao Estado policial

25 de junho de 2021 § 8 Comentários

A democracia como a conhecemos chegou a uma encruzilhada decisiva. 

O dado curioso é que, ao contrário do que registra a História a respeito do movimento que, reino por reino, arrancou a humanidade ao feudalismo, a mudança política em que acaba por traduzir-se o processo em curso hoje não é o resultado de uma batalha de idéias, como sugere a gritaria da imprensa da privilegiatura, é só a consequência inevitável da mudança econômica estrutural que o precedeu. 

A incapacidade dos defensores da democracia no Ocidente de entender essa diferença essencial – e assim, de atacar a causa do problema – tem sido o fator mais determinante da vitória dos seus inimigos. A crescente monopolização das economias ocidentais pelo vertiginoso processo de fusões e aquisições de empresas desde o surgimento da internet ao longo dos últimos 40 anos para enfrentar a invasão dos seus mercados pelos produtos dos monopólios do “capitalismo de estado” semi-escravocrata chinês, com seus corolários de forte “achinezamento” da remuneração do trabalho, de concentração desenfreada da riqueza, de esclerose da mobilidade social e, consequentemente, de perda de apoio popular ao capitalismo democrático que, pervertido por esse processo, é cada vez mais um jogo de cartas marcadas, é que está determinando que o Poder Político, encarnado no Estado, rompa as amarras que a democracia lhe tinha imposto.

A esperança é de conter com ele a ganância, que sempre parece mais próxima às vitimas do Poder que a sua forma de encarnação politica. Mas a História nos diz que essa é uma esperança vã. A política e a econômica são as duas pernas do Poder, o mais virulento patógeno da corrupção. Elas andam sempre no mesmo passo e, portanto, só podem ser contidas concomitantemente.

Durante milênios o Poder Econômico foi, na verdade, um subproduto do Poder Político. Era a espada, e só a espada – e nunca a capacidade de produzir – que o garantia. Partiu dessa constatação a democracia moderna que, pela primeira vez na História, tratou de separar os dois: “nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do trabalho e do merecimento (traduzido por ‘convencimento’ na seara da politica)”. A primeira arrancada da revolução democrática foi garantir a propriedade sobre o resultado do trabalho a quem nele investiu esforço e dividir em três o Poder Político, submetendo-o a pesos e contrapesos (checks & balances). Mas antes que passasse um século já se tinha tornado claro o quanto era inútil amarrar uma perna da fera e deixar livre a outra. Foi só na virada do século 19 para o 20 que a revolução democrática consolidou-se, ao tratar de dividir e submeter a checks & balances também o Poder Econômico com as reformas antitruste da Progressive Era nos Estados Unidos.

Para que essas reformas se impusessem foi preciso armar a mão do eleitor das ferramentas de democracia direta – recall, referendo e inciativa de leis – para fazer frente, com o peso da maioria, à mão armada de dinheiro da minoria opressora na disputa pelos – digamos – “corações e mentes” dos legisladores. Ao limitar por lei a ocupação de mercados, mesmo que por competência, por uma única empresa, é que se garantiram os direitos individuais que o cidadão só pode desfrutar nas condições de trabalhador e consumidor. Pois é impossível a afluência econômica do proletário, que só tem de seu a força de trabalho que vende ao Capital, a menos que esteja garantida competição bastante para que os melhores trabalhadores sejam disputados com aumentos de salários e a preferência do consumidor pela redução de preços. Onde só ha um patrão e um fornecedor, nenhuma liberdade inscrita na lei é mais do que palavras ao vento.

Sempre foi este, mais que a força armada, o mais temível instrumento de opressão e controle tanto das monarquias absolutistas quanto das ditaduras socialistas que são continuidades umas das outras. Em ambas o rei é o dono de tudo e desafia-lo significa morte. E se havia duvidas sobre qual desses “ovos” veio antes da respectiva “galinha”, ela está absolutamente dirimida hoje pela tomada de assalto da maior potência militar do planeta “por dentro”, via o “achinezamento” da economia americana, quando as sentenças que decidem as coisas já não são as emitidas pela Suprema Corte imaginada pelos “pais fundadores” depois do devido processo, nem a Constituição que ela garante, mas sim as das “supremas cortes” privadas dos marks zuckerbergs da vida que banem sumariamente do espaço publico, hoje privatizado, e têm força para calar, junto com os representantes em que ela vota, metade da população dos Estados Unidos da América.

As ondas de choque que o desaparecimento da referência planetária de democracia emitiu mundo afora são da ordem de animar quase-democracias capengas como a do Brasil a converterem-se em estados policiais onde um tribunal de monocratas que ninguém elegeu arvora-se em polícia do pensamento, prende dissidentes, mesmo eleitos pelo povo, e faz o país inteiro retroceder às condições da Contra-Reforma. Afinal, o que são os interrogatórios violentos sobre os decretos que não foram baixados e as palavras que não se converteram em atos da CPI da Covid senão a criminalizacão dos “pecados por pensamentos e palavras”, de que é impossível obter prova conclusiva que justificavam os ferros em brasa na carne da Inquisição, ficando “as obras” concretas dos verdadeiros criminosos invariavelmente perdoadas, senão o revival do inferno de que a Reforma Protestante, mãe da democracia, livrou a humanidade?

A ver se conseguiremos sair disso sem uma epidemia de guerras-civis ou um período de trevas das proporções dos que o mundo já viu em fases anteriores de concentração do poder de comunicação e de repressão à “dissonância” comparável ao que está posto hoje, nos tempos do domínio de toda a civilização ocidental por uma igreja totalitária, até que as instituições democráticas reajam e a rede virtual onde hoje transcorre a vida politica e econômica da humanidade, se torne, como está destinada a se tornar um dia, um serviço público com o mesmo grau de neutralidade prescrito pela emenda que, não por acaso, foi a primeira acrescentada à primeira constituição democrática que a humanidade conheceu: “O congresso (isto é, o Poder Político) está proibido de fazer leis imponto a prática de uma religião ou proibindo o livre exercício da fé; ou reduzindo a liberdade de expressão e de imprensa; ou o direito do povo de reunir-se pacificamente e de peticionar o governo para obter a reparação de agravos”.

Democracia ao vivo

14 de junho de 2021 § 25 Comentários

Terça-feira passada, dia 8, esgotou-se o prazo para que os signatários do recall do governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, eleito em 2018 com 61,9% dos votos, convocado pela cidadã Orrin Heatlie, moradora do condado de Folson, se arrependessem e retirassem sua adesão ao processo.

O direito de recall do governador, dos deputados, de qualquer funcionário eleito e também dos juízes das cortes estaduais é garantido pelo artigo 2º da Constituição da Califórnia desde 1911 quando a Proposition 8, apresentada por iniciativa do povo daquele estado, foi aprovada em votação direta. Funcionários do Poder Executivo podem ser desafiados para recall com a apresentação de uma petição iniciada por qualquer cidadão com endosso de mais 64 eleitores e assinada pelo equivalente a 12% dos votos recebidos pelo funcionário visado na sua última eleição. Para deputados e juízes são requeridas assinaturas correspondentes e 20% dos votos recebidos (naquele estado os juízes também são diretamente eleitos e passam por eleições de re-confirmação a cada quatro anos).

A campanha contra Newsom tinha de conseguir 1.495.709 assinaturas e levantou 2.161.349. Dessas, 441.406 foram impugnadas e 1.719.943 foram validadas pelo Secretário de Estado, o funcionário encarregado de organizar todas as eleições, as do calendário ou as “especiais” como são as de recall convocadas a qualquer momento pelo povo ou as de reposição de representantes eleitos mortos ou demissionários antes do fim de seus mandatos, entre outras. 

A legitimidade da REPRESENTAÇÃO é a chave mestra da democracia. E sendo assim, qualquer alteração no quadro de representantes eleitos, na americana, só pode ser feita diretamente pelo povo e dentro do sistema de voto distrital puro, o único que permite saber exatamente quem representa quem no sistema. Cada representante só pode se candidatar pelos votos de um único distrito. Uma vez eleito representante daquela parcela do eleitorado (municipal, estadual ou federal), os eleitores daquele distrito permanecem donos do mandato temporariamente concedido a ele e podem retomá-lo a qualquer momento.

No caso de Newsom o Secretário de Estado tem até dia 22 de junho próximo para confirmar que as assinaturas restantes são suficientes e, a partir dessa data, 180 dias para marcar a votação, o que a coloca em outubro ou novembro próximos. Na cédula haverá duas perguntas: 1) Gavin Newson continua ou não no cargo? para a qual é requerida uma resposta majoritária (50% +1); 2) Quem deve sucedê-lo?, para cuja eleição não ha quorum, vence o candidato mais votado na lista que já aparecerá na mesma cédula. Até o início deste mês, 51 candidatos já tinham iniciado campanhas pela sucessão de Newsom.

Não é exigida nenhuma razão especial para um recall. Basta que os eleitores não se sintam bem representados. O texto da petição protocolada junto ao Secretário de Estado mas dirigido aos eleitores menciona a ausência das políticas de encaminhamento do problema agudo dos sem-teto no estado, tema da campanha eleitoral, e as politicas de racionamento de água e oferecimento de santuário a imigrantes ilegais adotadas pelo governador, entre outros. Mas foi o “tratamento autoritário” que ele deu à pandemia, que começou depois de protocolada a petição, que influiu decisivamente no desenvolvimento da coleta de assinaturas. A suspensão das aulas, que criou um enorme problema para as mães que trabalham fora de casa, os lockdowns e “deslizes” cometidos pelo governador como um flagrante num restaurante sem máscara depois de ter proibido a falta delas, entre outros, têm sido mencionados como fatores que aumentaram a animosidade contra ele.

Do lado dos opositores do recall a acusação é de que tudo não passa de uma tentativa reacionária dos partidários “do negacionismo” de Donald Trump. A tentativa é de “nacionalizar” a contenda e estigmatizar os oponentes. Já para os patrocinadores esse tipo de argumento é “cortina de fumaça”, o mero exercício do direito de recall, que Newsom subestimou, e a quantidade de assinaturas obtidas “já fizeram o governador abrandar seu tom autoritário e passar a dar aos californianos, com muito mais humildade, as satisfações que eles merecem”.

As ferramentas de democracia direta (recall, referendo, iniciativa, confirmação de juiz) são o que restou incólume da democracia americana depois que a Primeira Emenda deixou de valer para as redes sociais. Estou juntando, no pé do artigo, um link para um debate do recall de Newsom. Infelizmente não ha tradução mas vale para quem tem domínio do inglês e quiser assistir um pouco de democracia ao vivo. Ali se verá que a humanidade e suas paixões são as mesmas em toda a parte. Os argumentos, as falhas de caráter e as mentiras e quase verdades dos dois lados são idênticas às que você já conhece, ainda que proferidas em tom bem mais civilizado que as que se ouve na patética CPI da pandemia da qual o eleitorado brasileiro é mero espectador impotente.

A diferença entre a civilização e a barbárie, a humilhação ou a dignidade cívicas, a abundância ou a miséria econômica, está em quem tem o poder de decidir a parada.

Lá, por mais que a questão nacional esteja subjacente e o alvo visado tenha sido eleito ha apenas dois anos e meio por ampla maioria, isso não é da conta, nem dos partidos, nem dos representantes eleitos no Congresso Nacional, nem muito menos da Suprema Corte. E, claro, quem vive numa, não precisa gastar saliva arvorando-se em dono da democracia. Basta praticá-la. O mandato de Newsom não pertence a ele, é emprestado e, portanto, este é um assunto a ser resolvido entre o governador e os californianos, os que votaram e os que não votar nele na última eleição.

Qualquer que seja a decisão, ela será indiscutivelmente LEGÍTIMA, tanto quanto a que se tomar aqui, seja qual for, será indiscutivelmente ILEGÍTIMA.

Lá isto encerrará a discussão até que surja a próxima e, até lá, a paz será restabelecida. Aqui, engolir-se-á em seco e continuarão o chororô e o ranger de dentes, por todas aquelas razões que o ministro Barroso e os nossos “políticos” jejunos de democracia continuarão fazendo questão de não entender enquanto o povo não tiver o poder de demiti-los, e mais todas as outras que decorrem inevitavelmente dessa falsificação grosseira que é este sistema de força bruta e privilégios institucionalizados que faz o favelão nacional e a pilha de cadáveres da guerra em que ele vive mergulhado crescerem mais um pouco a cada dia, e que os brasileiros mais mal intencionados insistem em chamar de “estado democrático de direito”.

ASSISTA O DEBATE

O álibi de Bolsonaro

8 de junho de 2021 § 31 Comentários

Mayra Pinheiro, como Pazuello também já tinha feito, deu baile nos senadores. Luana Araujo não precisou: as “excelências” é que tiraram-na para dançar. Não comungam daquela máxima de que democrata é quem continua a acreditar em democracia mesmo quando ouve o que não gosta. Conforme o interlocutor voltam a ser só os jagunços de sempre, brandindo seus chicotes e seus facões, apesar dos cabelos e das unhas “feitos” e dos ternos Armani…

Com Manaus dada como caso encerrado posto que está claro que foi sufocada pela ladroagem local dos íntimos da “chefia”, a compra da Coronavac pelo governo federal esgotada, a da Pfizer tendo dado o que tinha que dar e a bula por decreto que não houve definitivamente não tendo havido, tudo que sobrou para ela foi o imorrível “cloroquina ou não cloroquina”…

Mas isso não tira a pertinência do que Luana Araujo disse à CPI. Ela, que só conhecia Marcelo Queiroga por reputação, soube logo que ele virou ministro que queria criar uma secretaria de combate à pandemia mas foi tomada de surpresa ao ser sondada para o cargo. “Não teve padrinhos”. Acha que ele chegou ao seu nome examinando listas de brasileiros prestando consultorias a organismos internacionais de saude, “ou sei lá“. Teve, então, uma ou duas entrevistas com o ministro, “de profissional para profissional”, em que este logo lhe disse que seu nome não seria aprovado na instância política e seguiu adiante.

A pergunta que decorre de tão singelo relato, para qualquer pessoa normal, é: E DAÍ? Quem foi nomeada, afinal, entre tantos outros nomes eventualmente plotados e sondados – a dra. Mayra Pinheiro que depusera dias antes – é de alguma forma inferior a Luana em formação, titularidade e referências? Essa diferença é suficiente para “criminalizar” a não confirmação da opção Luana, segundo ela própria, contemplada por razões meramente fortuitas? O desempenho de Mayra no cargo gerou algum tipo de desastre? 

Sobre autonomia dos médicos disse Luana que, conquanto imprescindível, posto que o que salva um paciente pode matar o outro, ela “não é um cheque em branco”; dá-se considerada a “construção do conhecimento” que, no caso da cloroquina, era um no início e outro no presente momento da pandemia. Por tudo quanto consigo destrinchar do som e da fúria do histérico “noticiário” tupi sobre a pandemia, tendo a concordar que já ha razões bastantes, hoje, para se “abandonar a esperança nos benefícios da cloroquina” (uso as palavras dela). Mas mesmo que não houvesse mais nenhuma controvérsia a respeito, em que momento exato deste ano e meio de pandemia o “conhecimento construído” chegou a um volume que justificasse passar a chamar de “crime de lesa humanidade” qualquer menção da possibilidade dessa droga servir para alguma coisa em relação à covid?

É muito barulho por nada”, repetiu várias vezes a Luana que, para certo publico, tornou-se a musa do único “reality show” comparado pela mídia engajada ao BBB da Globo, ao qual tudo que restou … é fazer barulho em torno desse nada.

Se esse show teve algum benefício foi mostrar que o que a elite do funcionalismo representada por ela, por Mayra Pinheiro e até por Eduardo Pazuello têm em comum é que, como comprovaram seus depoimentos, todos põem o Brasil e o enfrentamento da pandemia acima até da bazófia do “patrão” Bolsonaro, ao contrário do que fazem a imprensa, o STF e a nata da CPI encarnada pela dupla Renan e Omar, síntese da ignorância covarde e cafajeste que distinguiu quase todos os “nobres senadores” dos seus interrogados até aqui. E isto porque o foco declarado dessa histeria não é, nem o Brasil Real, nem a doença que o aflige, é apenas e tão somente retomar o poder para a esquerda da privilegiatura.

Como convém aos dois “lados”, ficou mais uma vez de fora o único debate que interessa ao Brasil: o que foi, afinal, que bloqueou o “fique em casa”, a falsa confiança na cloroquina sibilinamente instilada nos ouvidos de um povo naturalmente propenso ao suicídio por um Jair Bolsonaro cheio de “intenções assassinas”, como dirá o relatório final da CPI pronto desde antes dela começar, ou o apertamento insalubre do favelão nacional e a insegurança econômica extrema em que vivem seus habitantes, ambas criaturas diretas do comportamento que levou os juizes desta CPI e tantos de seus comparsas nos mesmos crimes até a porta da cadeia antes que os monocratas do STF, empanturrados de lagostas, as trancassem definitivamente com todos os ladrões da republica para fora.

É pelo sucesso em censurar mais uma vez esse debate que o presidente-sindicalista de fardados, que só nos rouba com a lei, poderá apresentar-se ao eleitorado em 2022 com o álibi que, para não se trair, a esquerda lhe garante: o de candidato que tem de pior contra si apenas acreditar na cloroquina por oposição à alternativa, o presidente-sindicalista de paisanos, “o maior assaltante de todos os tempos” na definição do Banco Mundial, que nos rouba também contra a lei.

Só que não roubar contra a lei, neste país sem polícia, é uma opção de cunho moral ou religioso, quando não apenas uma tática eleitoral. Nada tem a ver com democracia. O PT também vendia o “monopólio da ética na política” até instalar-se solidamente no poder, primeiro com o “Lulinha Paz e Amor” pra não doer muito…

Assim, tudo bem que você eleja um para livrar-se do outro como quimioterapia. Mas nenhum dos dois altera o contrato leonino povo x governo vigente no Brasil. Ambos são nascidos e criados no Brasil Fake, da privilegiatura, que vive de explorar o Brasil Real, e se você perder a consciência disso estará a entregar-se ao inimigo feito um otário e a servir à conspiração para levar mais uma rodada do jogo mantendo fora do radar da massa dos eleitores aquilo que condena o Brasil a essa miséria medieval. A saber: o assalto sistemático, diuturno e continuado à mão armada de leis que automatizam a roubalheira dos muitos pelos poucos, que ambos os “lados” da privilegiatura trabalham unidos para que não seja interrompido jamais.

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