China compra a maior reserva de urânio do Brasil
29 de novembro de 2024 § 1 comentário

O governo da China comprou a maior reserva de urânio e terras raras do Brasil, no estado do Amazonas, por meros 340 milhões de dólares.
A venda foi feita em nome da CNT, uma subsidiária da estatal China Nonferrous Metal Mining Group Co.
A reserva fica em Presidente Figueiredo, a 107 quilômetros de Manaus e, alem do urânio, é rica em nióbio, tântalo, tório e estanho, materiais indispensáveis para indústrias de alta tecnologia, incluindo a fabricação de turbinas, foguetes, baterias e até satélites espaciais.
O nióbio, por exemplo, é usado em ligas super-resistentes e aplicações aeroespaciais, enquanto as terras raras são fundamentais para a produção de componentes eletrônicos e energias renováveis.
A venda foi feita pela mineradora Taboca, uma empresa peruana controlada pela Minsur S. A. que opera na região desde 1969, numa transação confirmada terça-feira (26), e já teve repercussões em mercados internacionais com os anúncios oficiais divulgados nas bolsas de valores de Pequim e de Lima.
BNDES sela submissão do Brasil à China
21 de novembro de 2024 § 4 Comentários

O BNDES assinou com o China Development Bank (CDB) a primeira operação de empréstimo em moeda chinesa, no valor de RMB (Remnibi) 5 bilhões (cerca de R$ 4 bilhões).
O tem prazo de até três anos e o dinheiro “será destinada a apoiar investimentos do BNDES nos diversos setores da economia brasileira”.
Na verdade a operação, que ocorre na sequência da tomada de posse triunfal de Xi Jinping na presidência do Brasil ontem em Brasília, sela a submissão também da economia brasileira inteira ao imperialismo chinês.
O execrável mundo novo
15 de julho de 2022 § 4 Comentários

Os lockdowns e a guerra de Putin exacerbaram o que já vinha vindo, mas a crise é do sistema planetário de trabalho e vai piorar antes de melhorar.
A “disfuncionalidade” não é do sistema democrático. O que há é uma incompatibilidade entre ele e a nova ordem econômica socializante pró-monopólios em que desaguou, ao fim de meio século de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas, a aceitação pelo Ocidente dos termos chineses para a competição pelos mercados globais.
Em vez de cobrar impostos para a entrada em seus mercados dos produtos do trabalho semi escravo em cima de patentes roubadas, foi o Ocidente, onde emprego é voto, sob o mote “crescer ou morrer”, quem passou a desmontar o arcabouço antitruste que garantia a competição pelos trabalhadores pelo aumento constante dos salários, e pelos consumidores pela redução constante dos preços – o ponto mais alto da civilização democrática – para atirar-se à corrida insana para trás a pretexto de combater com monopólios os monopólios do “capitalismo de estado” que exploram a miséria socialista.

A consequência é a mesma que quase matou a democracia americana na virada do século 19 para o 20: sem competição entre patrões e fornecedores, com toda a riqueza concentrada em cada vez menos mãos, os salários ocidentais é que passaram a regredir aos padrões chineses, em vez do contrário que seria o desejável.
É essa a razão fundamental pela qual nenhum governo que precise ser eleito se mantem mais em cima das pernas, seja qual for a sua suposta “coloração”.
Economia monopolizada só sobrevive com política monopolizada. Enquanto continuar sendo impossível vencer pelo trabalho as crises continuarão em ciclos cada vez mais curtos e a tentação totalitária seguirá em alta. Não ha expediente democrático que mate a frustração da marcha-à-ré, não importa de que altura se tenha partido para ela.
A outra face do “partido único” dos totalitarismos socialistas, sucessores do absolutismo monárquico, é o ditador vitalício “proprietário único” de todos os meios de produção, antes ditos “reis”, e os “barões”, hoje ditos “tycoons chineses”, “oligarcas russos”, “campeões nacionais brasileiros” e por aí afora, a quem eles outorgam o privilégio de explorar esta ou aquela vertente da economia de monopólios em troca da punição com o degredo econômico, hoje dito “cancelamento” ou “desmonetização”, de quem resistir à sua majestade.

Nenhum outro direito, onde quer que esteja escrito, sobrevive à morte do direito fundamental da liberdade para escolher patrões e fornecedores.
E então o único cimento da coesão social passa a ser a certeza do “tiro na nuca”, sucessor do machado, da corda no pescoço ou da fogueira da Inquisição que sustentou o absolutismo por milênios.
Na atual fase em que morre “o sonho”, os logrados reconhecem-se enredados no logro e o discurso sedutor é substituído pelo exercício explícito da força, o instrumento por excelência da opressão é o hiper-concentrado universo das plataformas sociais.
O truque é nada menos que banal. Tendo a vida toda, especialmente a econômica, migrado para o espaço virtual, ele consiste em negar que o antigo espaço público é hoje a reprodução matemática do verdadeiro animado por empresas privadas, e dar aos donos delas, que não foram eleitos nem devem satisfações a ninguém, a prerrogativa de exercer plena soberania sobre ele.

O espaço público virtual tem de ser regido pelas mesmas normas que regulavam o espaço público físico pelas mesmíssimas trágicas razões que fizeram a humanidade queimar miolos ao longo de milênios de sangue, suor e lágrimas para desenhá-las.
Sem elas, como estamos vendo, instala-se, no âmbito político a Babel subliminarmente instrumentalizada por algoritmos que substitui a ética jornalística pela do marketing, quando não pela antiética dos profissionais da guerra suja que cooptaram as plataformas sociais a pretexto de combater o terrorismo do 11 de setembro em diante. Onde antes deblaterava a ínfima minoria da minoria dos ilustrados, hoje está toda a multidão dos fugidos da escola da História, cada um deles com capacidade de gritar à mesmíssima altura. E o divergente que antes enfrentava um tiro por vez, com o espaço de um dia entre cada tiro, hoje enfrenta diretamente a turba dos linchadores, cada milhão dos quais armado de dispositivos de alcance planetário e com capacidade de disparo de milhões de tiros por segundo.

É um cenário sombrio, sem dúvida. Mas viver sempre foi muito perigoso. Como desde sempre, as alternativas são, ou que os indivíduos aprendam, passo a passo a lidar com esse novo cenário e decidam o que, para cada um deles, é digno de ser acreditado, ou que o Estado decida isso por cada um, o que resulta em que seja arrancada a estaca que o pensamento ocidental começou a cravar no coração do vampiro da opressão desde o início do século 16 até finalmente matar o monstro da censura e entregar o poder ao povo lá no final do 18.
O poder e o ser humano são entidades incompatíveis. O que nos diz a História da nossa espécie é que qualquer risco é menor que o de concentrá-lo nas mãos de uns poucos. Deixar que os transtornos decorrentes da potencialização da mentira pela tecnologia resulte na substituição do livre arbítrio pelo totalitarismo algoritimizado para substituir-se a cada um de nós na determinação do que pode e do que não pode ser dito e pensado no espaço público privatizado, com tudo que vem necessariamente junto com isso e quem quiser pode conferir desde já nas chinas da vida, seria o suicídio da civilização.

A guerra de Putin vista da China
13 de abril de 2022 § 4 Comentários

Em entrevista ao New Statesman esta semana Sergey Karaganov, assessor de confiança dos presidentes Boris Yeltsin e Vladimir Putin, assim como do ministro do Exterior deste último, Sergei Lavrov, repetiu o recado: para a Russia esta é “uma guerra existencial”, de modo que se não tivermos “algum tipo de vitória” vai haver “uma escalada” que, sim, pode ser nuclear.
Claro, países nunca deixam de existir, mas para Vladimir Putin e sua camarilha de ladrões essa guerra é, sim, “existencial”. Por que razão não houve ainda nem mesmo uma escalada na guerra convencional mas, ao contrário, uma “revisão dos objetivos” da “operação especial” desastradamente posta em curso em 24 de fevereiro pelo ex-agente da KGB, deixando de lado a vitória a qualquer custo para adotar este “algum tipo de vitória” que “é preciso alcançar” para salvar a face é coisa que seguramente tem a ver, para além da força da reação militar da Ucrânia, sobretudo com o modo pelo qual a China reagiu ao desatino de Putin.

Foi no longo telefonema havido entre Xi Jinping e ele dias depois de iniciada a coisa que se deu o primeiro “pé no breque” que Putin não tem podido mais aliviar desde então…
Com toda a tecnologia que levou à globalização do que já é globalizável – a fina fatia da humanidade que, em todos os países, saltou da economia de sobrevivência para a economia de consumo e fala algum inglês – o resto do vasto mundo ainda é uma constelação de servidões isoladas que se expressam em línguas e alfabetos mutuamente incompreensíveis, sem nenhuma comunicação direta entre si e que, também graças a isso, só têm, umas das outras, a imagem filtrada a que seus mestres lhes derem acesso.
No país que já está onde Lula e a imprensa da privilegiatura brasileira querem chegar só “A Verdade” tem vez, de modo que tudo que aparece e permanece na internet É a posição oficial do governo. Todo o resto ou já morreu ou permanece em segredo bem guardado na mente de cada indivíduo tentando evitar o tiro na nuca.

Assim, um passeio pela internet chinesa oferece a oportunidade de saber o que a China oficial está pensando e levando a China real a pensar sobre a aventura de Putin. E não raro essas análises mostram mais lucidez que as dos “especialistas” amestrados da nossa “imprensa livre”.
Na plataforma weixin.qq.com está publicado desde 16 de março, sem nunca mais ter sido apagado pela polícia da internet do Partido Comunista Chinês que é de matar Alexandre de Moraes de inveja, um relato dos acontecimentos que precederam a invasão, em que Putin é acusado de ter “manipulado” Xi Jinping ao levá-lo a assinar um acordo com a Russia que o colocou inadvertidamente “na armadilha de uma posição desconfortabilíssima” (an evil-like and unkind position foi a expressão usada na tradução direta do texto do chinês para o inglês) em relação a uma guerra que “viola as regras básicas da civilização”.

Segundo o artigo Putin abordou Xi na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno ameaçados de boicote pelos Estados Unidos com um tratado envolvendo 15 acordos de cooperação apoiando todas as bandeiras geopolíticas da China, da nacionalidade de Taiwan à iniciativa conjunta com a Organização Mundial de Saúde para traçar a origem do coronavirus para fora daquele país, passando pelo apoio às advertências contra “a intenção da Nato de voltar à guerra fria”. Xi não tinha porque recusar assina-lo embora o artigo lembre que os 15 acordos não acrescentavam novidade alguma pois todas essas iniciativas eram, desde sempre, apoiadas pela Russia. Mas o fato de te-lo assinado “de modo nenhum significa que a China soubesse com antecedência ou apoiasse a invasão da Ucrânia”.
Um dia antes desse artigo aparecer para o público chinês, o embaixador de Pequim nos Estados Unidos, Qin Gang, publicou outro similar no Washington Post, afirmando que dizer que a China sabia das intenções de Putin “é pura desinformação” e que “a posição da China sobre a Ucrânia é objetiva e imparcial, baseada nas regras da ONU de respeito à integridade territorial e à soberania de todos os países, Ucrânia inclusive, que devem ser estritamente observadas”.
Em 5 de abril passado outro artigo assinado por Yu Jianrong, intelectual muito popular nas redes sociais chinesas, afirmava que quanto mais se estender, mais a guerra de Putin será impopular na China. “Agressão é agressão. É moralmente errada e ponto”.

Também este vinha na sequência de outro publicado no WeChat chinês, que analisava as condições objetivas de Putin levar a cabo o seu projeto:
“A Russia quer brincar de União Soviética mas não tem mais a força econômica que isso requer. A Ucrânia, agora vizinha da Nato e servida por modernas capacidades militares, é uma versão aumentada do Afeganistão enquanto a Russia é uma versão diminuída da União Soviética. Esta guerra abriu um buraco nas artérias econômicas da Russia cuja economia já vinha abalada desde 2012. As ameaças nucleares de Putin nunca chegaram a ser feitas no tempo da União Soviética. São um sinal de fraqueza”.
“No tempo da Guerra Fria o PIB da União Soviética era de pelo menos 50% do dos Estados Unidos. Hoje, com um PIB de 1,7 trilhão de dólares, a Russia é menor que a economia da província de Guangdong. O orçamento da Federação Russa de 330 bilhões de dólares para 2021 é metade do orçamento de 705 bilhões do Pentágono. Para manter a fidelidade da Bielorussia, com menos de 10 milhões de habitantes, Putin injeta de 10 a 20 bilhões de dólares por ano naquele país. Não tem condições de fazer o mesmo com a Ucrânia e seus 44 milhões de habitantes”.

“A Russia não pode vencer essa guerra. Ela custa 8 bilhões de dólares por mês. Os ucranianos destroem todos os dias tanques e aviões de centenas de milhões de dólares com mísseis individuais que custam apenas algumas dezenas de milhares fornecidos pelo resto do mundo e pela Nato. Não existe mais uma União Soviética nem Ocidente contra o Leste, só existe um jogo econômico global complexo. O tempo não é aliado da Russia. Esse é o poder da globalização e a Russia não tem a opção de resistir-lhe”.
A única saída da sinuca em que se meteu é, portanto, a que Xi Jinping indicou a Putin naquele telefonema depois de constatar a reação, “fechada” como nunca, dos Estados Unido e da Europa: alguma que lhe salve a face sem parecer uma derrota total, antes que o massacre de ucranianos se torne definitivamente imperdoável.
Esta salvaria o mundo de ver o ex-agente da KGB apertar o botão. Mas dificilmente salvará ele próprio do final melancólico a que se condenou, nem o povo russo do rebaixamento a satélite da economia chinesa, a inversão do quadro “primo rico x primo pobre” dos dois gigantes comunistas de ontem, que vai lhe restar depois dessa sangria desatada.


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