A volta aos anos 70 num cenário de escombros

12 de agosto de 2022 § 14 Comentários

O IBGE calcula em 212,7 milhões o numero dos habitantes do Brasil nesta véspera do censo que, dizem, desta vez vai… 

Ontem, 11 de agosto, os velhinhos dos anos 70 leram, entre “vivas” e “morras” puxados de trêmulas gargantas, naquelas arcadas de São Francisco sempre pichadas e de janelas sujas e quebradas que se alcança depois de atravessar a Cracolândia da cidade mais rica do país, o manifesto solene de apoio à democracia “restaurada” pela Constituição dos Miseráveis de 1988 que, apesar do cerrado apoio daquela imprensa cujas manchetes somos todos capazes de antecipar antes mesmo dos fatos se desenrolarem, 211.720.000 brasileiros houveram por bem não assinar.

Como se não bastasse o cenário, que dá um testemunho sombriamente enfático do produto dos 34 anos que o país viveu sob ela, o manifesto, que era também de desagravo aos ministros do STF “perseguidos” e “ameaçados” pelos revides verbais com que Bolsonaro eventualmente reage ao incessante assédio desse poder que do nada ”emana” mas a tudo invade e agride, coincidiu com o ultimo édito dos 11 monocratas aumentando em 18% o argent de poche que é, para gente com segundas e terceiras casas em dólares ou em euros e as mordomias todas de que lagostas e vinhos com no mínimo quatro premiações internacionais pagos pelo favelão nacional são só o símbolo, um “salário” que agora sobe para quase 50 mil minguados reais, arrastando atras de si todo o funcionalismo federal.

E – ah! – era também de encomio, a dita manifestação, àquela máquina de votar que tem servido como “o exemplo” e “a referência” daquilo que, excluídos Bangladesh e Butão, o mundo inteiro NÃO ADOTA…

Andam bissextos os artigos neste Vespeiro. Mas não é preguiça, é enfado. Vale a pena gastar argumentos racionais com atos explícitos e deliberados de violência? Trata-los como se fossem um mero debate de ideias? 

“Ditadura” é o ato de censurar, isentar da lei, condenar sem processo, extinguir partidos políticos, prender pelo que se diz e soltar apesar do que se faz, ou depende de quem censura, de quem prende e de quem é preso? Gofredo Silva Telles dizia, no documento que este pretendia emular, que “ditadura é o governo para nós que governa sem nós”.

O que foi que mudou? 

Esses caras não têm o mandato do eleitor, a atribuição constitucional, o direito e nem muito menos o poder de fazer o que têm feito. A forma de terrorismo que praticam consiste exatamente na consciência medida e metódica do dilema a que a altura da instituição que aparelharam lhes permite arrastar o país: se forem ignorados, como a lei manda que seja qualquer ordem ou determinação sem base na lei, o país fica sem tampa; se não forem a tampa trava e não abre nunca mais. 

Não é um truque engenhoso, como dirá um cínico. É só uma forma sórdida de chantagem que conta com a boa fé e a inevitável hesitação de quem sabe quanto custa abrir as portas do inferno instalando a anomia institucional e com a covardia dos pares dos 11 menos 3, entre os quais estão também os que já não sabem se conseguem não rodar junto se derem aos autores da perfídia o que a lei manda lhes dar.

E assim vai o Brasil aos trambolhões na enxurrada. 

Esses caras anularam o Poder Judiciário inteiro em uma penada ao anularem as sentenças técnica e juridicamente perfeitas de 9 juizes, três de cada instância abaixo da deles, para transplantar Lula da cadeia para a eleição. Não vale mais nem o inalcançável “transitado em julgado”. Anularam o Poder Legislativo ao anular três vezes o que os eleitos do povo mandaram fazer sobre eleições, o que foi só o primeiro passo. Agora não ha lei votada “pelo povo” que não vá para o lixo com uma “decisão monocrática” do tipo das que eram negadas ao imperador Pedro II. E diante do encolhimento geral, já “prendem e arrebentam” – pessoa ou partido – que no Poder Legislativo lhes resista. 

Nesta reta final dedicam-se a anular metodicamente 57 milhões de votos desfazendo cada passo de quem os recebeu para da-los no Poder Executivo. Já não fazem mais cerimônia: as únicas certezas que o país tem é que é proibido sob pena de “desmonetização”, cassação da palavra e até prisão do indigitado e família, como no tempo dos czares, dizer de Alexandre de Moraes, de Edson Fachin e de Luis Roberto Barroso que eles são o que seus atos dizem que são, assim como de Lula, que ele é o que sua biografia e sua ficha policial dizem que é, de Celso Daniel ao PCC, passando pelos mensalões.

Bolsonaro insiste nas urnas quando deveria denunciar o sistema eleitoral que legaliza a transferência do voto dado num candidato para outro candidato sem a ajuda de hackers. Só 15% dos que legislam em nosso nome, Brasil afora, receberam votos em seus nomes. 85% entraram pela porta dos fundos do “voto proporcional” arrombada por “partidos políticos” que não passam de ficções desenhadas por gente de mau passado e sustentadas por imposto para fins antes inconfessáveis hoje abertamente confessados. E todos são intocáveis!

Desse primeiro aleijão decorrem todos os outros. Mas diante da desonestidade ultrajante de seus detratores, qualquer defeito real desse Bolsonaro que defende até as causas certas SEMPRE com as palavras erradas, torna-se irrelevante. 

Como poderia ser diferente debaixo desse tiroteio? 

Deixado intocado o vetor de todos os males, tudo o mais entorta, seja na boca dele, seja na dos saudosistas da São Francisco. E o país regride aos anos 70, só que num cenário de escombros.

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§ 14 Respostas para A volta aos anos 70 num cenário de escombros

  • José Luiz Mancusi disse:

    Irretocável!!!
    E a imprensa esquerda caviar nada fala…

    Curtido por 1 pessoa

  • krislevis46 disse:

    Excelente texto.
    Como ex-aluna das sacras Arcadas, sei do que você fala, Fernão.
    Só quero saber quando o país irá enxergar que o rei está mais nu do que a cabeça do Alexandreco.

    Enviado do meu iPhone

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  • É difícil, quando é que vão aprender a votar? E essa constituição quando é que vão mudar? Tem que fazer igual aqueles pastores que ficam na praça gritando com o livro na mão cobrando solução, claro que com um megafone pra ajudar na gritaria, mas cada um em uma sesmaria, todo dia, todo dia sem dar trégua a essa camarilha. Seja ela de direita ou de esquerda, seja ela do Norte ou do Sul tem que se unir e refundar para não afundar, vamos deixar o plástico dominar os mares ou fazer deles uma limonada, cubos gigantes para por as palafitas em cima e deixar flutuar sem rumo pois quem não quer um planeta terra melhor tem que ficar no mar sem fim até o ano 2070 se é que alguém aguenta.

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  • Ronaldo Sheldon disse:

    Excelente análise e texto. Enumerou boa parte da sujeira que deriva da Constituição Cidadã, que vem sendo usurpada e adulterada, em benefício próprio, pelos poderosos da Oligarquia. O PR é de origem simples, fala com simplicidade, sem rodeios, e tem sistematicamente exposto à luz, e aos olhos do povo, as artimanhas e segundas intensões dos antipatriotas. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

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  • Rubi Germano Rodrigues disse:

    Platão dizia que a verdade é aquilo que não muda nunca, isto é as leis universais que determinam a existência e regem uma natureza tencionada para a complexidade organizativa – o que converte o universo em local de manifestação da organização. Não desanime Fernão, a natureza evoluiu desde a ameba até gerar a consciência humana, sem depender da opinião dos homens e há de seguir adiante, como sempre, usando os recursos ocasionalmente disponíveis. Não desanime Fernão, a internet está levando compulsoriamente a mente humana à maturidade inferencial. Essa intelectualidade dialética que se arvora dona da verdade não impedirá a superação desta pós-modernidade decrépita, assim como os imperadores não conseguiram conter o advento da Idade Média. Bolsonaro é a ferramenta disponível no momento e, por incrível que pareça, parece que ele têm consciência disso.

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