O que há de errado com essas prisões

23 de dezembro de 2020 § 10 Comentários

Tudo!

Não necessariamente pelas culpas ou ausências de culpas dos envolvidos o que, nestes tristes trópicos, em geral é questão só de doses, sendo quase sempre a dos que prendem maiores que as dos que são presos.

Na democracia, onde todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, o representante eleito é intocável até que o eleitor lhe retire a confiança (recall) e o entregue a juízes também eleitos e sujeitos a reconfirmações periódicas de mandato para dar-lhes um destino final. 

Na democracia só o eleitor, portanto, pode iniciar os processos que aqui ficam nas mãos das facções em luta pelo poder e dos juízes nomeados por políticos para a intocabilidade eterna da pessoa, dos salários e aposentadorias privilegiados e até, eventualmente, das “dachas” em euros e do produto dos achaques entesourados em bancos suíços, se e quando houver.

Aqui tudo vai pelo errado. E o errado – atenção, muita atenção! – não é o “foro especial”. Desde que mantido no limite lógico dentro do qual foi criado e existe em todo o mundo livre, qual seja, o de proteger o eleitor e não o eleito, o representado e não o representante, ele é a mais pura essência da democracia.

O eleitor tem de estar acima de tudo e de todos antes, durante e depois do momento da eleição de calendário. Acima desse critério (a intocabilidade do eleitor do acusado, não a do acusado) só pode pairar a figura do impeachment, desde que cuidadosamente cercada pela lei que, ela também, na democracia, tem de ter a chancela final do eleitor para se tornar lei. O impeachment é o remédio extremo para os casos raros em que o eleitor, seduzido pelas artes diabólicas de algum Casanova da política, perseverar no engano de si mesmo.

O problema do Brasil não é “o povinho que Deus pôs aqui”. É a absoluta impotência institucional dele. O “estado de direito” sem povo, esse do Estado, para o Estado e pelo Estado, é o moto continuo da corrupção. 

Não há respostas para o Brasil dentro do Brasil. A liberdade institucionalizada é uma invenção nova na história da humanidade, uma construção sutil e sofisticada de distribuição tremendamente rarefeita no planeta. É preciso aprendê-la onde existe e a foram buscar os coreanos, os japoneses, os voltaires e os tocquevilles. 

Enquanto ficarmos discutindo esses casos à luz da (des)constituição que criou e mantém o nosso “estado de direitos especiais” e da privilegiatura que os decreta para si e os desfruta à custa da miséria nacional da qual, diga-se de passagem, a maior parte dos profissionais da lei e da academia que “explicam o Brasil” pelos jornais e pelas televisões constituem a mais opulenta nata, estaremos dando voltas em torno do ralo e cada vez mais próximos de entrar definitivamente pelo cano.

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§ 10 Respostas para O que há de errado com essas prisões

  • cadu43 disse:

    Pqp, o texto do ano Fernao, Parabens!!

    Enviado do meu iPhone

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  • Marcos Andrade Moraes disse:

    Muito bom, replicando!

    Mas resta uma pergunta; quantos Vespeiros existem? Pois este que escreveu isto não pode ter votado em Bolsonaro e, pior ainda, continuar a defende-lo.

    MAM

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  • A. disse:

    …”cada vez mais próximos de entrar definitivamente pelo cano.”
    – Invejo os otimistas. Por mim, acho que já estamos há muito tempo boiando no esgoto… O que muda é o cheiro cada vez mais nauseante. Pra quem ainda consegue senti-lo…

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  • rubirodrigues disse:

    Precisamos mudar o sentido segundo o qual olhamos a política. A nossa relação com a elite política e o Estado é uma relação vertical e todas as questões organizativas do convívio social resultam da distribuição vertical de poder, obrigações e responsabilidades entre os indivíduos, as famílias e os agentes públicos designados para operar o Governo. Malandramente essa elite fomenta conflitos horizontais (esquerda x direita, macho x fêmea, preto x branco, rico x pobre, executivo x legislativo x judiciário) que, caso causem vítimas, não importa, o fundamental é que a população não mude e passe a pensar no eixo vertical (a parte x o todo, o povo x a elite, quem manda x quem obedece, delegação x responsabilidade, etc.) na qual se dá a relação da elite política com os eleitores. Enquanto imbecis de esquerda e de direita se digladiam (horizontal) a elite política permanece a salvo na vertical. A lógica dialética (tese x antítese = síntese) que ampara o pensamento hegemônico nesta quadra pós-moderna dos tempos (comunista e socialista), constitui um pensamento tipicamente horizontal (luta de classes) que mantêm a elite a salvo e os arautos da dialética (acadêmicos e midiáticos) se consideram revolucionários e progressistas. Incapazes de pensamento vertical que permite reformar alicerces, passam a vida a mudar a pintura do prédio em intermináveis disputas sobre a cor mais bonita. Santa paciência, você é um herói Fernão.

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  • GATO disse:

    Em grande parte dos textos do Vespeiro elaborados pelo Fernão eu tenho plena concordância, entre tanto, em alguma partes eu venho a discordar, como por exemplo sobre o chiste que atribuem a Deus, sobre o povinho que ele ia por aqui, não foi ele, foram os Reis de Portugal, lá em 1503 quando do retorno de Cabral e junto com ele em vez de mandarem Nobres e Letrados das “Dachas”ou Cortes, enviaram só criminosos de primeira cepa, ladrões, assassinos, falsários e mais uma dezena de mal feitores que povoaram esta terra e os descendentes estão por ai, fazendo tudo igual ao que faziam lá na terrinha e continuam fazendo até hoje por aqui. As capitanias hereditárias daquela época estão intactas até hoje, com descendentes hereditáriamente pintando e bordando como faziam antigamente de Norte a Sul. Realmente não há respostas para o Brasil dentro do Paú-Brasil, quem sabe uma invasão chinesa, coreana em massa possa vir a resolver, coisa que o BolsoNero de plantão tanto teme. Não tem solução para isso que ai está, só pondo no chão e começar outra vez, pois pra onde se olha só se vê coisas tortas, coisas mal azambradas, pouco se salva desta sociedade que não toma ciência do que se celebra daqui a dois dias, não é Papai Noel, não bugigangas e farras, mas sim o Aniversário de Jesus, que deu a vida para nos salvar e de nada adiantou, continuamos errando a 2020 anos.
    Quem sabe em 06/01/202, possamos receber um presente dos Reis Magos, uma cura não só para o COVID-19, mas também para o Festival de Besteiras que assolam o país, o povo tem que acordar e cortar o mal pela raiz.

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    • carmen leibovici disse:

      Gato, você não sabe o que diz:desejar ser dominado por amarelos pintados de vermelho é de uma ignorancia extrema.
      Quando você for obrigado a fumar 2 maços de cigarro por dia, porque o “Partido”quer incentivar a indústria de tabaco, e ao tentar descumprir a ordem e “desaparecer”acordando em vários outros corpos que receberam desde teu fígado até teus miolos, você se arrependerá e será tarde.
      Raciocine antes de desejar a tua própria desgraça

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  • Carlos disse:

    Parabéns pelo triste retrato de nossa realidade. Tristeza maior é não vislumbrar Mudancas a NOSSO favor.

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  • A. disse:

    Fernão: grato pela generosidade deste espaço! Que consigamos ver, em 2021, o começo da germinação de algumas de suas ideias. FELIZ ANO NOVO a você e a sua família!
    Um enorme abração (com redundância e tudo)!!!!!
    A.

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