Sangue por nada

10 de novembro de 2017 § 21 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 10/11/2017

O que esmaga é a consciência do desperdício que essa tragédia é. Não ha duvidas transcendentais em debate, ninguem que precise ser convencido do que quer que seja. Não fazer é morte certa. Todas as contas estão feitas. Todas as respostas estão dadas, todos os remédios são conhecidos. Nós não os tomamos por deliberação soberana de quem manda no Brasil. Nada está oculto. Tudo é sexo explícito. Tudo é imposição e força. Ver quem faz barulho mais alto.

O mundo que domesticou seus políticos, que lhes tira os mandatos com mais facilidade que os põe, que premia o esforço para exorcizar o privilégio despede-se da pré-história da humanidade com carências materiais na velocidade da inteligência artificial. Nós damos marcha-a-ré na necessidade para que a casta que nos dita as leis que criminalizam como “desacato” qualquer cobrança que ousemos dirigir-lhe não se tenha de abalançar da eterna imunidade às crises que fabrica.


Em um século a partir de 1950 a população global terá crescido 3,7 xs. A de 60 anos para cima, 10 xs. A de 80 anos e mais 27 xs. Mas nós nos deparamos com esse salto da humanidade ainda cavalgados pelo modelo de opressão que a democracia pos fora da lei pelo mundo afora. O mais acabado retrato dele aparece nas contas da previdência. Um milhão de funcionarios da União, todos eles na faixa dos 1% mais ricos do país, e entre esses os juizes e os promotores, campeões dos campeões, na faixa dos 0,1% mais ricos do país (Ipea), geraram um deficit nas contas da previdência (R$ 90,7 bi) maior que o da soma dos 33 milhões de plebeus aposentados do setor privado (R$ 85 bi) em 2016. Quase 60% da metade do PIB de que o estado se apropria vai para os funcionários aposentados e não basta. Outros 12% pagam os que ainda nos “prestam serviços”. Um cálculo baseado no mesmo critério do Indice Gini, que mede as desigualdades de renda e qualidade de vida de um determinado grupo (quanto mais próximo de 1 mais desigual) é terminativo. O indice geral de desigualdade do Brasil é de 0,563 pontos e o do universo inteiro de aposentados privados de 0,474 (na aposentadoria somos igualados na pobreza). Mas o do universo dos funcionários públicos aposentados é de 0,822.

Isto quer dizer matemática e resumidamente o seguinte: dentro daquela minoria do milhão de aposentados do setor público que pesam mais que os 33 milhões de aposentados do setor privado somados, uma minoria ainda mais ínfima distancia-se dos demais numa proporção que, se ja é obscena comparada à de seus pares, é abissal quando posta ao lado da dos miseráveis cá de fora. Automatizando a multiplicação de despesas pelos expedientes de “petrificar” novos “direitos aquiridos” auto-atribuídos numa sequência sem fim, de desdobrar salários tributaveis numa infinidade de “auxílios” não tributaveis anualmente “corrigidos” por índices maiores que a inflação, de estender tudo isso para funcionários ativos e inativos mas deixando sempre aberta a cova rasa que nos cabe no latifundio do orçamento público aos “ajustes” que cada golpe desses matematicamente implica; foi assim que o Brasil foi sendo empurrado para o presente quadro de desastre nacional. Entre 2014 e 2016, os dois anos mais sufocantes da história da miséria brasileira, essa corte confiscou ao favelão nacional mais R$ 8,8 bilhões em “cortes de despesas dos estados” com educação, saude e segurança publica enquanto embolsava R$ 8,6 bilhões em aumentos automáticos “imexíveis” de proventos variados. Uma coisa pela outra. Na União e nos municípios foi ainda pior.

Agora é rever essa divisão ou morrer. E como não existe argumento capaz de deixar a menor dúvida sobre quem tem o que entregar e quem tem o que receber, a saida dos devedores foi reduzir o debate político a essa gritaria que ele virou. Literalmente na véspera de ser aprovada no Congresso a primeira reforma a tocar de leve os “direitos adquiridos” da privilegiatura emerge do Ministério Publico do dr. Janot a gravação que, hoje está provado, apagou a ultima fronteira entre “mocinhos” e “bandidos” do faroeste brasileiro, para enterrar, junto com a reforma da previdência, o mais eletrizante capitulo da Lava Jato que acabara de ser aberto – o da Operação Greenfield que revelaria ao país, daqui até à eleição do tudo ou nada de 2018, como foi que, muito além dos “pequenos furtos” dos tempos em que ainda era preciso fazer uma obra publica ou comprar uma plataforma de petróleo para roubar o Brasil, o lulismo fez da familia Batista e mais meia duzia de genocidas e párias do mundo civilizado sócios dos Fundos de Pensão das estatais, primeiro, e do BNDES, do Banco do Brasil e do Tesouro Nacional, depois, para montar uma lavanderia já devidamente abarrotada para lavar dinheiro sujo espalhada por 30 países do mundo.

Por maiores que sejam as culpas no passado do presidente provisório, trocar a Operação Greenfield e o futuro do Brasil por elas não é só um péssimo negócio, é um negócio leonino. O jogo que corre, de ocultar ou expor pedaços do banco de grampos do rei dos bandidos é a descrição do fulcro da doença e não o caminho da cura. O último sinal de saúde no ar é, aliás, o pouco que tal expediente engana a esta altura. Mas a impotência do brasileiro como cidadão faz dessa clareza prostração … ou esse mergulho no nada que são os nossos 62 mil trucidados a bala por ano e subindo.

Toda essa carnificina é um trágico desperdício. É inadmissivelmente anacrônico fazer-se pobre desse tanto e absurdamente estúpido morrer pelo nada por que se mata aqui. Quem tem vivido do sistema de exploração que custa esse preço é o que é, não tem remissão. Mas é sobre a cabeça de todos quantos sabem que é disso que se trata e não o dizem; é sobre a cabeça de todos quantos fingem que esse é um problema “do governo Temer” e não um problema do Brasil; é sobre a cabeça de quem tem o poder de fazer isso cessar e não faz que recairá o sangue todo que vai custar darmos mais uma volta nesse circulo infernal, mesmo sabendo todos qual é a única saída que existe.

§ 21 Respostas para Sangue por nada

  • Saulo Mundim Lenza disse:

    Caro Fernão, não acredito mais nesse Brasil dos direitos adquiridos e outros privilégios que tais.
    As “autoridades” constituídas, simplesmente estão na base do salve-se quem puder.
    Isto que estamos assistindo não vai mudar.
    Parabéns pelo seu texto.

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    • Fernão disse:

      não vai
      mudar, saulo. vai ser mudado.
      porque não tem mais jeito de continuar. vai falir estado por estado até eles pedirem penico

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      • Honório Sergio disse:

        Fernão é o que sempre digo, um dia o dinheiro acaba, o cidadão comum vai cortando tudo o que pode em matéria de gastos, vai escasseando os empregos e serviços e a arrecadação vira pó, quem sabe ai a população reage!

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  • José Silvério Vasconcelos Miranda disse:

    Não viverei o suficiente para ver a mudança. No faroeste brasileiro, sempre ganhavo bandido. Vide Janot e Batistas. Vide Lula, Dilma e os
    comunistas disfarçados de petistas. Vide os participantes do tal Forum
    Social Mundial e José Bové. Temos ainda MTST, MST e outros macacos
    do auditório de Guevara e Hugo Chavez. É triste, mas é verdadeiro.
    Enquanto isso, num ato de pura covardia a Rede Globo afasta William
    Waack. É de doer.

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  • Fernando Leal disse:

    Caro Fernão, poderia esclarecer à quem você se refere em sua última frase do seu mega lúcido texto: “…é sobre a cabeça de quem tem o poder de fazer isso cessar e não faz que recairá o sangue todo que vai custar darmos mais uma volta nesse circulo infernal, mesmo sabendo todos qual é a única saída que existe.”

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  • Salvador Mazzetto disse:

    Maravilha de texto!!👏👏espero que toda a corja de Brasília leia…vai ter que mudar na marra..

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  • ELIANA RAMOS disse:

    Todo este mar de lama de corrupção nos leva ao atraso, lamentável.

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  • Belo texto, Fernão.
    Em Brasilia leem, mas fazem como se não fosse com eles. Afinal, as eleições estão chegando e o voto se faz necessário venha de onde vier, pois os privilégios é que importam.
    Por isso estamos na ” merda” permanente e, só a sociedade pode mudar o presente, começando por saber votar, ou então razão teve o Pelé….” o brasileiro não sabe votar”, digo eu.. e ainda não aprendeu.
    Pobre economia de um pobre país, devastado pela má política.

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  • JOSÉ ETULEY BARBOSA GONÇALVES disse:

    Fernando,
    Leid-o sempre. V. escreve muito bem.
    Todavia, digo-lhe: a culpa do “deficit” previdenciário – e, consequentemente, do Fundo Previdenciário – não é só do funcionário público. E nem sei se ele, realmente, tem culpa desse “deficit”.Pelo menos no Estado de S. Paulo, onde o SPPREV, bem dirigido, está relativamente equilibrado? V. sabe que o servidor público paulista paga a contribuição previdenciária mensal – inclusive os aposentados – de 13% a 11% + 3% (IAMSPE) sobre O TOTAL de seus vencimentos? E que, isso, é o bastante para, normalmente, constituir o Fundo Previdenciário (reserva técnica para cobrir as atuais e futuras aposentadorias)?.
    Isso, graças à boa gestão de seus dirigentes. Assim, o servidor público paulista não usufrui do teto de pouco mais de R$ 5.000,00 que existe na Previdência Privada. Isto é, são dois regimes diferentes de Previdência e que, por isso, têm tratamento diferenciado quando ocorre a aposentadoria. Tivessem os funcionários o mesmo teto que têm os empregados da empresa privada e depositado a diferença – entre esse teto e o total sobre o qual recolhem – em um Fundo Privado e sua situação, hoje, seria bem melhor do que a aposentadoria pelo último vencimento. Todavia, estou com V. De hoje em diante, todo funcionário que começa a trabalhar em uma empresa privada ou em uma empresa ou serviço público devem ter um só sistema previdenciário. Mas, o sistema diferenciado do servidor público deve ser mantido para aqueles que, desde muito, recolhem uma aposentadoria superior ao teto que existe para o setor privado. Não se trata, evidentemente, de um privilégio. Pois que se deseja falar em privilégio deve ser considerado que ele existe também para aquele que paga sua aposentadoria até apenas um teto e nada mais sobre o que recebe acima dele. Acontece que o “deficit” do Sistema Previdenciário se deve a um outro fator. E não é dos condenáveis desvios e falcatruas que ocorreram que estou falando. E sim da aposentadoria dos velhinhos do setor rural que, sem nunca antes haverem contribuído, passaram a receber sua aposentadoria. Nada contra esse justo tratamento aos velhinhos. Todavia, essa despesa jamais poderia ser debitada, orçamentariamente, como sendo da Previdência. Pois jamais, antes, houve contribuições que lastrassem o benefício. E, sim, dos Ministérios e Serviços Sociais da União. Cujos aportes orçamentários existem para esse fim.
    Vamos ver no que a “coisa” vai dar. Espero que surja uma nova Previdência cabível dentro dos orçamentos da União, dos Estados e dos Municípios. Mas que seja justa e que trate as diferenças com a Equidade que deve ser fazer presente em toda norma jurídica.

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    • Fernão disse:

      ola, jose,
      o artigo registra a existência de dois tipos de aposentados do setor publico: os que estão na faixa dos 1% mais ricos (o que confirma o quanto o Brasil é pobre), entre os quais ha muita gente que ganha muito pouco, e os que estão na faixa do 0,1% mais ricos (na média, o que quer dizer que tem gente nessa lista com aposentadorias + pensão + etc estratosféricas).
      isso tem de acabar, e para estes antes dos outros,
      nao so porque é elementarmente justo e necessário, mas pq o numero absoluto tem peso enorme e faz imensa diferença em serviços q podem significar a vida ou a morte de muita gente

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    • Arnaldo Bortolini disse:

      Usando a matemática: é necessário uma contribuição de 50% do salário (funcionário + patronal) para viver aposentado por 50% do tempo de contribuição (ex: 30 anos de contribuição para 15 de aposentadoria), isso considerando que irá se aposentar pela média de contribuição dos 30 anos e não pelo último salário. Não tem boa gestão que fuja disso e a gente bem sabe como funciona a gestão dos fundos…nem vamos comentar.
      Usando a lógica: se os 13% a 11% + 3% (IAMSPE) sobre O TOTAL de seus vencimentos (+ o patronal que vc esqueceu) é o suficiente para constituir o fundo previdenciário, porque uma maldade dessas e não estender essa maravilha à todo trabalhador, independente se público ou privado? Todos querem ter a chance de contribuir com 11 a 13% (eu descontaria até 15% e feliz da vida – e meu patrão bota a diferença nesse mesmo caixa do fundo) e se aposenta todo mundo com o último salário. Ou a coisa é sustentável ou não é, ponto! E, se com teto e contribuição em previdência privada seria o melhor, porque da chiadeira? Não é isso que a reforma pretende? Mas sem essa de ser garantida pelo governo, tem que ser PGBL ou VGPL como todo mundo!
      Usando conhecimento: José descobriu o ovo de Colombo: a culpa é do salário mínimo dos trabalhadores rurais, “sem nunca antes haverem contribuído”. Já ouviu falar num tal de “funrural”, José? É, e essa contribuição não é sobre o que sobra do produção menos o custo, que seria o seu salário, ele incide sobre o faturamento bruto, tanto das pessoas físicas como da pessoa jurídica e a pessoa jurídica não se aposenta, né? Imagina quanto desconta uma carreta de soja (+- 30 ton) de funrural?

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  • jose carlos illescas disse:

    E fora os que nunca contribuiram jogados no sistema, como agricultores, pescadores, garimpeiros, etc. E fora os que contribuem numa faixa e aposentam em outra (militares), funcionario de carreira aposentado como secretario, etc.

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  • faria13 disse:

    Só um probleminha – no Brasil ninguém lê.

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  • Carmen Leibovici disse:

    O Brasil é dominado por uma corte de homens(e mulheres)atrasados.
    Está mesmo na hora disso mudar e do País ser entregue aos brasileiros.Dinheiro que entra tem de servir para promover conforto aos brasileiros em todas nossas necessidades e não para abastecer os cofres de gente atrasada,que não tem visão de nação.O que são essas pessoas que assaltam o Brasil ,senão uns atrasados?

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  • A reforma de Temer pretende criar um sistema único de aposentadoria. Ocorre que tratando do assunto com tanta generalidade, e não informando que para criar este sistema único seria necessário acabar com as aposentadorias estaduais, qualquer aprovação prevista, depois de dilapidada do essencial, vai manter tudo como está em nome dos direitos adquiridos. E depois de alguns anos, os novos aposentados passam a receber ILEGALMENTE os benefícios de seus antecessores. Olham para trás e verifiquem: FHC alterou a aposentadoria de filhas de militares a partir do ano 2000, permanecendo os tais direitos adquiridos. Elas não estão recebendo da mesma forma que as antecessoras? Lula fez uma reforma da previdência em 2003. O mensalão começou ali, como instrumento de obter maioria parlamentar. O que deu aquela reforma? Foi esquecida.

    O que nos torna uma nação convalescente é o fato de que não se segue a lei quando ela contraria as castas gravitando ao redor do estado. Isto não pode ser mudado sem antes alterar o sistema político de tal modo que ele seja capaz de REPRESENTAR a sociedade e não ser o jogo de esconde-esconde atual.

    Com a perspectiva de colapso, certamente que o governo vai tomar algumas atitudes: todas maquiagens para manter o sistema azeitado naquilo que nos envergonha e humilha.

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    • Fernão disse:

      certamente: recall, referendo, iniciativa…
      na vida real manda quem tem o poder de DEMITIR

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      • Tenho cidadania italiana. Duas vezes ao ano recebo correspondência para votar em assuntos de referendo, as vezes regionais, as vezes nacionais, como as reformas de Renzi que não foram aprovadas. Por que não se institui o referendo no Brasil, para as leis que alteram legislação existente? Deveria ser obrigatório o voto popular como forma de sancionar a lei e não a canetada do presidente. Por aí se vê como somos manipulados.

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  • Carmen Leibovici disse:

    Conforto=boa e decente saúde pública;excelente transporte público;segurança;educação racional;rodovias;ferrovias;incentivos ao desenvolvimento;cuidado paisagístico,etc.Para TODO o País.
    o Brasil precisa começar a ser GERIDO e não assaltado

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  • Antonio Abreu disse:

    totalmente de acordo com seu texto muito bem !!

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  • GUILHERME disse:

    Olá Fernão gosto muito do que você escreve.parabens.
    Não sou bom em escrever sou engenheiro.tenho uma visão de que discutimos muito as coisas de Brasília e pouco os problemas locais.como pode uma camara municipal de Sampa gastar 810 milhões por ano.precisamos descontruir as câmaras de vereadores

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