O último intelectual honesto

5 de dezembro de 2016 § 13 Comentários

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Na biografia apresentada no Fantástico e em todos os outros programas do segmento aberto da Rede Globo, Ferreira Gullar não renegou o comunismo. Nos programas do segmento fechado da rede, ele vagamente “oscilou” em suas crenças e “manteve um pensamento independente” não se mencionando em relação a que. Em todos ele “foi comunista” quando foi comunista, “perseguido pelos militares“…

Quer dizer, no dia da morte dele, trataram de matar pela segunda vez o verdadeiro Ferreira Gullar; de aniquilar a memória da essência do que ele foi na sua monumental e poética honestidade intelectual.

É patético esse jeito Globo de aproximar-se mais ou menos da verdade conforme o nível de informação anterior que ela espera dos seus diferentes públicos, o que é nada menos que uma confissão de mentira. É emblemático disto a que está reduzido este país que tateia no escuro em algum lugar entre o século 19 e o século 20, pensando que está procurando o século 21…

O verdadeiro Ferreira Gullar, entretanto, foi grande o bastante para dizer na cara de todos os jornalistas e de quem mais quisesse ou não quisesse ouvir a verdade, coisas como essas abaixo:

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Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”.

O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento”.

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista”.

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A própria natureza é injusta e desigual. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso”.

Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. (As pessoas do partido Comunista) não lutavam por democracia, mas pela ideologia Comunista, e estavam sinceramente equivocadas. Você tem de ter uma visão crítica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado”.

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O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lênin está ali na Praça Vermelha, mas, pelo resto da cidade, só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer. O socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade”.

Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, nem existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotaram a ideologia marxista, que, de uma maneira ou de outra, militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista, fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana”.

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Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo”.

Existe uma política que o governo adotou, chamada ‘psiquiatria democrática’, que é um absurdo. Impede a internação. Eles acabaram com mais de quatro mil leitos. Por que chama ‘psiquiatria democrática’? Porque não interna. Mas é uma bobagem, ideológica, cretina, que não tem nada a ver com essa doença real. Eu, que lidei com essa doença, sei muito bem que não tem nada disso. Quando uma médica veio com essa conversa, perguntei: ‘É a sociedade que adoece o doente mental? A doença mental não existe? É a sociedade que faz ficar doente? O fígado adoece e o cérebro não adoece? Por quê? É o único órgão divino?’” (Ferreira Gullar teve dois filhos com esquizofrenia)

O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia”.

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§ 13 Respostas para O último intelectual honesto

  • Fernando Lencioni disse:

    Lindo! Lindo texto! Lindo pela honestidade e pela sabedoria de suas convicções. Só um homem com h maiúsculo – no sentido de espécie – poderia se exprimir assim. Que perda para a humanidade. Obrigado Fernão pelo compartilhamento.

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  • Fernando, pra que você assiste a Globo? Faça como eu, só assisto a Globo quando é Fórmula 1 ou Futebol com exclusividade! A última coisa que assisti na Globo, espontaneamente foi “O Bem Amado”… Depois disso só as exclusividades, pois “infelizmente” gosto de Esportes.

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    • Fernando Lencioni disse:

      Nicanor, eu não assisto a globo. Aliás, há muito tempo. De vez em quando assisto à globo news para ver o que estão pensando os jornalistas desse canal, mas não aguento muito tempo por causa da análise rasa e vazia que os profissionais que lá trabalham faz, como já disse várias vezes aqui.

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    • Fernando Lencioni disse:

      Aliás, com todo respeito, se você não procura saber o que pensam e escrevem os jornalistas do mainstream, como você vai formar a sua opinião honestamente? Deveras, a verdade, como você sabe, não é propriedade de ninguém e a oitiva das opiniões contrárias é conditio sine qua non para uma conclusão equilibrada, justa e o mais próximo possível da correção. Não se deve a priori subestimar a opinião de ninguém, pois a ciência é por excelência uma construção dialética. A televisão aberta, é certo, está por demais massificada, por isso foram criados os canais de jornalismo nas tevês por assinatura. Infelizmente, o nível dos profissionais desses canais exclusivos não foge muito dos que estão nas tevês abertas. É a isso que me refiro em meus comentários como acho que você deve ter percebido.

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  • José Luiz de Sanctis disse:

    Um comunista que reconheceu que essa ideologia é um fracasso total. Quanto a Globo, não é sem motivo que é chamada de rede Goebbels.

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  • Ronaldo Sheldon disse:

    Belíssima homenagem ao grande Ferreira Gullar. Ele foi simples, direto, sincero e desconcertante. Faz lembrar Alberto Caieiros.

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  • José Silverio Vasconcelos Miranda disse:

    Ainda bem que existem pessoas iguais a você Fernão para perceberem a falácia noticiosa feita pela Globo e seus filhotes. Estão preparando um
    especial do GloboNews Literatura para sexta-feira. Coloque no mesmo
    balaio o site da Veja que noticiou a morte do grande intelectual na coluna Entretenimento. Degradante.

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  • Carmen Leibovici disse:

    eu vivo procurando algum ponto para discordar(que coisa!)e apontar e discutir,e ,se possivel,”endireitar”,mas consegui nao discordar de nada sobre as reflexoes de Ferreira Gullar aqui expostas.

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  • Edson Galindo disse:

    Obrigado!

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  • honorio sergio disse:

    Lá se foi mais uma inteligência rara, ficamos com Sarney,Renan. Jucá, Paulo Coelho…

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  • Carlos Leôncio de Magalhães disse:

    Eu não fazia ideia disso. Sabia que Gullar tinha sido comunista, não tinha pego em armas e tinha “mais ou menos” se “convertido”. Gostei imensamente da resenha, e me surpreendi muito. É exatamente isto: honestidade intelectual. Obrigado, Fernão.

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  • Gaudério disse:

    “Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado.” Por favor Fernão, corrija o texto substituindo o segundo “inteligente” por atlético, conforme a entrevista do Gullar.

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