Discutindo “o Coringa” com Jabor

24 de julho de 2012 § 3 Comentários

Comentando o massacre do Clorado hoje no Estado (aqui), Jabor se permite fazer voar o seu pessimismo apocalíptico.

Já andei por esses territórios escuros…

Cada vez mais, nessa primavera do nada dele, ele pensa despudoradamente como quem se põe a uivar. Na sua ânsia psicanalisada de negar mistério ao mistério e procurar causalidade em tudo, tem usado a sua inteligência com a mesma absoluta dispensa de filtros ou seleção prévia de alvos com que o atirador sorridente usou suas armas naquele cinema do Colorado.

Tentação temerária, essa de atribuir à inteligência a missão de varrer O Mistério da face da Terra!

Insisto nisso porque não é de hoje que suspeito que, na raiz desses massacres, está justamente a aridez da vida sem mistério.

Jabor nota, a certa altura, que “quando o Código Hays da terrível censura careta dos anos 30 foi extinto em Hollywood, a sexualidade continuou ausente dos filmes. Só floresceu a brutalidade total, o substitutivo puritano para o sexo“.

É verdade, sobretudo agora.

Mas essa sugestão de que ainda é ao patrulhamento das suas avozinhas para que não durmam com as mãos por baixo dos lençóis, bulindo “nas partes”, que se deve a entrega desses “puritanos” ultrareprimidos à violência é Freud demais pro meu caminhãozinho!

Eu não acredito nem por um minuto que religião, nos dias que correm, pese tanto assim nem praqueles caras dos grotões do Islã para os quais qualquer violação redunda em pesado castigo físico e até na morte.  Até eles já sabem que isso é só mais uma das ferramentas covardes do jogo do poder e que não existe mão de deus nenhuma nessa brutalidade toda.

Que dirá os americanos do ano da graça de 2012!

Por que, então, derrubada a “censura careta dos anos 30“, só a “brutalidade total” floresceu nos filmes de Hollywood?

Porque o ato de infligir a morte ao outro e suas multiplicações – a brutalidade total, o assassinato, o genocídio – são o último limite do proibido, a derradeira transgreção da qual não se pode sair impune, o último território ao qual homens e mulheres, velhos e crianças, não podem ir e voltar livremente a qualquer hora do dia ou da noite, até do computador do escritório enquanto trabalham ou fazem a lição de casa.

Já não digo matar simplesmente, mas matar a esmo ainda é o unico modo infalível de se impor à atenção alheia (e já quase nem isso).

O sexo até à última das suas perversões, nesta era da internet, é a essência do déjavu, do óbvio, do já sabido. Nem Pedro Bial no seu dia mais inspirado consegue produzir o mais leve rubor na face de uma criança que seja explorando o filão desse “tabu”.

Suspeito, portanto, que é a arte quem imita a vida nesse caso, como sempre realimentada até o empanturramento pela força do dinheiro.

Quem sou eu pra ensinar padre nosso a vigário!

Mas a mágica do cinema, o fascínio que ele exerce sempre esteve na possibilidade que ele enseja de tornar possivel o impossível, de materializar o apenas sonhável, de colocar o espectador onde ele nunca poderia estar, de passar o ponto de não retorno e retornar.

“Cinema verdade” nunca deu ibope porque de realidade já temos, todos nós, muito mais do que somos capazes de engolir. O que falta cada vez mais é o que se não sabe; é o que se não pode saber. O que falta cada vez mais é espaço para o sonho, é espaço para o mistério.

E essa é a fresta pela qual sempre se esgueirou a esperança. Já foi “na outra vida”, já foi no “Novo Mundo”, já foi “além da última fronteira” que dormiu a utopia à espera de que os audazes, os santos, os sonhadores e até os machucados viessem abraça-la.

Hoje onde é que ela se esconde?

Já a dor, dói como sempre doeu…

Resta sempre a alternativa de se provar sublime para quem não suporta ter a sua ignorada. Mas isso não é para quem quer. Daí haver sempre mais tarantinos que chaplins e woody allens, tanto no cinema quanto na vida real.

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§ 3 Respostas para Discutindo “o Coringa” com Jabor

  • Ed Rodrigues disse:

    Sou policial… Investigador… Tenho 51 anos, 22 deles na Policia Civil de São Paulo…
    Já tomei tiros… Já matei, por necessidade profissional e por ter sido vítima em ataque de criminosos… Mas nunca por ter extrapolado minha condição de profissional armado… Nunca, repito, nunca, abusei do fato de portar uma arma de fogo…
    Não sinto prazer algum na cultura da morte, que abomino em todos os sentidos, à começar por toda a influência do catolicismo angustiante no qual fui criado, onde o culto à morte (e à mortificação), estão nos seus alicerces …
    Mas não consigo deixar de concordar em alguns pontos com o Jabor… Nos deliciamos (ao menos no ocidente), com a violência de uma forma que não consigo entender… Como profissional de polícia, simplesmente não consigo compreender isso…
    Trabalhando nas ruas de uma cidade com os índices de violência de São Paulo, convivo com isso diuturnamente, mas não me vejo entrando num cinema e pagando um ingresso (caro), para assistir uma pessoa dando tiros em outra como se isso fosse um esporte…
    Abomino, odeio, desprezo essa estética que transforma a agressão em gestual artístico…
    Sei que nesse caso (do Colorado), como em tantos outros, estamos falando de psicopatas, seres totalmente desprovidos da identificação com o outro, absolutamente amortizados naquilo que chamamos de emoção humana…
    Mas gostaria que alguém me ajudasse a compreender isso, porque tal fato me incomoda imensamente…

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    • flm disse:

      eu também concordo, ed. não tenho duvida de que a estética da violência e sua exploraçao exaustiva no minimo ajudam a levar alguns débeis mentais a “ter uma boa idéia”.
      do mesmo modo que a exploração exaustiva do sexo na internet e na tv (no caso desta, mais a banalização e a justificação da esculhambação moral que propriamente do sexo que é só um dos instrumentos possíveis dessa esculhambação) são parte decisiva da construção desse vale-tudo que o Brasil virou.
      quem já viveu o suficiente para ter uma consciência clara da propria mortalidade, da fragilidade da vida e de tudo que pode morrer com ela, ganha esse seu horror, que eu compartilho, com a espetacularização da brutalidade.
      ela está em toda a parte, das salas de cinema aos ringues sempre ensaguentados de UF.
      a violencia nos fascina como parte do desconhecido, do território que vai alem do limite. e mais, hoje, porque já não restam muitos territórios alem do limite.
      o abuso responde à maldição do dinheiro, que se torna onipotente quando o estado se alia e se torna, ele também, mais um dos caçadores obsessivos dele.

      reconheço que meu artigo ficou meio cifrado mas o que eu queria dizer (e imaginei que se o jabor lesse iria entender) é que usar a inteligência para desconstruir, “explicar”, relativizar tudo, e assim reduzir ainda mais o espaço do misterioso e do desconhecido não ajuda a inverter essa maré.
      pensar em publico, pensar em voz alta também é uma responsabilidade como sabe bem quem tem filhos (e tem de aprender a escolher o que vai dizer). nem tudo pode ser dito, mesmo sendo verdadeiro. é preciso sempre deixar um espaço para a duvida e para o inexplicavel até para que nos refugiemos nele, quando for necessário (mesmo porque nunca temos todos os elementos e a mais alta ciência de hoje, nos diz a História, tende sempre a se tornar a chacota de amanhã).
      num mundo de certezas onde tudo pode ser explicado, quem não está integrado está fora “porque quer”, quem destoa é um pária, quase alguém que já morreu antes de morrer.
      são esses, de repente, que urram sua dor e sua incapacidade de ve-la ignorada destruindo e matando a esmo.
      só se mata a esmo por dor descontrolada, por poder ou por aquilo que não se sabe a respeito do que somos e do que podemos, de repente, nos tornar. e poder não é a praia desse cara do colorado…

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  • flm disse:

    voltando, ed,
    Na verdade o ponto que me pegou do texto do Jabor foi este:
    “Os extermínios vão virar uma prática social, para regular o mercado de excedentes. Em vez de queimar produtos, queimarão consumidores. O fim da tragédia já aconteceu. A sobrevivência moderna precisa do crime. Contemplamos a miséria cotidiana com a mesma frieza com que o cara fez sua rosa de sangue. Esse louco sorridente queria mesmo nos chocar, nos acordar de um sono frio.”
    Eu vivo me perguntando se a audiencia desses programas explorativos (de sexo ou violencia) são mesmo o problema ou apenas um componente do diagnóstico. Um indicador de a quantas anda a doença moral do brasileiro.
    Provavelmente a segunda hipótese é que é verdadeira.
    Julio de Mesquita Filho esteve anos exilado do Brasil durante a ditadura Vargas. Nas cartas do exílio da Europa para sua família da 2a metade dos anos 30, vésperas da 2a Grande Guerra cuja eclosão ele já vinha antecipando ha alguns anos, ha uma antologica em que ele vai assistir Les Enfants Terribles (a história de dois irmãos drogados e incestuosos), de Jean Cocteau, na Commedie Française e volta chocado, dizendo que “o povo que aplaudia aquela mixórdia estava podre; não ia resistir uma semana aos nazistas”.
    Mas aquilo era uma carta para a familia dele e não um artigo de jornal. Se ele estivesse escrevendo para o jornal, provavelmente, por tudo que conheci dele, não diria isso. Pelo menos não desse jeito.
    O vaticínio apocaliptico do Jabor também esta possivel e até provavelmente certo. Aurora, Colorado, é só a avant premiere da sistematização dos massacres que esta por vir.
    O perigo é que “tornar isso lógico”, emprestar-lhe uma explicação racional, o que é meio caminho andado para uma justificativa, ajude a abaixar a resistência contra o que ele enxerga desde já como inevitável e torne mais fácil o vaticínio se cumprir.

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