Murdoch e a corrida de ratos, versão resumida
20 de julho de 2011 § Leave a comment
O escândalo envolvendo os jornais de Rupert Murdoch traz à tona um problema que é mais generalizado do que parece à primeira vista.
O lado positivo está no fato de ter sido a persistência do Guardian que tornou conhecida a verdadeira extensão das falcatruas que ajudaram a erguer o maior império da imprensa corporate em operação no mundo, o que prova que uma imprensa livre, profissional e pautada pelas normas éticas de sempre é indispensável até para expor os podres da própria imprensa enquanto componente imprescindível do ferramental institucional das democracias.
Feita a ressalva, cabe alertar para o fato de que a doença que acomete o Império Murdoch é a versão exacerbada de uma ameaça com que se vê às voltas a imprensa ocidental como um todo.
Até meados do século passado o mais comum era que o diretor/proprietário de um jornal fosse um jornalista. Com o tamanho crescente do investimento necessário para uma operação jornalística profissional (ou até pela sucessão no comando das empresas) o padrão passou a ser o de homens de negócios exercendo a liderança dos jornais.
Não se trata de discutir se a ética empresarial é melhor ou pior que a ética jornalística. O que importa é que elas são diferentes.
Uma fábrica de biscoitos, por exemplo, tem compromissos éticos e de responsabilidade no tocante aos ingredientes e à higiene, além daqueles que dizem respeito às relações de trabalho. Para além disso, o produto que ela fabrica não sofre qualquer injunção de ordem moral.
Um órgão de comunicação é diferente. Ao informar; ao interferir no destino dos indivíduos; ao reivindicar o direito de violar a privacidade dos detentores do poder politico, ele atua e também exerce poder sobre a sociedade que procura representar.
Os órgãos de comunicação são, portanto, negócios que trazem poder político. E poder político é algo que só se pode pleitear em nome do bem publico e não exclusivamente no da busca de lucro ou do puro exercício de um privilégio.
São, portanto, vocações e projetos de vida diferentes e mutuamente excludentes os dos homens e mulheres que abraçam uma ou outra dessas linhas de atuação. Os dois são indispensáveis para o bom equilíbrio de uma sociedade tanto quanto a existência de situação e oposição moderando-se uma à outra na sua representação política. Mais ainda dentro de uma empresa. Mas não são equivalentes.
A crise da imprensa começa com a confusão entre esses papéis que, cedo ou tarde, resulta na mudança dos objetivos das empresas jornalísticas de ferramentas institucionais indutoras de reformas dentro do sistema democrático para meros instrumentos de acumulação de lucros para indivíduos ou grupos de acionistas. Muito antes, portanto, que a internet viesse a abalar essa indústria pelos efeitos que provocou no modelo de negócio baseado na venda de publicidade, que é onde ela se constitui numa ameaça séria para o jornalismo profissional hoje, e não pela competição entre a produção profissional e a amadora de informação como mais comumente se ouve por aí.
Pois é praticamente impossível evitar que o poder político inerente à operação jornalística acabe sendo posto a serviço do novo objetivo que se impõe quando as empresas jornalísticas se permitem essas confusões na escalação dos principais atores do drama.
O escândalo Murdoch, em poucas palavras, não é outra coisa senão um processo de rejeição violenta ao transplante seco de uma versão radical da ética empresarial hoje universalmente aceita para dentro de uma operação jornalística.
Espionar segredos de concorrentes pagando “arapongas” e hackers; cevar membros de governos para obter negócios e vantagens; o troca-troca entre os papeis de funcionário público e “consultor” privado; manter executivos e funcionários sob pressão violenta e permanente por “performance” fechando os olhos para os meios por eles utilizados desde que sejam alcançadas as “metas” estabelecidas são práticas que os acionistas e seus agentes na alta administração da maioria das empresas remuneram regiamente, no Brasil e no resto do mundo hoje.
Ninguém chega a uma posição de mando numa empresa moderna ou recebe o endosso dos headhunters aos quais recorrem cada vez mais os altos administradores de empresas de comunicação focadas em resultados financeiros para procurar publishers de produtos jornalísticos, sem aderir cegamente a elas.
Murdoch é um caso extremo, não ha duvida.
Mas a diferença é apenas de grau. O efeito dessa confusão de papéis tende sempre para a armadilha de que o adjetivo “murdochisação do jornalismo” se transformou em sinônimo: o foco absoluto em resultados financeiros produz inicialmente uma melhora nos números operacionais da companhia, festejados por administradores e acionistas como prova do acerto na mudança de rumo determinada, mas é invariavelmente acompanhado por um paulatino esmorecimento nos padrões éticos e na qualidade do jornalismo produzido, efeito que, em geral, só será mensurável pelos métodos comumente aceitos pelos conselhos de administração empresarial quando, como no caso dos jornais de Murdoch, já for tarde demais.
O escândalo que a descrição pormenorizada de práticas “murdochianas” consideradas normais – ou quase – em outros tipos de negócios nas empresas às quais os leitores confiam a tarefa de fiscalizar o poder político é um sinal indiscutível da vitalidade das democracias afetadas.
Talvez isso propicie um movimento de autocritica que leve os encarregados da governança das empresas jornalísticas pelo mundo afora a se lembrarem, nem que seja apenas por razões pragmáticas, de que o que a imprensa que reivindica um papel institucional vende e o publico que faz questão de participar do jogo democrático compra é, fundamentalmente, a esperança de que exista vida fora dessa corrida de ratos.
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