Imprensa, corrupção e segurança publica
26 de maio de 2011 § 1 comentário

Foi manchete do Globo de domingo passado que o atendimento a baleados no Rio de Janeiro caiu 46% desde que a polícia, quase um quarto de século depois que Leonel Brizola entregou os morros cariocas ao crime organizado, resolveu dar as caras nessas áreas por exigência do Comitê Olímpico Internacional e da Fifa.
Embora esses dois organismos não votem nas eleições cariocas, o Rio provou, com essa decisão, que continua o mesmo: ação a favor dos miseráveis, só mesmo pra inglês ver, como foi com a libertação dos escravos antes e se repete com os descendentes deles agora. Se a Inglaterra não tivesse bloqueado nossos portos para nos forçar a libertá-los, estávamos chicoteando gente no poste até hoje.
Enfim o tiroteio já se reduziu à metade apenas com a presença física de policiais nos morros. E pode cair muito mais ainda se houver vontade política para proceder à limpeza da polícia carioca, sem a qual essa paz não durará muito tempo porque ela está podre da cabeça aos pés e quando não se vende aos traficantes forma ela própria a quadrilha a explorar à bala as comunidades miseráveis.

O que ocorreu só com esse primeiro gesto comezinho é de tanta importância que os hospitais cariocas, que hoje ostentam o desairoso galardão de serem os mais especializados do mundo em medicina de guerra, já começam a desativar parte da estrutura que mantinham para receber as pessoas despedaçadas pelos tiros de fuzil, pelas granadas e pelos petardos das metralhadoras antiaéreas do tráfico, de um lado, e pelos tiros da polícia do outro. É que, neste quarto de século de abandono o Rio de Janeiro caiu de “Cidade Maravilhosa” para o front onde se produz, em “tempos de paz”, a maior quantidade de vitimas de ataques com armas de guerra no mundo, aí incluídas as áreas oficialmente conflagradas como o Iraque ou o Afeganistão.
Nem assim a Rede Globo, a emissora co-irmã do jornal que deu essa auspiciosa manchete, tirou qualquer conclusão a respeito. Já na segunda-feira seguinte lá estava de novo a Globo News, entusiasmada, repetindo de hora em hora a emblemática cena do trator que esmaga alguns revolverzinhos enferrujados e velhas espingardas de matar passarinho, entremeada por entrevistas em que “especialistas” repisam, na cara de pau, algo equivalente à afirmação de que o numero de estupros necessariamente cresce em função do numero de espécimes machos inteiros em circulação na cidade.
Os veículos do grupo Globo não são os únicos a seguir endossando mentiras que, de tão óbvias, ofendem a inteligência e não admitem atenuantes. A imprensa toda vai pelo mesmo caminho (veja-se a capa do Jornal da Tarde de terça-feira destacando a mesmíssima cena), salvando-se, quando muito, as páginas de editoriais.

Ha dolo em tudo isso.
Essa mesma imprensa que faz eco à fraude do “desarmamento” que a população em peso denunciou nas urnas, sonega persistentemente aos seus leitores a exibição da relação direta de causa e efeito que existe entre a redução em 80% da criminalidade violenta em São Paulo, praticamente um recorde mundial no exíguo prazo em que se deu, e as drásticas medidas tomadas pelo governo Alkmin para limpar a policia paulista e sanear nossos presídios.
Alivio nas condições de segurança publica é, como mostram os fatos, consequência direta de medidas como a imposição de rito sumário nos julgamentos de corrupção policial, a aceleração da retirada dos criminosos das ruas e o encerramento deles em presídios dignos desse nome e não nos escritórios de comando do crime organizado, onde telefones celulares, drogas e profissionais do sexo circulam livremente em que se transformaram os do resto do país.
Na “malha fina” da corrupção alinham-se também o Judiciário e os advogados em geral que se agarram com unhas e dentes ao sistema viciado que explica como um assassino como Pimenta Neves permanece 11 anos impune para, ao fim e ao cabo, “pagar” por seu crime com pouco mais de um ano de prisão, fato que a imprensa noticia e alardeia como se comemorasse uma vitória da justiça. O sistema que dá a juízes e advogados o poder de decidir dessa forma um caso cristalino como aquele, é um convite à corrupção que compra a impunidade.
A melhoria nas condições de segurança publica é, para resumir, consequência direta da redução da impunidade na administração publica, que só pode ser obtida de forma persistente e continuada pela redução da impunidade entre os políticos. Fator de que depende estritamente, aliás, a melhoria em qualquer aspecto da vida em sociedade no Brasil.
![brizola[1]](https://i0.wp.com/vespeiro.com/wp-content/uploads/2011/05/brizola1.jpg?resize=277%2C320)
Isso é qualquer coisa de tão óbvio hoje que ninguém tem o direito de fingir que não o sabe e ainda reivindicar o tratamento devido a uma pessoa honesta. E a imprensa que, por definição, é a ferramenta institucional para induzir reformas nas democracias, é o único instrumento de pressão capaz de forçar melhorias nesse sentido, que só poderão ser instiladas de fora para dentro num organismo político notoriamente contaminado. Se concentrasse seu foco nisso e se tornasse mais rigorosa no expurgo da mentira no diálogo entre representantes e representados, jornalistas e “fontes”, o Brasil não tinha caído tão baixo quanto caiu.
O velho Montesquieu dizia que a existência do tirano depende estritamente da vontade do povo de ser tiranizado. O Brasil está tão viciado em apanhar e em levar pontapés autoritários que incorporou a coisa como vício. A própria imprensa não sabe mais qual é o seu papel. É escrita por gente mal preparada e mal paga, comandada por burocratas de quem as empresas jornalísticas em geral exigem mais sobre números do que sobre pensamentos e palavras, que tem uma noção muito vaga do que seja um estado de direito e não dá sinais de perceber o quanto as liberdades civis são encadeadas entre si.
Em matéria de segurança publica, sempre que a coisa aperta ela se volta contra o seu “cliente”: afrouxa a pressão contra os criminosos e contra quem insiste em trata-los com uma brandura que é negada ao cidadão comum e clama por mais imposições autoritárias sobre as vítimas.

Mesmo quando faz as denuncias que exibe como a sua contribuição para a democracia brasileira, aliás, no mais das vezes está apenas andando a reboque do jogo do poder. Publica o que recebe feito das partes em disputa sem perder muito tempo em indicar isso para o leitor ou mesmo em levar as investigações adiante com isenção e autonomia.
O caso brasileiro é um alerta veemente do que pode resultar dessa versão “wikilikeana” do jornalismo verdadeiro que vem crescendo no mundo: são as facções em luta pelo poder que “vazam” para uma imprensa dócil demais aos interesses delas os petardos com que querem atingir uns aos outros. Na Europa e nos Estados Unidos, uma coisa ainda convive com a outra e esses vazamentos endereçados ainda são editados com clara sinalização para os leitores de que é disso que se trata. Aqui, cada vez mais, vende-se gato por lebre.
É pra desanimar. Não ha para onde se virar.
É impossível aprender democracia em português.

Maravilha!!!!