“Biopirataria” no Mato Grosso sem mato do Brasil sem pau-brasil

18 de maio de 2011 § 1 comentário

Os jornais de hoje registram que o Ibama está investigando “pelo menos 100 empresas, a maioria delas multinacionais, sob suspeita de biopirataria”, isto é, de tentar transformar o que hoje é só comida de formiga (e continuaria assim para sempre se fosse depender das condições que nossos governos criam para a pesquisa científica no país) na possível cura do câncer entre outras bobagens comparadas à tarefa que realmente importa que é proteger, acima de tudo, a “soberania nacional”.

A tradução precisa de “soberania nacional” é o direito que “eles” (os de sempre) se auto atribuem de conceder ou negar autorizações para o que quer que seja que alguem queira fazer dentro do território nacional, segundo critérios nebulosos o suficiente para que a decisão seja sempre arbitrária.

Nos 389 anos que passamos sob governos portugueses apenas uma expedição de pesquisa e coleta de exemplares de fauna e flora brasileira foi montada pelo sucessor do Marques de Pombal, quase 300 anos depois do Descobrimento, e ainda assim bem pobrezinha. Depois dela, o próximo brasileiro a entrar pelos nossos matos por ordem de um governo nacional sem a missão explícita de bota-lo imediatamente abaixo, foi o marechal Rondon, quase 150 anos mais tarde. Na verdade sua missão era criar as condições básicas para a destruição futura das florestas distantes da costa.

Todas as demais expedições para tentar entender que terra era esta foram patrocinadas e postas em campo por estrangeiros. Os poucos que conseguiram varar o cerrado bloqueio que os portugueses sempre impuseram à entrada de qualquer deles no território nacional, especialmente os portadores de algum conhecimento avançado. Todos que por aqui passaram ao longo de quase quatro séculos, Charles Darwin entre eles, foram, com raríssimas exceções, barrados na porta.

A maior parte da fauna e da flora brasileira foi classificada pela primeira vez pelos estudiosos trazidos ao Brasil pelo conde Maurício de Nassau, o holandês que chegou a governar um pedacinho deste país continental durante pouco mais de 20 anos.

Com a independência a coisa ficou pior.

Até hoje os zelosos defensores do nosso patrimônio biogenético estão tão atuantes que a fauna e a flora menos conhecidas do planeta são as da Amazônia brasileira onde, quando muito e até hoje, consegue-se fazer rápidas expedições de coleta de exemplares, como se fazia ha 500 anos. Nunca ha dinheiro ou continuidade suficiente para se estudar as interações entre fauna e flora e o desenvolvimento das espécies em seu meio ambiente, essenciais à compreensão dessa rica biodiversidade que tanto se quer proteger mas não interessa conhecer. E quando aparece alguem de fora disposto a fazê-lo, la vêm “eles” com uma mão ávida extendida à frente e a outra brandindo o porrete nacionalista.

O mato, no Brasil quando não é para derrubar já, é para uso exclusivo dos “povos da floresta”. Cientista não entra.

Esse negócio de biopirataria foi inventado na Rio Eco-92, como sempre às pressas e sem nenhuma base na ciência. A intenção principal, também como sempre, é ganhar dinheiro no mole cobrando uma espécie de “direito autoral” pela obra divina.

Quase dez anos depois consolidou-se – adivinhe! – numa Medida Provisória, aquele frankensteizinho legal posto para andar em nome da urgência e da necessidade em casos de emergência mas que serve hoje em dia até para emitir ordens para a compra de sanduiches para os palácios de Brasília. Desde então, nunca foi regulamentada, o que faz, convenientemente, que todo processo aberto com base nessa lei cheia de buracos, imprecisões e absurdos possa ter a interpretação (para não falarmos da duração) que o meretíssimo de plantão bem entender.

Já viu que mina?

Segundo denuncia da nacional e “verdíssima” Natura, patrocinadora da candidatura de ninguém menos que dona Marina Silva, um pedido de autorização de pesquisa envolvendo qualquer espécime animal ou vegetal brasileiro leva no mínimo 18 meses apenas para ser processado (o que vem depois pode levar mais que uma vida inteira). E, nos últimos dois anos, apenas dois foram aprovados.

Nesse ritmo”, argumenta o porta-voz da Natura, “considerando-se que nossa biodiversidade é uma das mais ricas do mundo com pelo menos 1 milhão e 800 mil espécies identificadas, levaria 72 mil anos para que as autoridades autorizassem a pesquisa de todas elas”.

A cura do câncer que espere. Ou então, enriqueça-se os fiscais…

Na primeira blitz do Ibama em cima dos potenciais biopiratas colheu-se uns R$ 120 milhões em multas. Agora, diz um porta voz dos nossos impolutos defensores de matos, o potencial é de colher mais de R$ 1 bilhão.

Vai que o “alívio” da multa saia por 10% disso (pra sermos ingênuos quanto aos preços vigentes) e podemos ter 100 novos milionários no PT da noite pro dia só aí, sem que ninguém estranhe nada, como não se estranhou nadica de nada nas aquisições milionárias de apartamentos nababescos pelo novo chefe da Casa Civil, aquela que se destaca no reich de mil anos do PT como o mais potente dos trampolins para o exclusivíssimo mundo dos muito ricos.

20 vezes em quatro anos? Quiéquitem?!

Ainda ontem os jornais registravam também que estamos prestes a bater mais um recorde de desmatamento da Amazônia. De agosto do ano passado até abril deste ano 753 km2 foram postos abaixo apenas no estado do Mato Grosso onde já não sobrava quase nada em pé.

O Mato Grosso sem mato, sempre é bom lembrar, fica no Brasil sem pau-brasil, o país cujos ecologistas e “verdes” em geral orgulham-se de ter “a legislação ambiental mais avançada do mundo”, o tipo de declaração que faz babar todo babaca bem pensante dos países ricos sempre que é arrogantemente brandida em fóruns internacionais por algum membro de destaque do Partido dos Trabalhadores, este que vai se transformando no Partido dos Milionários.

E caso encerrado!


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§ Uma Resposta para “Biopirataria” no Mato Grosso sem mato do Brasil sem pau-brasil

  • salvador mazzetto disse:

    ehh..,Fernas,este “desmatamento anunciado”de 450km por 4km,seria percebido ate da lua !!por onde andaram os fiscais do ministro Mink e da atual ministra neste periodo?lacando bois ou ameacando ribeirinhos do Iriri? isto e rastro de onca para impedir a aprovacao do novo codigo florestal..

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