Peço a ajuda dos universitários

24 de novembro de 2010 § 2 Comments

Deu no site do Estadão:

“Os quatro adolescentes de classe média acusados de agredir três pessoas na Avenida Paulista, no dia 14, voltaram para a Fundação Casa ontem à noite. A Justiça determinou a reinternação dos jovens anteontem, atendendo a pedido da Promotoria da Infância e da Juventude da capital. A decisão, cujos detalhes são mantidos em segredo, prevê a manutenção na fundação por até 45 dias, sem prorrogação.

Finalmente!

Trogloditas receberem o que merecem é coisa rara neste pais! Trogloditas menores de idade então, é quase um milagre!

Mas vamos às perguntas que não querem calar:

O que esse “de classe media” está fazendo na notícia do Estadão? Porque esse arauto da democracia, o regime onde todos são iguais perante a lei, fez questão de registrar a classe social à qual pertencem os agressores desde o primeiro dia, quando essa informação foi parar no titulo da primeira página e, daí por diante, em todas as suas matérias sobre a sequência do caso? E porque, pelo pais afora, alem da classe social dos agressores, o que determinou o grau de interesse da imprensa e da Justiça no caso, foi a sempre destacada combinação dela com a orientação sexual das vitimas?

Por que, aliás, num pais onde o prato da barbárie – já não falamos na mera brutalidade – é o mais bem servido do bufet onde a imprensa se abastece, uma mera agressão entre jovens, no meio da coleção de cadáveres de homens, mulheres e crianças diariamente trucidados a bala, a faca, a porrete e o mais que se vê todos os dias por aí foi parar nas primeiras páginas de todos os grandes jornais, inclusive os de cidades muito distantes da Avenida Paulista?

Fala-se de “homofobia” como se isso fosse pior ou menos frequente que “heterofobia” ou fobia ao ser humano, pura e simplesmente, como a que move todos os tipos de assassinos e tarados de que vivemos cercados por todos os lados.Teria sido menos brutal ou menos digno de punição o ataque flagrado pelas câmeras de segurança se o agredido não fosse homossexual?

O fato de jornais como o Estadão se sentirem na obrigação de discriminar classe social, orientação sexual e raça nas noticias que publicam mostra para onde caminha este “pais de todos” desde que a discriminação, em nome da tolerância, se tornou parte das práticas oficiais do governo e passou a figurar em nossos textos legais.

Já não ha mais brasileiros sem qualquer outra qualificação. Nem apenas vítimas e agressores.

A análise do noticiário desse caso sugere que ha toda uma complicada hierarquia a ser considerada daqui por diante, onde o heterossexual rico ou remediado está na posição mais frágil. Ou vocês já viram jornais destacarem em suas primeiras páginas, e nesses termos, agressões de “homossexuais de classe baixa” contra “adolescentes de classe media”?

É curioso, também, o fato de serem menores de idade estes que a Justiça mandou trancafiar. Porque o que temos visto até agora é que menor pode até matar sem ter de passar por tanto incômodo. A menos, é claro, que ele seja um menor assassino “de classe media” para cima, caso em que merecerá manchetes e punições especiais…

Não se informou a classe social à qual pertencem os homossexuais agredidos neste caso, o que indica que a orientação sexual é mais importante para as considerações judiciais e jornalísticas que a classe social. E o fato da homossexualidade das vitimas ter sido fator determinante da indignação provocada pelo caso e da decisão de que seus agressores fossem presos corrobora essa impressão.

Falta considerar também os qualificativos de raça.

Se não houve especificação é porque vitimas e agressores devem ser brancos. Os “não brancos”, como se sabe, têm a preferência do governo tanto no que diz respeito a vagas no sistema de ensino publico quanto na reivindicação pela posse de terras. Somente um negro ou um índio têm a prerrogativa de fazer suspender, até segunda ordem, o direito de propriedade de um branco sobre um pedaço de terra com uma simples declaração, ainda que sem provas, de que ela um dia pertenceu aos seus antepassados. Um branco de classe baixa poderá, é verdade, contestar com o mesmo efeito fulminante, a propriedade de uma área por outro branco de classe alta, desde que se filie ao partido certo. Mas a espoliação territorial interracial na contramão, de brancos contra “não brancos”, mediante simples declaração ainda não foi, que eu saiba, registrada em todo o território nacional.

Por enquanto a filiação partidária ainda é uma atenuante que não se ousa incluir nos autos, embora vigore de fato. Mesmo assim, as considerações de justiça e “correção política” dos jornalistas já se complicam enormemente à medida em que se vai enveredando pelas inúmeras combinações possíveis de raça, classe social e opção sexual.

Tome-se um índio, por exemplo. É certo que ele pode agredir impunemente brancos de qualquer classe social desde que seja com suas armas tradicionais. Mas e se se tratar de um índio heterossexual rico (como ha muitos, hoje, mancomunados com madeireiros e garimpeiros) agredindo um negro homossexual pobre? E quilombola, ainda por cima! Como é que fica?

E negros heterossexuais de classe media agredindo brancos homossexuais pobres? Ou índios homossexuais pobres agredindo negros hetero remediados?

Eu já não saberia mais por onde pegar! Teria de pedir ajuda aos universitários!

§ 2 Responses to Peço a ajuda dos universitários

  • Varlice disse:

    Há que se levar em conta também a qual classe média está se referindo o texto lido. Se àquela do atual governo – que com quaisquer 600 reais nela se inclui – ou se à outra, a normal e conhecida de todos.

  • Waldo Claro disse:

    Nos tempos raivosos em que vivemos , às vezes torna-se dificil entender o porquê de alguns jornais insistirem tanto em classificar socialmente os cidadãos . Acontece que as coisas mudam . E , àsvezes , para pior . No caso do Estadão a resposta é simples : quando o jornal era o arauto das causas nobres e democráticas , nele despontava a figura nobre e democrática de Júlio de Mesquita Filho .

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