O silêncio dos culpados
30 de setembro de 2010 § 3 Comentários

Uma das coisas mais acachapantes desta campanha eleitoral é assistir às “discussões” em torno do problema da educação.
Começa que não ha candidato que, apesar do Lula, não a eleja como prioridade.
Mas esta é só a prova do dolo.
Significa, apenas, que todos eles sabem que educação é o único remédio real para a pobreza. E também que todos eles sabem que o povo sabe que educação é o único remédio real para a pobreza.
Só que da “posição” assumida exclusivamente como resposta à pesquisa em diante todos passam a traí-la: “jogue-se mais dinheiro em cima do que não funciona”; “construa-se clubes de luxo que pobre também merece”; “acrescente-se isto e aquilo à merenda escolar”; “aumentem o salário dos professores”. Dinheiro, dinheiro, dinheiro…
O caso de São Paulo apresenta um diferencial fortuito. No debate dos governadores na Globo o Mercadante não falou de outra coisa. Tem sido assim a campanha inteira. Mostraram pra ele que as pesquisas indicam que a “progressão continuada” é um dos poucos pontos fracos no currículo do Alkmin e ele fica repetindo sem parar que um sistema de educação que passa o aluno de ano sem conferir se ele aprendeu alguma coisa ou não; que não cobra desempenho através de um teste real é uma mentira que leva inevitavelmente ao sucateamento da qualidade. O aluno atravessa anos de escola sem aprender sequer a ler. Matemática, então, nem se fala.
Ele tem toda a razão.

O Alkmin fica lá, insistindo que não sei quem mais também faz assim, que não é bem isso, etc. e tal, mas ninguém consegue entender porque ele se agarra com unhas e dentes a esse sistema que os pais de alunos, que sabem melhor que ninguém quanto isso custa para seus filhos, são os primeiros a condenar.
Mas o mais interessante é o seguinte. Se estamos falando de qualidade e o ponto de partida é que testes de desempenho assim como reprovação são ferramentas imprescindíveis para incentivar os alunos a se esforçarem para aprender, que dirá para animar os professores a melhorar continuamente a sua capacidade de ensinar. E, no entanto, quando o Serra ameaçou atrelar, não a carreira inteira dos professores, como deveria fazer, mas só os aumentos extraordinários de salários, acima do dissídio, para professores que concordassem em fazer cursos de aperfeiçoamento e mostrassem melhora de desempenho em testes anuais, ele foi sitiado no Palácio dos Bandeirantes por uma horda selvagem comandada pelo sindicato que o partido do Mercadante controla e quase não sai de lá vivo.
Por ter se permitido tão nefanda heresia o professorado paulista se transformou no centro nacional de destilação de ódio contra o Serra. É uma verdadeira jihad. E o cerco anual ao Palácio dos Bandeirantes pelos hunos ululantes da APEOESP, prometendo “quebrar a espinha desse sujeito” já é um dos eventos oficiais do calendário de festas da cidade de São Paulo.
“Que negócio é esse de aferir desempenho? Se começa assim, vão acabar exigindo que a gente trabalhe!”

Pois é…
Uma das provas mais tragicamente eloqüentes da falta que faz atrelar a carreira dos professores das escolas publicas a um mínimo de desempenho é, aliás, a própria campanha eleitoral. É um verdadeiro passeio pelo Parque Jurássico das ideologias mortas, onde se fala uma língua que ninguém mais no mundo fala, com declarações de morte aos “burgueses”, gritos de “todo o poder à classe operária”, coletivização da agricultura e não sei mais quantos rótulos que, para o resto da humanidade, são sinônimos sinistros dos fracassos, das tragédias e dos genocídios do século 20.
É isto que se aprende nas nossas escolas.
O fato de estarmos ainda na duvida sobre questões como liberdade de imprensa, alternância no poder, poderes moderadores independentes, economia estatal versus economia privada, qual o papel do Estado, etc. é a prova dolorosa não só do fracasso completo e minucioso mas da criminosa instrumentalização do sistema publico de educação, tomado de assalto por uma elite corporativa especializada em cavar privilegios que divide a verba para educação com os professores de verdade e recorre a doses cavalares de violência tipicamente fascista toda vez que alguém pensa em cobrar deles aquilo que eles são pagos para fazer.

E no entanto, quando o Mercadante, cujo partido é o responsável por isso, vai à televisão, com a maior cara de pau, para cagar regras sobre a necessidade imprescindível de provas de desempenho para os alunos – mas nunca para os professores – nem mesmo o atacado “Geraldo” tem coragem de dar um pio. Entra campanha, sai campanha e segue incólume o silêncio acovardado de todos os políticos, sem exceções, sobre a mais clamorosa causa do sucateamento da educação publica brasileira. A mesma, diga-se de passagem, que explica o descalabro vigente em todos os setores do serviço publico no país que cobra os impostos mais altos do mundo.
Não ha um brasileiro que não saiba que enquanto todo e qualquer funcionário tiver a certeza de que ao por um pé dentro do serviço publico ele vira um semi-deus intocável que ninguém mais poderá remover de lá, seja qual for o crime que ele cometer, seja qual for a qualidade do serviço que prestar, com direito a só ser julgado pelos que têm os mesmos privilégios que ele e a decretar anualmente o valor do seu próprio salário independentemente de desempenho, todo o resto do drama brasileiro é mera conseqüência.
E, no entanto, nem uma única palavra sobre isso aflora numa campanha eleitoral dominada pelo partido que comanda e engorda ostensivamente essa máfia que já não se contenta apenas em nos sugar o sangue mas ainda exige que a reverenciemos por isso.
Enquanto houver dois regimes legais, um para eles e um para o resto de nós; enquanto a lealdade cega ao chefe, mesmo que for o da quadrilha, pesar mais que a Lei para decidir o destino deles; enquanto eles puderem seguir vivendo de nós e não para nós não haverá democracia no Brasil e a miséria, que é filha da ignorância, estará longe de desaparecer.

Muito bom, concordo.
O problema é que parece que quem comprar esta briga vai perder um monte de votos e será satanizado pelo funcionalismo, mas não vai ganhar nenhum da massa amorfa.
Esta é a conta que os políticos fazem.
É isso…
E a massa é amorfa porque não tem escola.
Estamos, portanto, diante da velha questão do ovo e da galinha.
Isso só começa a mudar quando alguém tiver coragem de tocar no assunto e insistir nele.
Começar pelos jornalistas (um monte deles filhos de funcionários públicos e professores) já seria um grande passo.
É a contribuição que posso dar.
A propósito, um dos momentos favoráveis para se fazer isso é diante de uma eleição perdida, como esta.
Perdido, perdido e meio. Bom momento para se reconciliar com a verdade.
Funciona. Marina que o diga…
É isso aí….educação,.saúde, saneamento…..tantas coisas!!!! E esse Lula com seus companheiros só pensando em pão e circo….e o povo adora : “me engana que eu adoroooo”