O patético mundo em que vivemos – 1

10 de setembro de 2010 § 1 comentário

No intimo, no intimo, ninguém no mundo deve estar mais surpreso do que ele próprio com tudo que está acontecendo.

Mas a verdade é que os Estados Unidos da America com os seus 1,5 milhão de homens em armas (e mais outros tantos na reserva) e sua fantástica máquina de guerra que neste ano da graça de 2010 consumirá um orçamento de 692 bilhões de dólares, mais de meio PIB do Brasil, estão ajoelhados aos pés do atônito Terry Jones, um obscuro pastor evangélico do interior da Flórida que é a cara daquele velhinho caipira da Família Buscapé, pedindo que ele desista de queimar amanhã em praça publica, ao lado dos seus 50 seguidores (isso mesmo, um pouquinho mais de quatro dúzias), um exemplar do Alcorão para lembrar o nono aniversario do bombardeio de Nova York por terroristas islâmicos…

Quando, um mês atrás, ele postou a convocação do seu grupinho na sua modesta página do Facebook (que certamente não esta entre aquelas que explicam a fortuna de Mark Zuckerberg), Terry Jones ainda não se atribuía a importância que este nosso admirável mundo novo viria a lhe provar que ele tem. Quase ninguém tinha se dado ao trabalho de ler seu livro, “O Islã é o Demônio”; as camisetas que ele vendia com essa frase estampada continuavam encalhadas em algum canto da sua modesta residência e os alvos que seu próprio critério recomendava que elegesse para denunciar os pecados do mundo não passavam dos prosaicos protestos contra o aborto e contra o comportamento do prefeito assumidamente gay da sua pequena Gainesville, perdida lá no norte da Florida.

Mas o mundo queria muito mais de Terry Jones.

O primeiro tênue sinal foram algumas dezenas de “fulano curtiu sua publicação”. Até ai, nada de mais. Mas então aconteceu o milagre. De alguma maneira a convocação de Jones caiu sob os olhos de algum “pauteiro” que flanava pelo Facebook e, por esse caminho, acabou chegando a um desses antros de insegurança em que se transformaram as redações da “grande imprensa” onde ninguém mais sabe discernir o que é e o que não é digno de ser publicado nestes tempos em que o abobról é que move montanhas.

Uma noticiazinha aqui … o pauteiro do vizinho, por via das duvidas, trata de não ficar “furado” … outra ali … copy … paste, e … FÔGO NA PALHA!

Gainesville se viu, de repente, invadida pelos repórteres, pelas grandes redes de televisão com sua parafernália, “bombando” na internet…

E então Terry Jones foi arrastado para dentro da História.

A grande mídia, nestes tempos de crise, se transformou num universo sui generis. Na inglória luta para não perder platéias, editores pressionados a “apresentar resultados” (numéricos, bem entendido) declinam os verbos exclusivamente no futuro do condicional e colecionam eufemismos para não ofender ninguém, nem mesmo os estupradores de crianças e os genocidas. Para “somar” e jamais incorrer na “incorreção política” de expressar qualquer juízo de valor ou assumir qualquer atitude diante do que quer que seja, procuram obsessiva e freneticamente o “outro lado” em qualquer assunto que possa dividir opiniões. E como andam escassos os governos teocráticos fora do mundo islâmico para “contrabalançar” o inesgotável noticiário sobre homens, mulheres e crianças-bomba explodindo por aí; como não é fácil encontrar chefes de Estado ao lado de implacáveis aiatolás expedindo sentenças de morte e convocações de guerras santas contra raças e povos inteiros a serem varridos da face da Terra a força de explosões atômicas, essa incansável busca pelo “equilíbrio editorial” foi acabar, desta vez, na prosaica Gainesville.

Vai daí, um desconfiado Terry Jones, ainda sem saber bem se era “na brinca” ou era “na vera”, foi apresentado à humanidade nos programas jornalísticos de maior audiência das duas maiores redes americanas de TV. Como estrelou, um belo dia, no “Good Morning America” da rede ABC, a NBC não podia deixar por menos. E, no dia seguinte, lá estava ele no “Today”…

A partir daí a coisa saiu fora de controle. Naquele dia, Mahmud Amadinejahd em pessoa dedicou a ele o seu exercício diário de apedrejamento do “complô sionista”. E com o pacífico aiatolá Kamenei ao seu lado, deixou escorrer pelo canto da boca mais um fio da sua baba radioativa, aquela que ainda não assusta Lula mas já preocupa Fidel Castro, enquanto rugia: “Este tipo de ação vai acelerar a queda e a aniquilação dos sionistas e de seus protetores, que vão pelo mesmo caminho do desaparecimento”.

Sem novidades no front oriental e coerente com seu judicioso critério de “equilíbrio”, a grande mídia esperou, na ONU, pela proverbial moção de “apoio à negociação” do chanceler Celso Amorim, diante de tão generosa manifestação de boa vontade. Como ela não veio, deu de ombros e, de Teerã, virou novamente suas lentes diretamente para Gainesville, notório foco de ameaça à continuação da vida na Terra.

Por trás desse Centro da Pomba Auxiliadora do Mundo que quer se fazer de vitima” (é a seitazinha do Terry), dizia no longínquo Brasil um comentarista da grande mídia que normalmente costuma ser sério, “esconde-se a turma do Bush; a direita radical que está louca pra tocar fogo no mundo e não só no Alcorão”.

Matou a pau!

Ele sintetizou melhor que niguém o espírito dessa cruzada humanitária global. E então, ao vivo e em cores high definition, a humanidade abraçou a causa.

O presidente do Afeganistão se manifestou oficialmente. O da Indonésia, maior país muçulmano do mundo, admoestou as autoridades americanas para que detivessem a fera ou ele não se responsabilizava pelo que pudesse acontecer. Pelo Islã afora, milhares de vitimas potenciais do “Grande Satã” (o dos aiatolás, não o do Terry), saíram às ruas e acenderam suas tochas, antes que a perigosa besta de Gainesville acendesse a sua. Exemplares da Torá, do Velho Testamento e bandeiras americanas foram queimadas ao redor do globo. E a cada novo gemido dessa pacifica horda de fieis do Islã arrancada da sua tolerante bonomia e obrigada a vir às ruas lutar por sua segurança, subia a patente da autoridade norte-americana disposta a atender ao chamado da grande mídia para salvá-los por meio do exercício purificador da auto flagelação em pleno “Marco Zero”.

Na quarta-feira foi ninguém menos que o porta-voz do Pentágono. Geoff Morrel expressou pessoalmente pelo telefone a um incrédulo Terry Jones o seu “grave receio” de que a queima de um exemplar do Alcorão na longínqua Gainesville “possa colocar em risco a vida de nossos soldados, especialmente no Iraque e no Afeganistão”.

Na quinta foi a vez do secretário da Defesa. Robert Gates em pessoa, comandante de três milhões de homens em armas, ligou para um boquiaberto Terry Jones para pedir que, por favor, desistisse de seu protesto. (Pois é, nessa perigosa democracia americana não tem esse negócio de “cala a boca”…)

Quando, na sexta-feira, o presidente Barak Obama, nem mais nem menos, veio a publico para dizer ao mundo que também ele não tem nada com isso e que espera que o bom Terry “realmente não queime o Alcorão”, ato que poderia provocar “danos profundos para os interesses do pais no exterior”, era tarde demais. Ele já tinha se convencido da sua importância. Falando para o mundo de cima da tribuna global armada pela grande mídia, impôs condições, disse que faz questão de um pedido de “penico” publico e oficial também do chefe dos muçulmanos dos Estados Unidos lá mesmo, no “Marco Zero”, NY, e que se Obama cumprir a sua parte nesse trato talvez ele atenda o que lhe foi pedido…

E foi assim que os outrora gloriosos Estados Unidos da America – quem diria! – acabaram em Gainesville.

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§ Uma Resposta para O patético mundo em que vivemos – 1

  • Antonio disse:

    Vivemos tempos sombrios, aqui e lá fora. Sua análise foi impecável. Precisamos de pensadores assim, que não paguem pedágio à patrulha do politicamente correto.

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