O Camaleão
21 de fevereiro de 2010 § 3 Comentários
Há quase duas semanas eu vinha lutando com um texto sobre o Lula sem nunca chegar a uma conclusão que me satisfizesse.
Eu costumo deixar todo texto um pouco mais denso dormir pelo menos uma noite no HD antes de dá-lo ao publico. Volto lá no dia seguinte e, se as idéias alinhavadas ainda fizerem sentido, dou uns retoques na forma e publico.
Nas ultimas semanas, toda vez que eu voltava ao que tinha escrito no dia anterior as coisas não batiam mais. E eu começava tudo de novo. Devo ter escrito uns dez calhamaços, e nenhum, no fim das contas, “fechava”.
Ontem à noite, de repente, me bateu uma luz:
“O problema não é com você, cara! O que o Lula diz é que não faz sentido!”
Eu sento para escrever depois de ler os jornais do dia. E o que acontece é que o Lula diz uma coisa diferente a cada dia. Muda de cara, muda de tom e frequentemente desdiz o que tinha dito no dia anterior.
O erro é que eu estava tentando analisar as suas manifestações com as mesmas ferramentas que uso para pautar as minhas. Acontece que quem está preocupado em entender é que tem de se deixar conduzir pelos fatos para chegar à conclusão. Quem só está preocupado em vender o seu peixe faz o contrário: manipula os fatos para sustentar sua conclusão.
O Lula não está procurando, nem ser coerente, nem entender coisa nenhuma. Só está à caça de votos. Logo, constrói seus raciocínios ao reverso. Diz a cada platéia aquilo que acredita que as fará votar nele.
E isso tambem é um fato.
Olhando de novo para as suas manifestações aparentemente tão contraditórias por esse ângulo da lógica utilitária, tudo se encaixa no seu devido lugar.

“O cara” é um camaleão!
Nasceu para isso! Seu lendário magnestismo pessoal leva cada grupo à sua frente a jurar que ele está plenamente convencido do que está falando, mesmo que esteja dizendo A, hoje, exatamente sobre a mesma coisa de que disse Z, ontem.
Ideologia? Pruridos éticos? São luxos para a “zelites”. Da esquerda ou da direita. Não mudam um mícron o foco absoluto deste sobrevivente que aprendeu a ser rápido e cruamente objetivo driblando a fome e a miséria.
Do alto das suas duas eleições e dos picos das pesquisas, fala para os de casa (e agregados) cada vez mais com a sem cerimonia de quem sabe que puxa o trem para O Poder. Quem não tiver estômago que desengate o seu vagão. A marcha não se detém diante de nada: Celso Daniel, Heloisa Helena, Marina Silva, Delubio e Zé Dirceu, a Igreja Católica, o bispo Macedo, Fernando Collor, José Sarney, os bicheiros, as grandes empreiteiras, Obama e Ahmadinejad, Judas ou Jesus Cristo … põe-se para fora, ou para dentro, tudo que for necessário, no momento em que for necessário. Nega-se ou invoca-se a gosto até o que o próprio Lula disse, fez ou foi; na vida ou ainda ontem…
Só com uma coisa o nosso Camaleão não brinca: o funcionalismo federal e seus fundos de pensão, ao mesmo tempo mola propulsora e guarda pretoriana do estatismo brasileiro, o núcleo duro do PT que, como nunca antes na história deste país, vive hoje refestelada no silêncio dos muito satisfeitos.
Todos os demais, o nosso Camaleão morde e assopra. E quase tudo o mais, Lula é e … Lula não é, se e quando convém.
Mas tudo faz sempre sentido, se considerado o alvo: o tostão para o povão, o milhão para os empresários, os monopólios para os mega-empresários; um homem maduro e moderado, que “quer democracia e uma imprensa forte” quando se dirige ao publico do Estadão; e, para a platéia do PT, o carbonário da censura à imprensa, da impunidade para o MST, da fogueira para os militares, dos “soviets” no lugar do Congresso. O Lulinha Paz e Amor da Carta ao Povo Brasileiro para o eleitorado conservador que tem medo de “bagunça”, ou o timoneiro da Grande Transformação para as viuvas do Muro e os velhos companheiros de estrada.
O nosso Camaleão, indiscutivelmente, é democrático na mentira. E o melhor, para quem leu o Programa Nacional de Direitos Humanos, agora programa de governo de dona Dilma Roussef, e se arrepiou, é torcer para que pelo menos isso seja verdade…

Ótima análise.
Só um comentário sobre o vacilo retórico:
“… O bom redator de artigos de opinião não abraça teses. No máximo, testa hipóteses. Um texto de análise honesto não passa, portanto, de uma demonstração de como seu autor partiu de uma determinada hipótese e encadeou fatos até chegar à sua confirmação, …”
Ora, partir de uma hipótese encadear fatos e chegar à sua confirmação é abraçar um tese.
O parágrafo é retórica sem conteúdo, buscando valorizar o trabalho do autor, desqualificando o de outros… Parece-me desncessário.
Menos pela intenção suposta, você tem toda a razão, Tony: retórica sem conteudo.
Obrigado.
Leia de novo que está reformado.
Quanto mais muda, nada muda. O Lula é um demagogo populista, um caudilho igual ao Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Fidel Castro e Hugo Chávez. E há quem diga que votar no Lula é ser progressista…