A Dilma “não se representa”

7 de novembro de 2014 § 37 Comentários

a4Ouvir o que diz dona Dilma re-presidenta é uma perda de tempo tão grande quanto ouvir o que dizia dona Dilma candidata à reeleição. Nos dois casos não ha nenhuma relação entre as palavras e a realidade ou compromisso de que daqui a meia hora ela não vá fazer o contrário do que disse e dizer o contrário do que fez.

Entretanto sempre se aprende alguma coisa quando se analisa o discurso petista como fenômeno fechado em si mesmo e não como algo que tenha relação com a realidade.

O Brasil já conhece o método petista de mentir sobre o passado. O partido se apropria à vontade da autoria dos fatos e das políticas que o tempo venha a consagrar como positivas e atribui a terceiros as de sua autoria que venham a ter a trajetória contrária de forma soberanamente independente ao registro histórico dos fatos.

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A entrevista coletiva dada aos quatro maiores jornais do país ontem sugere que agora o método passa a estender-se também para o presente e para o futuro. Pois dona Dilma anuncia a quem interessar possa, para começar, que ela “não representa o PT” e nem tem nada a ver com “as opiniões” que ele emite. Ainda que seja a Executiva Nacional, instância máxima do partido, que as tenha emitido na forma de uma “Resolução Política” oficial, não se trata de uma posição “do partido“, mas só de “opiniões” de um grupo dentro dele. A menos, é claro, que tenha sido positiva a repercussão dessa opinião, caso em que ela decerto se transformará em mais uma política oficial desde sempre defendida pelo partido.

Essa deliciosa afirmação veio em resposta às perguntas que lhe foram dirigidas com respeito ao roteiro do que o partido pretende fazer daqui por diante – e com o recurso a quais métodos – divulgado na “Resolução Política” de 3 de novembro último da sua Comissão Executiva Nacional (aqui). Nela o partido reitera a promessa de impor pela via do plebiscito uma “hegemonia popular democrática”, o “controle da mídia“, a entrega de parte das prerrogativas legislativas exclusivas do Congresso Nacional eleito por todos nós aos “movimentos sociais” eleitos pela Secretaria Geral da Presidência da Republica e o mais que a gente sabe.

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Como toda essa sinceridade “pegou mal” e vem ajudando a consolidar a união das oposições democráticas num Congresso Nacional em que o PT perdeu substância, a presidenta houve por bem dizer que não tem nada a ver com essas “opiniões do PT” e até que, radicalmente democrática como é, acha que “mesmo a opinião de quem defende o golpe deve ser respeitada“.

Não ficou claro, a essa altura da entrevista, quem é que a presidenta acha que defende o golpe, se é quem tem essa “opinião” dentro do PT ou não. Em caso positivo, o fato dela própria ter assinado um decreto que impunha exatamente essa mesma receita ao país sem pedir a opinião de ninguém enquanto presidenta cinco meses antes da reeleição teria sido, também, uma tentativa de golpe? E agora, depois de abertas as urnas, teria ela deixado subitamente de ter a “opinião” coincidente que tinha antes com esta do PT de que, presidenta de novo, ela passou a discordar?

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O esclarecimento dessas emocionantes questões foi coisa com que preferiram não perder tempo nenhum dos muitos jornalistas presentes…

A decorrência, entretanto, é clara: fica de qualquer maneira estabelecida a dualidade que já valia para o passado também para o presente e eventualmente para o futuro.

Por enquanto registre-se que ha um PT que trabalha para acabar com a democracia brasileira mas a presidenta dos petistas não tem nada a ver com isso. Para o momento ela está a favor da democracia contra a qual “opina” e promete agir o seu partido. Mas se eventualmente o PT com que a presidenta “não tem nada a ver” vier a prevalecer e a implantar o que o decreto dela já tinha tentado implantar, ainda que, a julgar pelo que ela afirma agora, à sua revelia, então valerá a norma do passado e a presidenta apropriará como sua desde criancinha, no futuro, a tese que se mostrar vencedora.

Deu pra entender? Não é fácil mesmo…

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Com relação à Venezuela dá-se a mesma coisa. Não importa que a ditadura bolivariana estabelecida na Venezuela tenha dado o golpe via plebiscito e armado os seus “movimentos sociais participativos” com fuzis para garantir a “hegemonia” que pedem os “palpiteiros” da Executiva Nacional do PT. Não importa que tudo isso tenha seguido estritamente a cartilha escrita e recomendada por Lula a todos os partidos políticos e movimentos guerrilheiros da América do Sul e do Caribe reunidos no Foro de São Paulo, aquela instituição criada e dirigida por ele. O decreto e o plebiscito da Dilma (infere-se posto que os jornalistas de novo não perderam tempo em esclarecer essa questão de somenos) nada têm a ver com os seus exatos similares aplicada pelos demais sócios do Foro e nem visam os mesmos fins, ainda que todos usem as mesmas palavras alinhadas na mesma ordem.

Assim também o fato do Ministro do Poder Popular, das Comunas e do Desenvolvimento Social da Venezuela, Elias Jaua, justamente o homem que comanda as tais milícias armadas que nos ultimos meses prenderam e mantêm presos pelo menos 13 mil manifestantes contra o regime que foram submetidos a estupros e outras formas de tortura denunciadas ontem pela ONU; o fato de justamente esse homem ter estado no Brasil enquanto transcorriam as nossas eleições assinando acordos de treinamento de possíveis futuros milicianos do MST, um dos “movimentos sociais” mais umbilicalmente ligados ao PT, candidato a escrever nossas leis e garantir a hegemonia do “poder popular” se tivesse prevalecido o decreto assinado pela presidenta em pessoa, tudo isso não passa de outra mera concidência que nada tem a ver com suas preferências pessoais e nem sequer com as dos eventuais defensores de golpes de dentro do PT ou, menos ainda, com expectativa que alimentavam de ganhar a eleição “de lavada“.

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Não, nada estava sendo tramado nem tampouco preparado. Foi tudo coincidência. Para comprová-lo dona Dilma mandou que o seu ministro de Relações Exteriores interpelasse oficialmente o encarregado de negócios da Venezuela no Brasil (releve-se o desnível de patentes) para que explique essa “ingerência nos assuntos brasileiros”.

Dona Dilma jurou de pés juntos que nem sabia da presença de um ministro de Estado da Venezueal no Brasil nem, muito menos, que fosse de dar aulas de revolução ao MST que ele estava tratando. Ocorre que enquanto ele ministrava seus ensinamentos em Guararema, foi presa no aeroporto de Guarulhos com um 38 carregado dentro da bolsa uma assessora dele  que declarou à Polícia Federal pertencer a arma ao ministro que lhe tinha ordenado que a trouxesse para ele junto com o “material escolar” especialmente preparado para os alunos do MST que ela também carregava. O jornal O Estado de São Paulo fez uma detalhada matéria a respeito desse incidente que, porém, sua direção de redação houve por bem não publicar antes da eleição, sabe-se la em função de qual critério jornalístico. Continua sem publicá-la até hoje, aliás, pelas mesmas misteriosas razões.

Mas se o resto do Brasil não sabe dona Dilma, e mais especialmente o seu ministro de Relações Exteriores que certamente foi chamado a dirimir esse “incidente diplomático”, posto que a meliante armada acabou sendo solta com intervenção do Itamaraty, certamente sabiam da presença dessa boa gente entre nós.

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Não obstante tudo isso, fica dona Dilma, para todos os efeitos e até segunda ordem,  posicionada “contra golpes bolivarianos”, apesar do decreto que ela assinou embaixo e do plebiscito no qual continua insistindo coincidirem exatamente, seja com a receita que nos prescreve a Executiva Nacional do PT que ela “renega“, seja com o seu próprio decreto revogado sob protestos pelo Congresso Nacional,  enquanto o ministro da ditadura vizinha, que festejou sua reeleição como a mais importante vitória da revolução bolivariana na América Latina, retorna com uma advertência para casa onde poderá seguir estuprando e torturando soberanamente quem ouse desafiar sua hegemonia.

Esclarecidas as coisas com este grau de clareza, ergue-se em riste o dedo da presidenta para cobrir de opróbrio e “vergonha” quem quer que tenha tido a má fé de apontar as exatas semelhanças entre o decreto que ela assinou embaixo e as resoluções políticas oficiais do seu partido e os expedientes que deram a Elias Jaua as condições de dispor hoje de uma milícia armada para garantir a “hegemonia” das suas “opiniões“.

O resto das contradições da entrevista foram menos divertidas embora as tenha havido para todos os gostos.

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Por exemplo; dona Dilma continua no “doa a quem doer” a respeito da roubalheira na Petrobras mas os ministros do STF nomeados pelo PT reconfirmaram ontem que tudo que consta das delações premiadas do doleiro Youssef e do diretor da Petrobras de Dilma presidente do Conselho, Paulo Roberto Costa, “é sigiloso” e nem o Congresso Nacional que nos representa a todos terá acesso a eles. Se, portanto, os “vazamentos seletivos” até agora havidos (expressão que se tornou obrigatória em todas as menções ao caso, seja do PT que representa, seja do PT que não representa as opiniões da presidenta) levarem à anulação de todas as provas reunidas por eles de modo que tudo acabe não doendo a ninguém a culpa não será de dona Dilma, que simplesmente alegará discordar de mais essa “opinião” do PT e seus agregados.

Aumentos de tarifas no dia seguinte da eleição? Não, “não é estelionato eleitoral”. É só mais uma coincidência. “Estelionato mesmo seria um choque de gestão”, essa violência de condicionar o salário do servidor público à prestação de serviço público.

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Pode-se, eventualmente, ainda, especular sobre que nome dar ao prejuízo de US$ 60 bilhões que a Petrobras teve enquanto o preço da gasolina permaneceu congelado — releve-se como troco o esmagamento e a desnacionalização do setor canavieiro que isso custou — já que o aumento no dia seguinte da eleição é outra mera coincidência.

Um desavisado como eu – ou estarei na categoria dos golpistas? – pode, por fim, considerar que a politica oficial do PT contra o automóvel no âmbito dos seus governos municipais como o de São Paulo mostra o que o partido pensa da questão pelo ângulo do interesse público, enquanto a política de subsidiar a venda de automóveis e a gasolina exatamente até o dia do fechamento das urnas reflete o que o partido e a presidenta pensam da questão pelo ângulo do interesse eleitoreiro.

Mas eu sou apenas um cara lógico que avalia os fatos políticos pelo ângulo do interesse público, que humildemente reconhece que há muito mais coisas entre os atos e as políticas do PT e a lógica do interesse público do que sonha a minha vã filosofia.

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A uns falta freio, aos outros acelerador

29 de outubro de 2014 § 23 Comentários

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O PT finalmente encontrou o limite da paciência dos brasileiros. Arrancou-os praticamente à força da passividade em que gosta de estar todo mundo que tem mais o que fazer do que militância política, em geral um luxo só permitido a quem tem patrão estatal.

O que produziu o milagre foi a arrogância e a violência com que entrou na campanha armado de decretos para fazer e acontecer um amanhã que, afinal, não se materializou, chutando portas, abraçando infâmias, rosnando e insuflando ódios, certo de que ia levar no grito e por uma margem esmagadora um país inerte com uma minoria acuada.

Vem que tem!”, foi o grito que finalmente tomou pela cara.

E por muito pouco não “teve”. Mas entendeu o recado e, por enquanto, está todo cordato, pelo menos até segunda ordem.

Nada de novo, na verdade. O PT está na dele, como sempre correndo à frente do seu eleitorado e freando só quando é freado.

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Do lado da oposição, também como sempre, deu-se o contrário. Se a uns falta freio, aos outros falta acelerador. O eleitorado é que correu na frente no campo da oposição. Tanto dos candidatos quanto da campanha. E nenhum dos dois conseguiu alcançá-los.

Pense bem: o que é que fez desta eleição a mais apaixonada de todas de quantas ha memória no Brasil? Certamente não as emanações dos hormônios sexuais, seja de Dilma Rousseff, seja de Aécio Neves, dois candidatos que andam longe do nível de sex appeal a que está acostumada uma geração que sempre teve Lula nas vitrines das eleições.

O que explica, então, a avassaladora mobilização do eleitorado que se viu em todo o país?

A meu ver foi a certeza — de um jeito diferente para cada metade do eleitorado — de que era a própria democracia que estava em jogo, apesar dos dois candidatos terem fugido da discussão direta desse tema em função de duas maneiras diferentes de subestimar a inteligência do eleitor: um para se aproveitar da oportunidade que lhe foi dada de vender gato (reviravoltas com sabor bolivariano) por lebre (pratos mais cheios de comida) sem ser denunciado nem instado a se explicar por isso; o outro por julgá-los incapazes de reconhecer o gato como gato se ele lhe fosse apresentado sem a pele de lebre com que estava revestido.

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Haverá quem diga que foi a internet que fez a mágica. Mas a internet já estava aí ha várias eleições e isso nunca aconteceu. Ela foi, sim, o veículo da mágica e, muito provavelmente, também o detonador dela. Mas num sentido negativo. Ou melhor, reativo. Formou-se, sim, na reta final da campanha, uma rede anti-PT que, do meio para o fim da corrida, virou um poço de fofocas, falsos alarmes e baixarias similar à que sempre existiu na rede pró-PT.

Mas foi só uma reação espontânea dos indignados com a crescente arrogância do abraço na infâmia dos ventríloqüos de João Santana à medida em que o PT foi achando que dava para assumir na campanha oficial o mesmo tom de baixarias e mentiras que sempre rolou no vasto e subreptício universo online dos “blogueiros do tio Franklin”.

Uma coisa puxou a outra e, no fim, a baixaria engoliu as duas. Mas a diferença fundamental continua existindo: a rede de infâmias pró-PT é uma iniciativa do partido a cargo de profissionais financiados com dinheiro público e usada oficialmente como arma, que trabalha disfarçada e não se identifica como o que é. A do PSDB foi reativa e espontânea, ficou circunscrita aos grupos de eleitores que votariam no partido de qualquer jeito e certamente será fortuita. Só vazou para fora dos grupos fechados dentro dos quais nasceu quando a militância do outro lado começou a se preocupar em desmentir os boatos ou revidar as ofensas que circulavam nela.

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O voto antipopulista, contra o aparelhamento do Estado, contra o uso da corrupção como arma política e a favor da democracia desadjetivada, este sempre esteve aí desde o início da “Era PT”. O que sumiu, durante as duas eleições anteriores a esta, foram os candidatos a favor dessas bandeiras.

No auge da soma dos brilhos do carisma de Lula com o boom mundial das commodities, com a “Carta aos Brasileiros” mediante a qual o PT deu trégua às hostilidades abertas contra a democracia desadjetivada ainda em pleno vigor, mesmo um Geraldo Alkmin conhecido por seu “sex appeal” negativo renegando bem mais de tres vezes a obra de Fernando Henrique Cardoso antes que o galo cantasse recebeu 37,5 milhões de votos (39,1%), contra os 58,2 milhões (60,8%) investidos nos múltiplos atributos magnéticos de um Lula montado numa economia que literalmente “bombava”.

Em 2010, outra eleição sem “sexo” e com a economia em alta, um burocrático Jose Serra cuja campanha baseou-se numa canhestra tentativa de parecer mais Lula que o Lula, recebeu desse mesmo contingente de órfãos, à sua revelia, 43,7 milhões de votos (43,9%), contra os 55,7 milhões ou 56% conseguidos por Dilma, que acabou herdando a maior parte dos 20 milhões de votos da esquerda democrática, já então notoriamente ressabiada, concentrados em Marina Silva no 1º turno.

a11Desta vez, com a conta de 12 anos de esbanjamento populista, corrupção desenfreada e apedrejamento das instituições e dos valores democráticos por um PT que tem plena consciência da dificuldade aguda de renovar a mágica num ambiente econômico adverso em meio à fuga dos investidores, um PSDB ainda inseguro de sua capacidade de comunicação sentiu-se encorajado a reconciliar-se com o seu passado. Mas não o bastante para projetar claramente seus valores de sempre para o futuro.

Ainda que ela estivesse explicitamente ameaçada e que fosse claramente isso que inspirou a paixão crescente que tomou conta da campanha na reta final; ainda que fosse desde sempre essa a única explicação possível para que a vanguarda da esquerda democrática, que poderia dar-lhe os votos faltantes para a vitória, finalmente se alinhasse com o PSDB contra o PT, o partido recusou-se a jogar em cena o tema da defesa da democracia e, ainda que não renegasse mais a sua própria obra, insistiu em proporcionar ao PT o conforto de debater com ele apenas e tão somente os temas sobre os quais os dois estavam de pleno acordo.

De par com a falta de competência técnica de uma campanha marcada pelo improviso, isso custou-lhes a eleição.

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O recado que fica das urnas é claro. O problema da oposição ao PT não está no consumidor, está no produto. O PT é ultra profissional; todos os outros são ultra amadores. Ha um lado bom nisso porque a substituição radical da espontaneidade e da ética pela busca do resultado a qualquer custo, especialmente em política mas não exclusivamente nela, acaba levando diretamente para o crime. Mas o lado ruim é que o mundo, hoje, não é de quem tem razão, é de quem joga melhor para apresentar as suas.

A virtude, na política como em tudo o mais, está no meio.

As oposições brasileiras, para além do dever de consolidar a união que ensaiaram nesta eleição por cima de diferenças conceituais insignificantes ou dos “egotrips” dos seus caciques, como já fez o outro lado que está solidamente unido, no que tange aos esforços de conquista do poder, pelos laços que conhecemos, necessitam urgentemente um “turn around” empurrado pela incorporação de técnicas modernas de governança que despersonalizem os seus processo internos, clarifiquem os seus “valores”, a sua “missão” e as suas “metas” e defina com clareza as estratégias para atingí-los.

As oposições têm de começar a operar com um padrão de eficiência pelo menos assemelhado àquele dentro do qual vivem e trabalham todos os seus eleitores, se quiser disputar o poder com chances reais de vencer.

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Porque o plebiscito não serve

29 de outubro de 2014 § 9 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 29/10/2014

Serenadas as emoções da vitória a presidente reeleita foi à televisão pedir “um amplo diálogo com a sociedade” para debater as reformas de que o país necessita.

É um tom bem mais adequado ao retrato do Brasil que saiu das urnas que o do dia anterior, no discurso de agradecimento à militância compreensivelmente contaminado pelas emoções da confirmação da vitória.

Metade mais 1,64% do eleitorado acabava de sair das urnas certo de que tinha comprado a garantia de um prato de comida mais cheio pela confirmação do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, de aumentos do salário mínimo, da criação do Pronatec e de outros instrumentos em torno dos quais a outra metade menos 1,64% representada pelo candidato de oposição declarava-se plenamente de acordo, mas entrou na comemoração da vitória do PT sendo comunicada de que o que levará para casa é o compromisso fechado com um “plebiscito” sobre a reforma política, embora essa palavra não tenha sido pronunciada uma única vez sequer, seja nas dezenas de peças da propaganda gratuita recitadas pela candidata Dilma na televisão, seja em qualquer dos oito debates presidenciais do 1º e do 2º turnos.

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Não soou como um bom presságio pois “plebiscito” é um tipo de mecanismo que aponta exatamente na direção contrária da “união” em torno de um consenso posto que o que quer que venha a ser decidido por esse método pode, por definição, ser imposto à metade menos um dos brasileiros que vierem a votar contra o que for proposto. Por isso os plebiscitos são usados exclusivamente para dirimir questões de formulação simples e sem mais implicações que a expressamente contida nessa formulação, passíveis de serem decididas por um “sim” ou por um “não”, como aquela a respeito da qual foram chamados a se manifestar os eleitores uruguaios: “Você é a favor ou contra a redução da maioridade penal para 16 anos”?

Este não é absolutamente o caso de uma reforma política, assunto que se desdobra em inumeros subtemas, todos eles afetando diretamente o conjunto dos direitos e das liberdades de cada cidadão, e que, dependendo do modo como forem combinados entre si e até da ordem em que forem apresentados, podem ter o seu significado e os seus efeitos práticos simplesmente invertidos.

O problema é tão velho quanto a própria democracia.

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Propor diálogos nacionais é sempre um bom início de conversa. Mas quando chega a hora de materializar esses diálogos só ha duas maneiras de fazê-lo: criar um sistema em que toda a sociedade vota em representantes previa e individualmente identificados para o fim específico de mandatá-los para discutir e aprovar leis ou “mudanças” em seu nome (o “sufrágio universal”), ou confiar no governante de plantão para definir como achar melhor quem, a seu ver, representa a sociedade como um todo e chamar essa minoria para decidir as mudanças ao seu gosto.

Foram tantos os desastres ensejados pela escolha errada do modo de promover grandes decisões nacionais ao longo dos 2600 anos transcorridos desde o primeiro ensaio da democracia em Atenas, todos conduzindo a longos períodos de servidão ou a conflitos sangrentos, que a Declaração Universal dos Direitos do Homem da qual o Brasil é signatário houve por bem esclarecer o assunto.

Não é por outra razão que no Artigo 26, paragrafo 3º, ela consagra o “sufrágio universal” como a única forma legitima de eleger representantes, seja para cargos executivos, seja para discutir e aprovar as leis em governos “do povo, para o povo e pelo povo”.

Todas as outras são falsas.

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A presidente Dilma explicou nessas mesmas entrevistas que a sua sugestão de um plebiscito responde a “um apelo que recebeu de movimentos sociais apoiado por 5 milhões de assinaturas”. Mas na sequência de uma eleição que mobilizou 140 milhões de eleitores esse número só faz enfatizar sua própria insignificância.

Afinal, se a campanha toda transcorreu sob a acusação de que reeleger Dilma Rousseff para mais um mandato era o contrário de “mudar”, porque o PT preferiu correr o risco de ser visto assim numa disputa voto a voto a aproveitar a campanha para explicar didaticamente à massa dos eleitores qual era a reforma política que pretendia fazer e por que método?

Não foi, certamente, porque essa idéia só lhe tenha ocorrido diante do resultado das urnas, para pacificar o país.

O Decreto da Presidência nº 8243, assinado pela própria presidente Dilma seis meses antes da eleição determina, aliás, que “movimentos sociais” como esses que lhe entregaram os 5 milhões de assinaturas de apoio a um plebiscito, se apropriem, sem passar pelo sufrágio universal, das prerrogativas exclusivas dos representantes eleitos por todos os brasileiros de propor, discutir e aprovar nossas leis. Posta de lado a questão de serem eles parte diretamente intessada nessa troca de papéis, o fato dela contrariar diretamente não apenas a Declaração Universal dos Direitos do Homem mas também a letra da Constituição da República Federativa do Brasil coloca a iniciativa sob suspeita de constituir-se num artifício para dar ares de legitimidade a um expediente que é flagrantemente ilegítimo.

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A tática de usar o expediente do plebiscito para, uma vez eleito pelo sufrágio universal para um único mandato no poder, amarrar amplos pacotes de reformas embutidos nas quais vêm, invariavelmente, mecanismos que desclassificam o sufrágio universal como a única forma legítima de chegar ao poder, seja para funções executivas, seja para funções legislativas, tem sido sugerida pelo Foro de São Paulo, a entidade criada e dirigida pelo ex-presidente Lula que reune partidos que comungam as crenças do PT, e utilizada em vários países vizinhos do Brasil onde, desde então, não houve mais alternância no poder.

É, portanto, mais que benvindo o apelo da presidente Dilma, legitimimamente eleita pelo sufrágio universal num país dividido por uma margem de 1,64% do eleitorado, por um amplo diálogo nacional em torno da reforma política e da reforma eleitoral que se fazem necessárias. Mas desde que essa convocação comece por uma pergunta sobre o que queremos e por que métodos queremos e não pela resposta que, dentro do espírito democrático, só deveria surgir ao fim desse debate.

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Se os “2 minutos finais” fossem meus…

3 de outubro de 2014 § 14 Comentários

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Esta eu escrevi antes do debate da Globo, assim que vi os pronunciamentos de encerramento das campanhas do primeiro turno dos candidatos. Mas como acho que este continua sendo o recado pros eleitores, estou mudando ele de lugar.

Brasileiros,

O passo que vocês vão dar domingo é decisivo.

Pense bem antes de apertar aquele botão.

Esse retrato cor-de-rosa do Brasil que os marqueteiros da Dilma pintaram na campanha é falso. Os numeros em que ele está baseado são falsos.

A festa acabou mas o PT continua batendo bumbo pra fazer você dançar. Você sabe bem disso. Você está sentindo isso no seu bolso; na compra do mês e na prestação que não cabem mais no salário.

Os numeros que a Dilma te mostra valem tanto quanto os juramentos solenes de acabar com a corrupção e a impunidade do partido que, quando chega a hora de agir, só age para desmoralizar a Justiça e tirar da cadeia, um por um, todos os condenados por corrupção. Nenhum dos que foram presos continua preso. Nenhum dos que estavam no poder perdeu o poder.

No plano internacional tem sido a mesma coisa.

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O PT vive falando em direitos humanos mas só age na ONU para impedir que os maiores criminosos do mundo sejam detidos. Promete democracia mas só se relaciona com ditadores. Com aquele tipo de gente que aceita convite pra entrar mas não aceita ordem pra sair.

Tudo isso não é só coincidência.

O PT pede o seu voto mas já cassou por antecipação o que você vai dar domingo para o seu futuro deputado no Congresso com o decreto que a Dilma assinou ha cinco meses que põe no lugar dele, para fazer as leis do Brasil, os “movimentos sociais” nos quais ele manda mas que você não elegeu.

É por cima de tudo isso que o PT te pede mais 4 anos, além dos 12 que já se foram, e olhando pra outros 8 logo alí adiante.

Olhe pra Cuba, olhe pra Venezuela, olhe pra Bolívia, olhe pra Argentina; olhe pros ditadores todos que o PT não se cansa de festejar e pros países que ele aponta como modelos para o Brasil.

É isso mesmo que você quer?

Domingo vai começar a nascer o Brasil onde seus filhos vão viver.

Por isso, pense bem antes de apertar aquele botão.

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