1 de abril de 2020 § 4 Comentários

Cobertura segue concentrada em “ações” anunciadas por governos quando o que interessa cobrir são os novos miseráveis (os autônomos e micro-empresários de ontem) tentando chegar a essas boias de salvação sem conseguir. Como criar esses canais?

1 de abril de 2020 § 8 Comentários

Bolsonaro descobriu q até pra ele realidade é o limite. Menos mal…

Agora é a vez do outro lado. A realidade mostra tbem q a questão ñ é quarentena ou morte mas cm transitar da burra p/a inteligente a tempo e com segurança.

O caminho está mapeado. Bom jornalismo torna-o + curto

Quarentenas e coberturas burras ou inteligentes

31 de março de 2020 § 30 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 31/3/2020

Quem não se comunica se estrumbica“. Jair Bolsonaro é um sujeito que tem de ser ouvido “por partes”, como diria Jack, O Estripador. Para entender o que ele diz é preciso separar forma de conteúdo. É uma atitude que requer tomar calmante porque na forma ele agride com tanta força que o resto ninguém ouve, mas é obrigatória pois, sendo ele quem é, não é ele, é o Brasil quem “se estrumbica“.

A crônica da ultima “birra” é enfática. Para além da citação textual da “gripezinha” de Dráuzio Varela com que quis ironizar “aquela televisãozinha”, ele tinha recuado suspendendo dívidas e dando outras condições para viabilizar a quarentena nos estados. Nada era mais fácil e previsível, porém, que uma admoestação pública como a de João Doria provocasse a resposta que provocou…

Ora, tirar Bolsonaro do sério é covardia. Tarefa pra herói que tem mesmo pena do Brasil é ouvir inteligentemente o lado burro dos discursos que profere. É aí que entra a imprensa. Esse jornalismo rançoso, de superexposição de todo e qualquer pelo de controvérsia, encomenda o aprofundamento do dissenso. Anunciar que o passaporte para a exposição de quem vive de voto na telinha é provocar e sustentar controvérsias bem no meio de um desastre é um ato mais criminoso que o do político que topa esse jogo deletério. Mas tem sido a regra. Nada nesta pandemia pode ser compreendido analisando-se apenas os dados concretos do problema. Ninguém perde muito tempo com eles. O vírus foi politizado como tudo o mais. Ou você é “quarentenista” fechado ou dá briga. É proibido raciocinar em voz alta a respeito.

E, no entanto, está mais claro a cada minuto que a verdade está no lugar de sempre – o meio – e não ha jeito de evitar o pior sem incluir o que há de verdade, tanto na necessidade da quarentena burra para não morrer na chegada da doença, quanto na da evolução para a inteligente o mais rápido possível para não morrer das consequências da outra.

Na China o governo é a polícia e todas as empresas são monopólios pertencentes ao mesmo patrão que além do de empregar, emitir a moeda com que opera suas empresas e aguentar tanto prejuízo quanto quiser nem que o “trabalhador” fique reduzido a comer morcegos, também tem o poder de prender e arrebentar quem ele quiser. Mas nem ela pode brincar com esse fogo. É o pais mais avançado do mundo em tecnologia da opressão o que veio a calhar numa crise como essa. Primeiro fechou Wuhan na marra. Mas o quanto antes passou a testar e tomar temperaturas em massa. Agora, com todo o pais fichado no reconhecimento facial e cada chinês vigiado 24 horas por dia, o celular diz ao governo onde ele anda, com quem se encontra e até de quem se aproxima e o algoritmo da polícia o classifica numa de três categorias: vermelho, amarelo ou verde. É verde quem não saiu do país nem se encontrou com ninguém vermelho ou amarelo nos últimos 14 dias. É amarelo quem veio de fora ou se encontrou com alguém vermelho nos últimos 14 dias. É vermelho quem foi testado positivo ou teve a sua temperatura medida com febre. Isso classifica também as cidades e regiões do pais. O trânsito é livre para as verdes, cidades ou pessoas; tudo é restringido para os amarelos; há supressão total da circulação dos vermelhos.

Assim 80% dos chineses voltaram a estar, como sempre estiveram, semi-soltos e trabalhando muito, enquanto o resto do mundo continua preso, menos nos países que estão fazendo coisa semelhante com os custos e limitações da liberdade democrática (ou quase) como Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Alemanha e outros que, livres da contaminação em nível critico pela pandemia da conflagração ideológica, estão enfrentando o coronavirus com miolos em vez de bílis, aplicando testes e medindo temperaturas em massa e colhendo números tão bons quanto os da China.

Dinheiro e coordenação são as condições que nos faltam para transitarmos da quarentena burra para a inteligente a tempo de evitar o mergulho que estamos na iminência de dar da miséria para a miséria irreversível. Descobrir onde tem teste, quanto custa, como produzi-los na velocidade necessária; mobilizar “gargalos da quarentena” (supermercados, transportes, etc.) a medir temperaturas são formas de repercutir inteligentemente o modo burro de Bolsonaro afirmar sua parte da verdade desta epidemia e dispensa-lo de fazer a próxima “birra”.

Mas passar adiante dele empurrando-o para a reforma das reformas que, nem ele, nem muito menos quem hoje o critica, quis ou deixou fazer na profundidade necessária para acabar de uma vez por todas com o sistema de privilégios medieval que destruiu este país, seria a única forma da imprensa brasileira pagar a sua dívida histórica. Não só porque não escaparemos do abismo sem isso e porque tempo é tudo, mas porque foi pelo jornalismo pátrio nunca se ter dignado a fazer uma campanha de denuncia remotamente proporcional ao escândalo que são os privilégios da privilegiatura que a economia brasileira chegou a essa pandemia como o “velhinho” mais depauperado e de mais alto risco do planeta de morrer no primeiro minuto que faltar-lhe o ar.

30 de março de 2020 § 6 Comentários


Do jeito que vai Bolsonaro não termina o mandato. Se o coronavírus não acabar com ele – o desfecho menos traumático – ele se terá colocado num tal grau de isolamento que não vai mais ter volta.

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Ele ñ deixa d ter razão quanto à necessidade de sairmos o + rápido possível da quarentena burra (veja meu artigo amanhã no Estadão) mas a aposta que está fazendo é no caos, o que tira toda justificação moral de sua atitude. Ele age igual ou pior que os q insistem só em quarentena

A peste e a reforma das reformas

24 de março de 2020 § 24 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 24/3/2020

O problema é de ajuste fino. Definir o que é ou não essencial. Fechar tudo, sem mais, vai caindo a ficha do mundo inteiro, é mais ou menos como suicidarmo-nos antes que o virus nos pegue. As economias não podem ser desligadas e ligadas impunemente. Elas morrem e têm de nascer de novo o que são processos muito mais demorados e dolorosos.

Dinheiro x vidas? Falso dilema. Economias são pessoas. Sonhos feitos e desfeitos. Semeaduras de saúde ou de doenças futuras. Plantações de paz ou de violência. Partindo do nada, o tsunami econômico politicamente fabricado em nome da contenção da pandemia do coronavirus está provocando uma devastação que, considerado apenas o ponto a que já chegou, muito abaixo da crise de 2008 para a qual havia todos os fundamentos econômicos e financeiros concretos, será um marco divisor na história da humanidade.

Nem os Estados Unidos, com todo o seu poder e sua glória, poderão mantê-la viva artificialmente distribuindo um trilhão de dólares por quinzena para cima e chequinhos de campanha eleitoral para baixo, à la Lula. No Brasil os 15 dias de pânico já quebraram mais de R$ 1,5 trilhão no valor de tudo que está nas bolsas, mais de 20% do PIB…

Investir em precisão e comedimento é a resposta correta como mostra o argumento indiscutível do resultado que se pode aferir comparando a destroçada Europa Latina, de que somos filhos, toda ela em “rigorosa quarentena” e índices de mortalidade que começam por mais que o dobro dos nossos 1,6% e vão até aos quase 9% da Lombardia italiana, com Alemanha, Taiwan, Cingapura, Coreia do Sul e outros que têm colhido índices de letalidade inferiores a 0,4%.

Não há ventos favoráveis para o navegante que não sabe para onde vai. Testagem rápida em massa e parar, na maior medida possível, só os doentes e os transportadores de doença já identificados. Pesquisa intensiva de tratamentos eficazes. Precisão na informação, rigor nas medidas preventivas individuais, eis os ingredientes que detêm a pandemia e enfraquecem o coronavirus.

O primeiro e maior desafio é portanto da imprensa. A pergunta essencial é quanto da reação dos políticos responde aos fatos e quanto à cobertura que ela tem feito pois é no interstício entre essas duas balizas que prospera o virus que vai devastando a economia do planeta inteiro, este sim de uma letalidade nunca antes vista em tempos de paz ou em tempos de guerra, no mundo antigo ou no mundo moderno.

O desafio está em impedir que o foco da cobertura desvie-se da mecânica da progressão da doença para as reações do povo às determinações dos políticos e as dos próprios políticos às decisões de outros políticos, o que nem sempre é fácil de separar. Em outras palavras no rigor do cuidado das redações em não se deixarem transformar em correias de transmissão de um pânico que se alimenta de si mesmo.

Garantir três horas de palanque por dia para políticos isentos dos efeitos das medidas que baixam disputarem poder uns com os outros na base do “quem fecha mais” é tão seguro, num país com o retrospecto político do Brasil, quanto ascender uma tocha para procurar uma agulha num paiol de dinamite.

Não é só no Brasil, aliás. Em todos os países onde a autoridade (dos governantes e da imprensa) está desmoralizada pela conflagração ideológica o combate à peste é duplamente problemático. O comportamento das áreas técnicas dos governos e do povo é razoável mas na ida e na volta as informações têm de passar pelos políticos e pelos seus respectivos “batedores de caixa” na internet e nas redações engajadas. E aí todo cuidado é pouco. Quanto desse empenho todo é luta pelo poder? Quanto é vaidade? Quanto do que dizem e fazem os governadores-candidatos e o presidente candidato é fruto de decisões conscienciosas e equilibradas e quanto é precipitação para acusar, direta ou indiretamente, o adversário de omissão?

As dúvidas são pagas em vidas…

É, de qualquer maneira, uma controvérsia que se desfará por si mesmo. Todo o esforço de equilíbrio fiscal de um ano inteiro do ministro Paulo Guedes virou pó na primeira hora da paralização total da economia mundial. Isso arrebenta com a arrecadação num quadro que já era de falência geral dos governos estaduais e municipais. Vai faltar dinheiro para pagar polícia e hospital em dois, no máximo três meses.

O Brasil é o “velhinho” desta epidemia. A economia de pior desempenho numa quadra de prosperidade global. Roído pela privilegiatura, não tem um pingo de gordura de proteção social. No mínimo a metade da população já vinha vivendo da mão para a boca. Uma economia de guerra será agora, e por muito tempo, a realidade de todos.

Não haverá alternativa senão partir para a reforma das reformas. Para Bolsonaro será a última chance de redimir-se de tudo que não fez e não deixou fazer embora estivesse autorizado a tanto pela votação maciça que teve. Para seus adversários, a definitiva de provar quanto, de fato, preocupam-se com a saúde dos nossos avozinhos. Para o Brasil, como um todo, a de entrar, finalmente, para o rol das democracias, acabando com a privilegiatura medieval, ou mergulhar definitivamente no caos. Não vai ter outra.

 

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