Imagine os adesistas!

10 de maio de 2013 § 7 Comentários

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Ja deve fazer bem uns 10 anos eu estava hospedado em casa de uma amiga em Mar Grande e, depois de alguma resistência, tomamos um barco de aluguel e, superadas as peripécias imagináveis para atravessar uma cidade conflagrada, fomos parar num desses camarotes patrocinados do carnaval de Salvador.

Era um ambiente enorme, cheio de praças diferentes que se distribuiam em desníveis ligados por escadarias precárias de variadas inclinações, até chegar ao grande salão, lá em cima, que dava visão para a rua e para aquela folia frenética e violenta que caracteriza essa festa na capital da Bahia.

A estrutura apoiava-se numa encosta de modo que víamos o povo pulando como que dois ou tres andares abaixo. Os trios elétricos, quando passavam por ali, alinhavam o teto em cima do qual iam os cantores e as bandas quase exatamente com o assoalho desse salão.

Ficava-se literalmente cara-a-cara com eles no momento da passagem.

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Artistas, autoridades, socialites, “famosos”, garçons-equilibristas se esgueirando com suas bandejas carregadas lá no alto, “gostosas”, “porras-loucas”, traficantes…

O povo do costume nesses eventos misturava-se e confraternizava daquele jeito de que só brasileiro é capaz.

No centro exato desse grande terraço, cercado dos puxa-sacos do costume, o governador da Bahia em pessoa e sua primeira-dama presidiam a esbórnia.

Para qualquer momento, corria o zum-zum pelo camarote, esperava-se a chegada do rei da Suécia e sua rainha brasileira.

E bebida. Muita bebida em cima…

De repente, o burburinho foi subindo, junto com uma agitação que empurrava a boiada toda para o fundo em direção à escada que desembocava no salão principal do camarote:

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_ O rei chegou! O rei chegou!

Um desavisado ao meu lado, forte sotaque baiano, pergunta:

_ Que rei, ACM?

_ Não, um outro aí; um mané… retruco-lhe, divertido.

Alarme falso.

E as caipirinhas rolando…

O som do trio elétrico vai subindo. É o de Gilberto Gil que se aproxima.

O camarote trepida. Lá embaixo é um frenesi dos blocos dos abadás, que compram o direito de pular junto aos carros.

O monstrengo, despejando seus milhões de decibéis, já está alinhado com o canto final do camarote e o mundo parece estar vindo abaixo. Ele avança mais um pouco e o governador e sua entourage soltam a franga.

Estão frente a frente; o camarote ferve e …

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De repente a música estanca!

Surpreso, começo a procurar. É briga? É pane?

Gilberto Gil resolve a minha dúvida.

Cara-a-cara com o governador, ele se desfaz numa mesura…

_ Eu queria aqui saudar o nosso governador que tão gentilmente, etc, etc, etc…

O povo lá embaixo parado, esperando. A festa nacional foi interrompida mas não há nenhuma reação dos foliões.

Nem uma vaia. Nem mesmo um “Óóóhh!

Mais uns tantos rapapés e o dilúvio de som recomeça. Segue a festa como se não tivesse havido nada.

Aquilo foi um choque!

Afinal, eu sou de Sampa, de onde não se vê quem sobe ou desce a rampa!

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Dei parte do meu escândalo aos meus anfitriões, mas vá lá. Abafa o caso…

Vai daqui, vai dali, mais umas tantas caipirinhas pra dentro e lá vem outro trio elétrico.

Não me lembro se era o dele ou se ele vinha lá em cima de convidado, mas este carregava ninguém menos que Caetano Veloso, o revolucionário das palavras e dos sons do português de minha tamanha admiração.

Caí das nuvens! Não é que ele repete o ritual de Gil!

_ Boa noite, excelência. Eu queria comprimentar aqui o senhor governador que tanto tem feito pela Bahia… (e lero, lero, lero…)

Não me segurei mais. As caipirinhas “bateram” todas de uma vez.

Com gestos de estadista em palanque e pra lá de “torto“, abri o verbo, carregando no sotaque baiano.

_ E estes, senhoras e senhores, são os révolucionarios! Imaginem os adesistas!

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Não parei mais. Indignação e álcol são uma mistura perigosa. Estava de uma inconveniência tal que meus constrangidos anfitriões tiveram de me levar de lá para fora, enquanto eu seguia gesticulando para trás e vociferando para sua excelência ouvir.

E assim segui torturando os meus queridos amigos baianos durante toda a travessia até Mar Grande, onde fui curtir a minha ressaca e, no dia seguinte, a minha vergonha monstro.

Hoje de manhã, quando vi a foto de Guilherme Afif Domingos, o nosso sôfrego vice-governador e ministro, encolhidinho, beijando as mãos de Dilma Roussef na capa dos jornais, tão sóbrio quanto no dia em que nasci, foi essa a história que veio-me à cabeça.

_ E esta, senhoras e senhores, é a oposição! Imaginem os adesistas! E segui com o meu indignado discurso imaginário: Dos flagelados do Bolsa Família ao Jorge Gerdau todo mundo se vende neste país! O que varia é só o preço…

Deixa pra lá. Abafa o caso.

Resolvi que esta noite vou tomar umas, à saúde dos poucos de nós, coitados, que não temos preço.

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Aécio está vivo! Mas ainda sem discurso

21 de fevereiro de 2013 § Deixe um comentário

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Aécio está vivo!

Esta é a boa notícia.

A má é que ele continua sem ter um discurso consistente.

Posiciona-se com referência ao PT exatamente do mesmo modo como o PT posiciona-se com referência ao PSDB mesmo 10 anos depois de tomado o poder.

Se eles são a favor eu sou contra”. E vice-versa.

Para fazer justiça vamos registrar, antes de seguir adiante, que mesmo esse tanto pouco já é um avanço significativo em relação ao Serra que seguia o slogan contrário, cuspia no prato em que comeu e, sempre patéticamente, procurava parecer mais lulista que o Lula.

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Mas, feita a ressalva, volto à crítica. E a essência do meu ponto é que nem Aécio nem o PT tem críticas ao Sistema. Nem às deformações das nossas instituições que produzem obrigatoriamente o ambiente moral e eticamente deformado em que chafurda a nossa política, nem às incosistências e distorções que produzem obrigatoriamente a crônica insegurança econômica em que vivemos, oscilando eternamente entre o desastre e a remediação.

Para os dois o Sistema esta OK; o problema é só quem está em posição de comandá-lo no momento.

Eu no lugar dele faria melhor”, é ao que se resumem todos os discursos políticos, quando, completado o rodízio de todos os partidos e correntes no comando do Sistema desde a redemocratização nos meados dos anos 80 do milênio passado, está provado à exaustão que ele obriga todos à mesma miséria moral e ao mesmo círculo vicioso no plano material, variando apenas o grau de dolo; a proatividade ou a resistência com que cada governo se submete a esse destino inescapável.

ae3

O PT, ao menos, mentia melhor.

Afirmava ser contra o Sistema e os representantes máximos dessa fábrica de monstros. Os mesmos que, uma vez no poder, o partido recebeu e incorporou de braços abertos.

Foi dessa mentira que sempre viveu; foi graças a ela que, finalmente, venceu; é graças a ela que ainda se mantém no poder.

O PT traiu tudo que sempre pregou? Sim, quem não sabe. E tem tanta consciência disso que, mesmo abraçado a Collor, a José Sarney, a Paulo Maluf, a Renan Calheiros e a Henrique Eduardo Alves, Lula continua dizendo-se a antítese de tudo que eles representam e, mais que isso, a negar tudo que eles todos hoje perpetram juntos, com a mesma cara de pau do proverbial marido flagrado em adultério que, nu na cama ao lado da amante, continua afirmando para a esposa que a indigitada não está ali, nua ao seu lado, com tanta fé que esta começa a duvidar do que os seus próprios olhos estão vendo.

ae5

É claro que a crítica a este ou àquele fracasso ou mentira flagrante do PT tem de ser parte obrigatória de uma campanha eleitoral.

Mas é mais claro ainda que só isso não basta. Estrebucha ao menor “Eu sou, mas quem não é?” com que Lula responde a essas acusações.

Deveria haver, ademais, a consciência clara de que 2014 ainda caberá nas gorduras da arrecadação que sustentam a festa consumista/assistencialista que compra a popularidade do PT, e que o horizonte viável de uma alternância de poder projeta-se para 2018, quando a verdade que os mais informados já vêm na deterioração dos fundamentos da economia estará inteira nas ruas.

Até lá, falar nos “fracassos do governo” ou na sua miséria moral ao ex-passageiro de ônibus sentado no seu carrinho novo subsidiado é jogar areias ao vento.

ae8

É o momento de discutir os fundamentos das nossas desgraças recorrentes; de comprometer-se com tudo com que o PT não admite comprometer-se: com mudanças estruturais que reduzam a impunidade dos criminosos, tanto os de terno e sapato italiano quanto os de bermuda e chinelo de dedo; com mudanças claras nas regras do jogo eleitoral e partidário que permitam que gente com estômago entre na política; de atacar de frente a rede de privilégios institucionais e jurídicos que blindam os donos do poder e negam o princípio da igualdade perante a lei; de enfrentar de peito aberto as distorções que põem estruturas tão fundamentais quanto as de educação e saude públicas a serviço das corporações de servidores enquanto os doentes estrebucham no chão e os alunos saem das universidades analfabetos; de expor a relação direta de causa e efeito entre nossa estrutura sindical viciada e a nossa incapacidade de jogar para ganhar a competição mundial; de restabelecer o valor do merecimento e o princípio da aferição de resultados.

O Brasil, enfim, está entre os poucos países do Ocidente onde ainda é fácil ser realmente revolucionário, bastando para tanto abraçar os fundamentos básicos das revoluções democráticas do século 18, que nós nunca tivemos o prazer de ver funcionando por aqui.

O discurso rasteiro do eu sou melhor (ou mais esperto) do que ele não engana mais ninguém.

ae9

E o Aécio nada…

9 de fevereiro de 2013 § 1 comentário

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O PIB murchando;
A inflação voltando;
A Petrobras quebrando;
A Rose rosetando;
Os bandidos tomando o Congresso;
E o Aécio nada…

Não ha ética, senhores. O que pode haver é polícia…

6 de fevereiro de 2013 § 1 comentário

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Como sempre, faltou algo no artigo de ontem. A síntese final.

O mais simples é sempre o mais difícil, o menos lembrado…

Onde acabam sempre os artigos dos que choram as nossas desgraças? Qual o mais repetido dos “é precisos” com que eles são sempre encerrados?

Ética na política…

É preciso ética na política!“.

un1

Não ha ética de geração espontânea, senhores. Não se espere uma súbita onda de atos de contrição instigados por belos discursos…

O que pode haver é polícia.

O homem só se conforma em trilhar o caminho do esforço e do mérito quando todas as outras alternativas lhe são vedadas. Você trabalha porque se não trabalhar não come. A “eles” é dado comer sem trabalhar.

Comerão sem trabalhar enquanto isso lhes for dado.

un1

Porque o povo não reage?

5 de fevereiro de 2013 § 6 Comentários

bar8

Porque não é só a oposição que não tem rumo.

A crise de liderança é um processo que começa com o enviezamento do olhar dos que se atribuem a função de sincronizar o debate dos problemas nacionais, seja na academia, seja na imprensa.

Não ha uma pauta.

Nos limitamos à denuncia eventual de violações que são sistemáticas. A apontar desvios de rumo quando o problema é que não ha rumo. Ao chororô retórico em cima do resultado necessário das deformações fundamentais da nossa construção institucional em vez de indicar que deformações são essas e como endireitá-las.

bar3

Haverá sempre o que discutir e inventar no que ainda está por vir. Mas o essencial está posto. As modernas tecnologias de construção estão aí para quem quiser usar. E, no entanto, a nossa democracia continua sendo um barraco pendurado numa área de risco que nós nos recusamos a evacuar.

Choramos, um por um, os desastres que a ausência dos pilares fundamentais dessa estrutura obrigatoriamente engendram como se eles fossem excepcionais, imprevisíveis e evitáveis. Mas não tratamos de fincá-los, finalmente, num chão firme.

Somos as sirenes dos governos cariocas nas serras que todos sabem que vão desabar. Não temos foco. Tratamos as consequências como se fossem causas. A nossa desordem essencial como se fosse a deformação de uma ordem … que nunca existiu. Exigimos mais leis mas nunca o enforcement das essenciais.

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Falamos mais do nosso horizonte de expectativas que da realidade. Do país que gostaríamos de ter como se já o tivéssemos ou como se o tivéssemos tido algum dia.

Nunca tivemos. Está tudo por fazer.

Por isso a juventude, que chegou agora e só vê o que existe, não reconhece o país que descrevemos e o povo menos ainda.

A globalização piorou o quadro.

Com a virtual anulação das limitações de espaço e tempo, reassegurados das nossas crenças pelo congraçamento com nossos semelhantes ao redor do globo, embarcamos, como as minorias árabes, numa “primavera dos alfabetizados” julgando-nos mais numerosos do que somos, importando prioridades alheias, mergulhando de corpo inteiro na discussão do acessório sem nunca termos resolvido o básico.

mk22

O básico, senhores, eis a questão!

Não basta denunciá-las. Criticar-lhes a imoralidade. Exigir que sejam suprimidas. Ao básico temos de fazer regredir todas as deformações cuja manifestação se torna obrigatória pela ausência dele na nossa ordem institucional:

  • todos são iguais perante a lei e não haverá foros nem prisões especiais;
  • nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do mérito;
  • as principais funções do Estado devem ser garantir a segurança pública e reduzir a desigualdade de oportunidades oferecendo educação de qualidade a todos os cidadãos;
  • à gravidade do crime deve corresponder, infalivelmente, o castigo;
  • a primeira e inegociável função da prisão é proteger a sociedade e não apressar a ressocialização do bandido.

bar1

Faça o teste. Pegue o jornal de amanhã e veja se algum dos problemas de que ele trata não estaria, senão resolvido, muito bem encaminhado se contássemos como certa qualquer uma destas cinco premissas básicas. E note como qualquer delas, se firmemente plantada, acaba por engendrar as outras…

É preciso focar. Alinhar o discurso. Mirar um alvo de cada vez. Dar a quem não gosta do que temos algo em que se agarrar que seja redutível a uma frase.

Ou não desatolamos nunca.bar10

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