Rumo à “oposição zero”

19 de outubro de 2012 § 1 comentário

São Paulo, onde a campanha vai de mal a pior, e Salvador, onde aparentemente vai menos mal, são as duas eleições que determinarão quanto sobrará de oposição digna desse nome à construção do “reich de mil anos” do PT.

Goste-se ou não do PSDB e de José Serra, ou do DEM e de ACM Neto, esses dois partidos são tudo o que continua excluído da salada geral da “base de apoio do governo” e sua sobrevida depende estritamente deles manterem o controle, respectivamente, da maior e da terceira maior cidades do país.

O PSDB (e, nestes quesitos, até José Serra) tem posições civilizadas quanto à necessidade de reforço das instituições fundamentais que devem balizar os processos da política e da economia. E o DEM, se é mais flexível quanto a essas questões mais “abstratas”, tem ao menos um posicionamento ideológico claro quanto à defesa da livre iniciativa, o excesso de intervenção do Estado na economia e o excesso de impostos.

O resto é o resto. Faz, automaticamente, a opção preferencial por quem estiver no poder. Ou então, é o PT de amanhã com o mesmíssimo discurso do PT de ontem, como é o caso do PSOL.

O DEM caiu de 340 para 276 prefeitos e uma capital (Aracaju) por enquanto. Longe das “alianças” em torno do poder ha mais de 10 anos, o que ficou lá ficou por compromisso ideológico. Tudo que, dentro dele, tinha aquele cheirinho de cola-a-tudo (que venha a vencer) mas não podia bandear-se para o PMDB, dono da cadeira cativa à direita de todo e qualquer “deus” que vier a se tornar “pai”, correu para o PSD de Gilberto Kassab que é uma espécie de PMDB da direita que só não está hoje alinhado ao PT porque o partido não sentiu que valia a pena comprá-lo, oferecido que foi, mesmo a preço de ocasião.

Tem, de qualquer maneira 494 prefeitos entre roubados ao DEM e saídos do forno agora, surgindo como a 4a maior agremiação (o DEM fica sendo a 8a).

O festejado PSB, que afastou-se momentaneamente do PT mais em função da inabilidade deste em torno de quizílias envolvendo praças específicas do que de qualquer diferença de princípios que se note, poderia surgir como uma força real se o país mostrasse que quer uma esquerda menos poluída depois do Mensalão.

Mas tudo indica que não é este o caso.

Já o PSDB, segue com o problema de sempre: tem currículo mas não tem voz e vive mergulhado no seu dilema hamletiano, nem reivindicando o que foi e fez, nem afirmando desabridamente o que será ou o que se recusa a ser. Ou seja, segue negando-se como alternativa a uma massa de eleitores órfãos que, desde Marina Silva, vaga pelo deserto oferecendo-se para adoção.

 

O efeito dos mensalões e cachoeiras em duas das capitais mais diretamente atingidas por eles é eloquente nesse sentido. Em Goiânia, terra de Delúbio, de Demóstenes Torres e de Carlinhos Cachoeira, os votos nulos subiram 220% este ano ainda que a abstenção tenha sido a menor desde a eleição de 2000 e uma das mais baixas entre as capitais. Ou seja, os eleitores fizeram questão de votar, mas para anular seu voto em protesto.

Já na São Paulo de José Dirceu e de Genoíno, o aumento dos votos nulos foi de 67% e a taxa de abstenção foi a maior desde 2000. Ou seja, ha mais desilusão com o poder do voto que em Goiânia junto com um forte crescimento do voto de protesto.

Nos dois casos, porém, ninguém conseguiu se apresentar como uma alternativa capaz de atrair os votos negados aos, ou em protesto contra os  bandalhos o que, no final das contas, reverteu em favor … do próprio petismo.

No país inteiro, cresceu 27% o numero de eleitores que deixaram de votar, anularam o seu voto ou votaram em branco.

Ha, portanto, uma boa parcela de brasileiros que resiste a deixar-se anestesiar pelas injeções de anabolizantes do consumo do lulismo, mas que também não consegue raciocinar com clareza sobre as implicações práticas de suas decisões na mecânica da democracia à brasileira.

Ha aí uma falha não só dos candidatos e partidos que poderiam ter investido em esclarecê-los, mas também da imprensa em geral, que não alertou suficientemente os indignados e os desiludidos sobre o resultado prático do seu gesto de negação.

Seja como for, perdidas Salvador e São Paulo, desestruturam-se as bases para a construção de alternativas, não digo competitivas, mas ao menos “perturbativas”, de oposição organizada.

Neste caso o inevitável prognóstico seria seguirmos derrapando para um “chavismo” tanto mais “cordial” (no sentido buarquiano da expressão) quanto menos favoráveis forem os ventos que movem os grandes importadores de commodities do mundo. Enquanto eles seguirem colocando nos cofres que compram “poder de consumo” para a “nova classe média” movida a crédito subsidiado mais do que sai deles para pagar a colonização do Estado pela companheirada e a montagem do anel de ferro dos monopólios “privados” satélites do BNDES, vamos na maciota.

Depois que o vento mudar…

E se…

11 de março de 2011 § 1 comentário

Na crise, “back to the basics”, dizem os americanos.

Nada como a sabedoria popular!

É o que a “oposição” brasileira está precisando fazer.

O que se lê nos jornais sobre ela é de dar pena.

Serras, kassabs, chalitas…

A coisa vai de mal a pior.

E mesmo o Aécio, coitado, não sabe pra onde se virar.

A oposição está, como diria Voltaire, como aquele “cego, num quarto escuro, procurando um gato preto, que não está lá”.

Pois de volta ao básico!

E o básico é o seguinte. Desde que Roma inventou a Republica, só existe uma questão importante para o desenvolvimento da democracia: como submeter o representante ao representado.

É isso que conserta ou entorta tudo.

O Império Romano caiu porque não resolveu esse problema. A Inglaterra inventou a modernidade construindo essa resposta. E os Estados Unidos dominaram o mundo depois que conseguiram aperfeiçoá-la.

O Brasil balança na mesma alternativa: ou cria controles da cidadania sobre os políticos e a máquina publica ou o desembesto geral em que eles andam desmoraliza de uma vez por todas a ideia de democracia nestes tristes trópicos.

Aécio tem procurado associar a ideia de “choque de gestão” à sua “marca” política.

É por aí mesmo!

Só que está na hora de sairmos do “choque de gestão” opcional, episódico, cosmético, para o choque de gestão permanente e irreversível no setor publico. Só isso permitirá ao Brasil sair da alternância entre o péssimo e o apenas ruim. Só isso dará ao país a oportunidade de mudar definitivamente de patamar e deixar de festejar o sofrível.

É desta ilusão que Lula tem vivido. E superá-la é a única forma de superar o lulismo.

O mundo mudou mais nos últimos 30 anos do que tinha mudado nos 30 milhões de anos precedentes justamente porque passou por um profundo “choque de gestão”. E esse choque de gestão consistiu em retirar do entorno do trabalho todos os anteparos de que os políticos o cercaram para tornar a garantia de emprego, o desenvolvimento nas carreiras e a remuneração de cada trabalhador mais dependentes da sua submissão à política que do esforço pessoal e do mérito de cada um.

Dirão os mal intencionados que derrubar a parafernália de falsificações de que se cerca o trabalho até hoje em países como o Brasil é tirar “direitos dos trabalhadores”. Mas isso é uma mentira grosseira que a globalização da produção e dos empregos e a revolução das comunicações tornam a cada dia mais evidente.

A verdade é que foi o “choque de gestão”; as regras internacionais de governança corporativa; os sistemas de trabalho baseados no mérito que trouxeram a democracia para o andar de baixo da sociedade e colocaram-na – finalmente! – ao alcance da massa trabalhadora.

Porque num sistema de mérito não é preciso puxar o saco do patrão (nem do político) para subir na vida. Cada um pode ganhar tanto quanto estiver disposto a cavar com seu trabalho. Não ha mais limite. Pela primeira vez na história do mundo, é possível ficar rico vendendo apenas “mais valia”, sem se tornar dono do capital.

Os trabalhadores recuperaram, enfim, o direito à dignidade e o controle sobre o seu próprio destino.

Isto sim é que é democracia! O resto é conversa para enganar trouxa.

É claro que, humanos que somos, logo passamos a inventar novas maneiras de viciar o novo sistema para que também ele passe a abrigar privilégios.

Mas os privilégios de hoje no mundo corporativo são, na maior parte dos casos, privilégios que se combate com a polícia e não privilégios protegidos por ela. Distorções que decorrem de relações libidinosas entre as corporações e os políticos. Mas, mesmo assim, são privilégios infinitamente mais limitados que os que definiam a situação anterior.

Não foi necessário arquitetar qualquer projeto especial para que essa revolução se processasse no universo privado brasileiro. Bastou deixar o Brasil exposto à competição mundial e à globalização do emprego e da produção, que “cassa” implacavelmente quem não se ajusta, para que todo o resto acontecesse de motu próprio.

O instinto de sobrevivência faz milagres…

É isso que precisa acontecer no Brasil oficial.

A impunidade é uma cadeia que, num sistema onde prevalecem as nomeações, desce como uma praga hierarquia abaixo.

Garanta a impunidade aos cabeças e atribua-lhes o poder de outorgar esse privilégio com uma simples nomeação e você estará criando uma máfia onde o único valor que restará em pé, com a força do instinto de sobrevivência, será a cega lealdade ao chefe.

Exponha o primeiro da fila à responsabilização e você estará expondo todos os demais. Faça o emprego dele depender do desempenho dos seus nomeados e ele tratará de fazê-los, todos, mostrarem para que servem.

Impunidade e estabilidade no emprego são os dois pilares que sustentam todos os vícios do Brasil oficial. Enquanto cada político, cada funcionário publico souber que posto um pé dentro do “sistema” o emprego e a impunidade estão garantidos, aconteça o que acontecer, a continuação de tudo quanto temos lamentado nos últimos 500 anos será mera consequência.

Só a instabilidade dos políticos e dos funcionários públicos poderá gerar um Brasil estável.

Tornar os nomeadores imputáveis pela obra dos nomeados é, portanto, o caminho.

Eis aí uma bandeira para um partido de oposição que aqueles 44 milhões de brasileiros que, apesar do Serra, se recusaram a votar no Lula, abraçariam com todas as suas forças.

Não ha como leva-la adiante?

É outra mentira.

Será preciso carregar essa proposta pela porta dos fundos para dentro do Legislativo, hoje um inimigo do Brasil real posto a serviço do Brasil oficial. Mas os caminhos institucionais para isso estão postos e abertos. O Brasil conta com as figuras da Lei de Iniciativa Popular, a que gerou a lei da Ficha Limpa, e do Referendo, que adiciona força a esse instrumento. É com essas duas que se poderá dar mais agilidade à terceira, que é a que torna as outras duas realmente efetivas: o direito de determinar a demissão de qualquer funcionário eleito – legisladores inclusive e principalmente – a qualquer momento e por qualquer motivo que os eleitores achem suficiente, mediante um abaixo assinado seguido de plebiscito dos eleitores interessados (ou manifestação especifica na eleição seguinte, ja que temos uma a cada dois anos por aqui).

Os americanos usaram esse caminho ha cerca de 100 anos. O resultado foi que a corrupção foi reduzida em pelo menos 80%, o que os transformou no que são hoje: o povo mais rico e mais dono do seu próprio nariz em todo o mundo. Dado o primeiro passo, completaram a obra reduzindo drasticamente as funções preenchíveis por nomeação, concentrando nos municípios e nos Estados a maior parte dos serviços públicos e passando a eleger diretamente a maior parte de seus funcionários públicos (para poder cassá-los a vontade e a qualquer momento). Hoje a cédula de cada eleição americana inclui, em média, 60 quesitos, entre recalls (cassações) de funcionários, leis de iniciativa popular e eleições de funcionários como policiais, diretores de escolas publicas e outros. O pais discute, agora, o direito à cassação de juízes e sentenças judiciais que o povo julgue viciadas.

Para o Brasil bastaria a primeira parte da receita, para começar. Tornar instável – periclitante mesmo – a carreira dos nossos políticos, já faria uma revolução. Mesmo despreparados como são, você se surpreenderia com o que eles se mostrariam capazes de fazer a seu favor se a sobrevivência deles dependesse disso.

Tudo que está faltando é um líder de oposição que acredite que os brasileiros não são piores que os egípcios e se disponha a dar o primeiro grito.

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