Está bem viva a democracia brasileira!
2 de agosto de 2012 § 3 Comentários
A boa notícia é que a democracia brasileira está viva e até, parece, bem mais saudável do que seria de se esperar a julgar pela violência, pela desfaçatez e, principalmente, pela impunidade com que vinha sendo atacada pelos que, no momento, detêm o mandato constitucional para defende-la.
O que o país começa a assistir hoje no Supremo Tribunal Federal é, sim, um confronto. A mobilização nacional em torno desse julgamento não deixa dúvida quanto a isso.
Foi lançado um desafio. E a Nação finalmente o aceitou.
Depois que falharam as tentativas de chantagem e as demais manobras de bastidores, a turba, a militância antidemocrática profissional, foi abertamente convocada para ir às ruas e decidir pela força o que a regra do jogo manda que seja decidido pelos tribunais.
A Nação se mobilizou em resposta, pelos canais através dos quais ouve, fala e fiscaliza os poderes constituídos. Mais de 500 credenciamentos de imprensa é um numero que fala por si. Sem contar o debate e a indignação que fervem na internet.
De todos os lados afirma-se que ninguém se dobrará às pressões da opinião pública. Mas a democracia é, por excelência, o sistema aberto às pressões da opinião pública, fonte exclusiva da legitimidade dos poderes constituídos. Seu objetivo não é, nem impedir que ela se manifeste, nem operar para que seja anulada, mas sim criar canais para que essas pressões fluam entre a origem e o destino pela via institucional. Isto é, para desarmá-las da força bruta e do poder de coerção que o “chefe da quadrilha” tentou por nas ruas, mas não para negar-lhe legitimidade ou o direito a manifestar-se pelos canais legais.
Como lembrou Demétrio Magnoli em artigo cirurgicamente preciso n’O Estado de S. Paulo (aqui), o que começou a ser julgado no STF hoje foi “uma tentativa de supressão da independência do Congresso Nacional; (…) de virtual eliminação do sistema de contrapesos da democracia pelo completo emasculamento do Congresso (…) um estratagema golpista devotado a esvaziar de conteúdo substantivo a democracia brasileira” por um partido que julga ter “a propriedade da verdade histórica e (…) reclama uma aliança preferencial com o futuro”.
Magnoli deteve-se na advertência genérica de que “a corrupção tradicional envenena lentamente a democracia” e foi justo e preciso na observação dos indícios até hoje conhecidos sobre quanto das ações dos réus parecem inspiradas na vontade de enriquecer com dinheiro público ou apenas na de comprar com ele o poder que se requer, mas não lhes foi outorgado por quem os elegeu (daí o sentido “golpista” da operação), para “subordinar a lei à História, ou seja, a um projeto ideológico“.
Mas a verdade é que, como sempre acontece, o projeto de poder de um grupo de homens que, como todos os que o experimentaram, apaixonou-se por ele, acabou passando à frente da nova “utopia” (a da implantação de um capitalismo de Estado gerenciado pelo partido) que, na sua moral torta, “justificava” o Mensalão.
De repente, já não se tratava mais apenas de comprar o Congresso Nacional para uma finalidade exterior aos interesses pessoais dos agentes da operação mas de tirar-lhes da frente todo e qualquer limite para o exercício e o desfrute do poder, inclusive e principalmente aqueles de que é guardião o Poder Judiciário.
Ao grande assalto do lulopetismo ao poder, até o STF, que agora ensaia se levantar em brios, acabou por se dobrar de forma constrangedora no processo que culminou com o episódio do asilo sob ordens concedido ao terrorista italiano, Cesare Battisti, contrariando decisão anterior da própria corte suprema.
Sobre a materialidade dos fatos ocorridos ha sete anos – a formação da quadrilha, a identidade de quem a comandava, o desvio de dinheiro público, o rastreamento de onde ele saiu e onde ele chegou – não ha dúvida rigorosamente nenhuma.
Tampouco sobre a constitucionalidade ou a competência do STF de determinar que o julgamento dos 40 réus não fosse desmembrado.
Marcio Thomaz Bastos e cia. ltda., como sempre, dirá o que for pago para dizer e, segundo o costume, sobretudo quando, como agora, os fatos lhe forem totalmente adversos, trabalhará as brechas regimentais que – mais nas instâncias mais baixas do que nesta – permitem que qualquer criminoso no Brasil deixe de ter seus atos julgados pelo mérito para se homiziar nas brechas do formalismo, distorção que é a mãe da corrupção que nos rouba a todos um pedaço grande da vida.
Mas até isso será pedagógico num julgamento acompanhado ao vivo por toda a Nação. A qualquer inteligência sã repugnam os expedientes de que vivem os nossos advogados. Talvez venha daí um bonus inesperado se, em algum momento, obtiverem sucesso no tapetão com todo o país assistindo.
O fato que importa, seja como for, é que todo o sistema institucional brasileiro está em julgamento e, de modo especial, o Supremo Tribunal Federal e cada um dos seus ministros (o dr. Dias Tóffoli que o diga!), eles também objeto de uma operação explicita de “cristianização” por parte do réu maior, ausente do banco deste julgamento mas que o país inteiro sabe que está lá.
Trata-se de reafirmar quem manda em quem e até onde, na democracia brasileira, e até que ponto se pode contar com a lei neste país.
O que o Mensalão já foi antes de “deixar de existir”
17 de julho de 2012 § Deixe um comentário
Filme enviado por Claudio Antonio Noschese
Começou a queda de Lula?
29 de maio de 2012 § 3 Comentários
Que Lula nunca entendeu a natureza do jogo democrático, sempre se soube. E que nunca acreditou na possibilidade da existência de um mundo diferente do dele, com padrões éticos diferentes dos que pratica, ele tem dado provas repetidas.
Para o ex-presidente que “estudou na escola da vida“, que desdenha amargamente quem tenha frequentado as outras, e que repete à exaustão o bordão do “nunca antes na história deste país“, o mundo começou com o advento dele próprio.
Nada mais natural, portanto, que ele esteja tratando de testa-lo para ver até onde pode ir.
A tentativa de chantagem sobre Gilmar Mendes e o modo pelo qual se referiu aos demais ministros do Supremo Tribunal Federal, cujo papel na ordem das instituições democráticas ele não tem nenhuma ideia de qual seja, foi o que a vida lhe ensinou, métodos que, de 2002 em diante – e com sobradas razões – ele passou a acreditar piamente que fossem infalíveis.
Daí estar perfeitamente exato o primeiro trecho do comentário de Dora Kramer para O Estado de S. Paulo de hoje:
“Lula não está fora de si. Está, isto sim, cada vez mais senhor de si. Investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e todos no cumprimento de suas vontades.
E por que o faz? Porque sente que pode. E pode mesmo porque deixam que faça. A exacerbação desse rude atrevimento é fruto de criação coletiva e não surgiu da noite para o dia“.
Mas não ha bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.
A trajetória de Lula é uma linha continuamente ascendente onde não se registra nenhum fracasso; no máximo, esperas maiores do que as que ele gostaria de ter pago para atingir o próximo sucesso. E isso, como se sabe, faz mal ao ego.
Ser “ex”, ser menos poderoso hoje do que já foi um dia, é para ele uma experiência tão nova quanto insuportável, e que pode vir a se revelar fatal.
Despido da força institucional que já teve, ele se atira contra figuras ainda investidas da sua e, pela primeira vez, se dá mal. E cada vez mais mal, a julgar pela nuvem escura que se vai formando no horizonte da “sua” CPI do Cachoeira agora que o Congresso foi constrangido a abrir a fossa negra da Construtora Delta e transformá-la de nuvem de fumaça em investigação pra valer.
Essa insistência obsessiva na desastrada operação apaga Mensalão que, num país onde uma condenação dos acusados não traria qualquer consequência prática importante destoa do estilo estritamente pragmático de Lula, começa a tomar ares de um Waterloo.
Ao sair do octógono do vale tudo da luta pelo poder, na qual ele é o campeão inconteste, para cuidar de assuntos imateriais, fora da sua especialidade, como essa tentativa de limpar a própria história, Lula se atrapalhou. Está mergulhando cada vez mais fundo no inferno nessa ânsia de conquistar o céu … como sempre, “no tapetão”.
Lula já entendeu. Mas…
4 de maio de 2012 § 1 comentário
No Ritz de Paris, Cabral marca o casamento entre o dono da Delta e Jordana Kfouri que viria a morrer na queda do helicóptero de Fernando Cavendish em Trancoso da qual o governador e seu filho por pouco escaparam mas que também matou sua futura nora
A divulgação dos detalhes das primeiras seções da CPI do Cachoeira confirmam o que foi previsto no artigo de quarta-feira.
O relator petista, seguindo ordens, propôs limitar a investigação da Construtora Delta aos seus contratos na região Centro Oeste do Brasil, uma tentativa constrangedora de tão bandeirosa. Bem traduzida queria dizer “investigue-se apenas Demóstenes e Marconi Perillo; esqueça-se o resto”.
Nem o Congresso Nacional onde todo mundo tem telhado de vidro podia engolir essa com todas as gravações que estão em cartaz neste momento em todos os jornais, rádios e televisões do país.
Já o ex-presidente Collor, aquele que foi escorraçado do Alvorada a pontapés pelo PT, despontou como o guardião do sigilo dos documentos, gravações e filmes guardados no pacote do inquérito do Supremo enviado ao Congresso que, por tudo que se divulgou até agora, incriminam o PT mais que ninguém.
Jordana Kfouri come caviar no Ritz de Paris
Um papel tão carimbado que ele sentiu-se na obrigação de explicar que, ao ameaçar todos os seus colegas com as penas da lei se “passassem informações por baixo dos panos a alguns confrades (repetidor da Globo nas Alagoas que é, ele se julga jornalista) para fazerem delas o uso que lhes convém“, ele não estava tomando uma posição “hipócrita, safada e jaguara” (de “cão ordinário”; de “pessoa de mau caráter e patife”, segundo o Houaiss), mas sim “defendendo a lei“.
O ex-presidente foi freudianamente exato nos adjetivos que selecionou…
Foi aparteado por Miro Teixeira que lembrou oportunamente que “pode vir o despacho (obrigando ao sigilo) da mais ilustre autoridade do planeta (e este veio do sempre genuflexivo ministro Lewandowski) o fato é que manter o sigilo é contrariar diretamente a Constituição“.
Resumiu bem a situação o ex-líder do governo no Congresso, Candido Vaccarezza: “Com tudo que a Polícia Federal já apurou, o único acordo possível é em torno do aprofundamento das investigações. Quem tentar abafar qualquer coisa vai se desmoralizar“.
O governador, seus secretários e o amigo Fernando na porta do Ritz
O próprio Lula, como confidenciou uma fonte do PT a Dora Kramer, do Estadão, já entendeu que o partido será o principal alvo das outras legendas nesta CPI porque é quem mais tem a perder.
Mas cautela e caldo de galinha nunca são demais. O resultado só sai depois que acaba o jogo. A velha raposa é persistente e conhece o poder que tem.
Enquanto a CPI se instalava resistindo às primeiras tentativas de sonegar ao país aquilo que o STF e o acuado Procurador Geral da Republica já sabem que contem o caminhão de lixo das organizações Delta-Cachoeira estacionado na sala-cofre do Senado, o sr. Luís Ignácio Lula da Silva, com a desfaçatez que o caracteriza, aparecia numa cerimônia pública ao lado de ninguém menos que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o mais irretorquivelmente corrupto dos corruptos colhidos em flagrante delito nesta que se anuncia como sendo a safra recorde das roubalheiras jamais desvendadas na história deste país.
Os secretários de Saude e Governo do Estado do Rio de Janeiro e o amigo Fernando (centro)
Cabral, como se sabe, é o pai da Delta, com cujo dono, Fernando Cavendish, costuma farrear em Paris e voar de helicóptero por aí, ainda muito mais que Dilma é a mãe do PAC, de cujas obras essa empreiteira detém 80%.
Lula conta cegamente com o “efeito Teflon” que lhe proporciona o fato de tantos brasileiros lhe atribuírem responsabilidade direta por estarem desfrutando pequenos confortos básicos nunca antes tidos e havidos, o que em parte é mesmo mérito dele, e dá de ombros para o resto.
Mas desde já está claro até para ele que, longe de apagar a memória dos “malfeitos” do PT para ganhar o poder e comprar apoios apurados no processo do Mensalão, a CPI da Delta-Cachoeira vai mostrar a que nível da estratosfera a associação explícita entre os antigos “paladinos da ética na política” e os collors e sarneys de sempre em defesa da mais ampla, geral e irrestrita impunidade levou a corrupção no Brasil.
Enquanto a CPI era instalada…
A educação de Dilma (e a do Brasil)
26 de abril de 2012 § 3 Comentários
1
É uma conversa imaginária. Faça “aquela” voz e ponha o devido sotaque:
É o seguinte, minha santa: o PT já “é”; ninguém mais precisa sê convencido disso.
O que nóis precisamo mostrá, vejahn, é que os outros também “são”, principalmente aqueles poucos que ainda pareciam não sê.
Essa é a única novidade que esta CPI vai trazê. É isso que vai ficá na memória dos eleitor.
Vai sobrá pros nosso?
Vai. Mas e daí?
Cê demite os que aparecê nas gravação; dá ferias pra eles aproveitá um pouco a vida; vai trocando quem saí por gente das mesma panela. O povo já se acostumô com isso. Não mexe nem cos arranjo da base e você ainda fatura a fama de faxinêra.
Acaba pulando pra faixa dos 90% de aprovação! Nunca antes na história desse país, menina!
Aí nóis tiramo deles a única arma que eles podia usá nos debate. O resto já tá no saco. O resto é só o horário eleitoral onde a gente fala o que qué.
Quando essa CPI acabá, o jogo tá zerado. Não tem mais ninguém que “não é”. Aí quero vê quem vai vim falá de robalhêra”.
…
No início, antes de ouvir o mestre, o estômago de Dilma, ainda “viciado” na memória de velhos tempos, esboçou uma reação.
Mas depois, pensando bem…
2
O Veríssimo, hoje, terminou seu artigo assim:
“Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim. Sua culpa – até se ouvir sua voz gravada combinando a divisão dos milhões, ou ver sua imagem forrando os sapatos com dinheiro – era sempre uma conjetura. Imaginávamos o que acontecia nos bastidores do poder corrupto mas era um pouco como imaginar uma orgia romana, ou visualizar uma orgia romana através da imaginação de um artista. Agora não. Com a banalização do grampo telefônico e da minicâmera escondida, temos o que faltava no quadro. Temos todos os sórdidos detalhes e a orgia às claras. Temos o que enoja“. (Íntegra aqui)
Enoja quem, cara-pálida?
O “poder corrupto”, depois de todos os filmes e de todas as gravações, esquece vosselência de considerar, conta com 87% de aprovação popular.
De modo que o que parece mais é que a única coisa que esse povo realmente lamenta é ter de ficar vendo de fora essa orgia romana…
















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